Taiwan equaciona desfazer-se da Casa Comemorativa Sun Yat Sen

O Governo de Taiwan está a equacionar a venda da Casa Comemorativa Sun Yat Sen por temer o confisco por parte das autoridades do Governo Central do Interior. A notícia foi avançada pelo jornal Liberty Times, de Taiwan, que cita fontes do Conselho para os Assuntos do Interior.

Actualmente, há três representantes de Taiwan em Macau. No entanto, o número tem vindo a diminuir nos últimos anos, depois de as autoridades da RAEM terem começado a exigir que os representantes do corpo diplomático da Ilha Formosa assinem uma carta de compromisso com o princípio “Uma só China”. Se não assinarem, os vistos não são renovados.

Com as autorizações de permanência dos três representantes a expirarem até 30 de Outubro, o Conselho para os Assuntos do Interior está a equacionar a venda do imóvel histórico, por considerar que existe a possibilidade de ficar sem ocupantes e ser confiscado pelo Governo Central.

Ao jornal, foi ainda explicado que o imóvel tem cerca de 400 metros quadrados e está avaliado em aproximadamente 30 milhões de patacas. Actualmente, o custo de manutenção da infra-estrutura é de 130 mil patacas por ano, e os direitos de propriedade estão registados pela empresa APHS Serviços de Viagem de Hong Kong, que tem sede em Singapura e é detida a 100 por cento pelo Conselho para os Assuntos do Interior.

Origens em 1912

A Casa Comemorativa Sun Yat Sen foi construída em 1912, como residência de Lu Muzhen, primeira mulher do homem conhecido como o “Pai da China Moderna”.

Apesar de Sun se ter divorciado da mulher em 1915, para casar com Soong Ching-ling, uma das três irmãs Soong e mais tarde uma das figuras em destaque no Partido Comunista Chinês, Lu e os filhos permaneceram na residência de Macau. Foi nesta habitação que Lu Muzhen morreu, em Setembro de 1952, então com 85 anos de idade.

Desde 1958 que a casa recebeu o nome Casa Comemorativa Sun Yat Sen, e actualmente está aberta ao público, como museu, tendo em exibição livros, cartas, fotografias e pertences de Sun Yat Sen que mostram o caminho revolucionário para derrubar a Dinastia Qing e estabelecer a República da China.

14 Set 2022

Sun Yat-sen foge de Guangzhou

Sun Yat-sen e Chen Jiongming, ambos naturais da província de Guangdong, tinham uma visão divergente para a China, pois um concebia-a a nível nacional e o outro por regiões, apesar de colaborarem até 1922.

Para Sun, filho de camponeses, o país devia ser uno e governado por um poder nacionalista republicano de teor socialista democrático revolucionário e Chen, descendente de proprietários rurais abastados, enquanto confucionista apelava a reformas para modernizar a monarquia, evoluindo para um ideal de ser a China uma República federalista democrática. A sua ideia era fazer de Guangdong um exemplo de governação para, como modelo, federando as províncias unificar a China, pois os chineses, após a dinastia manchu e as derrotas nas guerras do Ópio, já sem unidade como povo, radicavam-se nas suas comunidades rurais e daí a força dos locais poderes militares. Sun considerava tal visão servir para justificar os senhores da guerra.

Sun Yat-sen (1866-1925), cujo nome de nascimento era Sun Wen e após a morte conhecido por Sun Zhongshan, na adolescência estudou no Hawai e regressando à China licenciou-se em Medicina em Hong Kong. Exercia clínica em Macau com o ideal de ajudar o povo e percebendo daí não vir a solução, resolveu em 1893 começar uma acção revolucionária para derrubar a monarquia manchu. No Hawai, em 1894 organizou com a comunidade ultramarina chinesa a Sociedade para a Regeneração da China (Xingzhonghui) com a finalidade de estabelecer na China uma República Democrática. Em 1905 unificou-a com a organização anti-Qing Guangfuhui (Sociedade de Restauração, estabelecida em 1904) e fundou em Tóquio, com os chineses refugiados no Japão, a Aliança Revolucionária Chinesa (Tungmenghui) baseada em três princípios: o nacionalismo para combater o governo imperial da dinastia Qing, pois as potências estrangeiras não tinham nenhum interesse em derrubá-lo; o segundo, o da constituição de um governo democrático republicano; e o terceiro, o de redistribuir as terras pelo povo para a sua subsistência, pois este encontrava-se na completa pobreza.

