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Conheço miríades de gente em todo o lado que dá “Graças a Deus” por tudo e por nada. Para quem é um bom cristão, fica sempre bem ser agradecido ao divino pelas boas graças, mas é estranho que o contrário não seja também verdade. Por exemplo há quem diga qualquer coisa como: “Parou de chover, graças a Deus”. Estas pessoas certamente não gostam de chuva, mas porque é que foi “graças a Deus” que parou de chover? E quem mandou a chuva? Deus só tem a capacidade de fechar a torneira? Foi um anjinho maroto que a abriu? Mistérios do divino que não encontram explicação. Quando alguém esteve doente e depois melhora, diz que foi “graças a Deus”. Será portanto parte do plano divino Dele que esta pessoa tenha ficado primeiro doente, para só depois recuperar. Deus não teve nada a ver com a gripe ou com a perna partida, mas foi parte indispensável da recuperação. A sério, isto deixa-me seriamente preocupado. Quem é que nos anda a tramar e a dar tanto trabalho a Deus?
Muita gente gosta de falar com Deus, ora através da oração silenciosa ora conversando mesmo em voz alta sozinho (ou com Deus, depende da perspectiva). Não se espera é que Deus responda, pois nesse caso seria “mau sinal” – quando se calhar até seria “bom sinal”, não se percebe muito bem. Voltando aos jogadores de futebol, acho o caso do internacional brasileiro Kaká fascinante. Quando o branquelo marca um golo, levanta as mãos ao céu e agradece. Quando falha um golo, não vejo desiludido ou a pedir explicações ao criador: se não marcou golo, foi porque “Deus não quis”. Deus é imprevisível, e a Sua vontade aleatória. E para onde Lhe dá. Quando se reza por alguém, é normalmente um caso perdido. Quando alguém morre mesmo depois de muitas rezas, correntes e até promessas, baixa-se a cabeça e resigna-se à “vontade de Deus”. Na eventualidade (muito rara) da pessoa sobreviver ou até recuperar totalmente, nunca foi devido à medicina ou à ciência. Foi, adivinharam, graças a Deus. Daí os tais pagadores de promessas, que por vezes se sujeitam a andar à volta de santuários gigantescos de joelhos como agradecimento à alegada influência divina. Este “sacrifício” parece dar a Deus “extra bonus points”.
Deus é visto como uma autoridade real, e não imaginária, que nos está constantemente “a ver” (sim, até no chuveiro). Diz-se daquelas pessoas que são uns cabrõezinhos da pior espécie mas por culpa da sociedade (ou do Diabo?) são ricos e famosos, que “têm contas a ajustar com Deus”, que Deus “não dorme”. Duvido que quem mate, roube ou cometa fraude e enriqueça esteja muito preocupado com isso. Deus é usado como moeda de troca. Quem pede “pelo amor de Deus” está mesmo a apelar. Se resultasse mesmo não existia desemprego, bastava pedir um emprego “por amor de Deus”, e ficava o problema resolvido. Quem pede esmola “por amor de Deus” é a maior parte das vezes recusado com um “tenha paciência”. Este “tenha paciência” é a “safe-zone”: Deus não fica chateado se atirarmos com esta frase mágica, que nos livra da obrigação caritária da esmola. Acho piada aos mentirosos que juram “por Deus” estar a dizer a verdade. Quem usa Deus como desculpa só pode estar mesmo a brincar.
“Deus” é mesmo uma palavra banalizada. Já ouvimos milhões de vezes expressões como “Deus queira”, “Deus é que sabe”, ou a sua variante niilista “Só Deus sabe”, “Deus me livre”, e muitas outras. A minha preferida é “Até amanhã, se Deus quiser”. Isto demonstra uma dose de pessimismo especial. Nunca me passou pela cabeça não estar vivo amanhã, ou depois de amanhã, ou para a semana que vem dependendo exclusivamente da vontade de um ser divino. Assim não marcava consultas, não comprava bilhetes para concertos, não cumpria qualquer compromisso, não fazia nada. Ficava deitado à espera que Deus finalmente me resolvesse levar para junto Dele, o tal “destino final” que todos aguardam. E porque não havia Deus de querer que haja um amanhã para todos? Vá lá, pronto, fico por aqui. Vão com Deus, mas não abusem.

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