Pessoa, o Oriente e a Sociedade Teosófica

A palavra de ordem dos românticos alemães: “É no Oriente que devemos procurar o romantismo supremo” (F. Schlegel). Mas nunca conseguimos sair do plano das representações. Seria preciso esperar pelas vagas de emigração de proveniência dos países do mundo árabe e da Ásia, a partir dos anos 60, na Europa, e em Portugal nos anos 90, para termos acesso não a textos sufocados por traduções, mas a pessoas reais, com práticas e contextos reais. Mas já de antes o Oriente do budismo, do Hinduísmo, numa espiritualidade muito diluída e mal traduzida, exerciam um verdadeiro fascínio na Europa, ainda que sempre separado e alheio do contexto religioso, social, doutrinal em que nasceram. Acresce a isto o Esoterismo, que tantas vezes se misturou com muitas destas tradições, mas que tem uma linha europeia própria: tradição hermética, alquímica, maçónica, cabala, simbolismo cristão.

Um dos movimentos que mais fama teve, e logo na segunda metade do século XIX, foi a Sociedade Teosófica, cuja principal força motriz foi fazer essa ponte entre Ocidente e Oriente, daí o seu resultado textual ser fortemente orientalizado. Esse movimento propôs uma fortíssima e sincera revalorização das espiritualidades orientais. Com efeito, a fase madura da doutrina de Helena Blavatsky (1831-1891) foi influenciada pelo Hinduísmo e, mais tarde, pelo Budismo, sobretudo depois da sua viagem à Índia, em 1878, que deu origem à esmagadora obra em seis volumes A Doutrina Secreta (1888). É de notar que, instalada na Índia desde 1883, a Sociedade deu apoio ao combate anti-colonial contra os ingleses.

Fernando Pessoa descobriu a Teosofia em 1915, tendo traduzido para Português várias obras teosóficas como a da Voz do Silêncio, de Helena Blavatsky, datada de 1916. Mas a sua relação com o movimento e com a Sociedade não ultrapassa o papel de estudioso e tradutor, nem consta que tenha sido filiado. De qualquer modo, a espiritualidade tradicional indiana, e asiática em geral (ou uma certa imagem dela), passa a ser um objeto de pesquisa de Pessoa e entra na formação do pensamento esotérico pessoano. Não por acaso o poeta Ricardo Reis e o filosofo António Mora sentem a necessidade de serem dois acérrimos críticos do Esoterismo, pois também no ensaio e na reflexão sobre estas questões a autoria heteronímica entra em cena. As posições da côterie heteronímica sobre esta questão são, como seria de esperar, diversas e contraditórias.

O inicial respeito e fascínio conduz a um progressivo desconforto que o poeta e intelectual vai experienciando com esta tradição. Tal implica um repúdio face ao Oriente reciclado que a Teosofia apresentava, o que é visível neste apontamento inédito, datável da década de dez [c. 1917], onde se opõe a perspetiva teosófica ao Rosacrucianismo: “A Rosicrucian is a kind of occultist a man <† to> of <†> /our/ mind can understand. He cannot understand a neo-buddhist. The detestable indian sub-jugglery, called Theosophy, so despicably, taken far from the great, though diseased beauty of the Buddhism of the East, by its □ mixture with /western/ modernities” (BNP/E3, 26B-8r).
Mas a crítica pessoana à Sociedade Teosófica visa não apenas as suas roupagens orientalizadas. Outro dos incómodos, para Pessoa, consistiria na vulgarização dos princípios do Esoterismo, que defendia não deverem ser massificados, ao contrário do que a Teosofia propunha, bem como no seu “humanitarismo” militante, visto pelo autor como uma espécie de novo supracristianismo, incompatível com o projeto do anti-cristianismo neo-pagão que estava a desenvolver. Confessa numa importante carta a Mário de Sá-Carneiro, datada de 6 de Dezembro de 1915, e que pode ser conferida pelo primeiro volume da edição de Manuela Parreira da Silva da Correspondência: “A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (…), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito”. Por isso, o caminho do esoterismo pessoano vai divergir para o Rosicrucianismo, a Alquimia, a astrologia ocidental. Mas certas ambições pessoanas de criar um sistema totalizante, que unisse as religiões, as filosofias, a ciência e da literatura, é da Teosofia que recebem o seu primeiro modelo e impulso de escrita.

9 Jun 2021

Um pesadelo com uma cor

 

O Outro

Um menino mexe na terra para ver se há um submarino para ali enterrado; alguém falou disso. Um submarino amarelo como na canção dos Beatles.

Começa a escavar e chama os seus amigos. Todos ajudam. E sim, a ponta amarela metálica aparece. Um submarino amarelo, diz Jonathan.

São quatro meninos amigos e escavam durante semanas um submarino amarelo gigante, setenta metros de comprimento. Decidem ir para lá viver, fogem da casa dos pais, roubam comida da aldeia e sobrevivem ali escondidos no submarino amarelo. Chamam muitos amigos e eles vêm.

Quando têm dezoito anos decidem sair para matar.

Já são muitos, uma tribo inteira. Começam a matar todos os pais que ficaram na aldeia. Os meninos do submarino amarelo cresceram.

 

Poemas do Oriente e do Ocidente

Kafka

1Kafka no oriente transforma
os caminhos vermelhos e sagrados
em assunto político. Tudo deve ser discutido,
até a linha recta.

2Uma cerimónia do chá,
só o último a beber a última gota
será salvo. Em todos os outros
jamais se poderá
eliminar 
a sede.
Mas aquele que ficou sem sede,
ficou
 também só, para sempre.
E para esse mal não há ainda
 cerimónia.

Mulheres, poder e pés no chão

Uma notícia: num certo país, muitas mulheres amamentam os seus bebés em público, em protesto contra uma lei que o proíbe.

1Helicóptero vigia mulher que amamenta ao ar livre.
Nenhuma lei dispara – mas a arma legal, sim.
Amamentam em protesto público,
mulheres zangadas com a lei.

2Estamos no mundo para obedecer ao justo, atirar pedra ao inaceitável,
tornar lúdica a perda de tempo, transformar lixo em jogo.
Mas no Estado forte que se instala aos poucos,
a banalidade não existe, e a força exige a mudança abrupta
da velha constituição.

3Antes da brutalidade inventam-se argumentos,
método antigo de novo colocado em circulação.
Democracia. Leis justas e direito aos pés na terra.
Mas de um lado do mundo, levantam-se à força homens do solo
para que estes não tenham apoio.
Sem lei, sem pés, sem chão: tudo é frágil,
capaz de num segundo desaparecer da paisagem.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

22 Mai 2020

O Oriente dói

Mesmo os mais distraídos (o que por vezes inclui a crítica) terão notado a obsessão arqueológica presente em vários livros de poesia publicados sobre o Oriente por portugueses, desde o século XIX até hoje. Eles parecem estar sempre à procura (e por tanto que procurem é fácil encontrar) dos lugares, monumentos e inscrições da presença de Portugal na Ásia, mesmo tendo que escavar não só por entre a vegetação tropical que entretanto engoliu as igrejas jesuíticas, mas também por entre os resquícios mais visíveis de feitorias holandesas e de empresas britânicas que tomaram conta do nosso empório. Couto Viana disse-o em No Oriente do Oriente (1987): “O português no Oriente/ Encontra sempre sugestões, sinais” (p. 35).

Mas não só de ruínas vive esta poesia. Os próprios poetas portugueses que calcorrearam a Ásia são também recuperados como elos desse chamado Oriente Português. E assim Camões, Mendes Pinto, Bocage comparecem como personagens literárias sem as quais não é possível entender a Ásia, em poemas e outros textos de Camilo Pessanha, Alberto Osório de Castro e, mais recentemente, de Ruy Cinatti, Armando Martins Janeira, António Manuel Couto Viana, José Augusto Seabra, Carlos Morais José e de Luís Filipe Castro Mendes, formando uma linhagem de autores com uma ligação simultaneamente vivencial e estética ao chamado Oriente Português. Esta tem vindo a depender sobretudo de funções representativas do Estado, desde o próprio Camões, que em Macau terá sido (para quem esterilmente busca provar a veracidade histórica do mito) “provedor-mor de defuntos e ausentes” até aos diplomatas Seabra e Castro Mendes.