Chen Jiongming (1878-1933), após licenciar-se em 1908 na Faculdade de Direito e Administração da Universidade de Cantão, onde tomou conhecimento do movimento anarquista, ao qual se juntou, entregou-se à política, apresentando uma série de reformas para tornar a monarquia constitucional. Eleito em 1909 membro da Assembleia Provincial de Guangdong sob o regime da dinastia Qing, não foi a Beijing participar como delegado no Parlamento Nacional, mas a 27 de Abril de 1911 em Guangzhou efectuou uma sublevação revolucionária. Com 7 mil homens no seu exército, o general Chen Jiongming foi Governador Militar de Guangdong entre 1911 e 1912, ocorrendo nesse período a Revolução Xinhai, a queda da dinastia Qing e o início da República da China a 1 de Janeiro de 1912 com Sun Yatsen na presidência.

O general Yuan Shikai (1859-1916) controlava o Exército imperial de Beiyang, leal ao poder de Beijing, mas pressionado para reconhecer a República, a 12 de Fevereiro de 1912 forçou Puyi, o último Imperador Qing, a abdicar. Sem grandes apoios, Sun Yatsen a 15 de Fevereiro cedeu temporariamente a Yuan Shikai a presidência provisória da República. A constituição provisória promulgada em Março de 1912 estipulava a formação de um sistema parlamentar com eleições no prazo de dez meses para o Parlamento e Presidente e para participar, a Sociedade da Aliança (Tungmenghui) de Sun Yatsen converteu-se no Partido Nacional Popular (Guomindang).

Faltando à palavra, Yuan Shikai em Janeiro de 1914 dissolveu o parlamento e colocou os seus membros a elaborar uma constituição, que lhe delegou todo o poder e a 13-12-1915 autoproclamou-se Imperador Hongxian. Após a sua morte a 6 de Junho de 1916, as províncias foram-se revoltando, desencadeando os senhores da guerra uma luta entre eles pela conquista da China, que ficou totalmente fragmentada.

Em Guangdong, o general Chen Jiongming voltava a dominar e em 1917, Sun Yatsen, líder do Guomindang, criava em Guangzhou um governo militar, que no ano seguinte passou para as mãos dos senhores da guerra de Guangxi, sendo o poder entregue em 1920 a Beijing.

16-6-1922

Em 1922, Guangzhou, capital da China Republicana do Sul, estava mergulhada no caos. Digladiavam-se Sun Yatsen, Presidente Extraordinário da República da China desde 5-5-1921, apoiado pelo Governo do Guomindang e Chen Jiongming, desde Outubro de 1920 Governador Civil de Guangdong. Em 21-4-1922, Sun retirou-lhe o comando do Exército de Guangdong (Yue) por, em Março de 1922, se ter recusado ir combater as forças Beiyang a Hubei, preferindo fortalecer militarmente Guangdong.

Com o objectivo de unificar a China, Sun Yat-sen partia a 6 de Maio com quinhentos homens para Norte e logo a 20 de Maio, Ye Ju, que substituíra Chen no comando militar, trazia o Exército Yue de Guangxi para Guangdong, ficando em posição de dominar Guangzhou. “Sun apercebia-se, ser o seu aliado de há muitos anos na verdade agora um rival, razão que o levou a suspender a campanha e a regressar. (..). Ch’en (que era também líder da Tríade) encarregou a seita de eliminar o rival. No caso de as coisas correrem mal, a sua figura ficaria fora de qualquer suspeita”, refere João Guedes, que nos relata numa outra versão o dia 16 de Junho de 1922, quando Sun Yat-sen foi atacado em Guangzhou.

