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Santa Bárbara, Lisboa, 17 Fevereiro

Tinha passado há dias, na RTP2, mas quem ainda vê tevê na hora da emissão? «Un vrai faussaire», de Jean-Luc Léon sobre Guy Ribes, justifica mais do que um visionamento, tantas são as nuances, pinceladas no retrato do protagonista, marteladas na construção do mercado da arte, subsídios para as técnicas de imitação dos mestres. Bastariam logo os primeiros socalcos da biografia para o verdadeiro falsário se erguer personagem, com infância espraiada em bordel e cinema familiar, disciplinada pintura de tecidos e vivência de rua em Lyon, mas a gigantesca e cuidada produção e o complexo jogo de relações e modos de fazer confirmam que se tornou, ironicamente, artista.

Tout court. Enquanto desvelava, de pincel na mão e com líquida facilidade, um Matisse, que prometeu destruir uma vez acabado, foi discorrendo sobre o tempo de estudo e preparação que investia, acerca do cuidado com materiais e gestos que aprendeu de experiência, além da fulcral criação do seu próprio gosto, onde pontuava Chagall.

(Terei gasto namoro à volta de um falso?) A quantidade e a qualidade do que foi imitando e, sobretudo, o entendimento da mecânica (quântica) do sistema de certificação dos vários valores, sendo o artístico o menos importante, contaminou o sacrossanto mercado de tal modo que se estabeleceu estranho consenso: não apurar até às últimas consequências o que pertence, de facto, a quem. Por medo de tremendo cataclismo. Afinal, como Ribes bem afirma, é o falsário quem nos dá o que desejamos. Ao nosso preço.

Horta Seca, Lisboa, 1 Março

Outro traço se interrompeu. Artur Correia (1932-2018), de tão modesto, deixa-nos frames antes de receber o Prémio Sophia de Carreira pelo seu contributo para o desenvolvimento do cinema de animação. Pena tenho de não o ter chegado a homenageá-lo da maneira que me parece melhor: mostrando e pensando obra. Conservo religiosamente os ensinamentos da Família Prudêncio e, agricultor que nunca fui, uso os pesticidas com cuidado, (https://youtu.be/e7TfXfJrueQ). Em querendo desencantar memórias sobre o que foi o 25 de Abril de 1974, ajuda sempre uma releitura de «O País dos Cágados», que Artur desenhou para o texto de António Gomes Dalmeida. Há uma edição recente da Bertrand, mas prefiro a original, no mesmo preto e branco dos Prudêncio, coisa prévia. Saravah!

Chiado 8, Lisboa, 1 Março

Muito pelo esforço de João Miguel Barros, também ele fotógrafo com exposição no CCB (Photo-Metragens), e que encontrou na Ana [Fontoura], da Fidelidade, a melhor das interlocutoras, Lisboa virou sala panorâmica da fotografia chinesa contemporânea. Chegou a vez de Yank Yankang, que pendurou na Chiado 8, O Espelho do Alma e assim transfigurou a galeria em porto de abrigo, o palacete em capela. Em pleno bulício transnacional, cegueira turística, corrupio urbano-depressivo, abrem-se visões para o Tibete íntimo dos praticantes do budismo, para o bailado da fé com o natural, janelas para a neve, a nuvem, a montanha e o pássaro.

A ideia de clássico assenta neste rasgar de passagens entre os tempos, do ontem que perdurará no amanhã. Este preto e branco apresenta-se-nos cheio de cores e vozes. E temperaturas do espírito. Um monge, de costas para quem o veja, enfrenta o vale que se desfaz em sucessivos horizontes de cinza, com as vestes ondulantes a confundi-lo mais com a paisagem.

Na mão direita, um cajado rude ergue-se sinal único do humano. Aquele braço é a fé. Crianças-monge praticam a Dança do Dharma, diz a legenda, mas são quatro putos a brincar à apanhada com as sombras. Apenas o mais próximo de nós agarrou a sua com o pé, os outros voam presos nas gargalhadas. E são tantos os pássaros que perturbam os céus e os corpos a quererem sê-los. E a luz, onde Yankang tão bem os sabe conservar.

Sobre mesa minúscula, uma criança-monge assenta os Sutras que recita. Do outro lado de uma luminosa diagonal, monge (águia ou falcão ou emberiza-das-neves?) mais velho toca o tecido. A sombra resguarda-se na luz, que permite a aproximação de cada uma das nossas idades através do olhar (nesta página). Qual o lugar da fé?

Barraca, Lisboa, 2 Março

Considere-se atirado às feras leitoras o novo do Valério [Romão], concerto de fragmentos para duas vozes em desagregação sinfónica: «Cair Para Dentro». Na cadência dos avanços e recuos, nas cavalgadas interiores ou na dança dos diálogos, no compasso da poesia, nas descidas ao mais íntimo, nas cenas de identificável exterior, estende-se em pano de fundo o perfume da musicalidade.

Talvez atonal ou minimal ou impressionista, seguramente jazzística. Quando muitos esperavam uma qualquer pirotecnia na abordagem ou na construção, o Valério apurou o que tem de melhor e aplicou-o a um tema temível (assuntos aterradores são uma das suas melhores escolhas): alzheimer.

E nele se jogou por inteiro, brincando com a filosofia que aprendeu, fazendo do verso ferramenta, sem nunca perder o humor, mas deixando em aberto um final. Inevitável. Valério pede mais leitores que banhistas da narrativa. Na magnífica apresentação, Eric Nepomuceno, para além de assinalar as qualidades do «puta romance!», inscreveu-o no coração de íntima reflexão.

Dizia ele que, sem a memória, morreria. Viu amigos próximos esquecerem-se de si, presos por filamentos de afectos, um gesto, uma canção, um poema. Que bom seria ter crítica assim, capaz de fazer íntimo o assunto do que lê, sempre à distância do conforto. Depois houve festa. E tantas, mas tantas conversas interessantes que merecia ter ficado aboborando uns dias. E escrevê-las para não esquecer. Esqueci tanto, esqueço tanto, que chego a duvidar que viva.

Horta Seca, Lisboa, 4 Março

À minha volta, cada papel diz afazer, resposta por dar, ansiedades em ferida, atrasos gritantes, resolutas irresoluções. A magia da procrastinação acontece em todo o seu esplendor de derivas, de possibilidades, de leituras sem nexo, de ideias a pedir poda e rega. Parar o rodopio, afastar-me do feicebuque, calar os papéis um a um, de modo a permitir que outra respiração se instale custa cada vez mais. Por vezes, a música ajuda.

Noutras faz-se cavalo e planície, velocidade e acolhimento, convidando à viagem. Um dos encontros deste Correntes foi o Mû Mbana, perfil de príncipe e voz cava, de onde escorre a noite. (Aliás, aconteceram-me mais vozes: a do José Luiz [Tavares], em versão morna; a do Renato [Filipe Cardoso] trocadilhando em grave a palavra-armadilha; ou a do João [Rios], ripostando e ribombando).

O seu álbum Iñén corre em loop a baralhar-me as coordenadas, alargando espaços, dando nós ao tempo. Entre o sussurro e o grito, percorre altas profundidades descalço à flor da terra, com enorme riqueza de instrumentos, muitos deles recuperados ao esquecimento, por si tangidos da mesma maneira que a voz nos toca a nós: com delicadeza e fogo. Eis que o ponto de partida acontece ser esse meu velho fascínio: mãos, «as mais poderosas ferramentas que temos».

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