Mas não é apenas a profissão e a vivência directa de um espaço comum que os une. Trata-se de uma tradição com os seus tópicos particulares, directamente relacionados com as biografias dos autores, que como que performatizam a sua errância pela Ásia, mitificando-a à luz dos seus antepassados prediletos, quase sempre Camões e Mendes Pinto, de que sentem repetir os passos. Assim, uma das características desta poesia tem sido a constante mediação de referências literárias portuguesas para entender o próprio Oriente. Ao afeto pelas coisas asiáticas interseciona-se uma obsessão por encontrar Portugal e as marcas da sua cultura necessariamente imperial.

Muitas vezes a inscrição de Camões e de Pessanha como âncoras familiares contra a inalienável estranheza da Ásia são também problemáticas, por que podem trazer consigo construtos discursivos a que alguns chamam orientalistas. Este tipo de intertextualidade facilmente é lida à luz do mecanismo, apontado por Edward Said em 1978, de legitimação do discurso orientalista pela referência à autoridade de outros plumitivos. Mesmo que não seja esse o caso, é um tanto ou quanto irresistível, para um poeta português que habite na Índia e em Macau e que sobre ela escreva, falar de Camões e até mesmo de Pessanha. Homenagear ou repetir Camões e Pessanha não é, em si mesmo, um gesto orientalista, mas arrasta fortes implicações provindas da tradição onde tal homenagem acontece.

De qualquer das maneiras, e para quem tende a observar a Ásia com uma lente portuguesa, exige-se prudência nas experiências exóticas. Essa prudência está sobretudo nos que aqui mais tempo passaram. Ela está – tanto que sobre ela escreveram – em Wenceslau, em Pessanha, em Cinatti, e menos em outros.

Quando se vê o Oriente por aquela lente é como se ele doesse menos, pois a ignorância do europeu perante o “misterioso” Oriente (afinal também ela um conhecido tópico) é por vezes cansaço, como no poema de Castro Mendes «Um orientalista confessa-se», de Lendas da Índia (2012): “O Oriente dói,/ Alheio aos nossos conceitos estafados,/Desfeitos pelas chuvas da monção/ Ou dispersos pelos ventos do deserto” (p. 36).

Assim, junto com a prudência vem a ironia sobre o próprio olhar europeu sobre a Ásia, neste e noutros poetas mais recentes, o que modula este quadro. Mas afinal estamos sempre dentro do olhar europeu, e não nos são permitidas mais do que voltas concêntricas, que noutro lugar tocam o mesmo ponto.

8 Mai 2020

Carros, Monumentos e Procissões

 

Carros, Monumentos e Procissões

1Todo o carro é a manifestação – nadamodesta – desse velho, e novo, instintonómada.
O mundo divide-se a partir de dois tipos de cadeiras
1 – a cadeira que não se move – cadeira que quer manter-se no território (ou no metro quadrado) onde está
e
2 – a cadeira que se move – cadeira que está dentro de um recipiente com rodas que avança
(O que é um carro? É um recipiente com rodas que avança e que tem lá dentro cadeiras.
O que é uma cadeira? É o modo de a matéria se colocar a jeito para receber um corpo que não quer fazer esforço).

2Quando se constrói um pesado monumento diz-se: quero ficar aqui.
Quando se faz um carro – com motor, sem motor, o que for – diz-se: não quero ficar aqui.
Podemos, claro, ser nómadas durante anos ou meses ou apenas durante um dia ou trinta minutos, mas o humano é isto: inventa o que aí vem para não estar quieto.
(eu vou ali e já venho – eis o nómada rápido, o nómada que poupa nos pés e no trajecto)

É evidente ainda que há uma forma nómada bem antiga que é a de ser nómada em linha recta. Este é o nómada que sai e se afasta cada vez mais do ponto de partida.

3A procissão, o cortejo e o desfile são, por seu turno, formas antigas e modernas de ser nómada num itinerário de circunferência: avança-se lentamente até ao ponto de onde se partiu.
Um carro de um cortejo é um carronómada-de-circunferência.
E em certos cortejos, os animais vão à frente porque é deles a sabedoria que reconhece os indícios não-verbais. E vão também atrás, os animais, porque os homens sentem-se bem assim, entre dois limites iguais. Se recuares, encontrarás o animal; se avançares encontrarás o animal. Onde está o homem, a mulher, o sacerdote, o guerreiro, o camponês? Estão ali, no meio, entre um animal e outro – e assim está bem. Eis a procissão.

É preciso, também, claro, uma certa encenação. Somos consumidores de actos e quem ali vai, no carro da procissão, não quer apenas fazer algo, quer também que alguém veja (que todos vejam) o que se vai fazer. Não há cerimónias de sacrifícios sem espectador, mesmo que o espectador seja essa entidade calada e quieta, sem forma nem cor, transparente, sem cheiro ou paladar, essa entidade a que se chama Deus.
Monumentos, carros e procissões.

Nota final – Nestes tempos de calamidade, ficar em casa é muitas vezes não apenas ser salvo, mas salvar. Em certas partes do mundo, por isso mesmo, ficar em casa é urgente.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

17 Abr 2020

Outra língua, outro tempo

 

Outra língua, outro tempo

1Uma bela ideia, que não se confirmou até agora.
Volto a Paul Virilio, o estudioso da tecnologia, numa entrevista já clássica, feita há uns anos por Luisa Futoransky.

Virilio disse:
“A ONU prepara o UNL, o Universal Network Language, quer dizer, um super-esperanto. Uma só língua. Será formidável. Todos poderemos perceber-nos e ao mesmo tempo será a confusão das diversidades. Estamos perante terríveis paradoxos.”

Sim, terríveis paradoxos: o igual e o diferente.
 

2Mas pensar numa língua do século XXI, sem ligação nenhuma ao passado. Uma língua fundada a partir do som zero, da utopia do som zero. Inventar novas sons para uma nova língua; uma língua que nasça já no século da Técnica. Uma língua que tenha sons que só venham do artificial, das máquinas.

Substituir cordas vocais, a garganta e as possibilidades orgânicas de som pelas possibilidades artificiais de som. Um som que venha das máquinas e não dos órgãos humanos. Uma nova língua humana, portanto, mas criada com base em sons de computador – bip bip – e de máquinas.

Pensar também, diz um amigo, Jonathan, pensar num hino do século XXI feito apenas desses sons recolhidos do funcionamento das máquinas. Não de máquinas musicais, mas de outro tipo de máquinas, de máquinas úteis. Criar um hino a partir dos sons da utilidade, dos sons da utilidade do século XXI.
Um hino metálico, disse Jonathan. Um hino informático.

Um hino composto de zeros e uns; zeros e uns que produzem sons, zeros e uns sonoros.
Porque o som provocado pelo 001 será completamente diferente do som que resulta da sucessão 0001.
Um som racional, sim. Uma música informática.

E, por outro lado, pensar na criação de um novo tempo, sem ligação com a rotação da terra ou com o sol. Sem ligação com os ventos.
Uma nova unidade de tempo ligada à tecnologia. Eis outra hipótese.
 

3Porém, hoje, desde o Oriente ao Ocidente, depois deste vírus, talvez esteja a aparecer uma nova unidade de tempo do século XXI. Uma unidade definida não pela tecnologia, muito menos pelos planetas.

Estar dentro ou fora de casa não por causa do bom ou do mau tempo lá fora, mas sim por causa do mau do vírus. Tempo sem vírus, podemos sair; tempo com vírus, não podemos sair.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

3 Abr 2020

Poemas do Oriente

 

O Outro

O direito, o esquerdo.
Leis, aquilo que está ao lado direito do homem,
e a possibilidade da eventual
bondade.
O esquerdo, o diabo.
Mas há um terceiro lado
que mistura
tudo.

Observação

Não tocar nos acontecimentos, ouvi-los.
Vida própria como um objecto 
que não pode ser tocado, 
destino que pede silêncio,
cumprimento delicado da cabeça.
Ou vida como matéria de artesanato,
as tuas mãos determinam a forma final
de cada dia.
Conflito ou negociação.
No calor, água; no frio, fogueira.
O carteiro não pára,
o homem nunca está contente.

Aquilo que não ocupa espaço

O mais forte pode ser vencido, 
o mais inteligente e rápido também, 
o mais rico pode ter menos uma moeda 
        do que um forasteiro, 
mas aquilo que não ocupa espaço, 
não fala, não tem expectativas,
não tem também rival.

