China | ‘Big data’ atrai gigantes tecnológicos para montanhas do interior

Reportagem de João Pimenta, da agência Lusa

 

Em Guiyang, capital de uma das províncias mais pobres da China, milhares de servidores, dispostos em túneis escavados em montanhas, entre arrozais e arvoredo, processam em tempo real ‘gigabytes’ de dados de gigantes da tecnologia.

Situada no sudoeste da China, esta cidade converteu-se nos últimos anos no centro da indústria de ‘big data’ do país asiático, atraindo firmas como a Apple, Huawei, Tencent ou Alibaba, com incentivos fiscais e mão-de-obra e electricidade baratas. “Os jovens locais continuam a ir estudar para outras cidades, mas agora muitos regressam para trabalhar”, descreve Wu Zhanghong, responsável pela Associação de Jovens Profissionais de Guiyang, num fenómeno que contraria o tradicional fluxo migratório para as prósperas províncias do litoral.

Centenas de torres envidraças e complexos de luxo erguem-se hoje na capital de Guizhou, província onde um quarto da população – 11,5 milhões de pessoas – continua a viver abaixo do limiar da pobreza fixado pelas autoridades chinesas – 6,3 yuan por dia (84 cêntimos de euro). “Quando era nova passei fome”, conta uma empregada de mesa de meia idade e cara rechonchuda. “Mas hoje como bem”.

Em 2017, o Produto Interno Bruto de Guiyang avançou 11,3 por cento, para 353 mil milhões de yuan (48 mil milhões de euros). No mesmo período, a economia chinesa cresceu 6,9 por cento.

Nos subúrbios da cidade, túneis escavados em montanhas armazenam dados para as principais firmas tecnológicas chinesas. A localização assegura um fluxo natural constante de ar, evitando o sobreaquecimento de milhares de servidores a operar 24 sobre 24 horas.

Dados enormes

O desenvolvimento do ‘big data’ é uma das prioridades da China, visando modernizar as indústrias nacionais e a administração pública, mas que tem suscitado críticas, por possibilitar ao regime chinês uma maior vigilância sobre os cidadãos.

“A China está a implementar uma estratégia nacional para o ‘big data’ que ajudará o país a fazer a transição de um modelo económico com altas taxas de crescimento para um de alta qualidade”, afirmou o Presidente chinês, Xi Jinping, na mensagem que inaugurou um evento dedicado ao sector, em Guiyang, na semana passada.

Na sede do grupo chinês Truck Alliance Group, painéis LED com dois metros de altura, dispostos ao longo de trinta metros, exibem ao pormenor e em tempo real dados sobre os fluxos logísticos em toda a China. O ‘big data’ gerado pelo Truck Alliance serve, por exemplo, para seguradoras criarem novos produtos, redefinir a localização de postos de abastecimento ou combater o congestionamento. Parte das instalações da empresa é ocupada pela polícia, que garante assim acesso aos dados, permitindo detetar irregularidades em tempo real.

Entretanto, no interior de Guizhou, as preocupações são outras: “Aqui, trabalha-se para sobreviver”, conta Luo Hongxia, natural de Cantão e professora voluntária numa aldeia remota da província. “As pessoas alimentam-se, mas não têm acesso a carne”, descreve. “são subnutridas”.

4 Jun 2018

Privacidade | Presidente apela à cooperação internacional no setor ‘big data’

O Presidente chinês, Xi Jinping, apelou ontem ao intercâmbio e cooperação internacional no sector de ‘big data’, a análise de grandes volumes de dados com que Pequim quer moldar a indústria e o comportamento social

 

“Os países devem reforçar a sua comunicação e cooperação para aproveitar as oportunidades do sector de ‘big data’ (…) e enfrentar desafios como a segurança dos dados e a governança do ciberespaço”, afirmou Xi, na carta que inaugurou o China International Big Data Industry Expo 2018, que decorre em Guiyang, capital da província de Guizhou, no sudoeste do país. “A China está a implementar uma estratégia nacional para o ‘big data’, centrada num ciberespaço forte, numa China digital e numa sociedade inteligente, que ajudarão o país a fazer a transição de um modelo económico com altas taxas de crescimento, para um de alta qualidade”, afirmou.

