Uma vida simples

A despeito de tudo quanto penso ter aprendido ao longo do titubeante percurso a que chamo “a minha vida até agora” – de certa forma bastante privilegiado por contraste com a vida dos meus pais, por exemplo – há coisas que me descubro a fazer nas quais as figuras de pai e de mãe se intersectam em mim, pequena roda dentada movendo a intemporal engrenagem do cuidado e da preocupação que em cada geração e sob diferentes roupagens transforma um ser humano banalmente autocentrado em mãe, e, com alguma sorte e mais trabalho, em pai.

Ao contrário do que imaginava na adolescência, ser mãe ou pai não é de todo fácil. E a dificuldade não reside “nas grandes questões” mediante as quais os adolescentes fazem questão de ridicularizar a geração que lhes precede. O problema, como quase sempre, não são os grandes ideais, o abstracto ou as questões morais da época. O problema é mesmo o dia-a-dia, as pequeninas coisas que conformam a teia mais ou menos segura da quotidianidade: o lugar da pasta de dentes, a conta da luz, o facto de ninguém se parecer importar com a forma como o tapete fica geometricamente desalinhado em relação à cómoda quando se passa por ele sem ter o cuidado de o endireitar depois.

Apesar dos inegáveis avanços técnicos, sociais e culturais que o império a prazo a que chamamos humanidade tem produzido, ainda ninguém nasce herdando qualquer tipo de conhecimento. A enormíssima vantagem do humano – a sua indeterminação cognoscente originária – implica, por outra parte, que cada um tem de aprender tudo outra vez: a andar, a falar, a comer com talheres, a namorar, álgebra e metafísica, a mudar uma fralda, a fazer o luto. Somos todos repetidamente principiantes. E isso nota-se quando se tem um filho: aqueles que nos precederam sentiram aquilo que estamos a sentir em cada fase do processo pelo qual se consolida paternidade ou maternidade. As mesmas inseguranças, as mesmas dúvidas, a mesma incapacidade de confessar a ocasional vontade de desistir de tudo.

É quando muito cedo pela manhã e em modo automático preparo o meu filho para o deixar na escola que mais sinto o quanto cresci enquanto pai (há outras ocasiões em que sinto precisamente o oposto, pelo que o saldo oscila entre neutro e suficiente menos, não dando lugar a qualquer assomo de orgulho). A necessidade acaba por instalar alguma disciplina nos lugares das coisas, nos gestos, na sequência dos actos. A pobre criança, que outrora tinha de acordar muito mais cedo para parecer vagamente humana ao passar pelo portão da escola tem agora a oportunidade de, acordando uma hora mais tarde, sair de casa mais compostinha. Deve ser a isso que os economistas da nossa praça chamam eficiência. Talvez me tenha tornado alemão na questão da paternidade.

Há um conto do Tolstói, chamado Padre Sérgio, no qual um clérigo tomado pelas dúvidas em relação ao comportamento adequado em terra para chegar ao céu acaba, depois de muitas atribulações particularmente gráficas, por compreender a simplicidade e a sua necessidade, a segurança da rotina, os pequenos passos indispensáveis para percorrer um caminho que ele queria atalhar num salto grandioso. A vida é muitas vezes isso mesmo: uma difícil e demorada tensão para a simplicidade.

21 Fev 2020

Homem das cavernas

Começávamos a beber logo pela manhã. Dormíamos com uma garrafa ao pé da cama e a primeira coisa que fazíamos ao acordar, à medida que abríamos os olhos, era pegar nela e levá-la à boca, como o bebé faz para encontrar a mama da mãe depois de uma noite agitada, às cegas vai tacteando com os lábios até encontrar o gargalo. Era exactamente assim, mas um pouco ao contrário. Antes que a consciência chegasse, optava-se vigorosamente pela inconsciência, corrida de arranque e pura velocidade para ver quem chega primeiro à meta, cruzam-se em algum lado do corpo e talvez pisquem os olhos. Eu sei que será difícil perceber, mas também não posso explicá-lo de outro modo. Até agora o meu lado inerte e espontâneo tem ganho sempre e espero manter essa hierarquia intacta. Quanto ao que estava dentro da garrafa, não é o mais importante. Vodka, uísque, vinho. Algum licor, os restos de um litro de cerveja. Por vezes, absinto ou tequila, para o choque frontal e sangria do espírito. A receita era a mesma: esquecer o dia que nascia com indiferença e que a cada trago se dissipava dentro de nós. Não falávamos, o limite era o olhar cúmplice ao espelho, como quem acabou de comprar bilhete para o comboio e corre para entrar na primeira carruagem, já em movimento.

Sentávamo-nos no bar e pedíamos o que houvesse de mais forte para amortecer os solavancos da viagem. O dia externo a levantar-se, imparável, sol a entrar pela janela, a garganta calejada e arranhada do álcool e de tudo o que o que tínhamos feito na noite anterior, que não nos lembrávamos. Não existia ressaca porque a substituíamos sempre por nova rodada. As árvores a passarem lá fora, o balanço do vagão a embalar-nos o esquecimento com que se ocupava o viver e o hábito, enquanto o ferro gravava o caminho. Viajávamos quase sempre em pé, no chocalhar do abalo a bebida corria melhor, nem era preciso segurar o manípulo, acompanhávamos o ritmo dos carris até ao fim da linha. Balanço sem fim à vista. E pouca terra.

Quando saíamos para a rua – temos sempre de atestar a adega em algum lugar, não é? – sentíamos as fisgas dos olhares que nos rodeavam, como quem diz: “Lá vem ele!” A todo o momento esperavam pela desgraça, que um eléctrico nos passasse por cima e desse cabo do nosso desejo. Que tropeçássemos no varandim da ponte ou simplesmente que desfalecêssemos ali mesmo, em plena calçada, desfazendo a dupla que afinal se engalfinhava dentro de um só corpo. Mas não, o amor aguentava-nos, o amor pela bebida, a manchar-nos a alma de manhã à noite. Sem variar, trazia mão amiga não para o abraço, mas para o empurrão, combustível para mais uma jornada que nos levava até ao apeadeiro seguinte. Com pouca terra.

Até que apareceu a porta aberta. A luz a entrar. Anos fechado naquela complexidade existencial, podia finalmente sair. O caminho estava ali, delineado, a chamar-me; se escutasse com atenção diria que gritava pelo meu nome, para que lhe esticasse a mão. Apesar da derrota, o ser vigilante que a espaços sobrava cá dentro sempre desejara sair daquele covil, deixando a pele de cobra para trás. Mas agora que podia fazê-lo, hesitava. O que encontraria lá fora? Pensei que a janela de oportunidade não ia durar muito e não estaria aberta para sempre, nem sequer por uma mão cheia de minutos. A decisão teria de ser tomada naquele momento. A solidão era penosa. A vida que o álcool afogava invadia os dias e não deixava aperto para mais, tornando-a vazia para o contacto abissal do outro. A companhia era só o copo na mão. Não havia necessidade de reflexão. Se ainda sobrasse um pouco de lógica, a escolha era óbvia e estava tomada.

Sentávamo-nos no bar e pedíamos o que houvesse de mais forte para amortecer os solavancos da viagem. O dia externo a levantar-se, imparável, sol a entrar pela janela, a garganta calejada e arranhada do álcool e de tudo o que o que tínhamos feito na noite anterior, que não nos lembrávamos.

Despertara, foi isso, sem querer e sem plano. Palavras que desconhecia o significado esperavam do lado de lá do rebordo entreaberto. O limiar primário tinha agora uma fresta para o amanhã. E tanta ilação desnecessária quando devia apenas andar. “Anda!”, pediam as pernas, velejadas no ímpeto do sofrido de uma rotina desagregada e encolhida. Não ficava ninguém para trás, os anos passavam e a imaginação era o meu único segredo. E a fenestra, ali, a vivificar todas as minhas ausências. Iria encontrar o abraço, o sabor sonhado do beijo. “Vai!”, pedia-me o corpo. A soletrar a partida, passo a passo, percorrendo factos e seriedades. A caixa escura esventrada à luz universal. Floresta densa, estrelas e varandins, por onde se pode escorregar para o transeunte sedento aplaudir. “Lá vem ele!” Paisagens que dão nome aos sentimentos. Iluminação natural, uma cabine ampla e amortecida. Saía ou entrava? O motivo da dúvida obscurecia a evidência transformada em tentação. O fruto da árvore infinita, de múltiplos ramos, escolhas sem restrição, equações vorazes. E como era difícil a preferência, assim como era a extinção.

Que ponto era aquele? Não tinha reparado nas tabuletas, o cobrador não viera picar o bilhete. Teria adormecido na viagem, parado no destino e sem saber voltara para a origem, para debicar a mama da mãe? Os solavancos, uma leve dor de cabeça que trazia o sintoma nunca vivido do rebentar da presença em bruto e não líquida. Sim, a vista dali era curta e sem pretensões. Era pouca, a terra. A vida era deglutida de uma só vez pela preguiça. Sombra nos tímpanos, tacto mórbido, idioma encortiçado. O esperado ocorria entre os limites mais rasteiros e o despertar não trazia vantagem. No dia não se via o céu. Inverno. Verão. Era igual. Já nem o frio se sentia, quanto mais o calor. A capacidade vestia a definição, não se movia, não iluminava. Alambiques, tonéis, dornas. Definido em centilitros e copos de dois dedos, o alimento era a suficiência. O tempo, a chegada. “Sair?” A dúvida a anoitecer e a abrir a cama. “É isso que tu queres?”, falava o corpo, falava o vício. A porta escolhida na calha da resolução, quadrada, despida. A mente não ordenava, a estática sofria por ficar. A mudança desconhecida penetrava na inexatidão, amortecendo a humanidade e devolvendo o futuro. Para quê sair se cá dentro existia todo o universo, lá fora haverá alguém? Haverá mundo? Não há, com certeza.

21 Nov 2019

Filhos de um grande apito

O guarda-redes foi o primeiro a ceder, não fez por mal, talvez estivesse um pouco distraído, e quando se esticou para impedir que a bola entrasse dentro da sua baliza, não conseguiu. Estava assomado com dores de cabeça, o dia não tinha começado bem, momentos antes viu-se a pensar noutro assunto que o levou para longe da sua pequena área. Eram coisas que que se arrastavam e que não andava a conseguir resolver. Questões de heranças que lhe tiravam o sono à noite e impediam que descansasse como convém. Remoía, distante, sem reparar que o capitão da equipa contrária galgava na sua direcção trazendo a bola à frente, já desprovido de opositores que lhe amainassem o galope. Só acordou quando o remate foi desferido, meditando que todo aquele esforço o tinha a si como destinatário e era dirigido aos seus reflexos. A potência do remate, o ângulo, a destreza do rival ao ter conquistado tal posição na ponta do terreno. Chegara a vez de mostrar a sua elasticidade, razão primária por estar no interior daquelas quatro linhas, exactamente à hora marcada, numa das equipas principais e icónicas do país.

Mas sendo atleta de alta competição não podia compadecer-se com tais recolhimentos, completamente fora das suas funções. Na centelha do desportista não há tempo para que o pensamento chegue ao raciocínio, quanto mais conseguir que volte para trás dando ordens aos órgãos do corpo que habita. No campo só funciona o instinto, a intuição e, claro, o esplendor físico. Nada mais. Raras excepções, têm a inteligência na ponta dos pés. Não era o caso. Ainda saltou, percebendo exactamente onde a bola, que surgia a velocidade estonteante, se iria cruzar consigo. Mas fê-lo com desapego, como se naquele momento estivesse a ligar a televisão preparando-se para ver a partida sentado no conforto da sua sala. “Olha o guarda-redes a saltar. Não a vai apanhar.”

Quando tomou consciência do acto, já o árbitro apontara para o centro do campo e vários jogadores saltavam para as costas do felizardo goleador, construindo um castelo de carne humana por cima dele. Das bancadas, alguns assobios e exclamações menos próprias da claque desiludida, abonecada até ao nariz com as cores da sua equipa. Tinham recebido uma facada nas costas. E doía. O coração pingava. Colocou o dedo polegar de uma das luvas para cima, pretendendo afirmar que estava tudo bem, que a partir dali ia redobrar a atenção e valer-se dos seus atributos. Quis suster o furor dos adeptos, para que amparassem os seus ídolos e não estivessem já de lâmina afiada nos dentes. Pelo rumo dos acontecimentos, iriam precisar deles com máxima energia, era injusto cortarem o cordão umbilical logo ali ao primeiro desaire. “Ok!”, quis transmitir, sabendo de relance que nem o bramido de um estádio cheio a puxar por si iria elevar a sua moral. Continuava de braços caídos. Olhou para o céu. Um avião lá em cima a passar. Não conseguiu distinguir a companhia aérea. Ia para Norte.

Tinham decorrido apenas vinte minutos de jogo quando isto aconteceu. Havia ainda um período largo para recuperar, mas o rolar do relógio tanto podia funcionar a seu favor como contra. Depois, foi um defesa que falhou um passe. Tinha-se organizado de maneira a enviar a bola lá para a frente, para os avançados, para se ver livre da responsabilidade de ter o esférico a queimar-lhe as botas. Era assim que fazia, não retinha a bola mais do que dois ou três segundos em seu poder, pressentia o movimento da equipa e batia lá para a frente, de modo certeiro. Era essa a sua maior qualidade, pela qual era muitas vezes referenciado nos jornais desportivos, os passes de longa profundidade. Mas qualquer propósito o fez mudar de rumo, talvez falta de confiança momentânea ao não sentir a deslocação propícia dos seus companheiros como era hábito, a soprarem com vento adverso, e como recurso fez um atraso; muito mal articulado, diga-se. Um adversário que o perseguia à laia de predador faminto, esticou a perna e o rechaçar da bola fez com que saltasse um pouco mais para a frente, onde estava outro jogador isolado com a mesma cor de camisola. A partir daí, foi só dar um toque por cima do homem da baliza, que mais uma vez saiu atarantado da sua área para a defender, e esperar pela alegria das bancadas e o estribilho dos homens da rádio a esticar a goela até ao prancha das unhas dos pés. Dada a movimentação das peças naquele hectare, a física ditava que não havia muito que pudesse ter sido feito de outra forma. Nem o monstro do lago Ness, nas terras altas da Escócia, conseguiria defender aquele remate, saído directamente da linha sábia de um ângulo de bowling. Uma coisa assim deixaria qualquer um de olhos tortos.

Os tempos eram outros, a época áurea dos futebolistas de maior renome começara naquela altura a preencher anúncios de óbitos dos jornais. Só assim eram recordados. E feitos, depois de mortos, grandes homens, às costas do pretérito de inusitadas homenagens. “Ah, morreu!” Aí, as pessoas lembravam-se e vinham para a rua chorar, escrevendo grandes emolumentos.

Lá saltaram e festejaram o golo. O marcador triturado pelos camaradas de partido que lhe abafaram o corpanzil numa moche de heavy metal. Não havia muito mais a realizar, a desmoralização colara-se às chuteiras de toda a equipa. Eram soldados prostrados, indiferentes ao canhangulo do inimigo. O guarda-redes não deixava de pensar na santa terrinha e na família desavinda que se fraturou pela ambivalência do dinheiro, ao recortar o legado paterno via interpretação desconcordante. Ajuizados na cobiça de um futuro que nunca tiveram, agarraram-se esfaimados ao que não lhes pertencia. Ele, que não precisava de nada e tinha a vida feita, assistia incrédulo àquilo tudo, no lugar mais baixo do camarote, sem nada poder fazer. No entanto, pelo arrasto dos detritos, o sentimento trespassava as redes da sua baliza e vinha agachar-se na sua conduta. Assim como a família, a linha de simpatizantes que o acarinhavam como jogador de futebol estava pronta a descambar. Vinha duvidando se algum dia iria voltar aos grandes palcos internacionais e às grandes vitórias, que vivera com grande alegria. Pressagiou que a partir dali, soava naquela altura o apito do árbitro a finalizar a primeira parte, o rumo da sua carreira seria apenas descendente e que num par de épocas estaria a jogar na divisão inferior ou em clubes asiáticos, só para continuar a ter algum proveito financeiro.