Recordando dias de agosto em Kyoto

1Kyoto, em agosto.
Exausto, pede para descansar.
Se parares de avançar, morres,
se continuares a avançar, morres.
O que fazer, então? Pergunta.
Salta ou escavar.
Não avançar e não deixar de avançar.
Como de saltar te cansas, acabarás a escavar.
Não avanço, não deixo de avançar.

2Ele não quer morrer.
Em pleno agosto, quarenta graus;
com as mãos escava
à sombra de uma árvore.
Acabará no inverno
como se o frio fosse um local,
um sítio a que se chega
escavando,
com a paciência certa.

3Uma árvore que dá tempo 
como outras dão cerejeiras.
Dia de sol tremendo. Calada e quieta
e até surda
ela acompanha 
e dela recebo o mínimo.
Sombra como outro fruto 
nesses dias de agosto 
em Kyoto –
o mais antigo e o que mais acalma.
Dá sombra, a árvore, comida
que ainda existe para o cansaço seguinte,
fruto que não consegues roubar
ou sequer mudar de posição.
Cerejeira e sombra, o local
da escrita nesses dias de agosto
em Kyoto.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

27 Mar 2020

Pequenas notas, pequenas histórias

 

1. Europa, século XIX

“O despotismo expulso dos castelos refugiou-se nos escritórios”, diz um relatório do século XIX.
Na história da Europa do século XIX fala-se ainda de pequenos limpa-chaminés, contratados a partir dos quatro anos, dos quais se aproveitava a pequena estatura – a sua grande qualidade. Esses pequenos limpa-chaminés eram “mais baratos que uma vassoura”, diz Jean Duché, um historiador. Carlyle, cinicamente diz que o arsénico atingiria o mesmo objectivo, mas o excessivo trabalho faz o mesmo retirando o lucro possível no percurso.
Em 1842 uma lei proíbe os rapazes com menos de dez anos de trabalharem numa mina.

2. Natureza e técnica

A máquina para caçar animais selvagens fica encravada nos ramos mais espessos da densa floresta.

Um homem com um machado vai lá e corta os ramos mais espessos. A máquina foi libertada. Alguém grita de alegria. Não pode ser a máquina, pois ela não foi feita para isso. Quem grita então, quem está assim tão alegre com a libertação da máquina?

Impossível saber. De qualquer maneira, a floresta densa tem, noutros sítios, outros ramos espessos que, pacientes, aguardam a passagem da máquina de caça. Para atacarem outra vez.

3. Verdade

Tendo de manhã acordado mesmo ao lado da Verdade, o homem, depois de abrir os olhos ligeiramente, diante daquele brilho intenso e violento, fechou-os de novo, e, depois, aos poucos, ficou sonolento, aborrecido e adormeceu.

4. A doença

Num tempo de epidemias e medos, num tempo sempre duro individualmente, a terrível frase de Heidegger: “A doença não é o distúrbio de um decurso biológico, mas um acontecer histórico do homem (…)”.

Faz parte da história habitual; não é um acidente, é uma etapa; terrível etapa.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

6 Mar 2020

Duas histórias de família e uma frase  

 

1. O abutre

Um abutre é colocado num frasco, com buracos para respirar, frasco grande, da altura do animal, que é colocado na despensa, ao lado de outros frascos mais pequenos que contêm arroz, massa, sal, açúcar, etc.

A criança alimenta o animal como se alimenta um pássaro pequeno. Aquele frasco tem todos os dispositivos de uma gaiola.

O abutre foi encontrado ainda pequeno, cresceu dentro daquela gaiola em forma de frasco, gaiola transparente de vidro.

Os pais da criança sabem que o abutre, mesmo crescendo numa casa humana, não esquece os seus instintos nem aprende boas maneiras, mas a criança ainda não estudou biologia e está na idade em que não escuta os pais.

Um domingo, aproveitando a saída dos pais, a criança vai à despensa e traz com esforço o frasco para o quarto deles. A criança nem sabe que os abutres voam. Ou talvez saiba muitos outros pormenores de que nem fazemos a mínima ideia. O certo é que a criança fez o seguinte: abriu o frasco e fechou a porta deixando o abutre no quarto dos pais. Por ela, não mais abriria a porta.

Quando os pais voltassem na semana seguinte, ou talvez no mês seguinte – quem sabe ao certo quanto tempo os pais demoram a regressar – quando eles voltassem e abrissem a porta do quarto iriam ter uma surpresa – e a criança não sabia ao certo se a surpresa seria boa ou má para os pais; mas de qualquer maneira quando pensava nisso, quase de forma inconsciente, sorria.

2. A tarântula

As fêmeas das tarântulas mediterrâneas (Lycosa Tarantula) que devoram os machos depois de terem sexo com eles, geram maior número de descendentes e, cada um deles, com mais aptidão para sobreviver.

As fêmeas das Lycosa Tarantula que não devorarem o macho terão filhos mais fracos.

3. Agustina

“O casal é um organismo de uma simplicidade impressionante.”

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

28 Fev 2020

Nómadas

Paul Virilio, falecido há pouco tempo, estudioso da tecnologia, numa entrevista, falando do Crash da bolsa em 2008 e da crise do preço das casas:

“De onde parte a crise atual? Dos subprimes, das casas à venda a crédito em condições impossíveis. Do solo. As vítimas são algumas centenas de milhares de pessoas que perderam as suas casas. A noção de sedentariedade já está posta em causa com os imigrantes, deportados, refugiados, o deslocamento das empresas, etc.”

A ideia importante de que voltámos ao nomadismo. O preço exorbitante das casas, de repente obriga o homem a sair do seu sítio, a deslocar-se sem nada na mão, afastando-se do espaço onde estão os seus familiares mortos.

Ou então, mesmo mantendo a casa, aí está o humano a deslocar-se diariamente numa extensão significativa, ou ao longo de horas, para ir trabalhar. Duas/três horas por dia para ir trabalhar e voltar a casa. Um nomadismo diário, nomadismo soft, mas nomadismo.

Virilio continuava, nessa entrevista:

“O fenómeno vai acentuar-se. Até 2040, um milhão de pessoas serão forçadas a mudarem-se do lugar em que vivem. Eis aí as vítimas. Nós estamos na noção do stop/eject. Paramos e ejetamos.”

E a sensação de que não podes parar.

Se páras serás ejectado, atirado para fora: é preciso circular. Se páras serás projectado para fora do circuito, esse circuito ininterrupto que é mesmo isso: uma circunferência e não uma recta com horizonte. Uma circunferência não tem horizonte ou tem horizontes falsos.

Toda a imobilidade será castigada pelo progresso de dentes afiados, um mandamento contra o qual podia lutar Virilio.

Ao fim do dia regressas ao mesmo sítio. Um nomadismo circular, eis a falsa agitação de muitas cidades.

Poemas do Oriente: Estratégia

Negócios fechados em silencio e imobilidade.
Terrenos mudam de dono.
Objectos encontram novas mãos.
Quem quer não fala nem gesticula.
Ninguém fascina se perturbar a calma.
Quem quer, espera.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

21 Fev 2020

Sobre as nuvens e os mitos

 

“Cavalo velho conhece o caminho”
Provérbio chinês

Sobre as nuvens e os mitos

Vejamos o que diz a etimologia; “Origem da palavra meteoro. Do grego meteoros, literalmente “o que está no ar, o que está por cima de nós”. O plural meteora era o termo genérico para tudo o que se observava no céu, como as nuvens, os ventos, o granizo, o arco-íris, os relâmpagos, etc.”

Daí o termo meteorologia, que não é apenas a previsão dos meteoros e da sua trajectória, mas sim a previsão de todos os acontecimentos que surgirão no ar. Em suma, tudo o que não está no chão diz respeito à meteorologia.

Podemos pensar assim numa meteorologia em que a trajectória dos aviões seria incluída. Descrever-se-iam nuvens, relâmpagos, ventos nefastos, mas também as muitas trajectórias dos aviões.

Curioso notar que a meteorologia – como a descrição de tudo o que está no ar e de tudo o que está acima de nós – já perdeu toda a potência religiosa inicial. A tudo o que está no ar ou acima de nós os antigos chamavam de divino.

Podemos assim pensar num antigo boletim meteorológico em que, a cada fim do dia, se falaria da disposição do divino: como seria previsível que os deuses, que estão no ar e acima de nós, se comportassem na próxima semana.

