5 filmes recentes

Boi Luxo -
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Bande de Filles (2014, Céline Sciamma) – Quando menos se espera surge um filme verdadeiramente adulto, desenvolto e sedutor. Pouco dado ao Bildungsroman (Naissance des Pieuvres, da mesma autora, tem uma figura central, Marie, com semelhanças com a de Bande de Filles) este vosso dedicado cronista preparara-se para lhe dedicar pouco entusiasmo. Mas esta história sobre os dias de Marieme, uma rapariga de dezasseis anos, num bairro social dos subúrbios de Paris, recusa desde muito cedo os clichés da vida na suburbia tanto a nível do texto como a nível do seu aspecto narrativo, assim como recusa lugares comuns próprios às histórias de crescimento. bande-de-filles-elise-sciamma-1
Em vez da exploração do calão ou da linguagem corporal das tribos dos arredores ou da exploração do tópico da raça, de justificações sociais usadas à exaustão ou do sexo, Céline Sciamma explora o inegável charme das várias figuras que mostra e a sua tendência eufórica, ao mesmo tempo que elogia a propensão de Marieme para manter a sua independência face às várias pressões que a rodeiam. Se é a história de um grupo é muito também a história da integração e da independência de Marieme.
A gradação que se desenvolve desde as cenas de futebol americano com que o filme começa até à chegada solitária a casa de Marieme é uma introdução auspiciosa cujas promessas se cumprem encantadoramente ao longo do filme.

Youth (2015, Paolo Sorrentino) – Foi quando o monge levitou que confirmei que este filme de Sorrentino não tem surpresas para oferecer, ao contrário do que acontecera com o seu filme anterior. Este dispensa, ao invés, à medida que se desenrola, uma boa oportunidade para tentar adivinhar qual o lugar comum seguinte. O do monge é paradigmático porque pensei que uma pessoa que fez La Grande Bellezza não cometesse semelhante infantilidade.
Serve Youth para confirmar que La Grande Bellezza foi feito em estado de graça. O que não quer dizer que este tenha sido feito em estado de desgraça. Uma das suas contradições é que este realizador, que é novo, tenha feito outro filme sobre a velhice e sobre as oportunidades que este estado oferece mas que é um filme velho e gasto. Youth (2015, Paolo Sorrentino)
Há que se recomende a quem não quiser ser surpreendido: algum humor, uma narração certinha, boas paisagens (que o filme se passe na Suíça não deixa de causar um sorriso a quem o vir como um filme pastoso e quase sem razão de ser), algumas imagens a imitar Fellini e, para quem gosta, grandes planos de actores famosos – mesmo que esta opção retire, como é normal, credibilidade ao filme.
Não estava à espera da banalidade da maior parte dos diálogos nem do sentimentalismo internacional que exibe (o sentimentalismo de La Grande Bellezza, um sentimentalismo italiano, tem o seu lugar próprio nesse filme.)
Consola, no fim, ver a violinista Viktoria Mullova, que deu um concerto em Macau no F.I.M.M. deste ano, e uns grandes planos de Sumi Jo. Pena seja que estas duas aparições se encaixem num desenvolvimento desnecessário e sentimentalóide.

Mia Madre (2015, Nanni Moretti) – Confesso que prefiro o Moretti dos primeiros filmes, aqueles em que se mostra irritantemente opinativo, agressivo, insistentemente apaixonado, cómico, chato, imprevisível e impossível de ignorar.
Mas mesmo que agora Moretti nos esteja a dizer (nos esteja a repetir) coisas que nós já sabemos e que não nos diga absolutamente nada de novo, há um apelo doméstico e emocional nos seus filmes que permanece sedutor. Esta sedução vem do seu trabalho de cinema e do seu saber artesanal. Mia Madre (2015, Nanni Moretti)
Não é fácil de perceber de onde vem a credibilidade destas figuras e a facilidade com que as aceitamos como próximas (não necessariamente amadas). Para quem se deixa seduzir e comover por este tipo de cinema seria difícil fazer melhor, ser mais sério e mais convincente. É um daqueles exemplos em que se pode falar de um efeito Moretti, uma imagem de marca, uma definitiva autorização.
E se o próximo filme de Moretti for assim, aceitá-lo-emos de novo, mesmo contra a nossa vontade, vergados à evidência da sua habilidade e da sua inegável humanidade.

