Sushi sobre rodas inspira inovação no sector do turismo

O primeiro autocarro de dois andares e tejadilho aberto a servir sushi estará disponível em Tóquio, no próximo dia 10 de Outubro. Este novo produto, que resulta de uma colaboração entre a empresa de turismo Sushi Bus Co. e a rede de transportes Willer Across, desencadeou discussões acaloradas entre os entusiastas de viagens de todo o mundo, desde que foi anunciado. Os passageiros podem consumir sushi à discrição enquanto apreciam as zonas mais emblemáticas de Tóquio como Shibuya Crossing, Kaminarimon e Ginza, a partir do segundo piso panorâmico do autocarro. A experiência tem a duração de 70 minutos.

O autocarro do sushi levou dois anos e meio a ser fabricado. A cozinha que se situa no primeiro piso permite que os chefes preparem os alimentos no momento e depois um elevador transporta-os para um tapete giratório colocado perto dos passageiros, no segundo piso.

A equipa responsável pela concepção deste veículo também criou um sistema de segurança para lidar com emergências como travagens bruscas, ultrapassando os desafios colocados quando se servem refeições num veículo em andamento. Cada bilhete custa 16.000 ienes, aproximadamente 790 dólares de Hong Kong (HKD) ou 814 patacas. De acordo com dados facultados, só existem actualmente no Japão cinco autocarros temáticos e este, dedicado ao sushi, é único no mundo. Apenas estão disponíveis 20 lugares para as primeiras reservas e espera-se que sejam rapidamente comprados por viajantes à procura de experiências inovadoras.

A indústria do turismo sempre valorizou a novidade e as experiências únicas são frequentemente a chave para atrair turistas. Combinar o serviço de sushi com uma viagem que permite apreciar as zonas mais emblemáticas da cidade, gera sem dúvida um grande entusiasmo no mercado. No entanto, também temos de reconhecer que um conceito inovador não significa necessariamente um sucesso comercial. Muitos projectos turísticos ganham inicialmente fama por serem criativos, mas muitas vezes acabam por se desvanecer após o entusiasmo inicial ter esfriado devido aos preços envolvidos, a experiências decepcionantes ou a elevados custos de manutenção.

Essencialmente, desenvolver novos produtos turísticos não é muito diferente de desenvolver novos produtos tecnológicos; ambos partilham o processo de comercialização de ideias que depois são lançadas no mercado, com o objectivo de aumentar as receitas e os lucros.

A inovação na indústria do turismo requer ideias apelativas; implica também investimento em investigação e desenvolvimento, custos operacionais e gestão de riscos. Tomemos o autocarro do sushi como exemplo. O período de dois anos e meio para investigação e fabrico, a modificação da cozinha e do equipamento à prova de derrames, requereram fundos consideráveis. Tudo isto combinado com uma lotação limitada e bilhetes caros, embora numa fase inicial possa atrair atenções devido à cobertura da imprensa, faz com que a sua manutenção a longo prazo permaneça questionável.

No mundo dos negócios, a inovação vem sempre acompanhada pelo risco. Uma ideia interessante é só um ponto de partida. A projecção de um produto depende do controlo de custos, da experiência do utilizador e da capacidade da empresa para suportar perdas quando a resposta do mercado ainda não é a ideal. Este princípio aplica-se à “inovação incremental” destinada a abrir novos mercados e também à “auto-disrupção” adoptada pelos gigantes tecnológicos quando penetram em mercados já estabelecidos.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

2 Set 2026

Palavras perdidas

[dropcap style≠’circle’]C[/dropcap]om limitado conhecimento da gastronomia japonesa e dos restaurantes locais, foi num restaurante de sushi que jantei na primeira noite que passei no Japão. Sentado ao balcão, fui escolhendo as peças que o chefe preparava, até que chegou o inevitável momento em que me perguntou de onde vinha. Disse-lhe que era português e a resposta foi imediata e surpreendente: Ah, Francisco Xavier! Habituado como estava, nos vários países por onde fui antes passando, a só ver reconhecidas figuras do universo futebolístico nacional – ou eventualmente Saramago e Pessoa, em contextos mais específicos – não pude evitar a surpresa de tal referência histórica, em conversa informal com o chefe que ia proporcionando deliciosas iguarias. Viria depois a perceber que é comum no Japão este conhecimento do jesuíta português que em 1549 desembarcou em Kagoshima (perto de Nagasaki) para se tornar o primeiro padre cristão em território japonês.

