O Pai Natal não existe (E sabem porquê?)

Leocardo -
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Vivemos numa sociedade de consumo imediato, onde não há lugar a grandes dissertações, ou discussões que nos levem a tentar entender o que há por detrás daquilo que está mesmo à nossa frente – o que seria de Macau se antes de nos virem visitar os turistas tivessem a curiosidade de saber “o que está por detrás da fachada das Ruínas de S. Paulo?” Podia ser que ao lhe responderem “nada”, que é a única resposta que não requer uma fabricação delirante, resolvessem mudar de planos: “Nada? Nesse caso não vamos!”. As aparências aqui são tudo, e não fosse a RAEM conhecida pelos casinos e pelos jogos de fortuna e azar, saber fazer “bluff” é uma arte.
O título deste artigo não tem nada a ver com o Natal propriamente dito – apesar de já estarmos mais perto de festejar o próximo do que da memória do último – e trata-se apenas de uma expressão idiomática aplicável a certas pessoas muito crentes, que ora por candura, ora por ingenuidade, acreditam em valores como a bondade, a generosidade, ou a solidariedade humanas, e que depois de (mais uma vez) decepcionadas, levam com um seco comentário do tipo “…mas você ainda acredita no Pai Natal?”. É um pouco como quando a porcaria do despertador toca a meio de um sonho onde nos preparamos para possuir nos braços a Karen Gillan (Jared Leto, para as senhoras), só que ainda pior.
Eu falo apenas como mero observador sem conhecimento de causa, pois nunca acreditei no Pai Natal, perdendo assim uma liçāo válida de vida – ainda me falta a cadeira de Existencialismo Paternal Natalício para completar o curso. Não é porque eu não quisesse acreditar: foi devido a um trauma de infância. Numa dessas quadras onde supostamente o velhinho de barba branca oferece presentes às crianças pedindo em troca apenas que “se portem bem” (o que já dá para desconfiar), escolheram a educadora mais baixa e magra da Casa da Criança do Montijo para fazer esse papel, demonstrando pouca ou nenhuma vontade de estimular o meu imaginário infantil – meu e dos meus colegas da altura, uma geração perdida, equivalente a um daqueles batalhões “malditos” da guerra do Vietname. Se aquela imagem de uma fêmea de Pai Natal anoréxica, com a barba mal pendurada por elásticos soltos e socas brancas nos pés não me faz acordar sobressaltado e encharcado em suor a meio da noite com pesadelos, isso deve-se à minha enorme capacidade de superação. 2715P19T1
O choque de acreditar no Pai Natal para mais tarde ser confrontado com a sua inexistência vai para além de qualquer estágio do processo da maturação de um ser humano. É pior que o acne, e em termos de aceitação, penso que uma criança lida melhor com a noção de morte, da sua e de todos que vai vendo desaparecer durante a sua vida, do que com o desmoronar de uma ilusão fátua: de que há alguém que nos dá algo sem pedir nada em troca. Pode ser que detectem nestas palavras um tom funesto de pessimismo, mas se há algo que abunda por aí é demasiado optimismo, e isso é perigoso. Muito perigoso.
À medida que a imagem do Pai Natal se vai desvanecendo, dá-se menos importância ao facto de ele nunca ter sequer existido. Nos anos rebeldes da adolescência ainda dá para procurar a quem atribuir as culpas, quiçá aquela multinacional de bebidas gaseificadas que o patrocinava, e cujo consumo do produto seria responsável pela sua obesidade crónica, e eventualmente à obstrução das suas artérias coronárias. O que seria se o trenó viesse equipado com disfibrilador? E se as renas soubessem primeiros-socorros? O pior é quando se está prestes a recalcar de vez este sentimento de perda daquilo que foi nosso, que o mundo cruel, ou um dos seus agentes, nos recorda “O Pai Natal não existe”.
Não se sabe quem “fez a folha” ao Pai Natal, mas eu tenho um suspeito: os mercados. Os mercados andam por aí a ameaçar desfazer os sonhos de quem ainda não perdeu a esperança de que um dia o Pai Natal regresse triunfante, numa manhã de nevoeiro (este é o Pai Natal português, entenda-se) e distribua as prendas que estão em falta, e pelas quais não será necessário dar nada em troca. Foi como a Grécia fez, ou mais ou menos, pois aí o Pai Natal era um pouco mais velhaco e mal-intencionado, e bastou-lhe estacionar o trenó da Mercedes à porta da Tasca Zorba para se aliviar do excedente das últimas cinco ou seis colas que bebeu, e os malandrecos dos gregos gamaram-lhe o auto-rádio, as jantes, a mais aquele símbolo muito giro da marca daquela construtora alemã, que agora o velho de barba usa como mira para acertar nos helénicos caloteiros.
E nós? Bom, este problema não está à nossa porta, mas o fiasco que representa acreditar no Pai Natal é um fenómeno universal. Os blocos que dominam o mundo e que passam a vida a ameaçar que matam, que esfolam, que fritam e que assam dormem na mesma cama quando se encontram, e enquanto mordiscam uma orelha segredam no ouvido um do outro: e os nossos mercados, como estão? Se a Grécia abandonar o Euro e este levar o mesmo destino do Pai Natal (apesar da confiança do nosso PR, que confia nos restantes 18 elementos do plantel), isto pode ser mau para os mercados, e lá vão os amantes secretos puxar do arsenal e cumprir o que andaram a prometer, mas nunca lhes passou pela cabeça fazer. E qual é a surpresa, se mesmo entre nós, comuns mortais, um dia podemos meter-nos em frente de uma bala para salvar a pessoa que amamos, e no dia seguinte somos nós a dar-lhe um tiro? Nāo me digam que ainda acreditam no Pai Natal…

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