Ainda tentaram ir lá para a frente – “Às armas! Às armas!”, ralhava o mister desesperado – acreditando que era possível virar o resultado. Mas não. Um remate para as nuvens, um canto mal marcado, um passe longo demais; foi esse o resumo dos acontecimentos. Se na primeira parte o jogo já estava perdido, na segunda foi a catástrofe de uma ponta à outra. Nem arma secreta no banco existia, tal era o desfalque efectuado ao longo dos anos pelos órgãos administrativos que por ali passaram. Tirando o guarda-redes e mais dois ou três, que tinham um historial considerável, a estrutura definida para defender aquele emblema centenário era formada por um bando de ilustres desconhecidos ou por apostas vagas de treinadores e cabecilhas diletantes, executando negócios que só interessavam aos bolsos dos empresários. Eram tão maus que nem o penteado lhes souberam instruir. Os tempos eram outros, a época áurea dos futebolistas de maior renome começara naquela altura a preencher anúncios de óbitos dos jornais. Só assim eram recordados. E feitos, depois de mortos, grandes homens, às costas do pretérito de inusitadas homenagens. “Ah, morreu!” Aí, as pessoas lembravam-se e vinham para a rua chorar, escrevendo grandes emolumentos.

E o pior de tudo, era que a realidade não indicava bom augúrio para o resto do campeonato, que se iniciara precisamente com aquele jogo. De um ano para o outro, o treinador ficara à condição e arrastava-se, era mais um que nem a sombra das comemorações da república iria ver ali sentado. Ao sair do estádio já levava o rabo a tremer. O presidente de olhos postos no relvado, a conjecturar forma de pagar as dívidas, nem deu pela sua presença. Todos tinham observado o que aí vinha, só um louco ou um pescador do lago Ness poderiam ditar o contrário. Não havia como evitá-lo. Seria mais um ano perdido na cauda da tabela e longe do brilho dos foguetes. Era óbvio, a herança ficaria por resolver. Ad eternum.

28 Out 2019

O carro à frente dos bois

Hoje, é o grande acontecimento, mais um pouco e esquecia-me. O senhor padre avisou que tinha de ser neste dia, ainda procurámos adiar, não estávamos preparados. Temos medo. Eu e os meus primos não vamos à escola, temos dificuldade em fixar o que nos dizem. Até as rezas que a minha mãe me ensina ficam sempre pelo princípio. Que posso fazer? Não me lembro. Não sou boa para teatros. E fico ali a dizer a cantilena que nunca mais acaba. Depois fico com fome. Com um formigueiro nos pés. E distraio-me. A barriguinha a fazer gluglu.

A minha mãe e o padre Faustino insistem, contam-me histórias, que veio um senhor à terra, e eu pergunto se é a nossa terra de Aljustrel e o que veio cá fazer. Se vai voltar. Ela a perder a paciência. Grita-me! Gosto sempre de visitas. É bom ver caras novas. Às vezes, trazem-nos rebuçados e colam-se aos dentes. E ralha-me. Diz-me: presta atenção, Lúcia! Está calor e imagino, quando me contam estes mexericos, o que estará a acontecer lá fora e que fazem os meus comparsas; podíamos estar a brincar no arneiro e a beber água fresquinha. No pátio grande da nossa casa há cinco figueiras, depois há umas escaditas até onde fica o poço, onde há macieiras, pereiras, cerejeiras e mais. No Verão, com a canícula, fico muito transpirada e só me apetece saltar para cima de uma árvore. Escorregamos por ali abaixo e deixamo-nos estar sentados no muro, que não é de pedra miúda, a roer caroços até à última. Em certos dias, quando é tempo disso, ficamos todos a esmigalhar o milho no meio da eira. Mas à noite, a querer dormir, a minha mãe não deixa de me ler o livro da Missão. À candeia.

A Jacinta e o Francisco são mais novos. Também não aprenderam. E por isso, demoram mais a ouvir o senhor padre, como se pelo meio, entre a boca de um e os ouvidos dos meninos, existisse uma grande cova, com uma charca e tudo, cheia de passarocos a chapinhar, no meio do olival, onde os homens se põem a arrancar ramos nos troncos junto ao chão, eu digo-lhes para não fazerem isso, que as cabras gostam de os comer. Os meus primos também devem querer mais estar a brincar do que estar ali. Mas o padre Faustino diz que é importante. Foi como se fez em França. E não precisamos de nos preocupar. Por via das coisas, é melhor dizer que o Francisco é mouco, assim não vai explicar nada. Não te esqueças que tu és mouco! Mas tem de se lembrar do que vê. Eles preparam tudo. Têm uma marioneta ainda mais baixa do que a Jacinta, onde puseram uns fuminhos e uns pirilampos, que se acende e começa a brilhar, com um vestidinho branco debruado a ouro e uns brincos amarelos. Um balão que voa. Se bem que lá fora – eu já disse ao senhor padre – não se deve notar muito e devíamos fazer as coisas mais no lusque-fusque, quando as pessoas estão a voltar para casa, dos campos. Mas ele teima, que tem de ser assim. Quando o Sol está no pico.

Hoje não era preciso grande coisa, repetiu. Depois, quando me perguntassem, teria de contar todo o preparo, que uma senhora cheia de luz se tinha assomado ao cimo daquele arbusto e falado connosco, os três. Não me posso esquecer das palavras. Que os homens tinham de se portar bem e rezar muito, senão o mundo ia acabar. Como castigo. Que durante seis meses ia aparecer ali, no mesmo dia do mês, mais ou menos à mesma hora. Pode ser que das próximas vezes seja mais para o anoitecer, se o padre Faustino deixar. É melhor! E para construir uma capelita naquele lugar e lojas para vender aquelas bonequinhas, de vários tamanhos e feitios, e uns cartõezinhos com as rezas, para as pessoas não se esquecerem. O terço, chiça! E velas, muitas velas. Para a noitinha? Mas o senhor padre não me respondeu. E mais tarde poderiam fazer ali uma grande praça, onde os carentes podiam chegar a arrastar-se com os joelhos todos esfolados, ou em camionetas da carreira, para cumprir promessas, acreditando que a senhora ia fazer milagres. Curar as doenças, pagar as dívidas, fazer com que os filhos tivessem boas notas. A uns sim a outros não. E todas as guerras iam acabar nesse mesmo dia, para os militares retornarem aos seus lares. Espero que não nos façam voltar à escola. Aquela terra iria ser tão grande que não ia caber dentro do monte. Que até lhe iam pôr outro nome com mais letras. Não me lembro bem qual, tenho de perguntar ao senhor padre. Na brasa das ideias, ouvi Maria do Rosário, não sei se era por causa disso.

Lúcia, presta atenção. Reza! – berra a minha mãe. Eu com a cabeça a ferver. Pai nosso que estais no céu. O pai está no céu, mãe? Não tinha ido à taberna do senhor Silva? Tenho fome, mãe! A candeia a fazer sombras na parede. São as alminhas, confirma, temos de as resgatar. E diz-me que não é o senhor Silva, nem o meu pai. Que é o Senhor que está no Céu, com letra grande, e junta as mãos para cima, o filho da Santíssima, também com S. Mas àquela hora já não enxergo, só penso no que vamos comer: umas batatinhas e umas couves, que a nossa terra dá sempre muito. Quando o Sol perde a última pontinha de luz, a minha mãe a pôr mais petróleo na lamparina – Lúcia? – e eu já a sonhar. A degolar rifões: em Fátima nada nos lembra Maria, é tudo negócio, pura idolatria.

Tanto que ali ia mudar. Era melhor os meus primos findarem mais cedo, porque não eram de confiança e podiam dar com a língua nos dentes. Isto disse outro homem, todo vestido de escuro como a cruz da igreja, a falar com o senhor padre. Que não lhes iam cortar os gasganetes, mas tinham de ver. Facilitava. Pensa nisso, Faustino! Foi o que ouvi quando voltei atrás para buscar a sacola, ali esquecida, porque tinha de ir fazer um mandado à minha mãe e não podia chegar de mãos a abanar senão ela batia-me. E a mais crescida vai dentro, disse ainda. Eu a sair porta fora.

Formigueiro, formiguinha, formigão, vais ver que te vão dar razão.

Arranjado foi, à hora da merenda já íamos a caminho da carrasqueira. Não me podia esquecer de aviar o recado. Vou depois da aparição, assim se chama. Os meus primos estavam esmorecidos a dizer que não queriam ir, que era melhor o gado pastar na serra, que ali não há erva da boa. Mas convenci-os, as cabras podiam comer algumas folhas da tal azinheira, já foi cortada e voltou a nascer. Eles que não prestaram atenção ao que o padre Faustino disse a seguir à missa. Se não rezam vão ficar de castigo na catequese. Castigados pela virgem. Não sei ler, mas sei que é com v de vitória.

O meu pai diz que sou uma intrujona, mas vou ser a artista principal e já decorei as minhas falas. Se não me alembrar também não será muito custoso, há-de-me aparecer alguma coisa à frente dos olhos. Falo no demónio, que é sempre coisa ruim, ou se estiver trovoada posso dizer que é uma batalha nos céus. Onde devem estar o senhor Silva e o meu pai. E o meu irmão Manuel que já foi às sortes e talvez vá para a guerra. A menos que os pirilampos façam mesmo o que dizem, dá-me para acreditar. Rogai por nós pecadores, cochicha a Jacinta, a rodar o seu colar entre as mãos. É o que devemos orar quando lá chegarmos. Ajoelhando.

O dia estava como o pêlo de uma ovelha tosquiada, começámos a correr porque vinha aí uma chuvinha e era melhor despachar aquilo não fosse a senhora molhar-se. Íamos só ver, para nos avezarmos ao lugar. Ficava ali perto, ainda no fosso do olival; a arvorezinha tinha uma fita num dos ramos, era fácil de ver.

Formigueiro, formiguinha, formigão, vais ver que te vão dar razão. Desde que me tornei pastora, já lá vão três anos, fico a tratar do gado o dia todo, pelos montes afora, a saltitar. Mas naquele dia, com os amanhos, pegámos tarde. Sou boazinha. E digo à minha mãe que não pequei, que tenho sono. Isso é uma reza? – desperta o Francisco, que só é surdo para o que tem de ser. Orações, sacrifícios, a graça do Senhor. Que está muito ofendido, sentencia a minha mãe. Que será que queriam dizer com o vou dentro? Dentro de onde? De uma raposa a passar, não é. E continuamos.

Como se chama aquele homem que morreu na cruz? Esqueço-me sempre. Será pão o que ela me pediu? Uma pouca de sal? Os panos para oferecer ao sacristão? Decoro outras coisas, mas nomes não é comigo. O senhor padre não gosta que esteja sempre a tratá-lo por vossemecê. Padre Faustino, caramba! Será o pavio para o candil? O Francisco sabe, diz que se chama Cristiano. Mouco, o filho da santíssima sua mãe. É Domingo, os pais foram à vila, só a venda do chinês está aberta. Se isto fosse a sério, gostava de perguntar à senhora pela Maria das Neves e pela Amélia, que se findaram no Inverno. Também terão ido no balão?

Anda, chegámos! – avisa a minha prima, olho para ela como se já tivesse partido. Podes começar.

27 Jun 2019

Segredos

De vez em quando pensamos que estamos preparados para tudo. São momentos raros e, com sorte, não duram mais do que um nanossegundo. Mas não foi um desses momentos que me aconteceu quando há dias a enigmática menina Marina – a sábia do bairro – avançou inexpugnável e sem medo disparou: «Já sei que escreve uns artigos semanais num jornal de Macau». Tal foi a surpresa que nem sequer me interessou saber como o teria descoberto, eu que não sou dado a proclamar seja o que for em público ou em privado. Mas prosseguiu: «E todas as semanas um tema diferente… Isso é difícil. Qual é o seu segredo?». Por exemplo alguém fazer uma pergunta como essa e sem o saber estar a fornecer aquilo sobre o que poderei vir a escrever.

Naturalmente não foi isto que respondi e refugiei-me numas amenidades de circunstância. Mas outra vez a menina Marina tinha acabado de ser providencial.

A verdade é que o segredo é necessário a uma vida saudável. Não este que a pergunta referia, que terá mais a ver com um making of que pouca ou nenhuma importância tem para quem o detém e menos ainda para quem o quiser saber. Mais relevantes serão aqueles que pela sua ocultação podem afectar terceiros, individuais ou colectivos. A necessidade de escrutinar os nossos governantes ou quem possui poderes de decisão é uma das bases da democracia e de um estado de direito. Mesmo assim, em situações extremas, como conflitos bélicos, o segredo tem sempre um papel central.

Mas aqui neste canto do jornal o leitor sabe com o que conta, que são os dias, os passos dentro do nosso pequeno mundo. E até aí o segredo é essencial: pensemos o que seria da humanidade se toda a gente revelasse o que sabe do outro ou de si próprio sem filtros nem conveniências.

Não, o que aqui falamos é outra coisa. Não é o segredo malicioso, que prejudica. Mas aquele que é nosso, território desconhecido para o resto do universo. Um canto da nossa sala de estar mais íntima, um sentimento, um dia, uma hora. Se o revelamos, deixamos de ter uma relação real com os outros. Todos os temos, todos haveremos de morrer com alguns. O segredo, de certa forma, é essencial para a verdade e um bem a conservar e a não desperdiçar. António Vieira, que sabe mais e escreveu melhor, não hesitou em proclamá-lo num dos Sermões: «Nenhum segredo é segredo perfeito, senão o que passa a ser ignorância; porque o segredo que se sabe, pode-se dizer, o que se ignora, não se pode manifestar. »

Ter segredos só nossos é preservar a alma. E muitas vezes, mesmo nas mais apaixonadas e perenes relações, serve para preservar a união e a harmonia. Lembro-me dos versos de Four Flights Up, de Lloyd Cole: «Must you tell me all your secrets when it’s hard enough to love you knowing nothing?». Isso: de que serve uma obsessão pela “verdade” e pela “transparência” quando parte de amar e ser amado é justamente esconder o que nos incomoda em quem amamos no dia a dia?

O segredo nosso e que ninguém há-de saber é o que importa. Permite a convivência e o amor. E no limite, irá sempre garantir o mais importante de tudo: a nossa liberdade.

26 Jun 2019

Sui generis

Quando viu o Sidónio nu à sua frente ficou sem jeito e sem capacidade de reacção. Estava farto de ver homens naquele estado, isso não era o problema, bastava olhar-se ao espelho ou ir ao balneário do ginásio, mas assim naquele registo tão íntimo, pronto-a-comer, nunca tinha acontecido. Deixava-o desconfortável. Esta sua decisão de se tornar homossexual ainda não era cem-por-cento consensual dentro de si, tinha ainda as suas dúvidas. Nem todos os seus genes tinham aprovado essas regras em uníssono, por isso caminhava um pouco a medo, em terreno desprovido de qualquer cor. Não, não era nenhum arco-íris, por enquanto. Sempre gostara de mulheres e, apesar de estar a entrar nos cinquentas, era um homem sexualmente bastante activo. Esteve casado duas vezes, a última quase dez anos, com muitas aventuras nos entretantos, mas chegara a altura de sair do armário, como se costuma dizer. Bom, ele nunca tinha estado a viver numa prateleira, tinha a certeza disso, sempre fizera tudo às claras, não tinha nada a esconder. Mas a heterossexualidade também não fazia o seu género, no sentido em que gostava de dar um passo à frente. Era um experimentalista e apetecia-lhe mudar de ares.

A primeira coisa que disse ao Sidónio foi: “vai devagar”. Era um comprimido dos grandes que tinha de engolir. Lembrava-se de quando tinha de tomar coisas assim quando era miúdo. Deitava tudo cá para fora e a sua mãe ficava com os cabelos em pé e gritava com ele. Mas aquele espécime não o atraía minimamente, tinha um ar a dar para o abichanado que o irritava. Sempre o irritou, para ser sincero. Por diversas vezes, em pensamento, tinha troçado um pouco dele, apesar de naquela figura se apresentar com um corpo tonificado e com uma cara laroca. Tratava-se bem, o Sidónio. E até era um gajo porreiro, mas era para ir beber uns copos e apanhar uma grande tosga, não era para estar com o pila dele na boca.

