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Tenho dedicado parte do último ano, ao contrário do que acontecera antes, ao visionamento de filmes contemporâneos. A colheita não tem sido boa. Com a excepção de filmes cujo aspecto visual é extraordinário, como Shirley, Hard to be a God ou The Forbidden Room, cujo interesse pouco mais vai para lá do peculiaridade do aspecto, o resto tem-se resumido a filmes interessantes por um ou outro aspecto mas que rapidamente caem no esquecimento.
Da América do Norte não lembro um filme recente que mereça menção. Do Japão, da Coreia ou da China há bastante tempo que também não vejo nada de excepcional. Da Tailândia permanece apenas Apichatpong Weerasethakul, cuja última instalação ainda não vi.
Da Europa os sinais são contraditórios. Registo com agrado, de Lars Von Trier, Nymphomaniac I e II, o último filme de Polanski, envolvente, sedutor e teatral, Venus in Fur, Filme Socialisme, de Godard, ou, um pouco mais antigo, Vous n’avez encore rien vu, de Resnais, no sentido em que se erguem (e é isto que é muito raro) como filmes de referência futura, filmes que contêm matéria para uso futuro em comparações ou tentativas de entender ou criar um quadro modelar. Le Quattro Volte, de Michelangelo Frammartino, 2010, também pode ser uma boa ajuda.
Filmes giros tenho visto alguns, como Tangerine, Bande de Filles, Ida, Victoria, Love, The Lobster, Mr. Turner, Locke, Timbuktu, Catch me Daddy ou L’Enlèvement de Michel Houellebecq, mas fica uma impressão de embrutecimento. Fica a impressão de que há muitos filmes interessantes mas poucos filmes que interessem verdadeiramente e que se torna desgastante ver muitos filmes que pouco mais sejam que giros.
Sou levado a pensar, mais com surpresa que com irritação, que as pessoas (os espectadores) deixaram de ser exigentes e se acomodaram confortavelmente à opalescência do Cinema Giro, como se acomodaram ao latte e ao croissant e mostram algum sobressalto quando alguém vem agitar o seu mundo certo e seguro. Talvez por estas razões os filmes de Fassbinder têm sido aqui tantas vezes objecto de admiração, a prova perfeita de que um filme pode ser exigente – porque exige muito do espectador – e ao mesmo tempo popular e viável comercialmente.
Do Irão ou da Turquia continuam a chegar filmes bons e densos mas repetitivos nas temáticas e na estética.
Autores que não conheço mas que têm provocado uma curiosidade que tem sido difícil de saciar são os filipinos Lav Diaz e Kidlat Tahimik. O recente cinema romeno é um filão que não tenho conseguido explorar igualmente por falta de acesso aos filmes.
Alguns documentários de Errol Morris ou John Gianvito não são suficientes para entrar em grandes entusiasmos. O contrário poderá ser dito dos dois filmes em jeito de documentário de Joshua Oppenheimer sobre as atrocidades cometidas sobre os comunistas na Indonésia na década de 60. Ao contrário de muitos, prefiro o absurdismo um pouco desarticulado do primeiro deles.
O único filme relativamente recente que se institui, com pompa e brilho, como um filme de referência, é Japón, de Carlos Reygadas (mas é de 2002). Nele pode falar-se de um universo, um que tem um valor exemplar, no desenho cru e agressivo das personagens e das intenções que exibe e da aridez violenta da paisagem. Em Japón o céu junta-se à terra para nos explicar as nossas insuficiências e a nossa pequenez e para nos expulsar do paraíso da inércia.
Lembre-se que este vosso escritor não é crítico de cinema (o que o iliba de muitas obrigações) nem tem acesso a muitos filmes que se lançam pelo mundo fora. Mas dos exemplos que tem visionado não retira motivo para muitas alegrias. É suficiente para escolher uma dedicação exclusiva ao documentário ou ao cinema avant-garde ou, mais sensatamente, a uma arte a sério como a música.
Vi com um carinho que raramente dispenso ao cinema brasileiro, Girimunho, 2011, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. (faz lembrar Clarice Lispector, muito) e O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, 2012. Nunca me decidirei, creio, a divulgar um dos meus filmes mudos preferidos, Limite, 1931, de Mário Peixoto, preferindo continuar agarrado a um medo (que se estende a outros filmes preferidos) de não lhe fazer a justiça que merece.
Este medo estende-se a outros filmes mudos e pode revelar também uma incapacidade para escrever sobre algo tão puro (e, ironicamente, avançado) como o cinema mudo, na sua vertente avant-garde de filmes de Man Ray, Walter Ruttmann ou Hans Richter (um fotógrafo e dois pintores) ou em exemplos mais acessíveis como Ménilmontant, de Dimitri Kirsanoff, A Paixão de Jeanne d’Arc ou Vampyr, de Dreyer, The Wind, de Sjöstrom ou Schatten, Eine Nächtliche Halluzination, de Arthur Robison (lembro, com brutalidade, que este sim, já foi alvo de atenção).
Não tenho encontrado grande eco junto a outras pessoas para a ideia de que hoje em dia, graças ao digital e à qualidade de equipamento de filmagem e montagem relativamente barato e de fácil transporte, há relações de semelhança com a época do cinema mudo. Divago.
Deve agora o leitor preparar-se para aceitar sem indignação uma ideia digna de uma séria Acção Patriótica. Do mais interessante que tenho visto são alguns filmes portugueses e registo com agrado a internacionalização de nomes como João Pedro Rodrigues, Gabriel Abrantes, Pedro Costa e Miguel Gomes (que eu ainda não percebi, desde Tabu, um dos melhores filmes que vi nos últimos anos, se ele anda ou não a gozar connosco, um dos maiores elogios que lhe posso fazer).
Uma vez que Pedro Costa parece ter, com Cavalo Dinheiro, esgotado o filão que tem vindo a explorar, não havendo nele a sincera invenção e sentido de cerimónia dos filmes anteriores mas uma estilização esperada que bastará a um filme apenas, a expectativa sobre o que fará a seguir é enorme. Por que não um musical?
Sobre Miguel Gomes e sobre o longo e necessário As Mil e uma Noites falar-se-á em breve.

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