Essa seria, então, uma arte de profetas. E, de facto, os profetas foram substituídos por análises de tendências – que sintetizam muitos números complexos, médias e etc. – e por gráficos complicados.

Os antigos profetas, esses belos cavalos velhos, quase sempre cegos, viam imagens do futuro na cabeça. A sua cegueira permitia-lhes ver o que os outros não viam. A sua cegueira era, portanto, a sua fonte de força.

Agora, os profetas cegos são substituídos por instrumentos de ver muito longe e com muito pormenor. Cada profeta foi trocado por satélites, antenas estranhas e cem mil telescópios de grande potência. Da não visão passou-se para a visão do mais pequeno pormenor da realidade.

Aliás, é tal a potência de alguns desses telescópios que estes não vêem apenas pequenas coisas afastadas no espaço, vêem também coisas afastadas no tempo. Quebraram o mundo habitual da visão, que era o do espaço. Agora, com os grandes instrumentos científicos, vê-se o tempo.

Mas sim, o mais importante é isto: o que antes era religião, mito e imaginação está transformado em boletim meteorológico. Ganhámos ciência, mas perdemos qualquer coisa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

14 Fev 2020

Sobre a beleza, dois clássicos

Dois Clássicos, um de cada lado

1Ovídio, poeta romano que nasceu em 43 ac. e terá morrido em 17/18 dc. Com Virgílio e Horácio, Ovídio forma o trio de luxo da poesia latina.

Escreveu a A arte da Amar, volumes sobre como conquistar uma mulher, como manter a amada, etc. Nada moralista, perverso até, o quanto baste.

Em Metamorfoses, uma das obras clássicas mais influentes, a que podemos aceder através da belíssima tradução de Paulo Farmhouse Alberto, na editora Cotovia, Ovídio, relatando a beleza de um rapaz, escreve:
“Nada do que eu via nele se poderia considerar humano.”

E, um pouco mais à frente, surgem estes versos impressionantes:
“Mal me apercebi disto, digo aos homens: Não sei que deus
habita neste corpo, mas neste corpo algum deus habita.”
O belo como aquilo que passado um limite se torna não-humano. Uma outra forma de crueldade, eu diria: a extrema beleza.

2Do outro lado Chuang Tse, um dos pensadores mais influentes do Oriente. São dele alguns dos textos fundadores do taoísmo. Escreve Chuang Tse em “Capítulos interiores”:

“Mao Chiang e Li Ching eram consideradas belas pelos homens. Mas se os peixes as vissem, mergulhariam até ao fundo do rio. Se os pássaros as vissem, voariam para longe. Se os veados as vissem, fugiriam para longe. Destes quatro quem reconhece a verdadeira beleza?”

A beleza como algo que pode ser analisado e compreendido por peixes, pássaros, veados e homens. Susto e paixão, consequências da beleza; assombro, desejo ou mera contemplação como acções ou reacções de humanos e animais, elementos bem terrenos.

Os homens na cidade, os veados na floresta, os peixes na água e os pássaros no ar. O que é belo não pertence ao céu ou ao divino, mas aos elementos bem concretos da natureza. E estes não estão de acordo entre si.

 

Poemas do Oriente: Susto

Não é fácil esquecer a liberdade.

Peixe desviado ontem do mar para a mesa. 

Move-se ainda.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

7 Fev 2020

Sobre a presença e a ausência

 

“A Presença é a única Deusa que adoro”
(extraordinária síntese de Goethe, numa conversa com Friederike Brun, em 1795 e que dá título ao primeiro capítulo do já quase clássico livro de Pierre Hadot (1922-2010), “Não te esqueças de viver”, edição da Relógio de Água.)

Sobre a presença e a ausência

1Adorar a presença, fazer vénias a essa energia que está por completo na acção que se exige agora mesmo no espaço. Ou na inacção. Assim se aconselha em muitas religiões do Oriente.
O fundamental: distinguir a presença da ausência como o ouro do pó.
 

2Porém, nada do que está ausente se esquece de mim. Tudo exige a minha atenção.
Os dias já passados e as expectativas, eis as duas grandes ausências. Dois ausentes com íman em todo o corpo, sempre num sussurro: dá-me a atenção, olha para mim, fala comigo.
 

3Cego, surdo e mudo? Os três macaquinhos, os velhos macaquinhos que nunca envelhecem.
Cego, surdo e mudo? Sim, mas para quem? Para o que está ausente.
Linguagem, visão e audição, sim. Mas para quem, para o quê? Para o que está presente.
 

4Mãos à frente dos olhos dos ouvidos e da boca. O que resta? Isso mesmo: mãos, dedos.
Para quê? Para tocar. No quê? No presente.
Definição de presente: aquilo em que posso tocar.
Definição de ausente: aquilo em que não posso tocar.
 

5Pensar por isso, é estar ausente, estar fora da presença.
É difícil tocar naquilo em que estou a pensar. Posso tocar na minha testa, na minha nuca, no alto do meu crânio, mas não posso tocar nos meus pensamentos.
Os pensamentos poderiam por isso ter o nome de Os Intocáveis.
 

6As mãos como os sensores do presente. Mesmo o que está afastado de mim, um metro apenas, está ausente. Só ficará presente quando se aproximar um metro e me tocar (ou por mim se tocado).
O tacto como o sentido quase religioso do presente, o sentido que distingue o presente do ausente. Não a prova dos nove – mas dos dez, dez dedos.
 

7Imaginar uma personagem apaixonadíssima que quer tocar nos pensamentos da sua amada, aquilo que nela lhe foge.
E, doido de ciúmes, quer ter nas mãos o pensamento da sua amada, aquilo que para ele é inacessível.
E, doido de ciúmes, abre a cabeça da sua amada, quer pôr os dedos no que ela estava a pensar.
Mas não consegue, não consegue, não consegue.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

24 Jan 2020

Acontecimentos, leis, pálpebras

 

“Um animal com uma só perna inveja o animal que tem muitas pernas. O animal de muitas pernas inveja a serpente. A serpente inveja o vento. O vento inveja o olho. O olho inveja a rapidez do coração e da mente.”
do livro de Chuang Tsu

Sobre as nuvens e os mitos

VO olho e a aparente velocidade máxima no espaço, vai e já veio, uma flecha que volta ao arco de onde saiu no mesmo instante em que parte.
Parte e chega ao mesmo tempo, eis o olhar. O olho emite e recebe. O emissor e o receptor são o mesmo e ao mesmo tempo. Mas algo acontece. Ver é acontecer algo parecendo que nada acontece.

A velocidade da flecha da luz e do olhar. É necessário medir a velocidade do que é imediato, a velocidade do que não tem intervalo. Aquilo que acontece e não dura, como é que acontece? Um acontecimento que não tem tempo onde pouse os pés.

Mas na mente sim e no coração, o que se sente e o que se pensa, aí sim: a velocidade mais veloz.

“O vento inveja o olho. O olho inveja a rapidez do coração e da mente.”

E talvez não seja apenas uma questão de velocidade. Mas também de lucidez. A coração e a mente percebem melhor o mundo do que o olho.
 

Um conto breve

Numa aldeia, os homens não têm pálpebras.
Os olhos estão sempre abertos como mochos.
Estão cheios de sono, os homens sem pálpebras.
Não dormem e por isso ficam irritados. Matam quem está ali perto: pai, mãe, irmãos. Depois suicidam-se. A sua violência só pode acabar assim.
Neste gesto começou a maldade: quem tirou as pálpebras aos homens?
É preciso que eles durmam.
 

Poemas do Oriente: Som do sino num certo sábado à tarde

O sino tem som guardado. 
E é a tua mão que o liberta como a um animal
de dentro de uma jaula.
Mas só o toque certo da mão no sino
tem esse efeito.
Som, combinação de algarismos
como na fechadura de um cofre.
Biliões de combinações possíveis,
mas só uma, só uma,
só uma liberta o animal certo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

17 Jan 2020

Coisas do Oriente

Oriente é o particípio presente do verbo latino orior que, embora depoente, significa tão-somente levantar-se. Oriente é, portanto, o lugar onde o sol se ergue, para iniciar o seu caminho aparente no céu.