Wang Pik-wan, elemento da Tríade e casada com um dos comandantes da Clique de Guangxi, circunstancialmente aliada a Ch’en, escolheu o grupo de homens armados com a missão de apanhar Sun na sua residência oficial, local indefensável. “O ataque desencadeou-se pelas duas horas da madrugada de 16 de Junho de 1922, mas o factor surpresa foi anulado por um providencial telefonema que pouco antes dera o alerta. A revelação do que se preparava foi apenas suficiente para improvisar a defesa, mas permitiu salvar o presidente.

Soavam já os primeiros tiros, de mistura com gritos de , quando este, acompanhado por um único guarda-costas, abandonou a residência” e a coberto da noite, atravessou discreto a cidade de Cantão “até à segurança do cruzador Yun Feng, uma unidade naval do Kuomintang que se encontrava fundeada no porto, preparada para emergências do género.

Soong ching-ling, sua mulher, que permaneceu ainda algum tempo nas instalações, escapava igualmente algumas horas mais tarde no meio da confusão do assalto, conseguindo alcançar o cruzador com o despontar da manhã.” Na residência, cerca de cinquenta soldados da guarda pessoal resistiam, fazendo crer ainda ali se encontrarem os visados.

Caído o último dos defensores, os atacantes penetraram no edifício à procura de Sun Yat-sen, mas mais interessados estavam nos seus arquivos pessoais, sendo os documentos encontrados depois entregues ao general Ch’en, que os usou para desacreditar nacional e internacionalmente Sun. O edifício foi incendiado e reduzido a escombros. História contada por João Guedes.

28 Jun 2022

Sun Yat-sen como médico em Macau

Sun Wen (Sun Yat-sen) nascera um ano antes de Manuel da Silva Mendes e Camilo de Almeida Pessanha. Já com o Imperador Guang Xu (1875-1908) no trono do Celeste Império, veio o Dr. Sun para Macau como médico em Setembro de 1892, onde ficou um ano, enquanto como professores do Liceu, os bacharéis formados em Direito pela Universidade de Coimbra, Camilo Pessanha chega um ano e meio depois e Manuel da Silva Mendes só em 1901. Ambos vieram ao mundo no ano de 1867, Silva Mendes a 23 de Outubro em S. Miguel das Aves, Famalicão e Camilo Pessanha em Coimbra a 7 de Setembro.

Como médico, Sun Yat-sen serviu no Hospital Kiang Wu em regime de voluntariado entre Setembro de 1892 e Setembro de 1893 e aí criou uma secção de Medicina Ocidental. A comunidade chinesa de Macau fizera a Associação do Hospital Kiang Wu com a finalidade de ajudar os chineses mais desfavorecidos e tinha projectos de abrir escolas gratuitas, socorrer os necessitados e enterrar os mortos cujas famílias eram pobres ou, sem ninguém para deles cuidar. O Hospital foi instalado em San Kiu, um dos locais mais doentios de Macau, onde os mortos mal enterrados, muitas vezes com partes do corpo a descoberto e sem sepulturas, encontravam-se espalhados pela encosta do monte. A arquitectura do Hospital Kiang Wu, semelhante à do Templo de Kun Iam Tong, tem três pavilhões centrais, servindo o da entrada para as reuniões da Associação e o terceiro, um templo com altares aos deuses, Hua Tuo, Guang Gong, Bao Gong, Liu Zu e Hong Sheng. Na casa situada no lado direito dos três pavilhões realizam-se os cuidados médicos. Conta o Hospital com um total de 60 quartos, localizados ao redor do terreno, prestando gratuitamente serviços clínicos aos doentes, servindo de asilo e casa mortuária. Assim se apresenta a Camilo Pessanha o Hospital chinês, dirigido então por uma Comissão Administrativa com quatro directores.

Macau não lhe reconhece diploma

Apoiante e amigo do Dr. Sun desde o tempo de Hong Kong, era então Francisco Hermenegildo Fernandes (1863-1923) funcionário tradutor da Justiça britânica e a sua família proprietária em Macau da tipografia N. T. Fernandes e Filhos, com sede na Rua da Casa Forte n.º 3. Encontrava-se o Dr. Sun a exercer medicina em Macau quando a 18 de Julho de 1893 Francisco Fernandes aqui fundou o Echo Macaense, semanário bilingue luso-chinês. Era Director da tipografia e do jornal e contou com Sun Yat-sen para criar a edição chinesa.
O Ching Hai Tsung Pao (JingHaiCongbao), a edição chinesa do jornal Echo Macaense, a 26 de Setembro de 1893 referia: .