Mas tinha de ser e a ideia até tinha sido sua. Trabalhavam juntos há muitos anos e sempre teve um à-vontade extremo com o Sidónio para falar das coisas, vá-se lá saber porquê. Era um facilitador. E quando começaram a trocar ideias sobre o assunto, de como ele não se importava de experimentar “aquilo”, o colega ficou logo de antenas no ar e mostrou-se híper interessado, convencendo-o de que gostaria de ser a cobaia. Até chegarem a esta situação embaraçosa, não demorou muito tempo. Duas semanas?

Agora, era preciso relaxar e ultrapassar de uma vez por todas o complexo que se tinha atravessado à sua frente, senão não ia conseguir cumprir os seus objectivos. Dantes, quando precisava de se abstrair pensava em matrículas de automóveis. Estava sem recursos. Precisava de uma mão divina. À medida que o Sidónio fazia tenções de o acarinhar ele afastava-se compulsivamente. Dizia: “espera!”, enquanto colocava uma musiquinha a tocar, na esperança de que aquilo ajudasse, criando um ambiente mais propício, não diria ao romance, mas whatever. Queria era ver-se livre daquela situação e prosseguir com a sua vida.

Ele que não era nada esquisito com a comida, comia tudo o que lhe pusessem no prato e gostava sempre de se lançar de estômago alegre para gastronomias desconhecidas. E se as mulheres, de quem ele tanto gostava, o faziam com tanta facilidade, não havia de ser ele que iria agora voltar para trás e desistir. Mas havia ainda a outra parte, o factor essencial para que a contenda desse certo, entre as suas pernas parecia existir uma letargia completa. “49-BO-13”. Na casa-de-banho tinha usado um lubrificante adequado, para não estar a interromper nada mais à frente, o que ainda iria ser pior, e achava que estava preparado, que não ia custar. Já tinha beijado amigos em noites de bebedeira e ali tinha pensado em todos os pormenores, mas estava demasiado tenso, era preciso libertar-se daquele torpor, fosse de que maneira fosse. Então achou que se desse um beijo ao Sidónio, daqueles à antiga, imaginando-se inebriado com uma lufada de vento, talvez tudo se resolvesse. Sim, era isso que iria fazer. Iria abraçá-lo e beijá-lo com estrondo.

Depois logo se veria.

O que aconteceu, em concreto, não sabemos. O que é certo é que deu o grande salto em frente e com naturalidade enfrentou sem encerros a sua nova condição perante a sociedade. Do modo como os colegas de trabalho o entreolharam nas semanas seguintes, só confirmava que o seu outro eu já não era segredo. Mas ele gostava disso. Gostava da assumpção.

Encontramo-lo tempos mais tarde, já com o coração a bater a um ritmo semi-descontrolado. Começara a namorar com um homem, ou era o que ele achava, que aquilo era uma relação à séria. De início, estava confiante que tinha finalmente encontrado o seu primeiro namorado, extremando ainda mais a corda para a sua vida passada. Mas a história tinha outros contornos e revela-se aqui num excerto roubado do seu diário.

“Quando conheci o Eddy ele não me contou a verdade, não me disse que afinal não era bem assim. Conhecemo-nos numa noite, num festival de cinema. Ele fazia parte de uma equipa de produção de um documentário premiado, um documentário sobre a extinção do género, e a partir daí fomos falando quase todos os dias. Até que noutra noite mais acalorada, sem câmaras pelo meio, nos envolvemos de modo íntimo. Aconteceu tudo muito rápido. Bem que lhe meti logo a mão entre as pernas, mas ele afastou-me, dizendo que ainda não. Queria primeiro aguçar-me o apetite, pensei. E quando passámos ao acto em si – já não aguentávamos mais! – baixou as calças e virou-se de costas para mim. Tínhamos trocado beijos clamorosos, ficámos agarrados como duas tomadas, em curto circuito, com as nossas línguas derretidas uma na outra. Tudo corria bem. Todo o meu ser efervescia de paixão. Finalmente, estava com os dois pés no caminho que tinha começado a traçar com o palerma do Sidónio. Mas quanto a esse caso, nem me quero lembrar desse momento, aquilo foi um suplício.

Nunca tive qualquer dúvida quanto ao Eddy. Vira-o de tronco nu e, apesar de profusamente depilado, é uma mania que não pratico, tinha um bonito peito de homem. Seja lá o que isso quer dizer. Eu sei lá, pelo menos foi o que supus. A minha ideia nunca tinha puxado para o outro lado. Quando se vê uma coisa não se vê a outra e o toldo tapa o horizonte por completo. Mesmo depois de ele engolir o auge do meu prazer e continuarmos com aquilo noite fora, eu gritava: ‘Eddy! Eddy!’ E abraçava-o, como se não houvesse mais mundo.

Mas não demorou muito até descobrir a realidade, de que afinal o rapaz por quem me tinha apaixonado era afinal uma mulher. Raios! Não havia como evitá-lo, fiquei estupefacto e chorei. O que me tinha levado a gostar de homens tinha sido uma vontade imensa de experimentalismo e ao dar esse passo queria aprofundar a minha nova postura, assumindo-a. Na verdade, passei a ter uma atracção genuína por pessoas do mesmo sexo, e só por elas, achava eu. Limitava-me a saborear aquela fruta tropical. Agora, parece que me egasguei. Terá sido o caroço? Quando conheci o Eddy, era indiscutível de que ele era um homem. Nem foi tema de que alguma vez tenhamos falado, a dúvida, era tudo claro como a água. Mas a extinção do género tinha ganho um prémio, esse tinha sido o nosso ponto de encontro, e quando deparei com aquilo, não soube como reagir. Uma pessoa ama o indivíduo, para além da inscrição do género, seja ela qual for? O que é isto da sexualidade e do corpo que nos calhou? Depois de tanto esforço, eu não podia andar com uma mulher, ia contra os meus novos desígnios. Ai, Sidónio, eu vi logo que isto não podia dar certo.

Mas eu adoro o Eddy. É uma paixão sem fim, como nunca tinha sentido. E quero passar a vida nos braços dele – dela! – para sempre. E se descobrirem, depois de tanto vergar a corda, que afinal eu não sou homossexual? Também o que me havia de calhar na rifa, o Monsieur Butterfly. Não sei o que pensar, mas também não me interessa saber. Dê por onde der, mesmo sem arco-íris, sigo em frente.”

Ficamos descansados, não há cenas dos próximos capítulos.

13 Jun 2019

A rosa selvagem

«Con cua nằm yên trên thớt
Không biết khi nào con dao sẽ rơi.»*

“Viemos ver se estavas intacto”, foi o que disseram, enquanto um deles colocava as mãos nos meus ombros, como se quisesse cravar-me no chão. “Saber como evoluíste. Quem és”. No limiar do milésimo avaliavam a minha robustez, mas também a minha cognição. Quase que não tive tempo para falar, nem sabia o que dizer, o resultado da minha existência não tinha sido para além do satisfatório. Mas eles tomavam-me apenas como um exemplar, não me queriam apontar valor menos comensurável. A ideia nunca terá sido fazer de mim um líder, nem a espinha dorsal de um povo. Deixaram-me estar. Hoje, sei que em situações de apuro, não foram muitas, me deram a mão. Mas ao longo dos anos, não se intrometeram na minha vida e deixaram-me ao deus dará.

Se não fosse comigo, se estivesse a falar de outra pessoa, seria fácil colocar este assunto no papel sem indignar o próximo. Sempre que o faço, ouço logo uma série de palavrões para que pare de inventar, porque o que digo não corresponde à verdade. “Lá estás tu!”, é a expressão que usam. Ninguém tem de acreditar. Cada um vive na sua psicosfera, maios ou menos amedrontados pelos seus temores. E daí não se sai. Cada um com o seu mambo. Apesar do limite difuso, considero que é melhor pôr a cabeça fora da toca e ficar sujeito aos temporais, aventurando-nos pela brecha que encontrarmos, ou na graça de uma linha invisível, do que ficar quietinho receosos do desconhecido. Por isso, vou continuar a contá-lo. Saltou o fim primeiro. Não faltarão mais intermissões.

Preciso de me socorrer da Internet para reportar o dia certo em que ocorreu. A relevância em saber o dia, a hora ou o mês é menor. A importância de determinada ocorrência tem sempre uma condição redutora quando amarrada à memória. Vale o que vale. Tivesse ocorrido uma catástrofe natural ou um jogo de futebol, teria sido mais notado. Seja como for, não sou capaz de contá-lo de maneira a que faça sentido. Nunca soube.

Tinha 18 anos e saía do Cinema Condes, em Lisboa, onde acabara de ver o filme ‘Platoon’ com o meu avô. O último filme que vi com ele. Enaltecido pelos Óscares, tinha estreado há pouco em todo o país. Ele queria ver a História a acontecer, crua e imbecil, o comportamento humano, a voracidade dos americanos, perdidos e sem freio, a reacção vietcongue, a crueldade do campo, das famílias indefesas e de como, no meio de toda aquela iguaria, era retratado o comunismo. Eu quis ir porque gostava do realizador no seu fato de argumentista e porque era o filme mais badalado da altura, um filme duro. Oliver Stone realizava o seu primeiro grande projecto cinematográfico. Duas horas cheias de carnificina e explosões no escuro, era o que nos esperava.

Qualquer filme sobre a Guerra do Vietname tinha como termo de comparação ‘The Deer Hunter’ – não sei se ainda tem – que tinha visto anos antes no prolongamento de uma noite de passagem de ano. Em Portugal intitulou-se ‘O Caçador’. Um filme interminável, que nunca termina na nossa cabeça, com as suas frentes, a guerra e a paz, e nada pelo meio. O sangue-frio que preludia a luta desumana com uma caçada ao veado; concluída na paz podre do regresso à vida mundana, deixando o espírito em fervura para sempre. Só há uma vida quando alguém se vê acolhido numa guerra. Esgotam-se, uma coisa na outra. Não há espaço para mais. Quem sobra, fica apenas com o corpo como contento. Um dos caçadores era John Savage, ídolo de miúdo. Entrava também no enredo sobre a guerra civil em El Salvador, filmado por Stone no ano anterior. Savage interpretava aí um fotojornalista destemido que acaba por morrer sob fogo cruzado, agarrado à sua câmara. “You got to get close to get the truth. You got too close you die.”

Embora tentassem, no Platoon os actores não eram tão carismáticos como no Caçador; ali era mais a acção, a câmara em cima das personagens, a correr a seu lado, sem complacência, como mais um companheiro de batalha, ou a face do inimigo. A virtude de estar vivo perante o sacrifício de uma luta que não era a deles, em nome de um ideal de pátria, que se escondia debaixo das unhas, sem significado aparente. “We didn’t fight the enemy, we fought ourselves… and the enemy was in us!”, confessava o protagonista destroçado. Não eram os bravos do pelotão, epíteto que se colou ao rótulo da versão portuguesa, eles tentavam apenas safar a pele, levando o corpo como salvação ao regressar a casa. Ou o que restasse dele. A morte crua em todo o alcance da razão. A câmara a transportar os corpos trucidados para dentro dos choppers Huey, que se avantajavam para permanecer incólumes no ar. Tudo isso às escuras no Cinema Condes, que já tinha sido cave para sociedades secretas onde, entre meninas e conspirações contra a pátria, se cozinharam outros vietnames. Sob o olhar vesgo das hordas de cinéfilos locais, o Condes seria tomado pelos americanos mais tarde. Não há nota de que algum helicóptero o tivesse acudido.

Se no Caçador, a hipertrofia mental era simbolizada por Robert De Niro como alicerce para uma exacerbada tragédia fílmica; no hiper-realismo caricatural de Oliver Stone, originalmente escrito a pensar em Jim Morrison como o herói, o apogeu e queda revelam-se com a morte de Willem Dafoe, o messias do Vietname, que não teve tempo para ser pregado à cruz. Em ambos, a linha para a realidade é delicada e a tensão é glorificante. Actores que se transformam em máquinas de guerra sem discórdia. O sargento De Niro, o mais bravo da matilha, a usar balas reais na rodagem na famosa cena da roleta russa. Não esquecer a banda sonora, que nos ficou também a circundar as sinetas da emoção. Avô e neto. Cada um para seu lado, em tempos de vida diferentes, em conhecimento díspar. O bíblico Dafoe de braços no ar, num ressalvar dos céus para a Quinta Sinfonia de Mahler, que não o era, mas que tanto fazia, porque a conhecíamos melhor, num pequeno adágio que já tinha surgido no ‘Homem Elefante’, erigido no início dessa mesma década por David Lynch e em mais uns quantos filmes. Eu sei, o Valério Romão, colega de carteira e de apelido, diz sempre que me perco. É verdade. Aqui, os pregos da memória colam-se com cuspo.

Samuel Barber, um génio que aos dois anos já dedilhava as teclas de um piano e aos seis era a coqueluche dos saraus familiares, escreveu, aos 26 anos, o adágio mais triste que as cordas podem fustigar. Um tormento. Em Lynch, picotado ao definhar de Joseph Merrick; em Stone, à firmeza de Charlie Sheen de nunca voltar para casa. A obra expressa a coragem do compositor para sair do seu covil, ostentando na arte o verdadeiro sentir. Misantrópico. “No doubt many wonderful souls have shrunk and refused to put their real emotions into art for others to know”. A transcendência confessional do seu talento traduzida em absoluta tristeza por não ousar análoga veracidade no batalhão familiar. Perde-se o corpo fica a alma.

Mas não foi o filme que importou nesse dia. Nem o facto de conversar com o meu avô sobre ele. que não sobreviveu à sua traiçoeira guerra, “the smell of napalm in the morning”, meses depois. Foi, sim, o chamamento que se lhe seguiu. A verificação do estatuto. O último check-out, que se prolongou num longa metragem, até ao dia em que escrevo.

Já os tinha notado quando fui à casa-de-banho no Condes. Fizeram-me sinal, era inconfundível. Não eram seres com antenas ou luzinhas a brilhar no olhar, nem vinham vestidos de negro, era gente comum. Pessoas banais: arrumadores de carros, vendedores de fruta, rapariguinhas perfumadas de lanterna no escuro do cinema. Passavam despercebidos, mas existiam para recolocar as linhas do espaço; para que o desenho que tinham elaborado, em recorrentes abduções infantis, não sofresse quebras. Seguindo o argumento de que todos fazíamos parte.

Viver é sofrer, dizem os veteranos do Vietname. Somos como o caranguejo que aguarda o cair da faca. Sobrevive-se encontrando sentido no sofrimento, uma luta de mentiras e propaganda levada pelos tecnocratas e fazedores de armas. Todos os homens são criados iguais. Acreditamos no mesmo. Vida, liberdade e busca da felicidade. Espírito aberto. Tudo se passou enquanto o meu avô fumava o seu último cigarro. Ficara tudo como estava. “Quem eram aqueles?”, terá pensado sem perguntar, antes de entrarmos num “carro de praça”, como ele chamava aos táxis. Achou que não seria importante. Não lhe disse que os bravos do seu pelotão tinham perdido a guerra. Quem haveria de supor que o desfecho seria esse? A luta é sempre desigual. Não faz sentido. Não é preciso ser maior de idade para chegar a essa conclusão.


* «O caranguejo fica quieto na tábua de cortar. Sem saber quando a faca vai cair.»

Escrito por um soldado vietcongue desmoralizado, após a sangrenta batalha de Ia Drang, em 1965; lugar onde o Vietname não é Norte nem Sul, mas apenas terreno perdido em mata densa e traiçoeira.

30 Mai 2019

É sempre a primeira vez

As palavras vinham esparsas. Mas ele sabia que era uma espécie de amor, aquilo que sentia, um amor pelas coisas boas, e aguardava a transmissão. Sabia ainda que não havia rede e que nada o iria sustentar na queda, se ela existisse. As palavras chegavam sem sentido. Avulsas. “Circo”. Ele teria ouvido: “Vem ter ao circo”. Vindo assim, sem convicção, num fragor que despontara de parte nenhuma. Quem? Como? Quando? Porquê? Nada. Não havia esclarecimento. O fio terminava ali. Sem novelo.