Houve vários orientes para o europeu: primeiro a separação entre a Oikoumenè grega, o Mediterrâneo, e todo o resto do mundo, baptizado como Oriente, num primeiro momento que vai desde a afirmação militar perante os Persas, no séc. V antes de Cristo, até ao expansionismo de Alexandre.

O segundo, de maior fortuna, seria o Islão (e durante a Era Moderna o mundo otomano), esse Oriente que tivemos por largos anos dentro do território português.

Finalmente, houve e há ainda Bizâncio, sobrevivente do cisma religioso do século XIII. Na terminologia da Igreja, a palavra designa aqui as cristandades do Leste, sendo que os Balcãs e a própria Grécia, a raiz da racionalidade do Ocidente, fazem dele parte. Ou seja, não há quase lugar nenhum, nem mesmo as Américas, essas índias ocidentais, a que não tenha já sido dado ser Oriente. Como disse Raymond Schwab em A Renascença Oriental (1950), o Oriente tanta terra diferente designou que já bastou para dar a volta ao mundo. No imaginário europeu da Idade Média (e é de um imaginário que falo, não de um lugar), o Oriente tinha em si no início largas partes de África. Depois, com as expansões europeias, vai-se afastando, até ao Extremo da Eurásia, lançando o Preste João cada vez para mais longe.

Deixa de ser um obscuro papa núbio para se tornar um lama tibetano, um letrado confuciano ou até um pajé dos guarani. Mas quando dizemos Oriente, onde estamos ou, mais precisamente, onde achamos que estamos? Certamente, pelo menos é o que ficou marcado na linguagem, ainda nos entendemos na Grécia, pois é esse o ponto de referência ficcionado onde quisemos crer que se separaram as largas massas de terra do mundo, cindindo-se em duas: dum lado a razão, doutra a irrazão, lembrando Roger Pol-Droit.

Mas quem diz Oriente, pode realmente estar no Oriente, ou está apenas num ponto em que observa o sol a chegar desse Oriente que é sempre mais a oriente? É preciso não esquecer que o Oriente não é um lugar, é apenas uma direcção. O Oriente não existe.

Uma das palavras-chave da cultura portuguesa, de acordo com António Quadros, deu o verbo orientar. Talvez levado do português a outras línguas latinas, esse orientar-se trouxe consigo naus, impérios e quejandos. Isso está tudo muito bem, ou muito mal, pois tudo isto são úteis ou até perigosas fantasias, como sabemos, ainda que bem úteis para os Huntingtons deste mundo (ou do outro, o Ocidente, para ser mais preciso), que tudo dividem em grandes blocos, dum lado os cavaleiros de barretes brancos e do outro os pérfidos persas, de tez escura.

Como na recentemente estreada série Messiah, em streaming no canal Netflix, sobre a segunda vinda do Cristo (o primeiro já havia sido responsável por uma perigosa seita oriental) ao mundo. A funcionária da CIA, no café que costuma frequentar para tecer as teias do imperialismo, tem uma converseta amena com o empregado, por mero acaso um rapaz negro. Repara que ele lê para um exame The Clash of Civilizations, e diz-lhe: “Tudo o que você tem que saber é que ele estava certo. Huntington previu que o principal eixo do conflito mundial após a guerra fria seria de natureza cultural e religiosa. É exactamente o que está acontecendo na política mundial hoje”.

Tudo isto me leva a crer que talvez nós, aqui nesta Cidade do Santo Nome de RAEM, não vivamos de facto no Oriente. É possível que este seja ainda mais a oriente, nalguma ilha da Samoa ou do Corvo, algures a oriente do oriente.

17 Jan 2020

Sobre o jardim

 

Sobre o jardim

O jardineiro é um astrónomo que em vez de olhar para cima olha para baixo e isto parece-me uma definição prática da coisa. O jardineiro recebe ordens dos patrões, se os tiver, e dos astros – os mais altos e antigos emissores de luz.

Se fores pintor, o jardim é cor. Verde no centro, aqui mais escuro, mais claro ali, castanho da terra – um castanho que varia tanto – e árvores.

Se alguém for senhor da arte dos perfumes ou da gastronomia, o jardim avançará para ser aquilo que a terra produz e é táctil e tem sabor.

O que é a ópera para a arte – ópera que tem lá dentro tudo: canto, música, teatro, dança, literatura e etc. – é o jardim para o espaço da cidade. O jardim, pois, como obra de arte completa: é feito para todos os sentidos do corpo.

“De mais nada fala o Jardineiro, se não do andamento dos astros, das estações, dos corpos estelares e dos corpos verdes e das suas conjugações.”
Maria velho da Costa

 

Portas, entrada

Pensar numa casa no Oriente feita de portas. Talvez seja isso a definição de um labirinto: no caminho tudo são portas; tudo, pois, são entradas decisivas: um passo para a frente e estamos noutro lado, noutro mundo. Cuidado com o passo que dás!

Uma porta é um cruzamento. Se está fechada impede a entrada ou exige uma acção. A porta fechada como manifestação de pouca familiaridade e, ao mesmo tempo, como pedido de um movimento. A porta aberta, pelo contrário, como uma manifestação de confiança. A porta aberta diz: confio em ti, podes avançar mantendo o movimento uniformemente leve.

Como entrar no novo ano no Ocidente? Com o movimento uniformemente leve que as portas abertas do Oriente sugerem.

 

Poemas do Oriente: Comer, fazer a barba, reflectir

Arroz na taça, costas curvadas,
paus rápidos, enchem-se, esvaziam.
Taça antes cheia de arroz, agora brilha.
Vês o fundo, vês-te ao espelho.
É preciso comer, sem isso não entendes nada.
Fazes a barba frente à taça de arroz vazia, pendurada com a inclinação certa.
Podes fechar os olhos, não te cortas.
Há quem diga que nem lâminas
são necessárias.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

10 Jan 2020

Muralha, Bárbaros e Portas

 

Muralha, Bárbaros e Portas

 

1Há uma parábola de Kafka que conta que, num certo império, quiseram construir uma muralha à volta de todo o país para impedir que os bárbaros entrassem. A parábola de Kafka conta que a construção demorou tanto tempo que, quando terminou, os bárbaros já estavam lá dentro e agora, com a indestrutível muralha à volta, já não conseguiam sair.

A parábola não continua, mas poderíamos pensar que o passo seguinte, caricato, seria o império começar a derrubar o muro construído para que os bárbaros pudessem finalmente ser expulsos. Os mesmos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Ou então os filhos dos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Muitas vezes isto: gerações sucedendo-se, uma fazendo o contrário do que fez a outra.

2Em Itália há um único santo que não fez milagres. Era um porteiro que foi feito santo. Ele só abria portas. Era porteiro de uma escola, mas abria portas com tanta alegria que foi feito santo. Abrir as portas com alegria. Uma bela síntese.

Quantas portas já abriste com alegria? Eis uma pergunta que deve ser feita no último momento. Antes das últimas palavras de um moribundo.

 

Poemas do Oriente: A amizade

Todo atento ao mais mínimo gesto do outro.
Mas atenção inconsciente, uma forma concreta e
humana de substituir o ar.
O copo que o cotovelo distraído derruba
apanhado ainda no início da queda pelo amigo que pensava noutro assunto.
Ou talvez afinal o amigo contasse os deuses
de noite visíveis no céu
e o movimento evitando a queda
tenha sido um aceno útil para cima;
ritual e oração substituídos num gesto
pelo velho instinto.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

20 Dez 2019

O Exército – uma ficção

 

O Exército – uma ficção

 

Num país longínquo, uma menina avança em bicos de pés a dançar uma música imaginária que leva na cabeça e, sem o notar, os seus pés vão apagando os traços da fronteira guardada, há séculos, por canhões pesados. Em bicos de pés ninguém ouve nem detecta. Apaga a fronteira de forma rápida, sem ninguém o perceber, e o exército que guardava a fronteira perde-se porque já não há fronteira. Onde é que ela estava? Ali, dizem uns. Mais à frente, dizem outros. E falavam da fronteira, não da bailarina.

Sem a fronteira, que era a referência, os soldados ficaram perdidos.

O exército de milhões de soldados pede, então, auxílio porque está perdido numa floresta e começa a ter medo. São muitos homens armados e cheios de equipamento militar, mas não sabem onde estão e por isso começam a gritar, com medo.

As mães ouvem porque as mães estão sempre atentas. Saem de casa a correr, muitas mães espalhadas pelo país inteiro, e vão socorrer os filhos que estão perdidos na floresta.

