A educação sentimental

O primeiro objecto que recordo é um avião de lata. O primeiro toque de que me lembro não é o de uma pele mas o da lata. Havia intrusa em casa, reclamada de mão em mão, armada de fraldas, pulmões, vagidos de aço e com regurgitos múltiplos. A minha irmã. Levei dias a lançar o avião de lata sobre o berço, num pretenso bombardeio. E não é que falhei, na mira e na aviação?

Aos cinco anos, apanhando a minha avó a urinar de porta aberta, eu, no corredor, fiz o pino para ver se lhe via o… O quê, espicaçou uma vez o Piruças. O ouriço, respondi-lhe pronto.

Aos seis anos tive o primeiro sonho erótico e percebi que me marimbava para o Édipo. Caminhava de mãos dadas com uma miúda ao longo de um socalco estreito, a meio de uma falésia ilimitada para cima e inacabável para baixo. O dia nascia, e cheirava a acetona. Andávamos aos espargos e sorríamos com a lâmina do caminho, no leve tremor dos afortunados.

Aos nove, à nonagésima oitava vez em que me masturbei, cismei que uma coisa tão boa só podia acontecer cem vezes na vida. Guardei as duas últimas para quando casasse. Aguentei-me três semanas, num desespero, até que me enfiei na casa de banho e meia hora depois ia na cento e quatro, enquanto a minha mãe perguntava, Caíste da pia?

Entrava-se na oficina por uma rampa. Aí, dois homens deitaram a primeira chapa de alumínio, com círculos perfeitos desenhados de alto a baixo; tendo-me depois um deles passado a tesoura para a mão. Eram para cima de 50 círculos, sem espinhas.

Tinha doze anos e tinha querido experimentar ser operário, numa serralharia.

Fiquei surpreendido pela facilidade com que a tesoura cortava o alumínio. E animei-me. Apesar do segundo círculo me ter parecido mais bicudo. Mas continuei a sorrir até ao sétimo círculo.

Ao almoço, o encarregado despediu-me com uma palmada nas costas, amarfanhando-me uma nota de vinte na mão. “É uma foda, mas talvez nunca venhas a ser operário, rapaz!”. E ofereceu-me um dos quadrados de alumínio que tão arduamente recortara. Aprendi aí a ambivalência da linguagem.

Os manos Ginga moravam ao lado dos meus tios-avós, na Azinhaga dos Besouros, na Pontinha. Três compinchas de Verão com uma pontinha de queques (os primeiros humanos que conheci atascados em polos e pulôveres) mas que não regateavam palmilhar o extenso vale de zínias e girassóis que nos separava da colina onde se empoleirava, clandestina, a Brandoa.

Uma tarde, nesse vale, a meio de um canavial descobrimos uma conduta de esgotos, relativamente seca e com tamanho suficiente para avançarmos agachados em fila indiana até misteriosos meandros. A conduta atravessava à Colina da Luz e desembocava num canal de drenagem, mesmo ao lado de uma boutique para senhora onde trabalhavam dois mimos de raparigas que inquietaram os nossos plácidos sonhos de Verão. Foi a conduta que me levou ao primeiro beijo.

Veio o 25 de Abril e os irmãos Ginga puseram-se ao fresco: o pai era da Pide.

Acordei tarde para os primeiros mortos, aos quinze anos. Já tinha visto amigos meus fecharem a cancela sobre o rosto e um deles, gémeo do falecido, cortou os pulsos. Nada me calhava, uma infância feliz, capciosa, sem fios de prumo.

Primeiro, uma avó, duma leucemia que apenas lhe carregou nos olhos a sombra chinesa que fora a sua vida. Depois o luto da namorada que me corneou.

Eu tinha-a acariciado a tarde inteira de sábado por cima dos collants. No domingo ela foi a uma festa com uma amiga onde um marmanjo a massajou por dentro.

Decidi vingar-me. Não fui um libertino, mas não me queixo.

Um dia engatou-me uma miúda no Estádio, ao Bairro Alto. Já estava aviadita mas, em casa, emborcou uma zurrapa de litro quase de um gole, empurrou-me para a cama e pediu bate-me. E eu lá fui fazendo muito pouco conforme o que podia. Na manhã seguinte foi franca: fora uma noite desenxabida pois, justificava-se, com o antigo namorado jogavam à roleta russa durante o coito. Retirei-me, desejando-lhe “boa sorte e bons danos!”.

E bom, mortifiquei de enfado uma dúzia de namoradas, quatro esposas, desiludi meia dúzia de amantes em encontros ocasionais e, no afã de me re-ligar aos libertinos, escrevi uma versão de Don Juan, um Don Juan cego que chegava às mil conquistas, até que em Sevilha o Papa fazia o primeiro milagre do seu pontifício e punha-o a ver. E ele perdia o dom, baratinado pela diferença que pela primeira vez descobria entre as mulheres.

Há vinte e dois anos encontrei a minha mulher actual. Farto-me de a trair, com as personagens femininas dos livros que leio, ou com as que escrevo. E mais não posso contar. Dizem porém que as personagens femininas dos meus livros são mais fortes que os meus homens: é porque as conheço biblicamente.

Contudo, nunca até hoje me tinha acontecido uma coisa tão grave.

Bebia uma cerveja no Mimmos, em Maputo, e vejo uma miúda expressiva, loquaz, com uma sensualidade exultante. Conversa divertidíssima com o namorado e vejo com raiva que não o invejo, renuncio a atrair um meteorito que lhe caia em cima neste momento, não desejo estar no seu lugar; apanho-me mesmo a pensar no quanto gostaria que ela fosse minha filha e no prazer que me daria tê-la ajudado a tornar-se no que é.

Deve ser isto a maldita maturidade, já não me deprime conceder que a minha apropriação do mundo não tenha de passar primeiro pelo sexo.

E, afinal, pedi para ser maduro, eu? Não me consola o desabafo do cineasta Luís Buñuel, ao chegar aos sessenta: “finalmente, vou libertar-me da tirania do sexo!”.

Francamente, meu caro Buñuel, envergonha-te: não passamos de duas bestas desemparelhadas da sã genealogia dos ursos, dois moles que preferem o desejo e a sedução ao estupro.   

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