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Michel Reis

Takashi Murakami é um dos mais internacionalmente aclamados artistas contemporâneos dos nossos dias. Nascido em 1962 em Tóquio, estudou na Universidade de Artes desta cidade, onde concluiu a sua licenciatura, mestrado e doutoramento. Fundou a fábrica Hiropon em Tóquio em 1996, que mais tarde se transformou em Kaikai Kiki, uma corporação de produção e de gestão de arte. Para além da produção e marketing da arte de Murakami e trabalhos relacionados, Kaikai Kiki funciona com um ambiente que apoia e promove artistas emergentes, colabora com músicos e marcas corporativas e produz cinema e animação.
Um autêntico pára-raios de diferentes valências culturais (antiga/moderna, oriental/ocidental), Takashi Marukami acredita que o artista é alguém que compreende as fronteiras entre os mundos e que faz um esforço para os conhecer. Com o seu distintivo estilo e etos “Superflat”, que emprega técnicas altamente refinadas de pintura japonesa clássica para retratar um conteúdo que mistura conteúdos sobrecarregados de Pop, anime e otaku (termo japonês para pessoas com interesses obsessivos, vulgarmente fãs de anime e manga) num plano figurativo representacional espalmado, Murakami movimenta-se livremente num campo sempre em expansão de questões estéticas e inspirações culturais. Paralelamente a temas utópicos e distópicos, evoca e revitaliza narrativas de transcendência e esclarecimento, envolvendo frequentemente especialistas alheios. Minando temas religiosos e seculares favorecidos pelos chamados “excêntricos japoneses” ou artistas não-conformistas do início da era moderna, comummente considerados como sendo homólogos à tradição romântica ocidental, Murakami situa-se a si mesmo no seio do seu legado de forte e activo individualismo de uma forma que é inteiramente sua e do seu tempo.
Para além da uma exposição retrospectiva sua, que teve início no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (“©Murakami”) em 2007, e que viajou para museus proeminentes em todo o mundo, Murakami realizou instalações de grande escala em vários locais como o Palácio de Versailles (“Murakami Versailles”) em 2010, e no Qatar (“Murakami – Ego”) em 2012, deixando a audiência global perplexa com a escala massiva e a qualidade polida das suas obras. No entanto, tais exposições têm sido extremamente limitadas no Japão.
Na sua há muito aguardada exposição a solo no Japão, no Museu Mori em Tóquio, que acaba de encerrar, a pintura de Murakami, “Os 500 Arhats” (os discípulos iluminados de Buda), com 100 metros de comprimento por 3 metros de altura, uma das maiores pinturas alguma vez produzidas na história global da arte, foi exposta no Japão pela primeira vez. A obra foi criada como prova de gratidão ao Qatar, um dos primeiros países a oferecer assistência na sequência do Grande Terramoto e Tsunami do Leste do Japão, revelado em Doha em 2012. A exposição integrou “Os 500 Arhats” e uma série de obras novas de pintura e escultura, nas quais este artista maduro, que trabalha com uma energia, talento artístico e escala surpreendente, continua a oferecer novos desafios à história da arte contemporânea. A exposição proporcionou ainda uma oportunidade de examinar o papel da arte e da religião no que respeita à agitação social e à mortalidade humana, assim como tomar contacto com a profunda exploração do poder da arte para iluminar a nossa compreensão da condição humana e das realidades do mundo em que vivemos.
Recrutando mais de 200 alunos de universidades de arte japonesas, Takashi Murakami levou a cabo a árdua tarefa de completar a sua magnum opus “Os 500 Arhats”, num espaço de tempo muito curto. A obra consiste em quatro secções ostentando os nomes dos lendários guardiões chineses dos quatro pontos cardeais (Dragão Azul – este, Tigre Branco – oeste, Pássaro Escarlate – sul, e Tartaruga Negra – norte). Abordando os temas da religião e da arte, da mortalidade e das limitações, pode dizer-se que esta obra monumental abre um novo caminho na criatividade de Murakami. Revelada pela primeira vez fora do Japão, a exposição realizada no Museu Mori constituiu o “regresso a casa” e a estreia mundial da obra completa de “Os 500 Arhats”, visto que alguns elementos e detalhes lhe foram acrescentados. Além disso, ao expor partes de materiais vastos usados na produção, tais como desenhos, materiais de pesquisa, e instruções de esboços, a exposição permitiu ainda vislumbrar o sistema de produção de obras de arte de Murakami.
Os 500 arhats são tidos como discípulos de Buda que espalharam os seus ensinamentos e conferem às pessoas comuns a salvação dos desejos mundanos. A fé nos arhats foi levada ao Japão durante o período Heian (sécs. VIII – XII) e floresceu através do país durante o período Edo (sécs. XVIII – XIX) na forma de pinturas e esculturas. Os Quinhentos Arhats de Kano Kazunobu (1816-63), que se encontram no tempo Zojoji em Shiba, em Tóquio, consistindo numa série de 100 pinturas em rolo que retratam as vidas e feitos dos lendários 500 discípulos budistas, foram expostos no Japão pela primeira vez na sua totalidade no Museu Edo de Tóquio imediatamente a seguir ao Grande Terramoto e Tsunami do Leste do Japão e na Galaria Arthur M. Sackler, do Museu Smithsonian em Washington D.C., em 2012. Ambas as exposições foram alvo de uma tremenda atenção do público.
Desde o início da sua carreira que Takashi Murakami vem tentando capturar personagens de anime e manga como uma extensão da tradição Nihonga. A pintura com 30 metros de comprimento A Picture of Lives Wriggling in the Forest at the Deep End of the Universe, exibida na exposição, é a sua última variação sobre 727, uma importante obra anterior na qual surge a personagem original de Murakami, o Sr. DOB, montado numa nuvem de uma forma reminiscente à pintura em rolo do período Heian Shigisan Engi (A Lenda do Monte Shigi). Esta pintura recente, na qual as várias personagens e temas que Murakami retratou nos últimos 20 anos são combinados num único plano, pode ser comparada a um álbum dos “maiores êxitos” no qual as obras-primas do artista são coligidas. Tradicionalmente, os espectadores podem tentar discernir o significado de uma obra através do seu título, mas aqui, de facto, não há ligação entre as duas coisas. Murakami pretende que os espectadores imaginem a obra através da leitura do título e que então se achem perplexos com a pintura real, ou como ele próprio coloca a questão, “estar no limiar de compreender a obra mas acabar perplexo”. De acordo com Murakami, “guardar uma distância avassaladora da realidade quando se está a ver uma obra” é uma parte importante da arte. Nas quase psicadélicas pinturas abstractas de Murakami, podemos observar uma mistura de efeitos especiais tipo Star Wars, pintura japonesa e americana avant-garde do pós-guerra, e caligrafia, manifestando-se em formas da Nova Pintura dos anos 80 e em fantasmas do manga de Mizuki Shigeru. As suas pinturas ensō representam simbolicamente não apenas o esclarecimento, a verdade, e a natureza de Buda, mas também o universo na sua totalidade. Ao regressar a temas tradicionais como a transcendência e o esclarecimento e ao revisitar pinturas clássicas assim como o seu próprio trabalho, Murakami dá vida nova ao passado e afirma estar a “prolongar a vida da pintura”.  

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