Na sua cabeça só havia campo. Lugar vago. Livre. Uma configuração não alinhada com planície, mas sob a forma de colinas que se desenvolviam sem feição e sem regras. Como se dentro delas o respirar da terra, para cima e para baixo, as tivesse deixado assim, desviadas da sua existência. Desmanchadas, esquecidas, tumorais. Com vegetação disforme a preencher o demorado espaço. Alguns arbustos, árvores sem fruto e sementes que não se agarravam ao chão, que ficavam ali, sem enleio. Forma solta de pensar. Na expectativa de que a imagem das colinas se desvanecesse e que daí surgisse a vastidão e a solução para a soma dos seus infortúnios. A planura.

“Circo!”

Não um substantivo, mas um verbo. Eu circo, tu circas. Por baixo, matéria oca. Vazio. Indefinição. A terra seca. Um quase silêncio. O seu corpo em tumulto, cheio de sede de metamorfismo e clarividência, a aguardar as ordens da transmissão. As palavras que não vinham. E isso, sabia-o, era o prenúncio de coisas más, de tudo aquilo que não queria repetir. O seu corpo feito em colina, ali deixado, sem gema, sem força para suportar o passado que se avistava. Não era a queda, nem o circo, que temia, mas a sombra já vivida da desilusão.

Nem era à retaguarda que o torcer do relógio aludia, porque os instantes prosseguiam bem aconchegados na sua torrente, desaguando oportunidades que sem transigência era necessário ocupar. A hora e a sua ponta, apinhadas de resíduos de outras cronografias, a demandar recomposição. O estridente refrão. Uma nova cena. Claquete! A luz da alvorada a repetir-se, inscrevendo histórias similares com o corpo embutido como protagonista. Dia após dia. Uma narrativa desconhecida para viver. Sobre o que iria versar o novo enredo, seria sobre uma pequenina aldeia no campo? Era preciso transpor o despertar para alcançar a feição da nova presença. A vã promessa de um vocábulo ao acordar. O foco. Luzes! A dor faminta de existência que brotava sem ser notada. Retirava pronomes. Retirava preposições. Retirava-se.

Não se é gente, não há valor, nesta obediência. Na ordem da escrita. O génio não raia. Tudo é invisibilidade. Tanto e nada disso importa. Agora. Aqui. Depois. É sempre a primeira vez. Inicia-se amanhã? O pretenso texto, a pretensa crónica?

Hoje. Agora. Aqui. Este momento rigoroso que não existe e que não chega a ser abordado. É uma ocasião que descende de outra, que leva a um inexperto enlace, onde o tempo se dilata. Decorria o intervalo passado e já se sucede uma nova reticência. Um tempo de ninguém. Demarcações verbais. Ele circa.

A intermitência onde nada acontece. Alguma coisa desliza e se incrementa. Um braço que aperta. Uma noite. Será já dia? Fecha-se uma porta, abre-se outra. Vozes que reclamam. Vento que passa. Leva os sussurros de um momento para o outro. Os odores, os nervos, os gritos. De um flanco, nada, porque tudo se foi. Do outro, igual, porque ainda nada surgiu. Não há vez na derradeira obscuridade que antecede a palavra inicial, que se espera límpida. O primeiro passo, na mão que avança. Pede-se que integre uma frase, para que mais à frente nutra um sentido. Algures. Algures muito mais à frente. Acolá.

Não se é gente, não há valor, nesta obediência. Na ordem da escrita. O génio não raia. Tudo é invisibilidade. Tanto e nada disso importa. Agora. Aqui. Depois. É sempre a primeira vez. Inicia-se amanhã? O pretenso texto, a pretensa crónica? Um homem assente na fachada do seu desentendimento. Uma coluna dórica. Com uma tragédia grega a esmoer-se por dentro. De mãos largas, a desenhar a linha do momento preciso, contra as regras do que já se afixou. O friso, a arquitrave, o capitel. Desastres. Veículos de pernas para o ar. Aí sabe-se que vai existir uma história para contar, uma história das boas. E no outro dia, mais uma. No espaço. O momento da alvorada repete-se. Além.

E uma espécie de amor.

Ele. Ainda a aguardar a transmissão, ponderava em contínuo sobre o “Circo” e o seu entendimento. Quem lhe terá dito, de onde terá surgido a alusão? Colava memórias que inventassem itinerários. Subterfúgios isolados. Talvez se tratasse de um monólogo. Uma cena desconexa num enredo de curta duração. A criação de um plano. Uma cama ao fundo da sala. Seria um quarto, seria o fim da noite? Um candeeiro de pé alto. Um tapete. Roupa espalhada no chão. Colinas. As sementes que se desprenderam e recomeçaram a raiar descendência. A querer apontar para o génio. Para o sabor do ânimo. “Vem!”, disseram-lhe. Os dedos visíveis. O ar que passa.

Lembra-se de coisas para contar, sobre os homens que viu. Figuras desagregadas, perdidas do seu domínio. Árvores que jamais darão fruto. Mas nada disso terá importância que se faça notar. Ou fome de dor. Não quis ir, ao circo, é o único elemento que reconhece. A solitária certeza que considera. O indefeso NÓS. Nós não circamos. E aqui vai. A história de um fim sem princípio e sem novelo, que na inocência da manhã trará outra realidade. Outro mundo. Um novo sol. Outra vinda. Que continua por contar. Para que possa dizer e indicar o sentido do caminho por percorrer. O famigerado termo. Em exclamação. Quantos são? Quantos se alinham? Quantos gritam?

Numa espécie de amor, o silêncio impera. O amor pelas coisas boas. Dissipado. As colinas não deram lugar à planície. Em seu lugar, surgiu a cidade. Onde se circa. A queda que levanta a palavra que não cai. Nem o remoer da urbe se ouve lá fora. Nem as frestas de outra vida. Apenas a resposta muda, sem boca, sem corpo. Sem gente. Nada mais do que um papel. E uma caneta. Até aqui.

A noite cai. Levanta-se o dia. O dia exacto.

  BANDA SONORA 

23 Mai 2019

Afinal, é melhor retirar o que disse

Vou confessar: era eu que levava o dinheiro. Davam-me uns pacotes com molhos de notas variadas e pediam-me para entregar a tal pessoa. Não sabia quanto era, mas dava para ver que devia ser uma pipa de massa, que esta gente quando fazia as coisas era a sério, não se punha a brincar aos roubos como os banqueiros, que isso é mais coisa de meninos. Falávamos pelo intercomunicador do prédio. Colocavam a tralha no monta-cargas e eu só tinha de pegar nela. Simples.

O nome do destinatário era inventado, era um código que só funcionava no acto de entrega. Mas eu sabia perfeitamente quem eram. A maioria era gente conhecida dos jornais, que precisava de maquia fresca para alguma necessidade mais urgente. Comprar um cabriolé ou um quadro cheio de pó do Miró, que dedos amigos tinham surripiado de uma colecção esquecida na cave de alguma repartição de finanças. Ou coisa parecida. Podia ser também do Bill Viola, que é um gajo que está sempre em voga. Não perguntava nada, não me intrometia em assuntos alheios e quando metiam conversa, para serem simpáticos, ou porque tinham uma vida de merda e não tinham ninguém para desabafar, eu dizia que sim com a cabeça para acharem que era meio surdo ou que tinha um parafuso a menos, e assim acabava-se logo o diálogo. Que fique igualmente neste registo, que não tenho grande paciência para desabafos. Faço o que tenho a fazer e não há espaço para mais dilações, que o mundo não pára. Corre.

A verdade, é que o dinheiro chegava sempre ao seu destino com rigor de especialista, isso não posso negar. Parecia que tinha nascido para fazer aquilo, pegava com uma mão e entregava com a outra. Assim mesmo, como quem salpica umas cores num papel e faz uma obra de arte. Pensando bem, era melhor do que o Miró, pelo menos não tinha que sujar as mãos com o raio da tinta, que é outra coisa para a qual também não tenho ponta de interesse. E para dar aqueles tons é sempre preciso muitos tubos da Caran d’Ache. Não vamos falar de pintores, por favor.

Bom, não sei se havia algum contabilista para toda aquela abundância, o mais certo era não existir nenhum, mas desde o primeiro dia que me cheirou a trafulhice das grandes. E como correu bem dessa vez, pediram-me mais uma e por aí adiante, até lhe perder a conta. Se me perguntarem, não consigo enunciar quantas foram as causas pelas quais andei a percorrer a avenida. Não apontava nada e tenho a memória fraca, nem uma anedota consigo contar e quando vou para entoar o hino, atrapalho-me. Mas para o resto, é isso, tinha bastante jeito para moço de recados ilícitos. Talvez um dia que precise possa arranjar um emprego nos Correios, é só porem-me à experiência.

Quanto às verbas, agora, falam por aí que foram milhões. Milhares de milhões. Ninguém sabe ao certo, até podem ter sido, aquilo era muita massa. Acusaram este e aquele, que eram eles que levavam aquela fortuna de um lado para o outro e das mais variadas formas. Mas é mentira. Fui eu! Não me deu trabalho nenhum. Eu, no metro com um milhão no bolso. O que me ria. Em horas de ponta, muitas vezes com agentes da autoridade que voltavam para casa depois de um longo dia de trabalho, meio desfardados. E eu ali, com o bolo de aniversário na mão. Ou com a consola de jogos última geração. Partida.

Já sei, ninguém me vai acusar porque sou gente miúda e não valho muito no mercado dos bandidos. Não ando para aí a passear-me num rolesroyce ou a ser levado para interrogatórios. Pelo contrário, tenho uma vida discreta, não saio muito e nem uso roupas de marca. É claro, ninguém conhece o meu nome. Mas isso vai mudar, basta escrever umas coisinhas e prolongar a verborreia. Ainda consigo lembrar-me de umas caras e rabiscar uns retratos, daqueles robots como o Miró fazia, cheios de cor e de tinta. Ou então dou com a língua nos dentes e tenho-os aí todos a pedir favores. Que é o que eu sei fazer melhor.

Quanto às verbas, agora, falam por aí que foram milhões. Milhares de milhões. Ninguém sabe ao certo, até podem ter sido, aquilo era muita massa. Acusaram este e aquele, que eram eles que levavam aquela fortuna de um lado para o outro e das mais variadas formas. Mas é mentira. Fui eu!

Por causa de todo o alarido, há uns meses, decidi fazer as coisas à minha maneira. Acabei com os recados de pouca monta. Se por acaso a encomenda era pequena, rejeitava a oferta, deixando de fazer as coisas por tuta e meia. Mas o mais importante: vou arrumar as botas. Fiz contas à vida e foi a decisão que tomei. Que se lixe a fama de ser o maior malandro do bairro. Essas intenções já desbotaram. E na verdade, não tenho fama nenhuma. Mas é desta, foi a última vez. Só mais este servicinho. Não se vai repetir.

Já contei as notas, são dez mil. É o que veio. Não sei bem o que era para fazer com elas. Não apontei, esqueci-me. Dez mil notas de quinhentos é muito dinheiro. Vieram numa caixa de cartão, disfarçadas entre medicamentos para a gripe. Contei-as com redobrada atenção, parece que até lhe estava a tomar o gosto, eu que nunca liguei àquilo. O que fiz foi o seguinte: troquei o conteúdo do embrulho pela comissão que me cabia, que era sempre uma ninharia. Acabam sempre por ser uns forretas, Mas isso acabou, o que ganhava com toda esta história eram apenas umas esmolas. E assim foi, não toquei nos comprimidos para não se perder o volume e porque ainda não tenho dores. Deixei tudo na morada que me indicaram. Um hotel. Foi uma tarefa difícil, é um risco que se corre, eu sei, mas cinco milhões já dá para governar o que sobra dos meus dias. Não é preciso tirar um curso de matemática para perceber isso.

A linha chegou ao fim. Fartei-me. Pensei que podia confiar neles, que não me estavam a enganar, apesar de terem sido sempre bem claros, afirmando com a seriedade que um intercomunicador pode transmitir, de que iam referir o meu nome quando fosse necessário e precisassem de um álibi. Mas não! Até hoje, nada. E leio os jornais todos, dia após dia. Não são eles que me vão agora acusar que os defraudei, com isso não tenho de me preocupar. Dinheiro não lhes falta. Para esses senhores, isto é uma pequeníssima migalha. E ninguém sabe quem sou, não há provas.

Contas. Dificilmente gasto uma nota destas por semana, mas suponhamos que gasto uma. São dez mil semanas. Ora vejam, um ano tem cinquenta e duas, por isso é só fazer as contas. Não estou cá essa vida, nem pouco mais ou menos. É certo que deixo algum aos amigos chegados, companheiros em dificuldades ou com necessidades prementes. Tenho de me lembrar que tenho de o deixar escrito nalgum sítio, pode-me dar um treco de um minuto para o outro e ir desta para melhor, e ninguém vai saber que os meus desejos eram esses. Mais a família, que também precisa. Mas não posso dar muito nas vistas, não vão as pessoas achar que me saiu a taluda. Depois já se sabe como é que é, não me largam, e daí até vir a polícia é um instantinho, levam-me logo para averiguações. Tiram-me aquela fotografia que se vê nas séries de criminologia e venho de lá com os dedos todos pretos. Raio! Por isso, o melhor é não contar a ninguém, que ando nestas andanças. Porque não ando, na realidade, este assunto termina aqui. Quanto ao outro, dos pacotes que entregava sem levantar fervura, também não se vão estar agora a preocupar com questões dessas. Já foi. Ninguém soube, não quiseram dizer que era eu, agora já é tarde para isso. É deixar que os outros sejam acusados e que venham nas parangonas dos jornais, que eles gostam sempre de aparecer, enquanto cruzam as ruas da Baixa nos seus cadilaques.

Portanto: bico calado! E se por ventura alguém ler isto, não vai ser fácil porque vou escondê-lo bem, espero que faça o mesmo.

Já sei, vou guardá-las naquela caixa de sapatos e deixo-a dentro do armário, assim como quem não quer a coisa. Vivo num lugar esquecido, não há de vir aqui ninguém. E assim, como não tenho grandes aflições, vou-me servindo à medida das necessidades, não preciso de mexer uma palha nem de ir aos bancos. Pode ser que um dia, entre um século e o outro, precise de adquirir um telhado novo.

16 Mai 2019

As quatro mãos do meu piano

Tudo o que faço é por causa do Presidente, para o bem e para o mal, foi ele que me trouxe até aqui. Desde que me lembro de existir. Quando atravessava a rua e me atirava para cima dos cisnes negros que nadavam no lago em frente a casa, era o Presidente que determinava o horizonte desse acontecimento. Sempre que fazia o contrário daquilo que me pediam, não era birra, não era mau feitio. Diziam que não entrava na linha, que era rude e que tratava mal os outros meninos – e as meninas também, puxava-as pela mão, contra as suas vontades – e que dava cabeçadas e murros na parede quando estava com os azeites. Não era bem assim, mas era quase, e o quase tinha um cognome. Pedalava por precipícios, num carro sem travões. Explorava moradias em ruínas e bichos estranhos que, claro, me atacavam e por isso tinha que dar corda aos sapatos. Não era que me apetecesse, não era por minha vontade. Na verdade, odiava tudo isso. Odiava automóveis e fazer corridas de carrinhos e caricas em talhões de terra, mas tinha de ser. O Camisola Amarela, o Prémio da Montanha, nenhum faltava à comparência. A classificação por pontos e por uma jogada abaixo do par. Detestava também partir tijolos com a cabeça e os cinturões de artes muito pouco marciais. As viagens a meio da noite para clareiras de florestas cheias de gente não identificada. E alguns objectos voadores. Isso tudo tinha uma razão de ser. O ser que não tinha nome, só tinha fama. Levava-me pela mão.

