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Não uma mas duas feiras de arte tiveram lugar recentemente em Hong Kong, a venerável Art Basel e a sua ousada congénere com apenas dois anos, Art Central. Foram preenchidas por um calendário superlotado de exibições em galerias como a Simon Lee e 10 Chancery Lane e espaços de exposição experimental como Para Site e Spring Workshop. O mundo da arte coroou definitivamente Hong Kong como o epicentro da arte na Ásia. E há mais no horizonte: duas importantes instituições novas – Tai Kwun no recinto da recentemente restaurada Esquadra de Polícia de Central e o M+ museum, praticamente concluídos, e mais galerias que se instalam ao longo das ruas inclinadas de Hong Kong todos os meses, contando-se entre as mais recentes a Massimo di Carlo e Sprüth Magers.
Hong Kong fez progressos notáveis no estabelecimento de um mercado de arte rentável e de um cenário artístico cada vez mais vibrante, na sua maior parte conseguido em menos de uma década. Mas conseguirá a cidade sustentar a sua classe criativa para alcançar a mistura de mercado e execução que impele a máquina de arte de Nova Iorque e Londres? Conseguirá saciar as exigências culturais não apenas de coleccionadores caprichosos, mas também de cerca de sete milhões de indivíduos que chama a Hong Kong a sua casa?
Muito antes das primeiras incarnações das agora estabelecidas feiras de arte, as leiloeiras fizeram o trabalho de sapa do vibrante mercado de arte da cidade. A Christie’s escolheu a Hong Kong de antes da transferência de soberania como catalista da sua subsequente expansão asiática, abrindo aí um escritório em 1984. Mais de 30 anos mais tarde, a empresa tem cerca de 180 funcionários nas suas instalações de 4800 m2. Em 1991, a Christie’s Hong Kong tornou-se a primeira leiloeira internacional a realizar um leilão inteiramente dedicado à pintura chinesa a óleo contemporânea, com vendas a somar 1.1 milhões de dólares americanos. Foi um momento decisivo, precursor do mercado para a arte contemporânea chinesa hoje, no qual obras individuais por pintores de Wu Guanzhong a Zao Wou-Ki frequentemente alcançam aquele montante no leilão – quando não 20 vezes esse valor.

Durante algum tempo, os leilões desfrutaram uma espécie de monopólio na compra e venda de arte em Hong Kong. Tudo isto mudou em 2008 com a estreia da ART HK, a feira de arte que estabeleceu as fundações da Art Basel de hoje em Hong Kong.
A feira pode gabar-se de ter tido ao leme uma equipa de peritos: Sandy Angus (cujas incursões seguintes incluem a India Art Fair, ArtInternational de Istanbul, Art16 de Londres, Photo Shanghai e Art Central), Tim Etchells (da Art Central, Art16, e Sydney Contemporary), Will Ramsay (das PULSE e Affordable Art Fairs), e Magnus Renfrew, que mais tarde dirigiria as duas primeiras edições da feira sob os auspícios da Art Basel. Renfrew continua a ser um membro influente do Hong Kong Arts Development Council e a dirigir o Conselho Consultivo de Para Site.
Havia de facto uma lacuna no que se refere a uma feira internacional importante que pudesse introduzir, ao mesmo tempo, uma base de coleccionadores da Ásia em rápida expansão e obras de arte de alto calibre de outras partes do mundo e também apresentar a arte da Ásia a um público global. As condições singulares de Hong Kong devido à sua história de mais de 150 anos sob domínio britânico, até à transferência histórica de soberania de 1997, tornou-a a capital asiática óbvia na qual localizar tal feira. A liberdade de expressão, protegida pela Lei Básica de Hong Kong e o facto da cidade ser um porto franco, ajudaram ao crescimento impressionante da ART HK e à sua posterior aquisição pelo Grupo MCH, a companhia mãe da Art Basel. A primeira edição de ART HK em 2008 acolheu 101 galerias e mais de 19,000 visitantes. Apenas quatro anos mais tarde, em 2011, a feira acolheu 260 expositores e mais de 63,000 visitantes. Nessa altura o Grupo MCH adquiriu a sua maioria.

