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[dropacp style=’circle’]T[/dropcap]odos os dias a cabeça de Antonieta Sam trabalha com dois mundos completamente diferentes numa área que, para muitos, é por si só uma dor de cabeça. No meio dos juízes e cabeçalhos de Direito, Antonieta traduz e interpreta do Chinês para o Português os crimes e as sentenças que calham a culpados e inocentes. O rodopio das leis em duas línguas não a faz desistir. Bem pelo contrário: sempre quis ser tradutora e pretende continuar a sê-lo.
Numa altura em que o Português está na moda e a tradução e interpretação é um curso muito procurado, mais por uma questão prática do que pelo que dita o coração, Antonieta Sam prefere ter esta profissão porque gosta.
Nunca o fez pela segurança de um emprego bem pago no Governo, até porque quando optou por frequentar o terceiro programa de formação de tradução e interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa, organizado pelos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP) em colaboração com a direcção-geral da interpretação da União Europeia (UE), já trabalhava na Função Pública, como oficial de justiça. Há 15 anos que trabalha para o Governo e há apenas dois que é intérprete-tradutora nos tribunais da RAEM.
“É um grande desafio para mim, sobretudo na tradução simultânea. Gosto, é algo muito interessante, mas ainda estou a aprender. Ainda tenho muita margem de sucesso para o meu trabalho. Quando comecei a fazer interpretação simultânea achei muito difícil, mas tive de ultrapassar isso porque gosto muito do meu trabalho”, contou ao HM.
O curso dos SAFP terminou-o em 2004 e a experiência que passou, ao estar umas temporadas em Pequim, Bruxelas e Portugal, só a enriqueceu ainda mais. “Aquele curso foi de um ano e durante cinco meses estudei interpretação e depois tradução. Tive dois meses e tal em Bruxelas e um tempo em Portugal e isso foi uma boa experiência para mim. Como passei por isso, depois de voltar a Macau, pensei mudar de área, já que antes trabalhava mais com a tradução e depois passei mais para a interpretação”, recorda.
Ao contrário de muitos jovens, que só têm contacto com o idioma de Camões quando entram no ensino secundário ou na universidade, Antonieta Sam começou a aprendê-lo desde criança, quando Macau ainda tinha o seu liceu.
“Não achei difícil [fazer o curso de tradução e interpretação], porque comecei a estudar Português desde muito cedo, logo no jardim infantil, e na primária. Estudei sempre em Português e sempre falei em Português e Chinês. A minha família não me aconselhou muito sobre isto, porque quando comecei a estudar para ser tradutora já estava a trabalhar. Então eles não me disseram nada, se era algo bom ou mau.”
Antonieta, ou Eta, como é tratada pelos amigos, recorda com saudade os tempos de um ensino que não era tão exigente como agora. “O ensino não era assim muito puxado. Tinha o meu tempo de estudo mas tinha muito tempo para me divertir e não tinha muita pressão. Vejo os alunos hoje em dia e acho que têm muita pressão, porque ainda têm de estudar quando chegam a casa. Gostava da minha vida escolar.”

Macau mudou

Hoje em dia não só o sistema de ensino está diferente, como a própria Macau que Antonieta sempre conheceu mudou muito. A intérprete-tradutora conta que passa os fins-de-semana e tempos livres nas zonas da Taipa e Coloane, como forma a fugir ao caos do dia-a-dia na península.
“Penso que Macau está pior em termos de qualidade de vida, mas a vida económica está melhor (risos). Temos falta de espaço para diversões no fim-de-semana, não temos muitos sítios para ir. Só temos os hotéis e casinos como opção. Na Almeida Ribeiro há imensos turistas e quase não podemos caminhar lá e nos fins-de-semana costumo ficar na Taipa e em Coloane”, diz. “Prefiro, porque em Macau não dá para andar de carro, não dá para nada.”
Apesar dos anos de Administração que tem, Antonieta Sam quer continuar a aprender numa área onde passa muitas vezes despercebida, mas onde o seu trabalho é essencial para manter o segundo sistema de Macau.
“Antes o nosso trabalho era muito monótono, mas agora é mais diversificado. Tenho de procurar conhecer mais, ter mais bagagem para enfrentar os desafios no trabalho”, conclui.

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