Os meninos, armados e adultos, estão já a chorar quando as mães chegam perto. Elas agarram com força na mão dos seus filhos e é assim que o exército é reencontrado e volta a casa. Cada soldado puxado pela mão da sua mãe, à força. Agora já não sais daqui, de ao pé de mim, dizem elas, como se eles tivessem saído de casa para brincar, sem autorização materna.

 

Poemas do Oriente: Dormir

Dormir o mais perto do solo,
dormir não é levitação artificial.
Entre a terra onde descansam muitos mortos amigos
e o céu onde deuses bem acordados velam por nós,
aí, no meio, no caminho,
não há espaço para algo ainda mortal.
Evitar a cama alta, a elevação falsa.
Dormir é lá em baixo, onde tudo começa a existir,
as árvores, por exemplo,
e também a memória.
Onde fazes a cama? O mais longe dos deuses,
o mais perto dos mortos.
Uma prova de humildade, dirás.
Dormir o mais perto do solo.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES
13 Dez 2019

O Centro

 

Onde está?

Os paradoxos de Hui Sui:
“Conheço o centro do universo: está ao norte do extremo norte (Yan) e está ao sul do extremo sul (Yue).”

 
É preciso, pois, encontrar o centro nas extremidades. Vais a um limite e ele está lá e vais ao outro limite, do outro lado, e ele está lá. Mas não se trata de dar a volta a uma esfera. Trata-se, sim, de um mundo plano em que só há um centro. E sim: ele está ao mesmo tempo em dois lados opostos.

Como se fosse um centro perturbado. Um centro que é dois, meio demente. Um centro que não está ali perto, que exige esforço para ser alcançado. Está no extremo, num sítio pouco acessível.

Um centro que baralha o caminhante. Uns dizem que está nas suas costas, outros dizem que está à sua frente. Quem mente? Ninguém. Todos dizem a verdade.

Como pode o centro estar nas minhas costas e à minha frente?

Hui Sui conhece o centro do universo: “está ao norte do extremo norte e está ao sul do extremo sul”. O centro está para além do norte e para além do sul. Nunca o alcanças. Se vires o centro ao longe já é bom, já é uma façanha. Nunca terás os pés no centro, nunca nele tocarás.

O que se exige ao humano, já que é impossível alcançar o centro do universo? Ir até ao extremo norte de si próprio, ir ao extremo sul de si próprio.

E sim, pensar o centro como algo a que se chega não geograficamente, mas por via do tempo, das experiências que se tem ao longo do tempo. Cada experiência importante aproxima-me do centro.

O centro que não está no espaço, mas no tempo.

Se o tempo tivesse norte e sul, o centro de uma vida estaria para lá do extremo norte do tempo e para lá do extremo sul do tempo.

Pensar no centro de uma biografia como se pensa no centro de uma circunferência. Um momento fundamental que coloca todos os outros momentos e experiências à mesma distância.

Onde está o centro da tua biografia? Já passou? Está a chegar?
 

Poemas do Oriente: Acordar

Papel dobrado sete vezes é mais forte,
guarda segredos, tapa.
Dormir é assim.
Acordar como animal que aceita o tempo
que as coisas demoram;
não ir de réptil deitado a bípede humano
num segundo.
Todo o acordar é desdobrar,
Lentamente prometes um tranquilo segredo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

9 Dez 2019

Os colapsos, os acidentes

 

Os colapsos, os acidentes

Pensar numa fábrica que produz acidentes intencionalmente; que planeia acidentes, constrói acidentes como alguns constroem um edifício. Parece absurdo?

Paul Virilio fala da “ industrialização do acidente”: os testes aos carros – tendo por base o crash e a capacidade de resistência a esse choque e impacto – são disso bom exemplo. Um bom carro é o que resiste ao impacto violento que, em princípio, poderá até nunca suceder.

A partir daqui podemos pensar numa comunidade que acredite que a sociedade avança devido aos acidentes e não ao progresso contínuo. Trata-se de acreditar no avanço por saltos, mas não saltos sobre o solo firme e controlado, avanço, sim, por quedas: o mundo avança de queda em queda, de acidente em acidente, de colapso em colapso.

A sociedade mais atrasada seria, nesse sentido, a que tivesse tido menos acidentes, menos colapsos. A mais estável seria a mais atrasada.

Associar o progresso, por exemplo, à reacção de uma comunidade depois de uma queda ou colapso. E daqui surge uma definição possível. O que é o progresso de uma comunidade: é o que uma sociedade faz depois da queda.

E o que é o progresso individual, o progresso biográfico?

É também o que um indivíduo fez depois de uma queda, de um acidente, de um colapso qualquer na sua vida. Progresso: a forma como te levantas e não a forma como andas. Não se trata, pois, de uma questão de velocidade, mas de resistência.

Estamos aqui para avançar, não para resistir. Estamos aqui para resistir, não para avançar. Duas opções.

Cada colapso obriga a uma mudança de estratégia, a uma mudança de intensidade, direcção e sentido. Caminhas de maneira diferente e para um sítio diferente depois de um simples alvoroço no meio da tua vida.

Poemas do Oriente: Habitar

Passa suavemente de um compartimento
a outro.
Dizem que não se movimenta, ausenta-se,
marca presença.
Como se não existisse espaço no meio.
Ela estava ali, agora aqui.
Como se chama esta forma de andar,
apenas com destino e dois verbos:
desaparecer, aparecer?
Não caminha, chega.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

22 Nov 2019

Sobre a respiração

 

“A poesia, irónica e soberba, ri das vaidades do mundo.”
Li Bai (traduzido por António Graça de Abreu)

Sobre a respiração

Exercícios respiratórios do Zhuangzi:
“Soprar e respirar, expirar e inspirar, expelir o ar usado e absorver o ar fresco, espreguiçar-se à maneira do urso ou do pássaro que estende as asas, tudo isso não visa senão a longevidade.”.

A respiração é um acto animal, não um acto humano. Pensar e reflectir e escrever são actos humanos. Respirar, acto essencial, involuntário: podes decidir não respirar, tapar a boca – mas no início do início não decidiste respirar. Alguém ou algo – corpo, os genes, o que for, decidiu por ti: tu respiras.

Pensar numa personagem que acorda e diz: eu hoje decidi: vou respirar. Um louco, sem dúvida. Não és suficientemente poderoso para decidir uma coisa dessas.

Claro que se poderá dizer: eu hoje vou respirar ar puro, vou para a montanha. Ou: hoje vou respirar o ar da floresta, ou, ou e ou. Mas sim: ninguém pode decidir sobre o verbo respirar. O verbo respirar é involuntário, é um verbo que não te pertence.

E sim, voltar ao início: respirar como verbo animal.

Daí estas indicações animalescas de Zhuangzi. Respirar como um urso ou um pássaro que estende as asas.

Respirar é um acto animal. Ainda bem, digo eu.

Poemas do Oriente: Uma refeição

Madeira, pequenos paus levando à boca os alimentos,
nada de metal.
Podes falar de pormenores, troca por troca
– metal por madeira –
mas claro que não.
Nenhum metal entra no espaço inaugurado
por dois amigos
que se sentam frente a frente, o óbvio.
Nenhuma faca na mesa, repara,
nenhuma ameaça material, paisagem calma e natural,
mesmo que em comprimento e largura mínimos.
(Tudo é paisagem, o mais pequeno dos espaços,
se lhe deres atenção.)
Na paisagem não entra tanque,
na mesa nenhum metal. A tranquilidade do mundo
começa
na tua mesa.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

15 Nov 2019

Picada

 

“Estão prontas dez mil coisas, só falta o vento Leste”
Provérbio chinês

Picada

Parece que foi Donald Richie, escritor americano que viveu grande parte da sua vida no oriente, a afirmar que se fica contagiado por essa parte do mundo como se fosse uma picada de insecto. Não é contágio lento, é algo súbito. E que depois fica.

Eu diria, uma picada que nunca mais deixará de fazer um som. Um som sem som, um som mudo, mas que é um chamamento: não sais daqui. Ou: não te esqueças de mim.

Como uma picada. Ou seja: de um momento para o outro.

Picada ou iluminação, dois termos que atiram para o instantâneo. De um momento para o outro, o escuro fica claro (iluminação) e de um momento para o outro a pequena dor que se sente, numa mínima parte da pele, muda por completo o nosso foco, o nosso caminho; no limite: a nossa biografia.