Enquanto o mercado de arte de Hong Kong tomava forma, os artistas percorriam um caminho completamente diferente e mais modesto. Para além da escassez de opções de ensino superior para aqueles interessados nas artes, os preços notoriamente exorbitantes dos imóveis apresentavam um verdadeiro desafio aos artistas e continuam a fazê-lo. Os preços só arrefeceram um pouco no início do século, devido à recessão económica, o que fez os artistas mudarem-se para antigos espaços industriais, o que levou ao surgimento de uma comunidade criativa florescente no distrito de Fo Tan da cidade, e mais recentemente, em Wong Chuk Hang, no sul da ilha. O artista Leung Chi-wo, fundou Para Site em 1996, um dos primeiros espaços de exposição geridos por artistas da cidade, que ganhou reputação internacional como um dos mais progressistas de Hong Kong. A sua fundação, um ano depois da criação do Hong Kong Arts Development Council, que permitiu pela primeira vez a artistas e organizações independentes requererem financiamento para os seus projectos, é significativa, uma vez que os fundos recebidos do Conselho permitiram ao espaço crescer. Para Site foi o primeiro de uma rende em expansão de espaços geridos por artistas destinados a criar condições para a experimentação e criação em Hong Kong. O seu impacto na comunidade cultural da cidade continua ainda hoje a ressoar. Desde a emergência de Para Site que outros surgiram, como Spring Workshop, fundada por Mimi Brown em 2011, um local que oferece residências, programas públicos, educação e exposições, colaborando regularmente com uma nova geração de artistas e curadores que escolheram Hong Kong para ser a sua casa.

O sucesso da ART HK e, subsequentemente, da Art Basel em Hong Kong, desencadeou a chegada à cidade de uma série de galerias internacionais, como a Simon Lee, White Cube, Pearl Lam Galleries, Gallerie Perrotin, Gagosian, Ben Brown Fine Arts e da Sarthe Gallery, que liderou o assalto ao longo de vários anos, na sequência da implementação de várias estratégias pelo Governo de Hong Kong no sentido de transformar a região num fulcro de comércio, que tornaram abrir um negócio numa coisa fácil. Mas não foram apenas as galerias comerciais que capitalizaram rapidamente sobre o recente cachet comercial da cidade. Esta agitação deu origem à fundação de uma edição de Hong Kong da Affordable Art Fair em 2013. E dois anos mais tarde, a Art Central tornou-se outro actor importante, a rematar aquilo que amadureceu e se transformou numa paisagem de mercado dinâmica. A Art Basel cimentou a posição de Hong Kong como ponto central de arte da Ásia e destino global de artes.
Apesar das actividades de um punhado de pioneiros como Leung e Brown, a arte criada em e para Hong Kong – e o sector artístico não lucrativo como um todo – ficou atrás do crescimento comercial da cidade e do influxo de actores internacionais. Historicamente, as oportunidades públicas de se lançar na arte têm sido reduzidas em Hong Kong e o fosso entre ricos e pobres permanece significativo. Durante algum tempo, os domínios paralelos da exposição de arte comercial e não comercial permaneceram frustrantemente separados. A chegada de galerias reputadas lançou discussões sobre a relação de Hong Kong com os artistas locais e a comunidade, que era muito desarticulada e desligada, mas tal mudou quando as comunidades artísticas internacional e regional começaram a prestar mais atenção aos artistas de Hong Kong e com a ida de Lee Kit a Veneza em 2003 e subsequentemente de Tsang Kin Wah em 2015. Não se resolveram todos os problemas mas a relação é definitivamente mais saudável hoje do que era há cinco ou seis anos. Para além das galerias comerciais, as oportunidades para a criatividade trans-sectorial estão a crescer, injectando uma dose fértil de discurso cultural no negócio rendoso da arte, como por exemplo através da plataforma de discussão Intelligence Squared, que tem feito parte da ART HK e subsequentemente da Art Basel desde 2009.