Tive mais tarde a oportunidade de visitar Nagasaki, hoje a cidade da paz, que os acasos climatéricos fizeram com que fosse bombardeada quando já a II Guerra Mundial parecia irremediavelmente perdida pelo exército japonês. Era Fukuoka o alvo da segunda bomba atómica que explodiu no Japão e foi o nevoeiro que cobria a cidade e prejudicava a visibilidade que levou à opção pelo plano alternativo, provocando a destruição de Nagasaki. Além dos impressionantes memoriais deste momento atroz na História da Humanidade, a cidade guarda ainda outras memórias, como a dos 26 mártires cristãos, entretanto feitos santos, mortos após a ilegalização do cristianismo, durante a perseguição aos cristãos recentemente mostrada no cinema com a adaptação por Martin Scorcese do magnífico romance “Silêncio”, escrito pelo japonês Shusako Endo. Apesar da proibição, o culto cristão havia de permanecer clandestinamente em pequenas povoações próximas de Nagasaki, o que é hoje assinalado em diversas igrejas e monumentos.

A importância religiosa de Nagasaki está naturalmente ligada ao porto, onde chegaram os mercadores portugueses, o primeiro povo europeu a pisar as terras do Sol Nascente. Ainda que tenha sido Fukuda a acolher as primeiras embarcações, o porto de Nagasaki viria a abrir em 1571 e a tornar-se desde então um ponto privilegiado para o comércio com a Europa. Hoje assinalado como um importante elemento histórico da cidade (e atração turística), o porto de Dejima (uma ilha artificial) foi construído em 1634 para acolher as mercadorias e os mercadores portugueses, incluindo as necessárias infraestruturas e também residências para comerciantes e comandantes dos navios. Não duraria muito, no entanto, esse privilégio atribuído a Portugal: com a intensificação da perseguição religiosa, os mercadores portugueses seriam banidos e a partir de 1639 o porto seria usado apenas por embarcações chinesas e holandesas, passando a Holanda a ter o privilégio do comércio com a Europa. Hoje, o porto de Dejima, reconstruído em parceria com uma Universidade holandesa, é um monumento nacional que recria uma aldeia dos Países Baixos, com a sua típica arquitectura e objectos decorativos.

Outro ilustre português – Wenceslau de Moraes, cônsul no Japão durante mais de vinte anos desde o final do século XIX e que haveria de aí morrer em 1929 – adianta uma explicação para a preferência dos japoneses para o comércio com a Holanda. Conhecedor da língua japonesa, Moraes dedicou grande parte da sua vida ao estudo da história do país e, segundo conta no seu “Relance da História do Japão”, um encontro entre um “shogun” (a figura nomeada pelo imperador japonês para administrar o país) e um mercador castelhano terá sido decisivo. Perguntado sobre a dimensão do reino de Castela, o mercador terá descrito as terras conquistadas na América Latina, levando o “shogun” a questionar como era possível a um só rei ter conquistado tão vastos territórios. Terá o mercador respondido que primeiro eram enviados os padres e só depois os exércitos, o que leva Moraes a especular que essa terá sido a principal razão para que no Japão se substituíssem os mercadores portugueses pelos holandeses, mais virados para o intercâmbio comercial do que para a exportação de religiões. Hoje é notória a presença holandesa em Nagasaki, com o porto de Dejima, lojas e restaurantes de nome holandês e até a reprodução de uma mini-cidade holandesa como parque temático para turistas nos arredores da cidade.

Já a presença histórica portuguesa é muito pouco visível nas cidades do Japão, apesar das discretas estátuas que homenageiam Francisco Xavier – na povoação de Hirado, onde terá feito várias missas – e Wenceslau de Moraes – em Tokushima, onde está sepultado com a esposa e a sobrinha, ambas japonesas. Sobram as palavras, que foram ficando, com mais ou menos felizes adaptações: botan (botão), kapitan (capitão), kappa (capa, que corresponde ao que é mais comum hoje designar como gabardina), koppu (copo) ombu (ombro), pan (pão) ou tabaku (tabaco) seguem de perto a fonética e o significado corrente em português; já Bidoru designa vitral, e não vidro, “tempura” designa as frituras de peixe e vegatais, inspirando-se nas têmporas, dias de jejum em que os cristãos não comiam carne, enquanto o popular doce que sabem ser de origem portuguesa e que no Japão é designado como “kasutera” corresponde ao que em Portugal chamamos pão-de-ló, para grande desgosto da população japonesa, que esperava estar a usar uma palavra genuinamente portuguesa. Pela minha parte, fico pelos confeitos, também comuns às línguas portuguesa e japonesa, para dar o tom a esta confeitaria.

12 Out 2018