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We are interfering with natural laws, em Tanin no Kao, Teshigahara

Pouco se tem falado nesta página sobre cinema norte-americano. Por falta de interesse. Ao ler uma lista de 100 filmes americanos surpreendeu-me a ausência de Seconds, de Frankenheimer (ou de um filme que seja de William Hellman ou Douglas Sirk). A classificação contém, no entanto, filmes parvos, como Forrest Gump, ou filmes estúpidos, como The Tree of Life (ou será que este filme é uma comédia?).
John Frankenheimer é autor de alguns filmes importantes/interessantes datados dos anos 60 e 70: The Manchurian Candidate e Birdman of Alcatraz (ambos de 1962), e French Connection II (1975). Seconds deve ser o seu filme mais excêntrico.
Seconds é um objecto estranho, uma espécie de mistura de drama psicológico, ficção científica e filme político. É a preto e branco, bonito, inquietante, e mostra um nervosismo de quem não sabe bem o que fazer.
É, de início, um filme distante, como se tudo se passasse numa esfera de difícil acesso e impossível de tocar. É a sua excentricidade que o traz a esta página.
Rock Hudson é Antiochus Wilson. Este é um papel muito diferente do papel de jardineiro tonto que interpreta em All that Heavens Allow porque este não é um filme típico. E é por não ser um filme típico que está aqui. Meshes of the Afternoon também esteve, assim como um filme de William Dieterle sobre uma rapariga elusiva (apenas porque me continuo a recusar a aceitar que é só por causa da música).
Arthur Hamilton é um banqueiro de meia idade que recebe um telefonema de um amigo que julgava morto, membro de uma organização secreta chamada Company. Desiludido com o vazio da sua vida profissional e doméstica, Hamilton aceita um pacto faustiano que lhe permitirá ganhar uma nova identidade sob o nome de Antiochus Wilson, um pintor com residência na Califórnia. É aqui que entra o infeliz Rock Hudson.
Como é que ainda não se conhece a verdadeira causa do assassinato de Kennedy ou a identidade de Deep Throat ? Americans love a secret, e o cinema americano está cheio de teorias conspiratórias, um amor pelo segredo e um medo de poderosas organizações que é um medo parecido com o medo chinês.
A paranóia de Seconds é um bom exemplo do receio da desestabilização e do caos (aqui não um medo de uma ameaça exterior) que percorre a história europeia da América do Norte e que o cinema dos anos 60 e 70 (anos de guerra, manifestações, hippies, assassinatos, Watergate, drogas, música popular e invasão da privacidade) não podia deixar de retratar (há, por exemplo, muito cinema político).
Algumas das cenas da transformação de Hamilton em Wilson fazem parte de uma operação plástica real e este dispositivo realista e macabro tem marcado a recepção do filme ao longo dos anos. É fácil vê-lo sob essa perspectiva do choque de um outro tipo de invasão, a invasão do corpo.
Sensivelmente a meio do filme, Frankenheimer insere uma secção hippie com uma festa dionisíaca na Califórnia. Esta serve para lembrar que Seconds não é um grande filme. Mas o resto confirma-nos que é mais do que um cult movie tradicional ou uma curiosidade de série B. Há longas secções (no início e mais para a sua conclusão) em que a descrição da paranóia e da perseguição é muito convincente. *
Depois das cenas pagãs seguem-se umas cenas de uma festa na casa de praia de Antiochus (tudo muito sunshine noir) onde se repõe o nível perturbador e conspirativo do princípio do filme – especialmente quando Antiochus percebe que os outros convivas são também, como ele, reborns (Rosemary’s Baby, de Polanski, será muito assim, dois anos depois).
É difícil não lembrar um filme japonês há vários anos aqui elogiado, e muito mais interessante que Seconds a todos os níveis, e que lida igualmente com questões de identidade: Tanin no Kao (The Face of Another), de Teshigahara Hiroshi, coincidentemente do mesmo ano de 1966*.
Também no filme japonês há uma envolvência científica e assustadora que corteja alguns lugares do cinema de terror e até do filme policial. Nele se exibe a possibilidade da produção de uma máscara, uma transformação do indivíduo que permitirá viver num mundo sem amigos, família ou inimigos – um mundo novo ao alcance da máscara que é, afinal, um mundo de liberdade, infinitas possibilidades e, como em Seconds, extrema solidão.
O filme de Teshigahara é, no entanto, muito mais pessoal. Toda a intriga se passa em torno de 2 ou 3 pessoas e não carrega nunca uma ameaça de uma organização secreta, como acontece no filme paranóico de Frankenheimer.
É difícil de decidir qual dos dois cria um desassossego maior. Em Seconds vemo-nos à mercê de uma poderosa organização. Em Tanin no Kao à mercê de nós próprios.
Quase assustador é lembrar que um filme que nos abandona numa ilha com duas mulheres, uma delas actriz de profissão, Persona, de Ingmar Bergman, e que mostra questões identitárias através do retrato do rosto destas mulheres (e que contém imagens “médicas” da mesma família das constantes nos outros dois) é também de 1966.
No entanto, em Seconds, é também difícil não nos deixarmos abandonar não tanto à sua mensagem – em torno da identidade de alguém que perde o seu rosto – como ao seu aspecto intrigante e por vezes infantil, e lembrar que grande parte do cinema norte-americano é, desde a sua origem, um cinema de uma curiosidade adolescente.

* no entanto, Seconds não é, como começa a ser hábito dizer-se, uma obra-prima esquecida.

** profundamente baseado na literatura de Kodo Abe, em especial no livro com o mesmo nome. Aproveita-se esta nota para aconselhar, do mesmo autor, The Box Man, que aborda questões semelhantes.

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