Não era fácil e o troco não estava garantido. A maioria das actividades era um esforço tremendo. Mas como a vida era assim desde o seu início, não duvidei que pudesse acontecer de outra forma, que o cinto tivesse um aperto mais largo. Fosse de que lado caísse a chuva, ou soprasse o vento, o espectro estava sempre lá, como um banho de água gelada. Bom ou mau, era para cumprir. Não que refilasse ou coisa assim, não tinha nada contra, porque não tinha nada dentro de mim e não conhecia o favor. Ia apenas enchendo o recipiente que formava o meu ser em absoluto, o involucro que o Presidente segurava e que tentava vedar cheio de determinação. Foi sempre assim, em todos os estágios por que fui passando. Escolas, trabalhos, amizades, lutas. Relações quentes e frias. Viagens, festas de aniversário, casamentos e baptizados. Tudo o que inseria para dentro do meu corpo, quem me enfiava a colher na boca ou a pica da imunização? Os pesadelos, as noites mal dormidas, os vizinhos aos gritos, que conversas eram essas, quem as encenava? A família que me arranjaram, os amores, o suor e as lágrimas. Compromissos por terminar, tarefas do tamanho do mundo, coisas vãs? Era a pressa. Era o relógio que estava a tiritar. Era o dedo no cronómetro, que me fazia chegar muito depois do último. Ou antecipando o primitivo. Aqui e ali ao mesmo tempo, cala-te agora, neste devias falar. Quem tinha o microfone em riste? Não é preciso dizer quem era a personalidade. Nem apontar o dedo, porque é feio.

Questionava-o sobre muito do que sucedia. Mesmo depois da idade dos porquês, continuava a perguntar-lhe a razão de ser de tudo aquilo que se erguia à minha volta. Seriam cenários? E os figurinos, quem os vestia? Porque haveria de me colocar em dificuldades quando tudo corria bem e sem tormentos? Ele replicava que era mesmo assim, enquanto me levava ao dentista que me assassinou. Que não podia ser de outro modo. “É assim que o mundo foi feito”, convencia-me. Não me instruiu em religiões ou noutras crenças dissimuladas. Que o mundo era quadrado. O que existia estava à vista. O oculto era também uma ciência, era para apreender e descobrir ao longo do tempo. Que no chão que pisávamos existia uma crosta esférica com várias camadas de matéria incandescente em plena ebulição e que, aglomerado no centro, a mais de três mil quilómetros de distância – Lisboa > Bielorrússia -, um eixo redondinho com a temperatura do Sol que nos mantinha numa rota precisa no céu, impedindo-nos de cair na latrina de sémen do Universo. A paternidade. O vazio sem fundo.

“Nada de pressas”, dizia em muitas ocasiões.

Uma vez no ar, ia eu disparado ao embater no tampo de uma viatura que circulava no sentido errado, ainda não havia telemóveis por isso não pude utilizar o serviço de mensagens curtas, comuniquei-lhe no éter, por alguma frequência: “Porquê isto?” A geometria descritiva a gostar dela própria. Mundo quadrado, sim. “Aguenta!”, ripostou, por entre os estilhaços de vidro, um segundo antes de esborrachar um capacete novinho e o seu conteúdo – isso era o menos! – no alcatrão.

Antes de me apagar: “Aguenta!”

Em meados dos anos 90, declarou: “Deixa tudo e desaparece!” Não pestanejei. A directiva não trazia remetente nem carimbo. Nem formulário para contestação. Mas também não fui para a rua lutar. O meu lacre tinha uma existência regular: a vidinha. Um trabalho, uma namorada, quatro rodas de um automóvel. Ia ao cinema, aos concertos, aos jantares. Conduzia-me pela cidade, noite dentro, e pelo país, de Norte a Sul. Tinha um pé no chão, outro no acelerador. A cabeça no ar. E o Presidente orientou-me, à temperatura do sol nascente, a remoer o meu magma com as ferramentas todas do jardim. Desapareci e aprendi a nadar nessa superfície incandescente. E aguentei!

Na viagem, um homem coberto com uma manta na coxia ao lado, sem lhe ver o rosto, sem lhe ver o corpo. Seria ele? Seria um mantra? Não ousei levantar o véu, não lhe queria ver a cara. Nunca esteve longe, tenho a certeza. Mesmo nos momentos em que tinha de fazer as coisas sozinho, quando tudo andava ao contrário e a crosta no solo parecia romper-se em pedaços, deixando tudo em carne viva, permanecia agarrado ao meu ombro, com o seu visto de rapina. Num olhar que era só meu.

Já não espero por muito. Habituei-me. Agora, em terra de turcos, sem geometrias e deveres ocultos, aguento. Disperso. Um dia após o outro. Há sempre um que vem a seguir, não é?

Já dentro do caldeirão, falei com quem tinha de falar, nada foi por acaso. O algoritmo, o serviço de mensagens longas, os pagers. Deram-me logo isso para a mão, para que não faltasse nada. Associado a pessoas estranhas ao meu estabelecimento, que me acolheram, prossegui. Os caminhos traçados no chão. Um sistema luminoso como na pista de um aeroporto, fitas coloridas atadas aos ramos das árvores, pequenos truques de algibeira. Casas e mais casas, para o conhecimento da palma do território. Sociedades secretas. A história da Guerra do Ópio. Transatlânticos. Mais mantras, iogas e mandalas. O Presidente, a partilhar informação confidencial, elucidava-me sobre o desafio total. A liberdade a passar por ali. Na face da minha cara.

Às tantas, mandou-me para perto do General, para aprender como se fazia. “Vai!”, e eu fui, como um animal irracional que abana a cauda. Não precisava da Razão, podia viver bem sem isso, o fogo ardia sempre ao meu lado. Pensava, fazia relatórios, ouvia conversas. Carregava em botões. Observava a vida por dentro de um rectângulo que materializava em figurinhas planas de papel extorquidas da realidade. Guardava. Acumulava sabedoria. Para quê? Dizia-me que algures lá à frente, no eixo redondinho do céu, o meu dia iria chegar. Que um dia seria eu. Que a maré se iria levantar.

Next!

Um dia, pede-me para chegar a horas. Envia-me bilhetes de avião. Outros, para chegar atrasado. Grito. Para que se afaste. Mas ele não foge. Reclama, que devo ver e observar tudo com atenção, ou que ignore um conhecido de outros tempos com quem me cruzo e, se mais tarde o encontrar numa festa, que invente o pretexto de que tenho dioptrias.

Já não espero por muito. Habituei-me. Agora, em terra de turcos, sem geometrias e deveres ocultos, aguento. Disperso. Um dia após o outro. Há sempre um que vem a seguir, não é? Para lá da colina, para lá do sol posto. Traz sempre o tabuleiro recheado de iguarias a tiritar. Tic. Tac. O gravador em riste, para que permaneça a fita na memória. Sessenta aqui, sessenta ali. Os cisnes negros a atravessar a rua. Sem conserto e sem jantares. O lago seco. O salto à vara. A enfiar-me o capacete. Na paz de quem me dá a mão. E a alma.

Como sempre, está aqui. O Camisola Amarela, em fuga solitária e já muito perto da montanha. Onde está o prémio? A casca solta a sua lava. Cega-me por todo o lado. Tic. Tac. Um copo meio vazio. Meio cheio. Sem sombras. A percorrer as teclas do meu piano. Com ele, o Presidente, perpetuamente astuto, que não fez mais do que me segredar para escrever esta crónica. Jurando nunca se render. Ditando-a.

9 Mai 2019

Precipícios interiores

“Lembro-me de ter pensado que

há coisas que só se engolem
com muita fome e uma flor à frente.

Mas ele era um sem-abrigo ainda jovem

qualquer dia
já nem vai precisar da flor.”
André Tecedeiro

É a terceira ida ao supermercado este mês. A música ajuda, sempre e em tudo. Bolsos e carteira vazios. Contas bancárias por onde nem o vento passa. As botas escorregadias por já não terem capas nas solas. A mala a precisar de ser cosida. A mala e a vida. Ou ela a si mesma. Pensava que era uma mulher, e a constatação de que esteve numa dolorosa aula de ioga nas últimas vinte e quatro horas acrescenta dez centímetros ao seu já maltratado ego. A fome é um precipício interior, erguido a medo, desolação, desespero. Quando chegamos ao limite ou ao que julgamos ser o nosso limite, eis que descobrimos os alheios e, sobretudo, a falta deles.

No autocarro, o cheiro do pão ainda quente. Outro dia, ao telefone, dois estranhos discutiam o que se conseguia comprar no supermercado com seis euros. Alguém, do lado de lá, dizia ser “muita coisa”. A estranha do lado de cá, com ironia, respondia, “Eu sei muito bem o que dá para comprar com esse dinheiro.” Seguiu-se um “Nada”, mudo. Mas ela sabe, afinal faz somas na calculadora do telemóvel a cada produto que escolhe, não vá o dinheiro tecê-las. Um após o outro devora três dos quatro pães que estão no saco. Armazenar é preciso, mas todos os dias se gasta, e a reposição não chega a ser feita em tempo útil.

Está cansada. Cansada de precisar, de depender, de não ter. Cansada de malabarismos financeiros nos quais o saldo acaba sempre negativo. Cansada de adiar, de adiar-se. De fazer planos e falhar-lhes. Cansada de falhar a si mesma. De não poder ser aquela com quem se pode contar. De falhar aos outros, mesmo se eles não o sabem ainda. A negação caminha de mão dada com a prostração. Raramente se permite chorar. Mas há dias em que não suporta a própria vida, dias em que não sabe quem é esta pessoa que se mantém por cá, que tem sempre um sorriso sincero para dar, que por vezes quase parece esquecer-se da situação em que vive. Que não quer preocupar ninguém, que guarda os desabafos até ao último momento.

Jardineira, panados de peru com massa, coelho com batatas fritas, peito de frango com esparguete. Poderia ser a lista de pratos do dia num qualquer restaurante, mas são parte da ementa privada que a colega do lado lhe tem trazido para o almoço. Comemos fora, estamos habituados a que sejam outros a preparar a nossa comida. Então, porque é tão estranho que alguém no-la traga? É a tal da vergonha. A paralisante vergonha da necessidade. A gratidão tem o mesmo efeito. Porque nunca parece suficiente. Porque a sentimos de tal modo que nem sabemos como expressá-la. A lista continua. Café, bananas, pêras, maçãs. A gratidão caminha lado a lado com a culpa e o pensar no que pertence e poderia, poderá, será que faz?, falta a outros. A culpa pelo sacrifício alheio é uma das mais corrosivas. Corrói mais do que dias corridos a sopa de pacote e pacotes de ketchup (surripiados de um restaurante de fast food), do que as noites em que vai para a cama sem jantar. Quando vivemos sozinhos, tudo dura mais tempo, não é assim?

A delicadeza de quem, para além de tão grande gesto de compaixão, ainda nos pergunta se gostamos disto ou daquilo, para nos dar a escolher, como se fôssemos da sua própria família. A delicadeza emudece, emociona, transforma. Há um precipício, mas não temos de atirar-nos dele. Muitos o carregam dentro de si e andam no meio de outros, em igual ou pior situação, e nada que os distinga porque a fome é isso mesmo, uma ameaça que demora muito a deixar-se ver. Há um precipício. Há mãos que nos agarram no último momento. Às vezes essas mãos são bem pequenas mas pertencem a alguém de coração gigante. Eu espero que haja sempre alguém que nos encontre. Há um precipício mas não temos de ceder. Podemos sentar-nos à sua beira e, com sorte, na relva. Com sorte, haverá flores. Com sorte, dias melhores.

18 Abr 2019

Um apocalipse para levar a brincar

Tenho amigos que têm ídolos e muitas vezes nem fazem ideia de que assim é. Numa esfera mais alargada, conheço muitíssimas pessoas que fazem depender grande parte das suas vidas de heróis. Podem esses heróis ser poetas, pensadores, pedagogos, filósofos, comunicólogos, antepassados ou até silhuetas virtuais (personagens, actores, bandas, cantores e outros seres a partir dos quais se imaginam virtudes, dotes e dons). Nem sei se os humanos conseguirão viver de outro modo, identificando-se e projectando-se, ao mesmo tempo, em existências que lhes são (em princípio) exteriores.

Na nossa época e em partes significativas do planeta, o facilitismo paródico-lúdico aliado a uma disposição desagregadora e niilista governa a nossa ‘intelligentsia’. Este tipo de poder – que funciona como um polvo de muitos tentáculos e origens – exerce-se sobretudo num movimento que oscila entre o ‘dogma’ das redes sociais (um horizonte imediato que se desactualiza logo que se actualiza) e o discurso fantasmático (o que aparece na rede – e nos rumores mediáticos – surge como imagem de imagem quase sem contexto). Um tal ziguezague social dá-se na perfeição com o reducionismo e com os limites suscitados pelas deusificações, pelos ídolos e pelo culto secreto ou desabrido de heróis.

Os autores do iluminismo vangloriaram-se com a invenção da ciência histórica, entendendo-a como um mandamento que fazia preceder o seu tempo (definido como racional e virado para o que viria a designar-se, já no século XIX, por “progresso”) de uma idade heróica e de uma outra original e selvagem (a pré-história). Essa definição de contemporaneidade baseava-se, pois, na oposição entre uma racionalidade que naquele tempo se via ao espelho como uma evidência e o culto dos heróis que teria ficado irremediavelmente para trás. Como se percebe, as utopias alimentam-se das euforias do imediato, mas, no reverso (e nas suas ressacas históricas), tornam-se distópicas porque inevitavelmente falham. O que talvez melhor caracterizará uma época são os anseios e os projectos que foram sonhados, mas que acabariam por nunca se vir a realizar (veja-se o caso dos muitos ‘plots’ da guerra fria, por exemplo, que tão bem definem a segunda metade do século XX).

Apesar de quase trezentos anos de fôlego moderno, para além das grandes guerras e dos holocaustos do século XX (não sei, sinceramente, se haverá um “para além do” holocausto), a nossa era, que se pode definir como um cocktail em que se misturam as ‘quêtes’ babyboomers, o ‘pós-moderno’ dos millenials e o aquário em rede da geração Z, criou as condições ideais para um reatar do culto dos heróis. Algo que seria muito difícil de prever há algumas décadas, quando a ‘intelligentsia’ ainda era movida a vapor por “intelectuais”, ideólogos e por outros arautos dos grandes “sujeitos sociais”. Moral da história: o que cai por terra, cai sem qualquer compaixão. E o que aparece em cena subitamente, como se fosse uma aura que viesse do nada, aparece sem quaisquer explicações. Eis o que melhor caracteriza o que é, hoje em dia, um “ídolo” (traduzido cada vez mais na linguagem corrente de um modo falacioso, através da palavra “ícone” e, ainda por cima, com a alarvidade de ser pronunciada como se não fosse uma esdrúxula). Sinal dos tempos.

Quando eu era criança, os heróis corriam na BD, nos campos de futebol, numa ou noutra música e sobretudo nos livros de história. Na nossa era, os heróis começam no quarto entre mochilas, bonecos, carrinhos, penicos e um outro livro juvenil ou infantil caído no chão. É nos terminais tecnológicos que aparecem os primeiros heróis, os chamados youtubers que contam com vários milhões de subscritores. É o Wuant que brinca ao titanic, é o Feromonas que brinca com pacotes de leite aos gritinhos, é o Dark Frame que se dá a ver a dançar, enquanto visiona jogos de vídeo violentos, e é Sir Kazzio que aparece numa espécie de cabeleireiro com bolos e  chantili a cobrir-lhe a cabeça. O registo do cómico está ao nível dos concursos de peidos que eu fazia com o meu irmão, quando tinha cinco ou seis anos de idade. Não tenho nada  (dogmaticamente falando) contra a infantilização da sociedade. Seja como for, aqui corre dinheiro, muito dinheiro, e o modelo tende a exportar-se para outros patamares. As praxes nas universidades, por exemplo, são parentes íntimas desta espectacularização da idiotice radical e, em muitos casos, ameaçam durar quase um ano inteiro. Há meio século, as crianças eram vestidas (ou fardadas) como pequenos adultos; hoje a orwellização tecnológica está eufórica com este estado de perdição da infantilidade. Faz muito, mesmo muito jeitinho às receitas (de alguns). A vida ainda se há-de transformar num videojogo. Coisa lúdica. Um apocalipse para levar a brincar.

