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Horta Seca, Lisboa, 3 Março
O fecho da Pó dos Livros, em Lisboa, e da transferência da livraria do Miguel Carvalho do centro de Coimbra para o nenhures da internet, anunciados no mesmo dia, suscitaram intervenções abrindo talvez um debate. O tom de Pacheco Pereira (https://www.publico.pt/2018/03/03/culturaipsilon/opiniao/o-combate-civilizacional-pelos-livros-e-pela-leitura-1805167) vem tintado de catastrofismo, a que António Guerreiro (https://www.publico.pt/2018/03/09/culturaipsilon/opiniao/o-saudavel-odio-aos-livros-1805548) acrescenta uma pincelada de tremendismo anarquista. Muitos assuntos se embrulham neste, a suposta morte do objecto livro, a crise da leitura ou uma indústria escrava das armadilhas económicas em que se deixou enredar. Dou-lhes razão aqui e ali, sobretudo na crítica às análises preguiçosas, à ausência de estratégias colectivas, do estado e não apenas, às ideias feitas que se propagam à velocidade da luz.
«O problema não é substituir os livros por um ecrã de um telefone inteligente ou de um tablet – o problema é o mito perigoso de que a “leitura”, mesmo numa forma diferente, está a emigrar de um meio para outro, porque não está», diz Pacheco, que continua. «O que se está é a ler diferente, pior e menos, como se está a “saber” demasiado lixo – meia dúzia de performances rudimentares com as novas tecnologias – e pouco saber. A morte das livrarias é um aspecto desse soçobrar no lixo, mas infelizmente estão demasiado acompanhadas pela morte de muitas outras coisas, do valor do conhecimento, do silêncio, do tempo lento, da leitura, da verdade factual, e da usura da democracia.» Contudo, a democracia deu passos importantes para ir apagando o ódio à cultura da ditadura. Basta pensar na rede pública de bibliotecas, ou na outra de bibliotecas escolares, que deram passos enormes na defesa daquilo a que Pacheco chama valor civilizacional: «caminhar do fim do analfabetismo para uma qualificação da leitura como modo de dominar melhor o mundo e a vida de cada um.»
Perdida que foi a lentidão e o silêncio, editam-se títulos de mais, com tiragens cada vez mais reduzidas. Tem razão, Guerreiro: «não é o livro que está em perigo (esse, é produzido em abundância); o que está em perigo (e não faltam no últimos anos os gritos de alarme, um pouco por todo o lado) é precisamente o sector da literatura, do ensaísmo, da ciência e das humanidades, que foi, até ao momento em que a edição seguiu o modelo do consumo e da produção industrial, o tronco da actividade editorial. Tanto livro, tanto livro, mas a maior parte do património literário está completamente ausente da edição e, ainda mais, das livrarias. Podemos dizer que os livros gozam hoje de um prestígio que, na generalidade, já não merecem; e que não há maior injustiça do que o triunfo deste canibalismo do lixo editorial que, ainda por cima, se alimenta do capital simbólico daqueles que ele devora.» E sugere então, à maneira de Bakunine, «destruição que faça tábua rasa da ordem existente. Aguardamos com impaciência e pouca esperança um assalto total perpetrado por grandes destruidores.» Contudo, ainda há quem se esforce por construir património e memória, mesmo sendo difícil colocá-lo nas livrarias-vampiros de novidades, que são sempre a mesma habitualidade. E a edição tem conseguido manter-se algures lugar de resistência e laboratório de pensamento. Ainda que se esteja a ler pior, em país que não ama os livros, não creio que a solução seja baixar os braços, mas procurar criativamente, e usando as tecnologias, formas de encontrar leitores para os livros que interessam. Sim, não basta ser livro para ser bom. O embaratecimento da oficina gráfica e a democratização do ensino fez explodir a vontade de cada um se ver publicado. Eis um dos múltiplos charmes do livro, a ilusão de posteridade. Por outro lado, têm surgido algumas livrarias, apesar dos pesares, como a Leituria, a Tigre de Papel, a Menina e Moça ou a da Cossoul, para citar quatro, só em Lisboa, de personalidades bem distintas. Será um combate, e, por mim, destruía já a figura da consignação, mas também não acredito na ideia romântica de grandes destruidores. Não me rendo e por isso continuarei a contar a anedota da diferença entre o optimista e o pessimista. O primeiro acredita que este é o melhor dos mundos. O segundo também teme que sim.

Horta Seca, Lisboa, 5 Março
Pela mão amiga da Ana [Matos] sou recebido por um pequeno catálogo cheio de céu azul. E nuvens! «Luz Cega», do Cláudio [Garrudo], catálogo da exposição homónima na Travessa da Ermida, traz ainda uma edição especial, a 13/50, de um altocumulus a estender-se horizonte sobre o qual projectarei os dias seguintes. Este azul contém uma intensidade que nos interroga, que nos perturba, que nos humaniza. Nem o céu nos limita. A matéria da nuvem toca-me, de tão concreta.

Casa Fernando Pessoa, Lisboa, 7 Março
Esperava pela reunião e o dia estava chuvoso, mas o relâmpago aconteceu ali dentro. A meu lado, com a discrição e minúcia do ourives, brilhava o pequeno desenho no qual Mário Botas faz atravessar banqueiro careca e caixa d’óculos de anarquismos vários, um cavalo, uma casa, a cadeira de cerimónia, documento ou jornal debaixo do braço, um chapéu-de-chuva, inclinando-o em resposta à gravidade da situação. Veio do passado o momento em que conheci o anartista, em exposição de Pessoas seus, na Biblioteca Nacional onde entrei clandestino, por ser menor, para me extasiar a ponto de pedir autógrafo. Anda por perto, o singelo postal, cópia do original que agora me perturba. Por, de súbito, me surgir como possível retrato meu no papel de doido empreendedor? Espreitei outras peças do acervo da casa múltipla escolhidas pelo António Viana para «Os Deuses Debruçam-se do Parapeito da Escada», mas só aquela continuou a vibrar em mim.

Casa da Cultura, Setúbal, 9 Março
Antes de subir à sala José Afonso, para conversa animada pela Rosa [Azevedo] sobre as quedas para dentro do Valério [Romão], tive tempo para experimentar a peça que a Estelle [Valente] encenou para rosto-palco da Carla [Maciel]. Não custa explicar a ideia por detrás de «Carla no Papel»: a actriz faz de outras actrizes, Marilyn, Marlene e Greta, personagens suas. (Exemplos nesta página.) Diz a Carla que foi «procurar nestes rostos míticos, que ascendem ao inatingível, a verdadeira essência destas heroínas.» Custa um pouco mais explicar a beleza explosiva disto. Os grandes formatos apresentam-se muito simplesmente, em jogo de espelhos, como ícones: estão ali os corpos e as almas daquelas figuras. Não tanto por força da máscara, da pose ou de qualquer outro artifício, mas pelo trabalho de personagem e a entrega da Carla que o olhar cúmplice da Estelle captou para esculpir com luz. Uma actriz pode bem ser fotografia, o papel onde deixa que se imprima o rosto das suas personagens, um céu de ler destinos. Carla no papel de Greta, de Marlene ou de Marilyn diz ainda que o abstracto tende a acontecer onde menos se espera.

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