Pensar numa picada que ilumina, uma picada que ilumina antes da electricidade: uma luz natural.
 

Poemas do Oriente: Mistério

Um cofre no meio da floresta. Que necessidades desconhecidas
terão as árvores e as cigarras
para no meio delas
se colocar uma caixa, um cofre?
Alguém fala de um outro animal
que por aqui também anda
e que quer tudo o que pode mudar de sítio,
tudo o que portátil:
o homem, é por causa do homem
que se fecham as coisas.
Mas alguém diz ainda: o cofre está vazio,
completamente vazio, mas mesmo assim, nenhum instrumento humano
será capaz um dia de o abrir.
Não consegues abrir um cofre que está vazio
e já aberto –
ele é sempre mais forte.
Não tens força, inteligência, destreza
para mudar algo que não pode
ser mudado.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

1 Nov 2019

Palavras perdidas

Com limitado conhecimento da gastronomia japonesa e dos restaurantes locais, foi num restaurante de sushi que jantei na primeira noite que passei no Japão. Sentado ao balcão, fui escolhendo as peças que o chefe preparava, até que chegou o inevitável momento em que me perguntou de onde vinha. Disse-lhe que era português e a resposta foi imediata e surpreendente: Ah, Francisco Xavier! Habituado como estava, nos vários países por onde fui antes passando, a só ver reconhecidas figuras do universo futebolístico nacional – ou eventualmente Saramago e Pessoa, em contextos mais específicos – não pude evitar a surpresa de tal referência histórica, em conversa informal com o chefe que ia proporcionando deliciosas iguarias. Viria depois a perceber que é comum no Japão este conhecimento do jesuíta português que em 1549 desembarcou em Kagoshima (perto de Nagasaki) para se tornar o primeiro padre cristão em território japonês.

Tive mais tarde a oportunidade de visitar Nagasaki, hoje a cidade da paz, que os acasos climatéricos fizeram com que fosse bombardeada quando já a II Guerra Mundial parecia irremediavelmente perdida pelo exército japonês. Era Fukuoka o alvo da segunda bomba atómica que explodiu no Japão e foi o nevoeiro que cobria a cidade e prejudicava a visibilidade que levou à opção pelo plano alternativo, provocando a destruição de Nagasaki. Além dos impressionantes memoriais deste momento atroz na História da Humanidade, a cidade guarda ainda outras memórias, como a dos 26 mártires cristãos, entretanto feitos santos, mortos após a ilegalização do cristianismo, durante a perseguição aos cristãos recentemente mostrada no cinema com a adaptação por Martin Scorcese do magnífico romance “Silêncio”, escrito pelo japonês Shusako Endo. Apesar da proibição, o culto cristão havia de permanecer clandestinamente em pequenas povoações próximas de Nagasaki, o que é hoje assinalado em diversas igrejas e monumentos.

A importância religiosa de Nagasaki está naturalmente ligada ao porto, onde chegaram os mercadores portugueses, o primeiro povo europeu a pisar as terras do Sol Nascente. Ainda que tenha sido Fukuda a acolher as primeiras embarcações, o porto de Nagasaki viria a abrir em 1571 e a tornar-se desde então um ponto privilegiado para o comércio com a Europa. Hoje assinalado como um importante elemento histórico da cidade (e atração turística), o porto de Dejima (uma ilha artificial) foi construído em 1634 para acolher as mercadorias e os mercadores portugueses, incluindo as necessárias infraestruturas e também residências para comerciantes e comandantes dos navios. Não duraria muito, no entanto, esse privilégio atribuído a Portugal: com a intensificação da perseguição religiosa, os mercadores portugueses seriam banidos e a partir de 1639 o porto seria usado apenas por embarcações chinesas e holandesas, passando a Holanda a ter o privilégio do comércio com a Europa. Hoje, o porto de Dejima, reconstruído em parceria com uma Universidade holandesa, é um monumento nacional que recria uma aldeia dos Países Baixos, com a sua típica arquitectura e objectos decorativos.

Outro ilustre português – Wenceslau de Moraes, cônsul no Japão durante mais de vinte anos desde o final do século XIX e que haveria de aí morrer em 1929 – adianta uma explicação para a preferência dos japoneses para o comércio com a Holanda. Conhecedor da língua japonesa, Moraes dedicou grande parte da sua vida ao estudo da história do país e, segundo conta no seu “Relance da História do Japão”, um encontro entre um “shogun” (a figura nomeada pelo imperador japonês para administrar o país) e um mercador castelhano terá sido decisivo. Perguntado sobre a dimensão do reino de Castela, o mercador terá descrito as terras conquistadas na América Latina, levando o “shogun” a questionar como era possível a um só rei ter conquistado tão vastos territórios. Terá o mercador respondido que primeiro eram enviados os padres e só depois os exércitos, o que leva Moraes a especular que essa terá sido a principal razão para que no Japão se substituíssem os mercadores portugueses pelos holandeses, mais virados para o intercâmbio comercial do que para a exportação de religiões. Hoje é notória a presença holandesa em Nagasaki, com o porto de Dejima, lojas e restaurantes de nome holandês e até a reprodução de uma mini-cidade holandesa como parque temático para turistas nos arredores da cidade.

Já a presença histórica portuguesa é muito pouco visível nas cidades do Japão, apesar das discretas estátuas que homenageiam Francisco Xavier – na povoação de Hirado, onde terá feito várias missas – e Wenceslau de Moraes – em Tokushima, onde está sepultado com a esposa e a sobrinha, ambas japonesas. Sobram as palavras, que foram ficando, com mais ou menos felizes adaptações: botan (botão), kapitan (capitão), kappa (capa, que corresponde ao que é mais comum hoje designar como gabardina), koppu (copo) ombu (ombro), pan (pão) ou tabaku (tabaco) seguem de perto a fonética e o significado corrente em português; já Bidoru designa vitral, e não vidro, “tempura” designa as frituras de peixe e vegatais, inspirando-se nas têmporas, dias de jejum em que os cristãos não comiam carne, enquanto o popular doce que sabem ser de origem portuguesa e que no Japão é designado como “kasutera” corresponde ao que em Portugal chamamos pão-de-ló, para grande desgosto da população japonesa, que esperava estar a usar uma palavra genuinamente portuguesa. Pela minha parte, fico pelos confeitos, também comuns às línguas portuguesa e japonesa, para dar o tom a esta confeitaria.

12 Out 2018

Carlos Botão Alves, autor de “O Oriente na Literatura Portuguesa”: “Uma cultura procura na outra o que lhe falta”

 

“O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes” é o mais recente trabalho de Carlos Miguel Botão Alves, professor e investigador no Instituto Politécnico de Macau. É uma análise de textos dos autores portugueses com vidas e reconhecimentos diferentes mas, que em comum, têm uma forte influência da cultura oriental, e dos princípios budistas e taoistas

 

Como é que escolheu a temática deste livro?

Vem na linha de várias discussões que tive com professores de Portugal que me alertaram, desde a minha formação inicial na Universidade Católica, para a necessidade de explorar não tanto a filosofia, porque não é um saber racional autónomo no Oriente, mas antes a sabedoria oriental que tem vindo a ser aperfeiçoada. Depois, em Paris, quando fiz a minha formação específica em Tradução, o estudo foi melhorado com o diálogo muito próximo com a professora Helena Carvalhão Buesco. Apareceu uma área de estudo de Antero de Quental que teria que ver com o Budismo. Eram pesquisas do final de séc. XIX e tinham uma perspectiva assumidamente eurocêntrica. Quando fui leitor de português em Deli, de 1993 a 1995, tive ocasião de apurar ainda mais o campo de estudo da influência budista e pude delimitar mais concretamente o âmbito da minha análise. Foi um trabalho que esteve a marinar e a ser desenvolvido desde 2001/02 até 2014/15, quando acaba por ser redigido.

E porquê o paralelismo com Manuel da Silva Mendes, autor que viveu em Macau?