21 Mar 2019

Do trabalho

Permitam-me dizer que ao fim de vinte e tal anos de trabalho percebi finalmente que as coisas não têm qualquer tendência para melhorar. Eu nunca gostei da ideia de trabalho, isto é, de posto-com-horário-para-ser-cumprido-ao-modo-de-um-castigo, até porque sempre achei que a vida era demasiado curta para que aceitássemos a ideia de lhe amputar um terço sob mando alheio apenas para não morrer de fome. A maior parte das chefias que conheci estava inebriada com o poder – mesmo que pouquíssimo – de que dispunha sobre os outros. Muitos dos colegas que tive davam infinitamente mais importância ao aspecto formal do trabalho (pontualidade, absoluto respeito pela hierarquia e aspecto) do que ao conteúdo do mesmo (produtividade, inovação e competência). O trabalho é um local e um modo de vida odioso onde prolifera e se premeia sobretudo a incompetência e irrelevância. Um chefe cretino e inseguro fará de tudo para proteger a sua posição periclitante e não hesitará em rodear-se de cretinos e de bajuladores. Um chefe competente dificilmente será levado a sério pelas restantes chefias, até porque imprime uma marca e um ritmo pouco condizentes com a mediocridade geral e põe a nu, por contraste, a incompetência alheia. No trabalho quase tudo é mau, ou não derivasse o nome de um antigo instrumento de tortura do tempo dos romanos, o tripalium. Um tridente de madeira usado primeiramente na agricultura e logo convertido em acessório sado-maso com tónica exclusiva no sado.

Percebo a utilidade social do trabalho. Não fosse o trabalho e as pessoas teriam de encontrar um sentido para a vida ou pelo menos buscá-lo com um resíduo que fosse de avidez. Não fosse o trabalho e as pessoas teriam de ficar com os putos o dia todo – pelo menos nas férias escolares –, ou deixariam de ter desculpa para faltar à festa de final de ano, à quermesse da páscoa ou ao teatrinho do sexto ano. Não fosse o trabalho e as pessoas teriam tempo para fazer todas aquelas coisas que dizem querer fazer – e que, na verdade, não querem – e cujo tempo escasseia para as fazerem. O trabalho, em certo sentido salva. Ou pelo menos ajuda a manter um estado-de-coisas, sejam estas uma paternidade sem acidentes domésticos ou uma relação que sempre ajudar a pagar a casa e a compor o frigorífico. Mas no mesmo período de tempo em que estamos a trabalhar podíamos estar a fazer coisas muito mais interessantes. Ou menos, mas ainda assim a escolha seria nossa.

Nos países maximamente capitalistas a cultura do trabalho atinge proporções religiosas. Lembro-me de ler uma entrevista a um daqueles magnatas do petróleo que por cupidez ou tédio resolvem se candidatar a um lugar de congressista ou de senador, na qual o entrevistador perguntava ao bilionário o que pensava este das consequências da automação e da inteligência artificial na vida dos seus trabalhadores num futuro não muito distante. O entrevistado, pelos vistos, não só nunca pensara seriamente no assunto (bilionário old school, pré Silicon Valley) como não conseguia sequer conceber a possibilidade de um mundo no qual as pessoas não tivessem que trabalhar.

Acabou por atirar, tão enojada como contrariadamente, qualquer coisa como “it would be a godless world”. Não só o trabalho ocupa as mãos que, como se sabe, são o recreio do demo quando desocupadas, como escalona o tecido social: quem ganha mais tem uma posição moralmente relevante e quem ganha menos tem de se ater à sua própria insignificância. No limite, os pobres são-no porque estão pejados de vícios morais. O seu sofrimento na terra é já ele um o primeiro prato de um castigo divino de que não se antecipa o fim. Sem a bússola do trabalho, como destrinçaríamos o bem do mal, a excelência da mediocridade, o necessário do supérfluo?

Mais a mais, que faríamos com todo esse tempo recuperado das nossas vidas? Em relação à abundância de tempo e de dinheiro sempre tive como certa a frase de um reclame da saudosa Vox: “dá Deus vozes a quem não tem implantes”.

15 Fev 2019

Júlio

“It has been a beautiful fight. Still is.” – Bukowski
Em memória de Júlio Ávila

A mercearia chinesa da minha rua fechou. Não aceitavam cartão, nem de pagamento nem de desconto. Mas sorriam sempre, embora nunca perguntassem pelo contribuinte na factura. É verdade que, nos últimos tempos, já só lá ia para comprar melancia, quartos de, a noventa e nove cêntimos o quilo e todo o sabor do mundo. Um sabor rosa-vivo simples, a única coisa que me apetecia, por vezes, comer. Melancia que levei para casa, para o trabalho, para a praia. Que comi sozinha e partilhei. Triângulos e triângulos de consolo e doçura. Arestas, faces e vértices que não magoavam, e de que era segura a repetição. Não sei o que dizer mais do que sei o nome da tua avó, que te ofereceu melancia cortada aos cubos no que agora lhe deve parecer ter sido ainda outro dia. Não tenho avós há muito tempo, e pergunto-me se a tua terá ouvido falar da Björk, que também sabe uma ou outra coisa sobre melancias. E lágrimas.

Conseguiste. Que o carro passasse na inspecção. Conseguiste. Que a vida deixasse de passar por ti e te magoasse. Tu tentaste e não falhaste. Aprendeste o nó que desfez os teus, não importa se nos deixou um permanente. Ninguém deveria poder dizer que nos desapontaste.

Os pêsames pesam. Os meus sentimentos também. Seremos sempre demasiado novos para estas coisas. Ser millennial não nos dá um certificado de saber lidar consigo mesmo ou com os outros, com o quão pouco sabemos uns dos outros e sobre nós mesmos. Vivemos em excesso de informação não relevante e em carência de quase tudo o resto

Contigo fui turista e visitei uma igreja, partilhei a mesa do almoço, a vista do miradouro do Outeiro da Memória, a melhor amiga, uma grande moca, gargalhadas, o teatro, a escrita, o peso da vida. Trazias uma t-shirt azul no dia em que te conheci. Letras em degradê laranja e amarelo, calções e chinelos. Éramos quatro. Mesmo nessas fotografias desfocadas, continuamos a ser quatro. Eu estou do lado de cá, mas senti-me em casa convosco. Lembro-me de não estar bem, de ser a única desabituada à altitude. Lembro-me de que, no último ano, todos quiseram deixar de estar aqui, tentaram e quase conseguiram. E pergunto-me se algum dia vocês, desculpa – se eles se vão habituar à vida. Pergunto-me se alguém mais vai conseguir. E dou por mim a rever conversas e a enviar mensagens e a querer marcar viagens. Quem me dera ter voltado aí. Agora sei que nunca vou sair.

Os pêsames pesam. Os meus sentimentos também. Seremos sempre demasiado novos para estas coisas. Ser millennial não nos dá um certificado de saber lidar consigo mesmo ou com os outros, com o quão pouco sabemos uns dos outros e sobre nós mesmos. Vivemos em excesso de informação não relevante e em carência de quase tudo o resto. Vivemos em estado de depressão e de distracção, mas tu sabias estas coisas. Tu sabias de ti. Tu prestavas atenção.

Saber muito pouco de alguém e ainda assim ser de repente a pessoa em quem mais pensamos, e isto servir para nós e para os outros. Ir de casa para o trabalho, da terapia para os medicamentos, de mal a pior, de millennial a memorial. Deixar de ter um nome para passarmos a ser também um evento, uma descrição, uma memória. Fazer um testamento real para a persona virtual. Estar sempre a um ecrã de distância das nossas pessoas preferidas, até de nós mesmos. Sim, porque deveríamos saber ser uma das nossas pessoas preferidas. Tu certamente o és, serás para muitos, serás para sempre.

Onze, catorze, quinze, dezasseis. Um dia para nascer e três para morrer. Mil novecentos e oitenta e seis. Dois mil e dezoito. Abril, Outubro e trinta e dois anos e meio entre eles. Nasceste, cresceste, viveste, morreste. Tu estiveste aqui. Tu estavas, realmente, vivo. Ficaste mais quando foste embora, tu que já eras tão grande. Tu não desapareceste. Obrigada por tudo o que escreveste.

Esperarmos que as pessoas que gostam de Júlio encontrem algum conforto ao visitar o seu perfil, para relembrar e celebrar a sua vida.

It has been a beautiful life. Still is.

14 Nov 2018

O eu abreviado

Quando entro no café e peço uma água das pedras e uma bica, a menina que me atende sorri e eu sorrio de volta. Nenhum de nós imiscua no comércio da vida cotidiana aquilo que de mais pesado e verdadeiro transportamos todos os dias no coração como trocos na algibeira. A maior parte das nossas interacções rege-se pela batuta da cordialidade superficial. Aquilo que somos, aquilo que temos de verdadeiramente único, escondemo-lo. Às vezes, à vista de todos; outras, em sítios de que até nós nos esquecemos.

Manda a etiqueta da convivência social que não andemos nus. Não impomos a nossa intimidade física a outrem. É desadequado. É estranho. Há sítios remotos e cercados para onde vão as pessoas que têm vontade de andar em pêlo. Chamam-se colónias de nudistas e praias de nudistas. Com os nossos segredos, é muito assim; não os partilhamos desnecessariamente porque tal seria infringir um código não escrito e, simultaneamente, um sinal de vulnerabilidade e de desequilíbrio. Mas como são esses segredos que, em grande parte, nos definem, o seu radical escondimento acaba por no fundo configurar uma forma de mentira socialmente aceitável: respondemos afirmativamente às perguntas cotidianas sobre o nosso bem-estar, negamos a existência de problemas quando nos chamam a atenção pela nossa ausência, divergimos imediatamente de assunto quando confrontados com a possibilidade de alguém adquirir indevidamente informação que não pretendemos transmitir. E todos fazemos isso. O tempo todo, ou quase.

Estranha forma de vida, esta, e estranhamente bela. Passamos noventa e tal porcento do tempo a fingir o que não somos para termos oportunidade de sermos o que somos para pouquíssimas pessoas por pouquíssimo tempo. É como se a vida fosse uma espécie de mina de baixo rendimento onde é necessário processar dezenas de toneladas para obter um mísero grama de ouro. Uma mina com uma rentabilidade tão negativa como a nossa já teria sido fechada. A maior parte de nós, no entanto, opta manter as portas abertas, a despeito de por vezes ter imagens muito claras do logro enorme que são as relações humanas: uma gigantesca teia de formas que supostamente devemos assumir, de acções que supostamente devemos ter, de respostas que supostamente devemos dar. E nada disto é claro, e nada disto está escrito. O código mais complexo e poderoso de regulação social encontra-se ausente de qualquer manual.

De vez em quando, somos confrontados com pessoas que, em situações extremas, nos deixam nas mãos muito mais do que aquilo que tínhamos pedido. Que nos emprestam, contra a nossa vontade inicial, parte do peso que carregam e que se dispõem a receber da nossa parte a intolerância e a incompreensão ou a radical bondade de querer ajudar a encontrar no peso e na profundidade uma leveza ou um ângulo que facilite o transporte.

A vida que se diz passar à frente dos olhos quando a mente antecipa a morte não corresponde a mais do que meros segundos de experiências vividas. A uma sequência de imagens de que muitas vezes desconhecíamos a importância. O eu tem uma forma de escalonar a grandeza daquilo que vivemos e o cérebro parece ter outra. Ambas correspondem na forma: qualquer vida pode reduzir-se a um filme de 30 segundos. Esses trinta segundos são a sinopse daquilo que de facto nos faz sentir únicos. São os sete ou oito picos de intensidade no sismógrafo existencial que nos definem e definem em grande parte a nossa forma de agir. O resto, o filme em si, é o cotidiano. É a mentira.

12 Nov 2018

Feio

É a componente estética aquela que mais define a vida como estrutura organizada da multiplicação pelo ciclo do acasalamento, qual lembrança perdida de uma harmonia. Se a vida, essa, sempre se refaz pelo invencível ciclo harmónico da regeneração, isso indica que dentro de cada coisa viva existe um pouco desta experiência incrível: um programa geométrico de um longínquo gérmen-memória de imortalidade.

Vivemos nós de estereótipos estetizantes que, quase sempre, e caso a atenção nos falhe, poderão contribuir para o martírio de uma conduta de comunicação, a partir das noções mais vastas desse mecanismo. Implantados no mapa ideológico, trajar as vestes do mito social, requer a flutuação de princípios para o ajustar a essa vertente, onde o poder é a causa mais interessante da luxúria do feio. Uma certa arquitectura segue no corpo da ideia…

Na medida em que a flutuação comportamental estética modela as ondas do espaço social, podemos nós, como nas batalhas, medir a tensão dos ritmos presentes, e há que salientar que todas as épocas trouxeram para o espaço público a sua estética do feio, como o mundo clássico no vasto diálogo moral entre tais princípios. Salientar que o fantástico disforme da cultura helénica foi um fenómeno absolutamente extraordinário. Percorrendo todas as deformidades elas acompanhar-nos-iam até ao seu extremar. Escatológica a força do destino!

O disforme pode ser uma urgência em acabar de vez com o insuportável sorriso dos incautos. «Não deveria, portanto, odiar quem me detesta? Não farei pactos com os meus inimigos. Sou um infeliz e eles partilharão comigo a minha infelicidade». Muito semelhante a uma frase de Rilke, que define a beleza como princípio do terrível. As vanguardas ocuparam-se, há mais de cem anos, a olhar para dentro das vísceras das belas imagens e a devolverem-nos o conjunto sem o qual a visão que rege a outra parte ficaria sempre inacabada, e muitos não conseguiram fazer a transição da decoração para a transgressão, ficando-se no efeito algo perverso das coisas bonitas – e é claro- bonito não quer dizer nada e, no entanto, será sempre bonito dizer-se do bonito que as coisas são.

A prodigalidade da desmesura pode em muito contribuir para desventrar pântanos onde muitos pensam ser Narcisos e esse espectro atroz da contemplação nas fétidas águas dos seus cânones será imprudentemente a maravilha, a forma de arte completa, vista por quem a observa em outras latitudes. Devolver o cenário de uma excrescência será esse o trabalho mais sério de um artista ou de todo aquele que perscruta os sinais do estranho horror que emana da vida. Podem os que escrevem aleijar todas as fontes verbais ao sair do labirinto de um ordeiro Minotauro que, doloso, segue a nossa sombra para se entreter no seu martírio de fera só. Tudo podemos experimentar na longa marcha que cria o insólito com que muitos olhos, mesmo abertos, ao contemplar, não vêem a liberdade total que será sempre a conquista definitiva do próprio mérito.

Não queremos poesia de género nenhum.
Queremos truques mágicos de saco,
Procurando tapar na existência um fatal buraco.
E apesar de esforço insano não tapamos nenhum.

Wilhelm Klemm – Expressionismo alemão

Há no entanto algo que escapou a uma filtragem atenta e se precipita agora na antecâmara provável dos horrores, esse algo que não tem código na nossa outrora e quase obscena arte do feio, um fenómeno que ultrapassou as torres de vigia de como olhávamos o esquartejamento das imagens… uma outra dimensão que a fealdade não alcança. Já muito alucinámos acerca da devastação dos medos, eles tornaram-se modelares, competitivos mas o que se avizinha não nos deve estarrecer nem surpreender, na medida em que não temos esses sentidos para os contemplar, mas onde certamente somos a via por onde uma repugnância qualquer se fará sentir. Acéfala e gregária, a nossa vida avança para o cume de um estertor que não há registo, pese embora a distância da quimera de cada um na felicidade ardilosa que teima em não chegar. O nosso repouso celular deixou entrar um festim de exterminadores implacáveis. Já não há braço, modelagem, ferocidade, génio, garbo, convicção para a metamorfose de um cerco em volta do mundo.

O “código criminal” do feio pode ser uma qualquer mágoa acelerada para anunciar desastres e também um local de exílio perante a falta de compaixão, foi Isaías que anunciou que um Messias sem beleza diante do qual se tapa o rosto, considerado como um leproso iria ajudar-nos a salvar-nos de males maiores. Há instantes mais cruéis que olharmos no olho de um Ciclope, e desventuradamente o grotesco se desfez para dar origem ao medonho.

