PARTILHAR
Fátima Lopes chega a Macau pela mão de um seu conhecido: o multifacetado Rui Carreiro. O açoriano vende pequenas quantidades de sapatos da estilista portuguesa, principalmente a clientes mais fiéis. Um negócio de proximidade a meio mundo de distância da linha de produção

A venda dos sapatos da marca Fátima Lopes são como um pequeno rumor, que passa de boca em boca. É assim que funciona o negócio do açoriano de gema, “com sotaque”, Rui Carreiro. Relação directa com os clientes que, normalmente, são amigos, ou conhecidos. Quando interrogado sobre como caracteriza os fregueses, garante que “quem procura os sapatos da Fátima tem muito bom gosto”. A clientela é variada, um pot-pourri social. Tanto pode ser a senhora que trabalha num escritório, uma dona de casa, uma bailarina, passando pela empregada de bar e restauração. Por vezes, o boca a boca chega a desconhecidos. “Vendi três pares de sapatos a três australianas que estavam cá de passagem. Já me ligaram a perguntar quando tenho mais”, conta.

Rui é um homem dos sete ofícios e a venda de sapatos não é algo que faça como fonte primária de rendimentos, assim como o acolhedor salão de cabeleiro onde corta cabelos, que encara como hobby. Trabalha principalmente como wigmaster em espectáculos que passam por Macau e que o levam a viajar mundo fora.

Quando se soube que vendia sapatos de Fátima Lopes, o pequeno stock que tinha voou das prateleiras. Rui não tem uma sapataria, mas compra pequenas remessas de calçado da estilista portuguesa. Da mesma forma, não tem uma loja de roupa, mas é bem capaz de “daqui a uns meses ter dez camisas de homem para vender”. A ideia é colmatar pequenas necessidades dos clientes, até porque a oferta neste sector de negócio é limitada em Macau, na óptica do açoriano.

Tesouros de nicho

“O meu foco aqui é ter produtos portugueses, se for açoriano tem prioridade, como é lógico, via verde, não pára na portagem”, explica Rui. Como seria espectável, os sapatos tiveram grande aceitação. “Vendi-os logo na primeira semana, o que não é de estranhar porque já os trouxe a pensar no cliente final.”

Neste momento, prepara-se para fazer mais uma encomenda da próxima colecção, nos mesmos moldes, uma pequena remessa. “Como digo sempre, não é para massas, mas para um reduzido nicho de mercado, porque Macau é pequeno para um volume de negócio maior.” Não é essa a prioridade de Rui Carreiro, que vê na massificação uma perda de identidade, um “copy paste”, uma repetição ao estilo do fast food, o que poderia representar a “perda do nicho de mercado”. Além disso, a venda a retalho poderia retirar ao açoriano o prazer de “viajar e trazer algo novo, excitante”.

Senhora de Fátima

“Conheço a Fátima há algum tempo porque trabalhei em moda em Portugal.” Rui trabalhou como manequim, travou conhecimento com Fátima Lopes em Lisboa e também privou com a estilista enquanto produtor da Moda Açores. A relação nasceu daí, começou como profissional, mas tornou-se um pouco mais pessoal. “Normal quando dois ilhéus estão a viver em Lisboa. Não é como ser emigrado, estás dentro do mesmo país, mas tens falta das tuas raízes, falta-te também um bocadinho de colo e a Fátima, digamos, foi também um amparo”, recorda.

Foi assim que nasceu o pequeno negócio dos sapatos, de uma forma casual e amigável. Na última vez que Rui esteve em Lisboa encontrou-se com a estilista, que tinha relançado a linha de calçado. Almoçaram, puseram a conversa em dia, e Rui regressou a Macau com dez pares de sapatos. “Achei-os muito bonitos, essa é uma característica que tenho, não vendo nada que não goste.”

Quanto ao crescimento da marca Fátima Lopes em Macau, Rui não consegue prever o futuro. “Isso depende se fico em Macau, ou não. Estou cá há sete anos, que é aquele período em que a relação pode passar a ser ralação”, explica humorado. De qualquer forma, é uma marca que se vende a ela própria. A estilista tornou-se uma referência internacional, “até mais no exterior, do que propriamente em Portugal. Ela já está na China, conseguiu entrar agora, está na Austrália, Europa e nos Estados Unidos”.

Vem aí a próxima colecção e Rui venderá, novamente, um número limitado de pares. A ideia do açoriano é ir adocicando os clientes com pequenas preciosidades, ir buscar modernidade à tradição lusa e trazer magia a um punhado de fregueses.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here