Nudez e ateísmo

06/01/2019

Beber um café sem açúcar é como engolir um astro, raspa na garganta, explode no palato, mineraliza a língua: as primeiras impressões da dieta a que me propus para me metamorfosear de homem-livro em homem-livre, pelo intenso cuidado de si (de mim).

Só posso beber vinho, outra das restrições.

Voltar a incarnar o corpo, emagrecendo, para o sentir de novo, até na doença, é o fito, e aliás a percepção do corpo é um tracejamento cíclico porque a nossa vida é ondulatória – periodicamente necessitamos de uma inversão.

Entretanto, talvez o mais difícil na vida seja emendar o que calámos. Porque o silêncio, em maior ou menor medida, faz da memória um rascunho.

07/01/2019

Não deixo de ler a frase uma e outra vez: “aquele nu era um implante, mas que não se deixava reabsorver”. Fascinante, os jogos de linguagem, nomeadamente quando são involuntários: que um nu possa ser um implante.

A frase é do livro Le Nu Impossible, de François Jullien, um ensaio delicioso que questiona porque não “consentiu” a China esse género pictórico e através da análise desse tabu o estudo debruça-se igualmente sobre as condições que permitiram o nu na Europa. O que se interpôs entre a carne e a nudez, na China, tornando-a fonte de opróbrio, enquanto noutras culturas a nudez pode isentar-se de moral e nem significa necessariamente “estar nu”?

Um dos mais belos nus de que me lembro é o de Ornella Muti, na abertura dos Contos da Loucura Normal, do Marco Ferreri. Serking/Ben Gazzara é um poeta alcoólatra de tendência anarquista que vive e vagueia entre prostitutas e marginais, no submundo da cidade de Los Angeles. Um dia, conhece Cass/Ornella Muti, uma prostituta de uma espantosa beleza e um carácter auto-destrutivo. Os dois iniciam um romance que ganhará tonalidades trágicas… Quando o filme começa, dentro do quarto, Serking olha a silhueta nua de Cass à janela e vomita.

Dirão os mais prosaicos: é grande a ressaca. Eu prefiro outro tipo de explicação mais excêntrica: Serking vomita porque a beleza é um excesso irremediável, que não se absorve sem custos.

E então sobre o nu foi implantada a beleza.

Inclusive, o nu erótico, na China, continua Jullien mais adiante, como em Qui Ying, não é convincente. E falando de um rolo deste, mostra como as figuras enquanto estão vestidas são delicadas, insinuantes, e ao aparecerem despidas “os corpos parecem empilhados como sacos” desgraciosos e absolutamente desviados de qualquer sensualidade.

Todo o contrário do que se vê no Japão, em Hokusai, por exemplo, onde até tomando um polvo como amante a nudez está magnificada pela sensualidade que implanta no nu o seu desejo encantadamente polimórfico.

08/01/2019

Tinha acabado de anotar: Atrevo-me a escrever que, apesar de tudo, vivemos uma época de desencantamento muito tonificante pois acredito que os sinais de retrocesso civilizacional que por todo o lado mostram a sua cauda simiesca não correspondem a mais do que um momentâneo estertor final dos sentimentos mais arcaicos – e de repente leio no editorial da Ana Sá Lopes, no Público:

«49 pessoas, incluindo crianças, foram resgatadas por dois barcos de uma ONG alemã, mas até agora nenhum país europeu aceitou recebê-los. É verdade que se “meteu” o Natal e quando se “mete o Natal” e o Ano Novo a Europa congela.(…) Ao menos se fossem cães ou gatinhos, haveria uma opinião pública disponível para se emocionar. Como são pessoas, não têm esse benefício. Ver morrer pessoas no Mediterrâneo (em 2018 foram 2262) tornou-se um hábito e não convoca a consciência das massas.

O Papa fez ontem um apelo “do fundo do coração” para que a Europa não se mantenha congelada nas férias de Natal, mas tenha consciência do significado profundo daquilo que celebram como férias. Francisco lembrou que os barcos com os 49 migrantes esperam há dias autorização para aportar e exortou os países europeus a tomarem medidas “de solidariedade concreta com estas pessoas», e lá se vai o meu optimismo à viola.

Por outro lado, o Papa esteve bem, nesta questão, e repararam como nas homilias de entre o Natal e o Ano Novo ele declarou que era mais respeitável e digno ser ateu do que ser um cristão hipócrita e inconsequente?
Quando um gajo se sente acompanhado pelo líder da maior igreja do mundo não pode esmorecer.

09/01/2018

Um actor chinês sempre começa uma acção com o seu oposto. Para olhar para uma pessoa sentada à sua esquerda, um actor ocidental usaria um movimento directo e linear do pescoço. Mas o actor chinês, como os demais orientais (é pensar nos filmes japoneses), começaria como se quisesse olhar para o lado oposto. Se se deseja agachar o actor chinês começa por levantar-se.

Do mesmo modo, na dramaturgia, o que faz evoluir uma trama é o estorvo, o conflito, a dificuldade de se alcançar o objectivo. Ou seja, de novo, alguém começar a despir-se não implica que se queira ficar nu.

Regras simples que tenho de transmitir ao Assistente que me arranjaram na universidade. Estou contente até porque somos amigos e o Venâncio Calisto é bastamente inteligente e é de facto a grande revelação dos últimos anos no teatro em Moçambique. Mas não deixa de ser um luxo bizantino arranjarem-me um Assistente numa disciplina onde tenho dois alunos.

09/01/2019

O cartaz repete-se de cinco em cinco metros, ao longo dos tapumes que cobrem as obras do Hotel Andalucia, a 30 metros de minha casa. Anuncia o cartaz: «Proibido mijar no murro!». Era difícil ser melhor.

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Paulo The First
Paulo The First
16 Jan 2019 23:06

Risos!
O texto está muito bom.
Um pouco de plateia não faz mal.
Força!