Shanhe guren/Mountains May Depart (2015, Jia Zhangke) – Já tinha pensado que Jia Zhangke poderia ter chegado a uma fase de indefinição no seu cinema, esgotado o tipo de filmes sobre a China que tem vindo a fazer. Depois de Tian Zhu Ding/A Touch of Sin, que tem as suas ousadias críticas e estilísticas mas também alguma indefinição quanto aos seus objectivos, difícil seria adivinhar o que viria.

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Shanhe guren não é ousado a contar nem inovador a mostrar (há quem o veja até como uma capitulação às pressões do regime). As conhecidas sequências sobre o estado da China são vazias de interesse e as tramas pessoais (que começam numa história de homem rico/homem pobre que se desenvolve numa de jovem desenraizado sem mãe que se envolve com mulher madura) não despertam grandes entusiasmos.
Infelizmente exibe um traço irritante do cinema chinês que é a obsessão com a história e com o passar do tempo, o que impõe uma obrigação narrativa enfadonha – que vem da literatura – que enfarinha muitos filmes chineses das últimas décadas. Nem as imagens da fealdade de um país em constante destruição/construção, cheias de poder a nível estético e crítico noutros filmes, aqui convencem.
A parte que tem que ver com o futuro (próximo), passada na Austrália, é quase penosa pelo número de clichés e infantilidades que dispensa, ao mesmo tempo que se desagrega totalmente a nível de algumas reflexões sobre o mundo contemporâneo que poderiam causar algum estímulo. Esse estímulo não acontece e fica apenas um filme inútil, provinciano e murcho daquele que continua a ser, desde os anos 90, o mais interessante autor de filmes chineses.
Tian Zhu Ding é um filme zangado e duro, este amolece e esfarela-se no fim. O mais aborrecido é que Shanhe guren, que é um filme interessante, seja, para quem conhece os outros filmes de Jia Zhangke, um que não serve para nada.
Esperamos muito que Jia Zhangke não venha a cair na tentação de fazer um filme ocidental, como Wong Kar-wai (o ridículo Blueberry Nights), Hou Hsiao Hsien, Kiarostami ou Tsai Ming-liang.

Love (2015, Gaspar Noé) – o filme de Noé sublinha que o cinema devia ter mais sexo explícito, especialmente se o objectivo é falar do amor e dos outros de um modo sincero. Nymphomaniac, de von Trier, já o havia provado não há muito tempo. É preciso trancada forte para ser exacto e é preciso mostrar um pouco de coragem.
Partilha com o filme de Lars von Trier a concentração no interior de um apartamento mesmo que no do dinamarquês este seja um local que é totalmente estranho à protagonista. É essa estranheza que liberta o seu discurso. love_4
Neste Love é difícil tirar Murphy de um interior que é o seu e será essa envolvência que nos envolve a nós e que nos intriga. Este filme teria tudo para ser um grande filme de amor se a história de Murphy fosse interessante. Como elogio da banalidade das figuras e do seu comportamento seria um desastre.
Para além de coragem e de algum poder criativo seria preciso alguém que não dissesse I love Europe por poder estar na cama com uma adolescente e a sua namorada ou alguém que não dissesse que quer fazer um filme com “sangue, esperma e lágrimas porque isto é a essência da vida” – porque é nestes pequenos momentos (de que Youth está cheio) que vamos deixando de acreditar no filme mesmo que sejam usados para trivializar a sua figura principal.
Mas acredito no seu apartamento e na justeza de algumas das suas imangens, a distância da câmara ao protagonista, perto e um pouco elevada, à mesma altura da voz off.
Se a meio do filme nos perguntamos porque é que nos interessa a banal história de um homem que engravida involuntariamente a vizinha do lado e é abandonado pela namorada é porque esperamos que surja um desenvolvimento cheio de perigo, algo que cause o medo. Mas tal acaba por nunca acontecer. O que acontece é uma pequena viagem guiada por alguns efeitos Noé já nossos conhecidos. Pela altura do desfecho este já não nos causa senão um pequeno enfado.

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