O armazenamento e análise massiva de dados é uma aposta do Governo chinês, visando modernizar o tecido industrial do país, mas também a criação de um sistema de crédito social, que atribui pontos a cada cidadão segundo o seu comportamento, situação financeira, desempenho profissional e académico ou opiniões nas redes sociais.

Sebastian Heilmann, cientista político alemão, classifica o sistema de “leninismo digital”. “Um sistema de crédito social é uma perspectiva completamente nova na regulação não só da economia e do mercado, mas também da sociedade”, diz.

Consequências reais

Em Abril passado, aquele sistema começou a ser implementado pela China na aviação civil, passando a ser proibido os cidadãos de baixo crédito social voarem.

As autoridades detalham nove comportamentos, incluindo a difusão de falsos alarmes em aeroportos ou aviões, uso de identidades falsas, transporte de objectos proibidos ou “comportamento ameaçador ou problemático”.

Parte da indústria de ‘big data’ da China está concentrada em Guiyang, uma das províncias mais pobres do país, onde escolas vocacionais preparam trabalhadores para processar e examinar os dados. As principais empresas de telecomunicações da China ou os gigantes tecnológicos Apple e Tencent armazenam os dados de utilizadores chineses em Guizhou.

28 Mai 2018

Segurança | Política de mega-dados gera preocupações

O secretário para a Segurança Wong Sio Chak disse na Assembleia Legislativa que pretende combater o crime através de um sistema de investigação com recurso a mega-dados. Contudo, o analista Larry So e os deputados José Pereira Coutinho e Sulu Sou temem uma perda da privacidade dos cidadãos

Mal o secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, anunciou no debate sobre as Linhas de Acção Governativa (LAG) para a sua tutela que pretende criar um sistema de investigação com recurso aos mega-dados, os alertas soaram na cabeça de muitos.

A ideia deixada pelo secretário é que esse sistema passe a ser legislado, para que se faça um melhor combate à prática de crimes como o consumo e tráfico de drogas ou as pensões ilegais. Larry So, analista político, teme que se viole a privacidade das pessoas.

“Tenho reservas em relação a essa forma de pensamento”, disse ao HM. “A privacidade das pessoas tem de ser respeitada e se é para reduzir ou parar o crime há outras formas de o fazer. Por exemplo, com mais polícias nas ruas ou mais formação sobre determinados crimes.” Larry So lembrou que os “grandes olhos” “vão custar muito dinheiro” aos cofres públicos.

“Esta não pode ser uma medida para parar ou reduzir o crime, pois não se consegue eliminar a criminalidade por completo. O secretário não deu respostas em relação à protecção da privacidade das pessoas, mas quando falamos deste sistema isso pode ser um pouco sacrificado”, lembrou.

Laivos orwellianos

Sulu Sou foi um dos deputados que interveio no debate de ontem sobre as LAG para 2018 e não ficou satisfeito com as respostas dadas por Wong Sio Chak.

“Não apenas eu, mas muitos dos cidadãos mostram-se preocupados com a perda de liberdade de expressão. Ele não respondeu directamente às minhas questões e disse que a liberdade de expressão está garantida na lei, mas queria que me explicasse melhor a relação entre a lei e este tipo de liberdade”, apontou.

O deputado receia que em Macau venha a ser implementado um sistema semelhante ao que existe na China, em que plataformas como o Facebook, Instagram ou Whatsapp estão bloqueados.

“Os cidadãos têm receio de que as aplicações de telemóvel passem a não ter autorização de utilização em momentos sensíveis, e que tenhamos de recorrer ao sistema VPN”, acrescentou.

Também o deputado José Pereira Coutinho se revelou preocupado com a implementação de um “Big Brother” no território. “Estamos a caminhar para que haja um Big Brother, um controlo da vida pessoal das pessoas a todos os níveis. Tendo em conta os baixos níveis de criminalidade e o facto do território ser diminuto não há necessidade de fazer isso”, reiterou.

Para Pereira Coutinho, Wong Sio Chak quer “controlar tudo e todos, sobretudo as vozes dissentes na sociedade”. “É a minha percepção quando o vejo a querer implementar a política de mega-dados à força”, rematou.

30 Nov 2017