Salientar que chegam até nós as trombetas de uma regressão – não fosse nada definitivamente andar para trás – avança de outra maneira com mais pujança que o antigo braço que vemos chegar quase tão repentinamente como os furacões.

30 Out 2018

Parcimónia e outros exageros

Suaves e discretos movimentos corporais, baixos tons de voz, risos e sorrisos contidos, raros contactos visuais e ainda mais raros contactos físicos, vestuário de cores sóbrias que contrasta com a generalizada exuberância da vizinhança asiática: há uma parcimónia sistemática e omnipresente nos quotidianos, profundamente enraizada na cultura japonesa. Não é apenas a provável barreira linguística que dificulta a comunicação com quem vem de fora: há também uma permanente protecção em relação ao exterior que também – ou sobretudo – se aplica em qualquer outra relação social, independentemente da origem dos intervenientes e também entre a própria população nipónica. Como me dizia uma amiga (japonesa), o Japão é uma ilha e cada pessoa é uma ilha em si mesma.

Em boa verdade, é preciso também dizer que a parcimónia se dissolve no álcool com relativas facilidade e eficácia: quer seja o tradicional sake, a universal cerveja ou o mais exótico vinho a animar os repastos, não é difícil observar a metamorfose que gradualmente vai transformando a generalizada parcimónia quotidiana em ruidosas celebrações de gestos amplos, olhares descontraídos, vozes ruidosas e sonoras gargalhadas, eventualmente excessivas e inevitavelmente surpreendentes para quem tem pouca familiaridade com estas drásticas transformações. De resto, as tradicionais tascas japonesas – isakaya – são o palco mais peculiar pare se observarem estas graduais transições entre o comedimento e o excesso.

A comida é, de resto, território de excelência para a manifestação extrema da parcimónia nipónica. Pratos pequenos, poucos condimentos, receitas simples com poucos ingredientes e alta precisão, pequenas doses já preparadas e cortadas em comedidas porções que podem ser levadas integralmente à boca, dispensando facas e outros utensílios metálicos, e uma regra essencial: comer até o estômago estar 80% cheio, o essencial para manter uma nutrição adequada ao funcionamento do corpo e para evitar excessos pouco saudáveis. A obesidade é relativamente rara, em comparação com qualquer outro país que tenha visitado, e a longevidade está nos mais altos níveis do planeta. E há também o respeito sistemático pela limitação dos recursos: raramente há sobras, os pratos estão vazios no final da refeição e não há desperdícios. Esta frugalidade também se reflete na surpresa com que agora enfrento as primeiras doses em restaurantes em Portugal, com quantidades de carne ou peixe que seriam suficientes para meia dúzia de refeições japonesas. E com os inerentes desperdícios, para os quais olhamos como sinal de generosidade, abundância e fartura.

Ainda assim, é também na alimentação que se releva um dos aspectos menos parcimoniosos do quotidiano japonês: a utilização desenfreada de plásticos, num país onde se cozinha relativamente pouco em casa e onde em cada quarteirão há uma loja, da especialidade ou de conveniência generalizada, onde se pode comprar comida feita e rápida, quente ou fria, adequada à curta pausa laboral da hora do almoço ou a uma rápida recuperação calórica no regresso a casa depois da habitual longa jornada de trabalho. Levando a higiene a extremos insuspeitos, são diferentes embalagens de plástico, enfiadas em pequenos sacos de plástico, por sua vez acomodados em sacos de plástico maiores, aos quais se juntam outros adereços, como os guardanapos húmidos embrulhados em plástico, a garrafa de plástico com água ou chá, as eventuais palhinhas, enfim, uma parafernália plástica proporcional à obsessão com a higiene e a limpeza.

Verdade seja dita, ganhar-se-á nos cuidados de saúde individuais algo que se perde nos cuidados colectivos com o meio ambiente, que o plástico não desaparece por grande que seja o esforço de reciclagem. Não é só a questão alimentar: em todo o comércio se revela esta aparentemente desproporcionada preocupação com a embalagem, a protecção contra a possível contaminação, o isolamento higiénico sistemático. E para tudo há plásticos, de vários tipos. Não pode ser uma surpresa que o Japão, país de frugalidade e parcimónia, seja o segundo país do mundo onde o consumo de plástico por habitante é mais alto (ainda há os Estados Unidos). E se a limpeza e a higiene da urbanidade contemporâneas ficam exemplarmente asseguradas, já os ecossistemas parecem severamente atacados e os mares da costa japonesa são os que apresentam maiores níveis de contaminação por micro-plásticos no mundo. Talvez alguma parcimónia neste campo – não só no Japão, certamente – ajudasse a proteger um bocadinho este planeta tão mal tratado pelas sociedades industriais e pós-industriais.

26 Out 2018

A arte perdida de andar na rua

Para quem vive e escreve de dentro dos dias são sempre as pequenas coisas que contam. São muitas vezes sinais quase prosaicos, tão embrenhados na normalidade do quotidiano que só merecem atenção para o coleccionador de acasos relevantes. Como esta história de que fui testemunha: um dia como os outros, uma estação de metro lisboeta apinhada. Uma vez saída das carruagens a multidão dispersou para os seus destinos e vidas, alheia a tudo o que não lhe dissesse respeito.

À minha frente, um cavalheiro idoso avançava apoiado numa bengala, com o esforço dos anos em cada passo. A cabeça estava inclinada para a frente, o que atribuí à sua idade. Errei: na mão tinha um telemóvel, que parecia naquele momento todo o centro do seu mundo. Subitamente, sou ultrapassado a grande velocidade por uma mulher de meia-idade. A mesma posição cabisbaixa e pela mesma razão. Nem por um segundo terá pensado em erguer o rosto, saber onde estava, para onde ia. O resultado foi inevitável: com alguma violência abalroou o cavalheiro que seguia à sua frente. O homem caiu, mais surpreso do que ferido; a mulher olhou-o de forma quase indignada, à beira de pedir satisfações. Alguns transeuntes ajudaram o homem a levantar-se, a mulher balbuciou algo remotamente parecido com uma desculpa e continuou, cabisbaixa, a sua marcha irreversível.

O que me interessa e choca neste episódio não é a sua originalidade: é a sua banalidade. Todos os dias presenciamos esta gente cabisbaixa que invadiu o nosso mundo, as nossas ruas. Muitas vezes pertencemos-lhes por sermos iguais. Os passeios estão repletos de gente como nós, olhando para algo que não sabe o que é mas que aparentemente tem sempre uma urgência absoluta. Perdemos a capacidade de olhar, de ver o outro através do rosto e não de um ecrã. E perder o olhar para o outro é, quer-me parecer, abdicar um pouco de ser humano.

Exagero? Talvez. Mas experimentem parar, olhar, contemplar, flanar. Vejam o que vos rodeia. Vejam se gostam do que vêem. Não me interpretem mal: não é minha intenção lançar aqui um libelo contra as modernas tecnologias, que muito fazem para nos simplificar a vida. Mas não podemos desistir do olhar, da curiosidade pelo que está à nossa volta. Andar na rua – olhar, perceber, enfrentar, sorrir – começa a ser uma arte perdida, algo a que só estetas nostálgicos e exilados destes tempos parecem dar importância. Num romance de Evelyn Waugh, Put Out More Flags, há um personagem – um dandy decadente chamado Ambrose Silk – que lamenta o mundo em que vive, suspirando pela arte desaparecida da conversação e o “mundo sepultado de Diaghilev”. Daqui a pouco tempo suspeito que alguém irá lamentar a arte perdida de andar na rua. Na verdade já o estou a fazer.

Conseguimos, em séculos de evolução, chegar ao homo erectus. A ideia seria pelo menos conseguir manter esta condição. Porque ao olharmos apenas para um falso espelho arriscamo-nos a deixar a vida passar ao lado. Ou abalroar-nos de surpresa e sem desculpas.

24 Out 2018

Dor

Como agulhas espetadas debaixo das unhas. Acutilante prioridade dos sentidos que tudo reduz a pó, que rouba significado onde quer que possa encontrar miolo, até que o tempo pare de contar. Angústia constitutiva que diz quem somos, de onde viemos e para onde vamos, tudo se reduz a mim. Todas as preces e eucaristias, somas múltiplas de adorações, pedaços de vida devotos à transcendência são trazidos de volta à terra através de mim, a força maior. A lancinante puta, mãe de todos os nervos, vertigem dos corações desvairados, ombro falso dos solitários, oásis equivocado dos melancólicos. Todos retornam ao meu espinhoso aconchego, à concórdia deste nó que não desata e que só por fogo pode ser dissolvido. Poder que tolda a visão, que escurece os dias e que humildemente lembra às almas a insignificância da sua natureza, que mancha de fedor o perfume dos problemas quotidianos. Dona dos oprimidos e dos culpados, razão de ser dos pecadores, medida improvável dos descrentes e de todos os espíritos livres e autónomos de dogmas, de amores teóricos e falácias do marketing. Ferro em brasa onde mais magoa, rasgo libertador de sangue, rio de lágrimas gordas, sinfonia de gritos de desespero que dá música à natural dança do que é ser humano. Todos esmagados neste almofariz existencial, triturados até os ossos que se transformam em farinha fina sob a graça da minha pressão, regresso aos elementos químicos básicos, até todos serem energia cósmica que dói, que aflige as estrelas e molesta sem perdão as constelações. Náusea imensa que cresce bem para além das possibilidades, que se agiganta além das características dos sólidos e da fantasmagoria dos vapores. Asco que leva o estômago numa viagem de montanha russa sem altos, só baixos, sempre em queda livre sem ver o fim, sem descanso derradeiro que traga paz. Aflição máxima que busca e sonha com o breu, o silêncio, a dormência, o branco invasor onde se pode dormir em paz, livre o cansaço do sonho. Desejos de recompensas divinas da grande deusa palavra, amor incondicional a uma esquiva ideia de eloquência e ao espírito sempre elusivo, que escapa entre os dedos dos tolos. Captura-se a espaços, aqui e ali, em golpes de sorte e logo de seguida desvanece-se e retorna ao âmago do mal, ao lar das agonias, à certeza da mais completa banalidade devota justamente ao esquecimento. Um corte mais fundo que o outro, precipício íntimo em que se cai quando se pensa que se está a erguer de algo, elevação que se revela queda a pique. Abismo onde a sagacidade adormece quando os olhos se cerram e os dentes rangem. Sentir tudo, sentir e nada poder fazer quanto a isso. Incapacidade como essência perante a indiferença fatal da biologia. Não sou a dor que purifica, a dor que busca prazer, a dor sacramental de masoquista elevação espiritual, não sou a dor que adorna estados de mente, bibelôs emotivos ou desesperos recreativos. Sou o rasgo que devora nervos e que vive sempre com o homem e a mulher. Sou calvário, suplício e a mais completa das mortificações. Sou a implacável sílaba máxima que se berra surda em múltiplos “ais”, que dispensa verbo, predicado e que dilacera o sujeito. Para muitos, sou a via para o paraíso e o eterno sofrimento do inferno, essa evangélica contradição que é o cimento dos mitos. O meu nome é Adamastor, a soma de todas as tormentas, farpas enterradas em carne sensível, cilício cravado na fé, flagelação, a pena máxima aplicada a toda a criação.

22 Out 2018

A educação sentimental

O primeiro objecto que recordo é um avião de lata. O primeiro toque de que me lembro não é o de uma pele mas o da lata. Havia intrusa em casa, reclamada de mão em mão, armada de fraldas, pulmões, vagidos de aço e com regurgitos múltiplos. A minha irmã. Levei dias a lançar o avião de lata sobre o berço, num pretenso bombardeio. E não é que falhei, na mira e na aviação?

Aos cinco anos, apanhando a minha avó a urinar de porta aberta, eu, no corredor, fiz o pino para ver se lhe via o… O quê, espicaçou uma vez o Piruças. O ouriço, respondi-lhe pronto.

Aos seis anos tive o primeiro sonho erótico e percebi que me marimbava para o Édipo. Caminhava de mãos dadas com uma miúda ao longo de um socalco estreito, a meio de uma falésia ilimitada para cima e inacabável para baixo. O dia nascia, e cheirava a acetona. Andávamos aos espargos e sorríamos com a lâmina do caminho, no leve tremor dos afortunados.

Aos nove, à nonagésima oitava vez em que me masturbei, cismei que uma coisa tão boa só podia acontecer cem vezes na vida. Guardei as duas últimas para quando casasse. Aguentei-me três semanas, num desespero, até que me enfiei na casa de banho e meia hora depois ia na cento e quatro, enquanto a minha mãe perguntava, Caíste da pia?

Entrava-se na oficina por uma rampa. Aí, dois homens deitaram a primeira chapa de alumínio, com círculos perfeitos desenhados de alto a baixo; tendo-me depois um deles passado a tesoura para a mão. Eram para cima de 50 círculos, sem espinhas.

Tinha doze anos e tinha querido experimentar ser operário, numa serralharia.

Fiquei surpreendido pela facilidade com que a tesoura cortava o alumínio. E animei-me. Apesar do segundo círculo me ter parecido mais bicudo. Mas continuei a sorrir até ao sétimo círculo.

Ao almoço, o encarregado despediu-me com uma palmada nas costas, amarfanhando-me uma nota de vinte na mão. “É uma foda, mas talvez nunca venhas a ser operário, rapaz!”. E ofereceu-me um dos quadrados de alumínio que tão arduamente recortara. Aprendi aí a ambivalência da linguagem.

Os manos Ginga moravam ao lado dos meus tios-avós, na Azinhaga dos Besouros, na Pontinha. Três compinchas de Verão com uma pontinha de queques (os primeiros humanos que conheci atascados em polos e pulôveres) mas que não regateavam palmilhar o extenso vale de zínias e girassóis que nos separava da colina onde se empoleirava, clandestina, a Brandoa.

Uma tarde, nesse vale, a meio de um canavial descobrimos uma conduta de esgotos, relativamente seca e com tamanho suficiente para avançarmos agachados em fila indiana até misteriosos meandros. A conduta atravessava à Colina da Luz e desembocava num canal de drenagem, mesmo ao lado de uma boutique para senhora onde trabalhavam dois mimos de raparigas que inquietaram os nossos plácidos sonhos de Verão. Foi a conduta que me levou ao primeiro beijo.

Veio o 25 de Abril e os irmãos Ginga puseram-se ao fresco: o pai era da Pide.

Acordei tarde para os primeiros mortos, aos quinze anos. Já tinha visto amigos meus fecharem a cancela sobre o rosto e um deles, gémeo do falecido, cortou os pulsos. Nada me calhava, uma infância feliz, capciosa, sem fios de prumo.

Primeiro, uma avó, duma leucemia que apenas lhe carregou nos olhos a sombra chinesa que fora a sua vida. Depois o luto da namorada que me corneou.

Eu tinha-a acariciado a tarde inteira de sábado por cima dos collants. No domingo ela foi a uma festa com uma amiga onde um marmanjo a massajou por dentro.

Decidi vingar-me. Não fui um libertino, mas não me queixo.

Um dia engatou-me uma miúda no Estádio, ao Bairro Alto. Já estava aviadita mas, em casa, emborcou uma zurrapa de litro quase de um gole, empurrou-me para a cama e pediu bate-me. E eu lá fui fazendo muito pouco conforme o que podia. Na manhã seguinte foi franca: fora uma noite desenxabida pois, justificava-se, com o antigo namorado jogavam à roleta russa durante o coito. Retirei-me, desejando-lhe “boa sorte e bons danos!”.

E bom, mortifiquei de enfado uma dúzia de namoradas, quatro esposas, desiludi meia dúzia de amantes em encontros ocasionais e, no afã de me re-ligar aos libertinos, escrevi uma versão de Don Juan, um Don Juan cego que chegava às mil conquistas, até que em Sevilha o Papa fazia o primeiro milagre do seu pontifício e punha-o a ver. E ele perdia o dom, baratinado pela diferença que pela primeira vez descobria entre as mulheres.