Na verdade, os artistas têm beneficiado do poder de mercado aumentado de Hong Kong e não são apenas os artistas que podem beneficiar da presença de um sector comercial robusto na Região. O mercado tem sido um motor importante para aumentar o interesse geral e a consciência artística na cidade. Mesmo as organizações não lucrativas beneficiaram disto. O Asia Art Archive, fundado em 2000, nasceu da necessidade urgente de criar e partilhar da história recente da arte na Ásia para enriquecer e complicar as narrativas artísticas e históricas, e abrir novos pontos de referência para além dos já existentes e explorados. Um recurso respeitado em Hong Kong e no estrangeiro, o arquivo tem forjado ligações de sucesso entre as galerias da cidade, feiras e indivíduos. O Arquivo sustenta-se principalmente através de um leilão anual de obras a coleccionadores, um exemplo de mecenato artístico privado ainda muito incipiente em Hong Kong, mas há muito mais formas não-tradicionais de mecenato e popularização das artes que se podem explorar.

Tudo isto é louvável ainda mais que, para uma cidade com c. de sete milhões de habitantes, as instituições artísticas financiadas pelo governo têm sido notoriamente e lastimavelmente poucas. Tudo isto está para mudar, contudo, visto que dois novos projectos públicos encabeçam o que muitos esperam ser uma nova era de desenvolvimento cultural em Hong Kong: Tai Kwun (mais conhecida como a Esquadra de Polícia de Central) e o museu M+. A primeira, a abrir ainda este ano, trata-se da reutilização e transformação do recinto da antiga Esquadra de Polícia de Central, num hub cultural no coração da cidade, cuja programação artística de 2.1 biliões de dólares de Hong Kong é encabeçada pelo antigo director executivo e curador de Para Site, o alemão Tobias Berger, que foi também curador de artes visuais do M+ durante quatro anos, na sua fase inicial. Irá preencher a lacuna entre os espaços não lucrativos mais pequenos e os museus, sendo um local onde os artistas contemporâneos podem produzir exposições, experimentar e onde o público pode ver arte que é relevante para um discurso contemporâneo de Hong Kong. Planeado para albergar seis a oito exposições por ano, irá também incluir projecções de cinema, uma biblioteca, música, espectáculos e workshops. Enquanto a expectativa de abertura deste espaço é elevada, é o há muito esperado M+ que irá cimentar o estatuto de Hong Kong com um hub artístico de classe mundial com a sua abertura em 2019. A jóia da coroa do West Kowloon Cultural District – o qual, com 40 hectares, será o maior projecto cultural e artístico de Hong Kong até à data – este museu irá ficar situado no interior de um edifício concebido pelas firmas de arquitectura TFP Farrells e Herzog & de Meuron.

O M+ irá apresentar uma visão muito abrangente das intersecções entre a arte, a cultura e o design de Hong Kong e da região. O impacto potencial do M+ é de grande alcance. Apesar da explosão de museus na China, que viu milhares de novas instituições a abrir nos últimos anos sem, no entanto, se assistir a um investimento na formação em gestão de museus, a segunda maior economia do mundo ainda carece de um exemplo de classe mundial para os museus mais pequenos seguirem. E apesar da história de falsas partidas e demissões do M+ – a mais recente do Director Executivo, Lars Nittve – a expectativa continua a aumentar em relação ao que é confessadamente ainda um desenvolvimento distante e há ainda muito a fazer, nomeadamente cultivar um espírito de filantropia e doações privadas. Para além do seu local físico, o M+ desempenha um papel no ecossistema mais lato de Hong Kong, actualmente através de uma série de exposições itinerantes incluindo “M+ Sigg Collection: Quatro Décadas de Arte Contemporânea Chinesa” em ArtisTree. Em Julho um portal online irá forjar novos espaços acima e para além da densidade de Hong Kong.

Claramente, Hong Kong possui a energia, a intriga e crucialmente, o apoio adequado do governo para fazer as coisas acontecerem. No entanto, não deixam de existir riscos. A atitude agressiva de que Hong Kong se orgulha no passado tem sido cada vez mais testada, como se viu com o “Umbrella Movement” que dominou a cidade e champu a atenção de grande parte do mundo há pouco mais de um ano. À medida que a influência de Pequim se faz sentir na paisagem política, educacional e dos média de Hong Kong, muitos estão preocupados que a independência curatorial destas novas instituições possa também ser comprometida, seja através da auto-censura ou de uma mão externa. O tempo dirá como a cidade poderá elevar-se ainda mais para acomodar e facilitar publicamente a cultura.

*Este artigo baseia-se num editorial da publicação Artsy, Nova Iorque, de 22 de Março de 2016, por Francis Arnold

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