Palavras perdidas

Com limitado conhecimento da gastronomia japonesa e dos restaurantes locais, foi num restaurante de sushi que jantei na primeira noite que passei no Japão. Sentado ao balcão, fui escolhendo as peças que o chefe preparava, até que chegou o inevitável momento em que me perguntou de onde vinha. Disse-lhe que era português e a resposta foi imediata e surpreendente: Ah, Francisco Xavier! Habituado como estava, nos vários países por onde fui antes passando, a só ver reconhecidas figuras do universo futebolístico nacional – ou eventualmente Saramago e Pessoa, em contextos mais específicos – não pude evitar a surpresa de tal referência histórica, em conversa informal com o chefe que ia proporcionando deliciosas iguarias. Viria depois a perceber que é comum no Japão este conhecimento do jesuíta português que em 1549 desembarcou em Kagoshima (perto de Nagasaki) para se tornar o primeiro padre cristão em território japonês.

Tive mais tarde a oportunidade de visitar Nagasaki, hoje a cidade da paz, que os acasos climatéricos fizeram com que fosse bombardeada quando já a II Guerra Mundial parecia irremediavelmente perdida pelo exército japonês. Era Fukuoka o alvo da segunda bomba atómica que explodiu no Japão e foi o nevoeiro que cobria a cidade e prejudicava a visibilidade que levou à opção pelo plano alternativo, provocando a destruição de Nagasaki. Além dos impressionantes memoriais deste momento atroz na História da Humanidade, a cidade guarda ainda outras memórias, como a dos 26 mártires cristãos, entretanto feitos santos, mortos após a ilegalização do cristianismo, durante a perseguição aos cristãos recentemente mostrada no cinema com a adaptação por Martin Scorcese do magnífico romance “Silêncio”, escrito pelo japonês Shusako Endo. Apesar da proibição, o culto cristão havia de permanecer clandestinamente em pequenas povoações próximas de Nagasaki, o que é hoje assinalado em diversas igrejas e monumentos.

A importância religiosa de Nagasaki está naturalmente ligada ao porto, onde chegaram os mercadores portugueses, o primeiro povo europeu a pisar as terras do Sol Nascente. Ainda que tenha sido Fukuda a acolher as primeiras embarcações, o porto de Nagasaki viria a abrir em 1571 e a tornar-se desde então um ponto privilegiado para o comércio com a Europa. Hoje assinalado como um importante elemento histórico da cidade (e atração turística), o porto de Dejima (uma ilha artificial) foi construído em 1634 para acolher as mercadorias e os mercadores portugueses, incluindo as necessárias infraestruturas e também residências para comerciantes e comandantes dos navios. Não duraria muito, no entanto, esse privilégio atribuído a Portugal: com a intensificação da perseguição religiosa, os mercadores portugueses seriam banidos e a partir de 1639 o porto seria usado apenas por embarcações chinesas e holandesas, passando a Holanda a ter o privilégio do comércio com a Europa. Hoje, o porto de Dejima, reconstruído em parceria com uma Universidade holandesa, é um monumento nacional que recria uma aldeia dos Países Baixos, com a sua típica arquitectura e objectos decorativos.

Outro ilustre português – Wenceslau de Moraes, cônsul no Japão durante mais de vinte anos desde o final do século XIX e que haveria de aí morrer em 1929 – adianta uma explicação para a preferência dos japoneses para o comércio com a Holanda. Conhecedor da língua japonesa, Moraes dedicou grande parte da sua vida ao estudo da história do país e, segundo conta no seu “Relance da História do Japão”, um encontro entre um “shogun” (a figura nomeada pelo imperador japonês para administrar o país) e um mercador castelhano terá sido decisivo. Perguntado sobre a dimensão do reino de Castela, o mercador terá descrito as terras conquistadas na América Latina, levando o “shogun” a questionar como era possível a um só rei ter conquistado tão vastos territórios. Terá o mercador respondido que primeiro eram enviados os padres e só depois os exércitos, o que leva Moraes a especular que essa terá sido a principal razão para que no Japão se substituíssem os mercadores portugueses pelos holandeses, mais virados para o intercâmbio comercial do que para a exportação de religiões. Hoje é notória a presença holandesa em Nagasaki, com o porto de Dejima, lojas e restaurantes de nome holandês e até a reprodução de uma mini-cidade holandesa como parque temático para turistas nos arredores da cidade.

Já a presença histórica portuguesa é muito pouco visível nas cidades do Japão, apesar das discretas estátuas que homenageiam Francisco Xavier – na povoação de Hirado, onde terá feito várias missas – e Wenceslau de Moraes – em Tokushima, onde está sepultado com a esposa e a sobrinha, ambas japonesas. Sobram as palavras, que foram ficando, com mais ou menos felizes adaptações: botan (botão), kapitan (capitão), kappa (capa, que corresponde ao que é mais comum hoje designar como gabardina), koppu (copo) ombu (ombro), pan (pão) ou tabaku (tabaco) seguem de perto a fonética e o significado corrente em português; já Bidoru designa vitral, e não vidro, “tempura” designa as frituras de peixe e vegatais, inspirando-se nas têmporas, dias de jejum em que os cristãos não comiam carne, enquanto o popular doce que sabem ser de origem portuguesa e que no Japão é designado como “kasutera” corresponde ao que em Portugal chamamos pão-de-ló, para grande desgosto da população japonesa, que esperava estar a usar uma palavra genuinamente portuguesa. Pela minha parte, fico pelos confeitos, também comuns às línguas portuguesa e japonesa, para dar o tom a esta confeitaria.

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