Há vinte e dois anos encontrei a minha mulher actual. Farto-me de a trair, com as personagens femininas dos livros que leio, ou com as que escrevo. E mais não posso contar. Dizem porém que as personagens femininas dos meus livros são mais fortes que os meus homens: é porque as conheço biblicamente.

Contudo, nunca até hoje me tinha acontecido uma coisa tão grave.

Bebia uma cerveja no Mimmos, em Maputo, e vejo uma miúda expressiva, loquaz, com uma sensualidade exultante. Conversa divertidíssima com o namorado e vejo com raiva que não o invejo, renuncio a atrair um meteorito que lhe caia em cima neste momento, não desejo estar no seu lugar; apanho-me mesmo a pensar no quanto gostaria que ela fosse minha filha e no prazer que me daria tê-la ajudado a tornar-se no que é.

Deve ser isto a maldita maturidade, já não me deprime conceder que a minha apropriação do mundo não tenha de passar primeiro pelo sexo.

E, afinal, pedi para ser maduro, eu? Não me consola o desabafo do cineasta Luís Buñuel, ao chegar aos sessenta: “finalmente, vou libertar-me da tirania do sexo!”.

Francamente, meu caro Buñuel, envergonha-te: não passamos de duas bestas desemparelhadas da sã genealogia dos ursos, dois moles que preferem o desejo e a sedução ao estupro.   

11 Out 2018

Não voltarás a Casablanca

Que se saiba nenhum dos participantes na conferência de Casablanca de 1943, reunindo Roosevelt, Churchill, De Gaulle e respectivos áulicos, fez menção ao Rick’s Café, onde seria suposto desenfadarem de noite dos imbróglios e subtilezas diplomáticas que os Aliados entre si enredavam de dia. Tê-lo-iam as autoridades encerrado depois de averiguado o assassinato do major Strasser? Terão Rick e Renault cumprido a intenção de incorporarem as forças da França livre em Brazzaville tal como os ouvimos combinar?

Acerca disto resignemo-nos a uma perpétua ignorância. Certo e seguro é, contudo, que Rick e Ilsa nunca mais voltariam encontrar-se depois daquelas noites, em Dezembro de 41, de mortificante espera em Casablanca. Tal certeza tem inabalável base numa evidência. Se por acaso ou deliberação eles houvessem estado posteriormente juntos, fosse para caírem nos braços um do outro, ou para constatarem quão irremediável era a sua divergência, ou mesmo enquanto dois estranhos sem desejo de exumarem o passado; em qualquer das situações alguém teria filmado uma reunião tão querida e suspirada pelos milhões de corações românticos fendidos com o rasgo de virtude que separou Rick de Ilsa. E se não houve filme é indubitável não tenha havido reincidência.

Após um intervalo de 20 anos voltei a ser convidado para casamentos, agora a título de parente dos pais dos noivos. Não arrisco encalhar na periférica “Mesa 19” do filme (que é parvo, mas fere) porque me destinam assento no respeitável quadrante dos tios, daqueles que têm idade para desfrutarem do copo-d’água sem se engasgarem nas dúvidas existenciais próprias de quem sente o futuro a pedir-lhes contas. Em contrapartida é usual os comensais destas mesas tomarem a oportunidade como óptima para mansamente se embriagarem, sem culpa nem ostentação. Assim aproveitam bem o espírito da boda dando largas à melancolia e, nos casos mais melindrosos, ao remorso, interpelando o seu próprio e longínquo matrimónio. Onde estariam àquela hora se em vez do vínculo que os conduziu ali se tivessem decidido por alguma das alternativas em seu tempo preteridas? Nada disto é proferido, claro, porque a ocasião é de alegria e alegria se deve exibir; é só um pathos latente e sigiloso, para não envenenar a festa.

Afastei-me um pouco dos animados grupos que beberricavam sangria de frutos vermelhos (nome da moda de um xarope que rebuça vinho mau ou estraga vinho bom) à procura de um canto onde fumar. Ao lado do cinzeiro estacionava uma senhora encanecida e franzina, que evolava a classe indiscutível das avós insubmissas, das de gin em chávenas de chá, voz grave de timbre arranhado, clube de bridge, pele de muitos verões e cigarros finos de mentol.

Duas ou três larachas de circunstância não eram trocadas quando desferiu à queima-roupa: – Tu és o Zé Navarro? – O artigo definido suscita sempre um certo alarme, que fiz por apaziguar com a ironia de uma frase feita de filme americano:

– Quem pergunta por ele?
– Sou a Quica…

O passado equipara-se à má ficção, redigida por um escritor parcial e volúvel, incapaz de criar um nexo de causa e efeito naquilo que narra. Da Quica não me lembrava de nada a não ser da vivíssima memória que dela retivera: cenas fragmentadas, instantâneos soltos, expressões espontâneas, o contorno de uma silhueta esfumada, um par de cenários fixados pelo que neles aconteceu, roupa de inverno enrodilhada numa cadeira, um hálito.

E estas nebulosas reminiscências de modo nenhum se vinculavam à pessoa diante de mim.

– Reconheci-te pela voz.

Na expressão dela, que há-de ter reflectido o meu pasmo, transpareceu a mais nua e desprevenida sinceridade. Através do estrago que o tempo trabalhara nas feições do outro, ambos tínhamos acabado de aferir a justa medida do nosso descalabro físico desde aqueles impetuosos e desprevenidos dias de prazimento na década de 80.

Trocamos impressões durante um cigarro. Eram díspares e desfasadas as nossas entrecortadas recordações. O embaraço mútuo impediu de partilhar com aquela desconhecida a memória de peripécias e desenvolturas que decerto também ela guardava.

À saída do banquete procurei-a para me despedir, mas não a vi mais.

Ao contrário de Rick e Ilsa, a Quica e eu não fomos poupados ao desencanto com que a passagem do tempo conspurca o passado.

5 Out 2018

Diário incerto

Overbo ser. O mais universal poema da língua portuguesa: eu sou, tu és, ela, ele, isso é, nós somos, vós sois, elas, eles, essas coisas são. Solipsismo lírico diz o poeta. Rumo a sul. Há tantas coisas para fazer: máquinas de lavar. Levar a mãe ao médico. Uma palavra desconhecida que se vai ver ao dicionário. Um almoço quotidiano. E mais nada, mais nada. Lembro-me daqueles dias. Onde estão os amigos? Abrir um livro. Ter de escrever vezes sem fim. Quando não há que escrever, copia-se quem escreve. Uma música imitada mal na guitarra. Uma canção ecoa no vento de verão.

Dia 9

Vejo-te descer uma rua. Tenho a certeza de que tenho: solipsismo lírico, sul, máquinas de lavar, médicos, palavras desconhecidas, almoços, dias, amigos, livros, fins, escrever. Há uma música que ecoa. É verão. Uma canção, talvez.

Dia 8

Não ouço música há anos. Os dias passam com um problema linguístico. E, depois, vem a velhice. Vem a doença. Não se sabe o que fazer: ante a velhice nem a doença. “Agora, é que ela me deu”. É um sítio banal. Se calhar, uma porta de elevador. “Agora, é que ela me deu!”. “Ela” era a morte. Vamos ao rio. No rio, vemos Alcântara mergulhar no oceano. Bebemos uma água. Queres conversar. O teu melhor amigo está a ir-se. Choras. Olho para ti.

Dia 7

Não queres comprimidos. “Se aparecer uma miúda que ames, casa com ela”. Não vias nada. Às vezes, uma matrícula.

Dia 6

Aparecias-me atrás de mim. Acordavas três vezes durante a noite. Tomavas banho e escanhoavas-te. Perguntava-te por que razão. Voltavas para a cama. Ia resgatar-te vezes sem conta. E era o banho. Ensaboava-te. E o cabelo branco! Depois, dizias que não querias ir para o Hospital de INEM. Íamos de táxi.

Dia 5

Passou muito tempo. Querias uma cerveja. Dei-te muitas cervejas. Bebias um golo. Querias ir até sul. E fomos. “Quando encontrares um amor, diz para vir”. “Não importa nada. Vais encontrar um amor.” A tortura da gota é tremenda. Não queremos ficar fechados num quarto estreito. Não podemos bater em ninguém nem fugir. “O avô ama-te”.

Dia 4

Queria ser tudo: soviético. Fui alemão. Fui todas as nações. Cantei o nosso hino. Dizia: 10, 9, 8, 7, 6, 5. Onde estás? Pedias o Andy. Era atrás de mim. Vinhas de gravata. Íamos comprar o Público e o Diário de Notícias. Às vezes, Jogo. Se eu te perdia, atravessavas a Junqueira. Acenavas. “Estou aqui”! Dizia-te qualquer coisa como se tu me dissesses a mim. Regressávamos a casa ou o que era a casa.

Dia 3

Já te mijavas todo. Não sabias onde era o Norte da tua cama. De manhã, dizias-me: “vamos, então.” Depois, perdeste-te. Só se perde quem se encontrou. Tinhas pena de não ter nem namorada, muito menos mulher. Os teus filhos adoram-te.

Dia 2

Há uma rapariga que desce uma rua. Anos depois de teres morrido. Era, afinal, da mesma rua onde te prenderam. Tu que perdoaste quem te denunciou. Não foi aí que me declarei. Mas ela ficou tudo para mim. Não te vou explicar como ela é. É por pudor. Ela é linda. Mas sabias que seria assim. Ela tem um carácter indefectível. Ela desce uma rua com o “telefone portátil”, como dizias. Apoia tudo no lado esquerdo. Tem o braço direito livre. Sorri como ninguém. Faz-me lembrar a vida. Tu perdeste a tua. Eu gostava de ter a minha. Ela desce como ninguém. E, parece-me, encanto-me. Não há ninguém como esta miúda. Sabes: sou terno. Mas não importa. Talvez…

Dia 1

Passaram-se muitos anos. Mas não a fome. Não, o amor. Se calhar, chego a tempo. E chego àquela criatura.

Na rua onde vivemos em tempos diferentes, nos anos em que não podíamos ter-nos conhecido, em todo o tempo em que fomos sem sermos um com outro: esperávamos. E esperamos e esperamos. Não há nada que eu possa fazer.

E eu amo-a. E ela ama-me.
Seguimos o melhor que pudermos.
Não morreste nem o pai dela.
No céu, bebem um copo.
Eu amo-a como ninguém.

1 Out 2018

É isto

Éisto. Uma caixa fechada. O escândalo. O escândalo. Cheguei tarde. Não te conheci. Caixa fechada. Não há corpo. Toda a filosofia do ocidente o diz. O padre diz que não te conheceu. E conheceu-te. Tiveste filhos. Tiveste aspirações, desejos, amores. É isto. O escândalo. O escândalo. Seguimos em frente, João. Chegamos tarde. Cheguei tarde. Era uma feijoada. Era um jantar. A única a oportunidade.

Era um dia de calor. Ficamos. Foste. É um escândalo. O escândalo. Seguimos em frente. A memória. A fé. A saudade. Seguimos em frente.

Levaste gente sem número como o número dos grãos da areia. Foste ao litoral. Vieste ao interior. Tiveste filhos.

Onde estás tu só com pele?

Seguimos em frente. Numa aldeia próxima de Lisboa, com o cão negro de nome de presidente. Falamos de literatura. É preciso fazer. É preciso fazer. Livros são como hortas. E os teus filhos ficaram meus irmãos. E o teu filho é meu irmão. Cita o Evangelho.

Voltarei. Voltarás. Não chorarei mais. A alegria é a esperança.

Não faz mal. O amor é mesmo assim. Eras o meu pai. És o meu pai.

Já não há nada. Nunca há nada sem ti. E eu entrego o coração. O meu coração é teu.

Tenho mulher e filhos. Tenho-te a ti, meu amor. Tu segues o teu caminho. Eu perdi-te. Sei que o amor existe. E choro por ti.

Tudo passa. Nada fica. Nada ficará.

Eu encontro-te no teu corpo.

Eu encontro-me no teu corpo.

Eu encontro-te no teu corpo.

14 Set 2018

Três vistas sobre uma rua

Uma rua absorve o espaço todo de uma cidade. Implode-o em si. A rua vai dar a outras ruas e outras ruas vão dar a ela. Pode fazer-se a pé o caminho que leva a ela ou a partir dela se vai a outras ruas, mesmo contra o sentido da marcha dos automóveis. A rua, onde vivemos, é um cenário que acaba nos seus extremos, nas ruas à esquerda e à direita de que só adivinhamos a existência, mas não temos em percepção. Há prédios de gente que o habita. Há jovens casais e velhos. Há o sapateiro, a mercearia, casas de pasto. Há paragens de autocarro, casas de habitação e agências de viagem, agências bancárias, casas de moda. Carros passam e pessoas caminham pelos passeios: avós e netos, pais e filhos, irmãos e irmãs. Uma rua é um ecossistema complexo. Demora tempo a habitar uma rua. Pode ser a “personalidade” orgânica, onde uma criança brinca com outras crianças desde sempre: joga à bola, corridas de carros nas bermas do passeio. Pode ser a rua, calcorreada a passo lento de quem é decrépito e tem a vida toda vivida e espera pacientemente pelo último suspiro. Todas as ruas são este ecossistema para quem vive nelas. Mas há também as ruas, onde ficam os sítios em que trabalhamos ou o liceu ou o ginásio. Há as ruas onde vivem os nossos amigos que são também por direito próprio as ruas dos outros. Cada rua, excepto a nossa, é a rua dos outros. Podemos até vir a viver nas ruas dos outros, próximos dos outros e das suas ruas. A rua onde vivemos vai ficando esbatida. O seu sentido permanece. O seu significado fica sempre algures a fazer-se sentir. O que se esfuma são os rostos de quem por lá passou. Nem nos apercebemos de que são agora adultos, quando há quarenta anos eram crianças. O parque automóvel mudou. As fachadas dos prédios foram pintadas com cores diferentes. Os velhos morreram. O sapateiro fechou. Não há mercearias, nem agências de viagem, nem agências bancárias. Há prédios novos no lugar de prédios velhos. É uma outra rua.

Mas há tantas ruas, também, quantas as pessoas que as habitam. Num prédio de quatro andares, por exemplo, e quatro apartamentos habitados, há uma multidão de gente. A rua das pessoas do segundo andar esquerdo é diferente da rua das pessoas do segundo andar direito. O que se passa nas suas casas é inacessível, mesmo quando ouvimos falar do que acontece a cada família: um filho que adoece e um pai que morre. Mas, mesmo no habitual habitável, quando tudo é normal, as ruas são influenciadas pelas casas, porque as pessoas habitam uma rua, vivem numa rua, existem nela! Não estão lá postas nem para lá são atiradas, para serem referenciadas por coordenadas. É outra a maneira de ser numa rua. A rua toda entra por olhos adentro. Há os sons omnipresentes dos elétricos que passam, sem nós os vermos. Há o ruído dos carros a passarem na Ponte Sobre o Tejo. Há cães que ladram à noite. Há o som que se silencia ao entardecer, quando as pessoas chegam a casa e preparam o jantar. Há os sons das crianças que gritam de chegar a casa e estarem no serão à espera do sono dos anjos.

E a mesma rua pode ser completamente diferente. Uma rua que é a nossa referência na cidade tem épocas. É uma rua onde podem viver pessoas que nunca se conheceram e um dia percebem que a viveram em dias diferentes da semana. A rua pode ser habitada ao fim de semana sem poder conhecer ninguém que lá viva aos dias de semana. A rua é a da infância, da juventude estridente, dos primeiros anos do envelhecimento dos avós. A rua é diferente, quando nos chega uma notícia boa e quando nos chega uma notícia má. A rua é diferente na solidão do solitário e quando é partilhada na geografia e na biografia de duas pessoas que se encontram. A rua é diferente, quando é habitada e quando é só preenchida pela vida azul da melancolia solitária. A rua congelada no tempo, em que nada acontece, é diferente da rua que se funde e derrete, num dia solarengo de Verão, quando se espera a chegada de alguém, apenas por servir de chegada a alguém por quem faz sentido esperar.

27 Jul 2018