Das capelinhas

Deixa-me sempre boquiaberto a maldade dos escritores. A maledicência é um passarito sazonal, refiro-me à maldade. Talvez por ser criatura carcomido pelas dúvidas e por, num erro de geografia amorosa, ter decidido viver num país com verdadeiros problemas, fiquei com o saco curto para esse efeito da rivalidade mimética que faz o gozo das capelinhas.

A escrita de um prefácio para Relatório Sobre os Cegos, de Ernesto Sabato, obrigou-me a mergulhar nos meandros da literatura argentina. E constatei que a sua obra concita grandes admiradores, sobretudo fora de portas, e veredictos implacáveis, principalmente de argentinos.

Numa passagem de 1956, Borges menciona a proximidade das eleições para a presidência da Academia Argentina de Letras e, criticando a instituição, comenta: “Deveriam levar energúmenos: o Sabato ou o [Ezequiel] Martínez Estrada”, conta Bioy Casares, no seu diário Descanso de Caminantes.

Mas a acidez não emana apenas de escritos íntimos de autores mortos. Representantes da ficção contemporânea, como César Aira desancam publicamente a obra do escritor. No seu Diccionario de autores latinoamericanos, Aira, diz que Sabato tem um “robusto senso comum” e “ideias convencionais e politicamente corretas” que o transformaram no gagá favorito da mídia. Bom, é uma daquelas ”verdades” que convinha ser relativizadas.

A tal ponto chegou a situação que o crítico e escritor Abelardo Castillo disse que bater em Sabato se transformara num desporto nacional para os argentinos. Tudo por factores extraliterários, porque ter escrito Sobre Heróis e Túmulos e dois ou três mais do que estimáveis livros de ensaio ninguém lhos tira.

O rei da cacetada é o Bioy Casares que, entre múltiplas alfinetadas, inventa este sonho:
«Sueño. Alguien tenía el poder de convertir a cualquiera en sapo. Lo convirtió a Sabato, que esa mañana, ante el espejo, se llevó la consiguiente sorpresa. Matilde llamó a un médico.
—Estas cosas, tratadas a tiempo, no son nada —explicó.

Sabato estaba furioso con ella. No quería que nadie, ni siquiera el médico, lo viera. No salía de la casa; tenía la esperanza, desde luego sin fundamento, de que se curaría solo. A la espera de algún signo de esa mejoría, que no llegaba, dejó de concurrir a los lugares que frecuentaba habitualmente.»

Este mesmo Bioy Casares que aparece num diário de Saramago a concordar com as diatribes do autor de Memorial do Convento contra Octavio Paz – suponho que por motivos políticos – à falta de poder morder em Sabato, pois neste caso Saramago coloca-o nos píncaros.

Bom, no livro em que Orlando Barone exuma uma série de diálogos entre Borges e Sabato, cava-se fundo no que separa os dois criadores. Repare-se neste trecho:

«SABATO
Mas, como a morte nos espera no futuro, há pesadelos que só podem ser visões do inferno em que participaremos.

BORGES (sério)
Mas você não acredita, Sabato, que o Céu e Inferno são invenções verbais?
SABATO
Eu acho que são realidades, embora isso não queira dizer que sejam realidades tão ingénuas quanto as que se ensinam os meninos nas igrejas. Os pesadelos, as visões das pessoas loucas que “se colocam fora de si ” (repare como é significativa essa antiga expressão antiga), as visões dos poetas são realidades, não são amontoamentos de palavras. Quem via Dante passar pelas ruas de Ravenna, esquálido e silencioso, comentava em voz baixa, com uma espécie de temor sagrado:

“Lá vai aquele que esteve no inferno!”. Eu acredito que Dante viu, como todo o grande poeta, com terror e uma nitidez afiada, o que as pessoas comuns apenas entreveem. O que o homem comum confusa e penosamente consegue ver naquela pequena morte transitória que é o sonho.

BORGES (que o ouviu com suave descrença)
Fico confortável pensando que o céu e o inferno são hipérboles.
SABATO

Noutras palavras, você, às suas próprias histórias, considera-as como meras invenções verbais e não como descobertas de uma realidade… (ele muda a sua expressão e comenta para Barone). Embora ele resista a isso, ele é um descobridor de outras realidades. (pp. 128-129)»

Um, aposta tudo no lúdico – as hipérboles, no dizer de Borges, que é um armador de jogos -, o outro debate-se – como o seu personagem Castel, em O Túnel – contra a trivialidade. É a velha discussão entre Crátilo e Sócrates, que continua a provocar irritações e encarniçamentos, sem se ver que, à vez, ambos têm razão, há momentos em que estamos com César e outros com Deus¸ havendo ainda outros momentos para azucrinar os poderes e a gramática.

Daí que não veja a necessidade de escolher entre a Alexandra Lucas Coelho e a Ana Margarida de Carvalho, uma solista na secção dos sopros, outra na das cordas, as “novas” que mais me interessam. Nem descortino motivo para a sanha contra o Valter Hugo Mãe (onde até uma história truncada, como a do seu falhado encontro com Herberto, serve de anedota), um tipo que arrisca e tem livros e páginas superlativas (- bastava o capítulo O Poço, de Homens Imprudentemente Poéticos, para estar na história da literatura). Mais triste ainda, a capacidade do Diogo Vaz Pinto em ser o seu pior inimigo quando pode escrever livros notáveis como Manifesto; tão insensato como abrir a mais mortífera trincheira do mundo para conseguir dar corda ao relógio.

E quando agora leio Anti-Prefácios, do Alberto Velho Nogueira (que me foi oferecido pelo sempre atento Levi Condinho), e encontro, nas seiscentas páginas do seu alentado volume, algumas das páginas mais inteligentes e luminosas sobre a literatura portuguesa que li desde sempre, sabendo que o Velho Nogueira é absolutamente menosprezado por dar trabalho a sua leitura, e que nem aqueles que zurzem no Valter o reivindicam, só me apetece ir para a Nova Zelândia e voltar ao doce anonimato que foi o meu durante anos em Moçambique.

Ah, entretanto, ontem, finalmente, encontrei o título definitivo do meu romance (coitado, já teve dez títulos), que sairá neste inverno: Fotografar contra o vento. Podem começar a denegrir, a gerência agradece.

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