Tive contacto com os textos de Manuel da Silva Mendes já em Macau em 1990. Apercebi-me que o que se tinha escrito até à data sobre ele tinha muito que ver com a vertente da reflexão política e, sobretudo, com a análise que fazia pelo empenhamento que tinha na política portuguesa. Era republicano, do Norte, e com génese num proletariado que poderia existir na época. Explorava-se muito os seus escritos no sentido da análise de um socialismo utópico e mesmo anárquico. Mas muito pouca coisa, ou mesmo quase nada, apareceu relativamente aos textos que fez e a que chamo de ensaios. São artigos que publicava dedicados à exploração que fazia das temáticas da filosofia oriental. Quando comecei a colocar a par os textos de Antero de Quental e os de Manuel da Silva Mendes pensei que faria todo o sentido aproximá-los no sentido de criar linhas de leitura que pudessem ser exploradas por quem quisesse estar interessado pela sabedoria do Oriente. Esta parceria entre os autores pode parecer um pouco desequilibrada porque Antero de Quental tem um lugar mais que estabelecido no panorama literário português e Manuel da Silva Mendes nem tanto. Mas a literatura comparada tem também este objectivo, o de trazer para o palco autores não tão conhecidos por via de outros já reconhecidos. Pensei ainda que seria interessante fazer este paralelismo porque desenvolvi a minha vida em França e Portugal, e depois em Macau e na índia. Aqui tenho os dois mundos. Tive sorte por ter dedicado mais de dez anos a leituras para poder escrever o livro. Tive uma mulher que tomava conta de mim e das crianças, o que é muito importante. Pude analisar os textos em profundidade e dar uma visão cultural da segunda metade do séc. XIX e da primeira do séc. XX. O virar do século é fundamental na formação de consciências tanto a Oriente, como a Ocidente. São dois autores empenhados politicamente, ou seja, o que fazem não é uma mera reflexão filosófica, não é uma satisfação individual, quase egoísta. São autores que procuram precisamente, no aliar da tradição ocidental com a oriental, instrumentos de análise para poderem ter uma praxis. São homens extremamente activos, homens que escrevem, que insultam, que vão para os jornais. Mas, ao mesmo tempo, eram pessoas que percebiam que esta prática intensa só faria sentido se fosse bem grudada na realidade, e a realidade é reflexiva. Não se trata de uma mera erupção intelectual e é isso que está pouco estudado na literatura portuguesa. Em Portugal não temos muitos exemplos de autores que estejam no entrecruzamento dos registos literário e filosófico. Literariamente somos riquíssimos mas, do ponto de vista de uma reflexão metafísica e ético-moral, será bastante difícil encontrar nomes. O virar do século proporcionou alguns enquanto excepção: o Feijó, o Quental, o Silva Mendes em Macau e, mais tarde, o Luís Gonzaga Gomes. Os textos em que me baseei foram precisamente os da compilação de Luís Gonzaga Gomes. Era o principal discípulo de Manuel da Silva Mendes, no sentido de que é filho da terra e tinha a riqueza de poder ler e escrever a “outra língua”.

O livro começa precisamente com uma frase do Umberto Eco acerca da tradução de conceitos. Como é que estes autores, do final do séc. XIX, desenvolviam estes conceitos que, muitas vezes, não existiam na sua própria cultura?

O despertar dos estudos orientais acabou por ser um conceito abusado no sentido mais negativo de uma imposição europeia face ao outro, para o minimizar. Os estudos orientais eram uma tentativa de tornar o Oriente manejável e dominável aos olhos de um Ocidente que imperava. Muito além disso, os estudos orientais começam precisamente pela análise filológica, primeiro em França e depois nas universidades alemãs, no final do séc. XVIII, início do séc. XIX. Na viragem do séc. XIX para o séc. XX temos um retorno à filologia. Temos uma tentativa de procurar nos textos uma verdade, ou aspectos dessa verdade, percebida como o entendimento que o Homem pode ter de si na realidade, baseando-se na compreensão dos textos orientais por defeito da filosofia e do pensamento europeu. Digamos que é por deficiência, mas os contactos culturais são sempre assim, uma cultura procura na outra o que lhe falta. Institucional e politicamente, os impérios estendiam-se pelo Oriente mas, culturalmente, estes homens não tinham uma pretensão de domínio. Silva Mendes sentava-se nos templos de Macau a falar com os monges. Estes homens estavam numa tentativa de procurar, na cultura oriental, o que não era visível e podia colmatar deficiências que, naquele momento, a cultura europeia tinha – uma cultura muito marcada pela industrialização e pelo positivismo que também teve o despontar da procura do novo homem com Feuerbach e Nietzsche. Antero de Quental e Silva Mendes procuravam, aqui, um novo sopro de espiritualidade que a Europa não teria de forma tão vibrante. É essa confluência que quero mostrar quando falo de tradução cultural. Não é propriamente uma tradução de termos, mas sim a procura que uma cultura faz de elementos na outra cultura por deficiência e a capacidade que determinados autores têm de se apropriarem desses conhecimentos que observam na outra cultura, e de os trazerem e tornarem palavras na própria para que façam sentido. É o que me parece que estes dois autores fizeram: uma leitura do mundo e do percurso humano. São homens muito empenhados na renovação do ser humano com ideias de igualdade.

Um pensamento ainda muito actual?

Deveríamos voltar às línguas clássicas. A gritaria que se passou em França pela tentativa de tornar opcionais as línguas clássicas europeias, como o grego e o latim, é um exemplo dessa necessidade. Há uma urgência em voltar a encontrar a origem e o sentido de determinadas culturas num mundo que pode vir a perder sentido quando demasiadamente globalizado. Quando a ênfase da globalização reside na mera globalização – e a globalização não é propriamente uma troca ou um encontro, mas antes o esbater de características –, podemos correr um risco e, daí, a actualidade dos estudos deste tipo. Há a necessidade de procurar num mundo globalizado, não só as nossas raízes, mas também aquelas que temos através do confronto, do contraste e do diálogo com a alteridade. Para o fazer, é necessário estarmos conscientes daquilo que somos. Só há diálogo quando há troca e só há troca quando temos alguma coisa para dar. São autores que fazem uma reflexão própria e a tradução cultural que operam não é só de termos budistas e taoistas para análise metafísica mas, sobretudo, para orientações ético-morais. São autores de charneira e formativos da nossa cultura. O texto da não-acção, por exemplo, tem uma ressonância extremamente oriental, mas se lermos os textos pré-socráticos o conceito já lá está. Claro que os franceses vão de imediato dizer: “Pois, mas os textos pré-socráticos são da Ásia Menor”. A não-acção não tem a ênfase no não, mas sim na acção. Não é não fazer nada mas é, sobretudo, a promoção máxima do ser humano em reflexão. É isso que é o Oriente. A procura que o sujeito faz dentro de si e da sua própria natureza. Quando isso acontece, a acção exterior, a do fazer, deixa de ter sentido porque passa a ficar orientada por esse autoconhecimento. O “conhece-te a ti mesmo do Sócrates”, não é se não isto.

Os autores de Macau são muito pouco conhecidos internacionalmente e este é um livro que tenta promover um deles. Porque é que a literatura feita cá não chega a Portugal?

Macau tem autores diferentes. Tem pessoas que pensam sobre determinadas questões e fazem-no de uma forma diferente. Na Índia é a mesma coisa, existem vários autores que não são conhecidos de todo em Portugal, no Brasil, etc., porque as edições portuguesas não são feitas para serem publicadas nos lugares onde se fale o português. Se olharmos para a Oxford University Press e para a Cambridge University Press, promovem um mesmo título e uma edição aparece ao mesmo tempo nos vários centros do mundo anglófono. Nós não temos essa tradição, não temos a divulgação feita e agilizada de tal forma que permita que o mundo de língua portuguesa lhe aceda. É um mundo muito vasto, o que é bom, mas muito disperso geograficamente e sem essa ligação de editoras, de crítica textual e de academias. Outra questão é a da tradução. Os meus colegas, por exemplo da Universidade de Hong Kong, não conhecem as obras de autores portugueses porque não estão traduzidas. Se nos quisermos dar a conhecer, temos de dar o texto preparado com outras linguagens e não podemos fugir à tradução para as línguas principais: o inglês e o francês. A língua portuguesa tem um papel fundamental no diálogo entre Oriente e Ocidente. Foi a primeira a chegar e a última a ir embora, mas tem de saber traduzir-se para outras línguas. A língua, quando comunica, comunica também a cultura. A língua é sobretudo cultura, é uma visão do mundo. Ao se conhecer uma língua percebemos o mundo de uma forma diferente, mais rica.

19 Abr 2017