“Através de Francisco Fernandes, Sun Yat-sen seria apresentado a António Joaquim Bastos, figura que de facto desbloquearia o acesso de Sun aos círculos sociais macaenses, avalizando-o na sua vida profissional e defendendo-o nos processos judiciais que lhe foram movidos por rivais e inimigos políticos em Macau. António Joaquim Bastos era, tal como Francisco Fernandes, jornalista e integrava igualmente a redacção do Echo Macaense. (…) Para além de político era também um destacado causídico do foro local. (…) Foi diversas vezes vereador e presidente do Leal Senado e provedor da Santa Casa da Misericórdia. Foi graças a esta última qualidade do seu protector macaense que Sun conseguiu estabelecer-se como médico na cidade, já que António Joaquim Bastos, como provedor da Santa Casa, não teve dificuldades em convencer a mesa directora da instituição a conceder-lhe os empréstimos necessários para montar não só consultório, mas também uma farmácia anexa”, segundo João Guedes, (Revista Macau 52, Outubro 2016) que segue, “Os bons ofícios de Bastos contribuíram também para que a Misericórdia arrendasse a Sun a casa que seria a sua residência nos anos de Macau, situada precisamente na Travessa da Misericórdia, a poucos passos da Praça do Leal Senado. No seu novo domicílio, Sun atendeu alguns dos seus primeiros pacientes, que além de serem seus vizinhos eram portugueses, como os filhos do escritor Venceslau de Morais…”

Formado em Hong Kong, Sun Yat-sen, sem diploma português de médico, segundo as leis do território não poderia exercer legalmente medicina em Macau e nem o poder e influência de António Joaquim Bastos o conseguiram ajudar. Assim, o Dr. Sun teve em 1893 de abandonar Macau e mudou-se com a sua farmácia para Cantão, mas como refere o Dr. Cantlie, «as actividades do Partido Regenerador tomaram tal vulto e ele tornou-se tão proeminente entre os seus colegas que dispunha de pouco tempo para qualquer outra actividade que não fosse a política».

Caçada aos caçadores

Era habitual os portugueses de Macau atravessarem as Portas do Cerco e irem fazer caçadas em território do interior da China. Assim foi na madrugada de 26 de Agosto de 1893, quando o Sr. Firmino Cândido Pereira e quatro amigos seguiram para Goiaveira, povoação pouco distante da Porta do Cerco, com o fim de caçar martinhos-brancos. Sem problemas passaram a estação aduaneira e casa de guarda e levavam já uma hora de caça quando às 7 horas, na maior afluência de caça, depois de ter o Sr. Pereira descarregado sua espingarda sobre um bando de martinhos, no momento de a colher foi bruscamente assaltado por uns quinze chineses, que o desarmaram à força, tendo os outros entregado sem resistência as armas. Asseveraram algumas pessoas que os assaltantes eram meirinhos do mandarim Ngai, sub-prefeito de Chin-san (Casa Branca) e este, numa carta deu a sua versão: . O Mandarim de Chin-san mandou publicar um edital em que narrava o ocorrido e suscitava a observância do anterior edital proibitivo da caça. O Governador da província de Macau e Timor, Custódio Miguel de Borja fez um protesto perante Tsung-Li-Yamen contra o procedimento abusivo do sub-prefeito de Chin-san.

Para haver paz e harmonia, pedia-se que o governo encarregasse um funcionário português a se entender com o mandarim de Chin-san sobre a determinação dos lugares onde devia ser permitido caçar e sobre as formalidades a observar quem quisesse obter uma licença para ir à caça. Pouco tempo depois, tal ficou resolvido, continuando os caçadores de Macau a fazer as incursões em território do interior da China até 100 lis de Macau, onde não faltavam tigres e martinhos-brancos.

26 Out 2018