Nada de especial

Um homem dorme sossegado no muro da mesquita. Tem meias pretas mas não lhe encontro os sapatos. O corpo curvado parece não ter espinha, só flexibilidade. As pessoas que saíram agora do trabalho passam para cima e para baixo. Passam-lhe ao lado. O miúdo sentado no passeio segura um helicóptero amarelo. Em pé, a mãe vê um avião passar. No IKEA, encostada a uma mesa alta, como um de dois cachorros quentes. Não aprecio a versão vegetariana por aí além. “Deviam ter muito mais cadeiras, é uma vergonha”, diz este homem de cabelos brancos, enquanto ajeita o pesado banco que acarretou durante uns metros para me ceder. Vai-se embora com a esposa silenciosa. Espantada e agradada com o gesto, quando acabo de comer tento fazer o mesmo por outra pessoa, mas ninguém parece prestar-me atenção, ou perceber o que quero, e acabo por desistir.

Na paragem de autocarro passa um homem com um miúdo de uns três anos, segurando um boneco. Sorrimos um ao outro. Alguns minutos depois, o miúdo já não vem de queixo colado ao ombro do pai e sim pendurado, todo desengonçado, de lado. Páram ao começo de nova birra.

“Fica aí então, eu vou-me embora”. O miúdo chora, lágrimas bem gordas que realçam os olhos verdes contra a pele negra. É muito belo, como aliás o pai. A mãe, que não fica atrás em beleza nem em caminho, aparece não sei de onde com duas amigas e convence-o a erguer-se das cócoras, a tirar os punhos das bochechas e a dar-lhe a mão, embora não abdicando da birra. Ele é tão pequenino, e toda a gente se vira para vê-lo melhor.

Deixei de dar os parabéns às pessoas nos seus aniversários por tempo indeterminado. A Sara trouxe-me um boneco representativo da ópera chinesa. De cada vez que se lhe inclina o chapéu, o boneco muda de cara. Somos todos boneco. O David perguntou-me como foi o resto daquele sábado. Digo que correu bem. “Fui-me embora quando começaste a falar”, admite. É o que todos queremos ouvir, respondo. Gosto demasiado de dizer aos outros como poderiam viver uma vida mais plena, mas a verdade é que ando há meses com a haste dos óculos torta, como se isso fosse mudar a minha perspectiva das coisas. Quero usar o cabelo apanhado e não posso, porque a afro ajuda a equilibrar a minha visão. Concluo, portanto, que não sou a melhor life coach do mundo.

Mas também não devo ser a pior amiga, afinal recebo mensagens do Brasil a perguntar como era mesmo a receita das chips de couve kale (galega para os amigos) que servi certa noite ao jantar, e pedidos de uma certa menina de olhos azuis em relação à roupa que vai usar em cada uma das suas inúmeras reuniões de trabalho. Agora que está desempregada sinto que eu também estou, de certo modo.

Vivo alheada da maioria das notícias e isso contribui muito para a minha tranquilidade. Decido ver toda a primeira temporada de Euphoria de uma assentada, abandonando The Wire. Rue, a personagem principal, interpretada por Zendaya, ameaça outra, no último episódio, citando nomes que reconheço como sendo de personagens de The Wire. Apanhada pela vida a fazer batota pela segunda vez, esta semana.

Entro no regional. Aprecio o quão vazio vai e o ar condicionado, tão menos exagerado que nos autocarros. Penso que gosto da expressão “Eu cá…”, como quem diz, eu cá gosto da Ana Cássia Rebelo, que tantas gargalhadas me tem arrancado. Mentira, dou-lhas de bom grado. Mas entretanto sinto comichão no nariz porque vai uma família de cinco ingleses com um português e acabaram de pôr, os ingleses, um perfume qualquer que, não sendo mau, também não é bom, e que multiplicado assim se torna difícil de suportar. Agora estão a falar de queijos. Eu coço o nariz com o marcador que veio com o livro. Tem a foto da Patti Smith em jovem e protege-me do cheiro real a perfume, do cheiro virtual dos queijos e da risada que continua aqui, à espera que um deles me olhe para sair.

No supermercado: mulher ao telefone declara a alguém que ele é seu e só seu, e que é bom que fulana o saiba. Outra conta à filha como a avó lhe deu a comer atum até enjoar. “Só voltei a comer atum quando conheci o teu pai”, revela. Tive uma conversa assim com o meu ex-namorado sobre queijo da ilha, mas deixei de comer quando terminámos. “Queriam levar o meu marido para o Monsanto, para a má vida”. Ou fico mais sã ou passo a aborrecer-me de morte, quando abdicar dos transportes públicos. Na biblioteca, folheio tudo excepto livros da autora que procuro. Nada como a morte. Num romance, encontro uma carta dobrada em três. “Cara professora Sara, gostaria de lhe pedir para deixar a Ariel trazer o livro de Estudo do Meio para casa, este fim de semana. Obrigada. A mãe – Inês, 4 de Outubro de 2018”. A mãe é daquelas pessoas cujo apelido é o mesmo que o do cônjuge, pelo que se repete. Se há algo de que não posso abdicar, é da minha solidão. Quando deixei de descurá-la, passei a nutrir-me. Entretanto, demorei tanto a escrever este texto que a haste dos meus óculos já foi arranjada. Pondero lentes, apesar de ter avançado três casas no tabuleiro de leitura.

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