Os esforços amargos e o seu tráfico

Em 1533, o Governador da Índia Nuno da Cunha criou o cargo de Pai dos Cristãos, para cuidar dos libertados da escravidão por se terem convertido ao Cristianismo.

Influenciado de forma decisiva pelos jesuítas, o Rei de Portugal D. Sebastião em 1570 decretou a abolição da escravatura de ameríndios sob o domínio português, aceitando-se a sua servidão e em Março do ano seguinte, proibia “a aquisição de escravos japoneses, sob pena de confiscação dos bens dos culpados”, segundo o Padre Manuel Teixeira. No período filipino, em 1595 o Vice-Rei de Goa aboliu o tráfico de escravos chineses. “Havia legislação portuguesa de 1625, comunicada ao Ouvidor de Macau e recordada pelo Vice-Rei da Índia, Conde da Ega (1758-1765), proibindo a escravatura chinesa”, como lembra Beatriz Basto da Silva. Em 1761, o Marquês do Pombal, no reinado de D. José, decretou o fim da importação de escravos das colónias para a metrópole e terminou com a escravidão de indianos tanto na Índia, como em Portugal. Beatriz Basto da Silva refere ter sido abolida a escravatura em Portugal em 1836 por Sá da Bandeira, mas só entrou em vigor em Macau em 1856.

A abolição da escravidão está directamente relacionada com a Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século XVIII na Inglaterra, segundo Ana Luíza Mello S. de Andrade. A Dinamarca foi o primeiro país em 1792 a criar uma lei para terminar com a escravatura, mas esta só entrou em vigor em 1803. Em 1833, o Parlamento do Reino Unido pôs fim à escravidão para os africanos nas colónias do Império Britânico e a França em 1848 para os negros, com a Proclamação da II República. Nos Estados Unidos da América foi abolida a escravatura em Dezembro de 1865, na XIII Emenda à Constituição. Entre 1807 e 1808, sete Estados do Norte libertaram os escravos, tornando-os homens livres. O Congresso em 1808 proibira a importação de escravos e para libertar 4 milhões de escravos negros entrou em vigor a 1 de Janeiro de 1863 a Proclamação de Emancipação assinado pelo Presidente Abraham Lincoln.

Sobre este tema, aflorado superficialmente, quase tudo fica por dizer e as datas, que não são as definitivas, escondem histórias, muitas não propriamente de teor humanitário.

Tráfico de cules

Em cantonense, os cules têm o nome de fu-lek, que significa esforço amargo. Os chineses sentiam-se “atraídos por promessas de trabalho, como colonos, por esse mundo fora, sonhando voltar ao torrão natal com um bom pé-de-meia. Ingénuos, pacientes e trabalhadores como ninguém (quando motivados) concentraram-se e ofereceram-se, como ‘ovelhas para o sacrifício’, no porto de Amoy (que foi o primeiro) e depois em Cantão, Wampu, Caminh e Swatow, dos laboriosos agricultores Hakkas …”, segundo Beatriz Basto da Silva, que cita o “Conde Earl Gray.

De início nem eram precisos engajadores. Os aspirantes a colonos entregavam-se directamente aos especuladores que os esperavam a bordo, com um contrato que aumentava em ganância e desonestidade à medida que a oferta crescia.”

Após a I Guerra do Ópio, a emigração chinesa iniciada desde Amoy (Xiamen) foi feita abertamente, com a conivência de corruptos oficiais chineses locais e oficiais consulares britânicos, através de agências da Companhia de Londres. Era francês o primeiro barco que partiu de Amoy (actual Xiamen) em 1845 levando 180 emigrantes chineses para a Ilha de Bourbon (Reunião, ilha francesa a Leste de Madagáscar). Beatriz Basto da Silva refere, “Em 1850 a Firma inglesa Tait y Company enviava de Amoy para Havana os primeiros cules contratados.”

De Amoy, até Agosto de 1852, saiu a maioria dos emigrantes chineses e desses 6255, embarcaram em barcos britânicos 73% e os restantes partiram em embarcações espanholas, francesas, americanas e peruanas, segundo Ng Chin-Keong. Muitos raptados nas suas terras pelos corretores chineses, eram entregues aos agentes britânicos, sendo vítimas de um tratamento desumano durante a espera do transporte, na viagem e no destino, quantos escravizados. Os culis, sabendo da sinistra situação dos seus conterrâneos emigrados, revoltaram-se em Amoy a 21 de Novembro de 1852. Segundo o Taotai (Intendente) Chao Lin, o mais alto oficial civil em Amoy, tudo ocorreu quando três ingleses (sendo um, o escrivão da Firma Tait) embriagados caminhavam pelas ruas da cidade à noite e em frente a uma esquadra da polícia entraram numa discussão com alguns soldados e com a multidão de culis, adquiridos pelos ingleses, que no exterior se encontrava. Iniciada com o arremesso de pedras, essa revolta durou uma semana e os ingleses pediram a protecção dos seus marinheiros, que aí desembarcaram. Com medo da sua segurança e dos seus hongs, os mercadores britânicos mudaram esse negócio para outras paragens. De referir estar a China de novo a viver em guerra, desta vez civil, devido à Revolta Taiping (1850-64).

Depósitos para os contratados

Segundo Arnold J. Meagher, citado por Liu Cong e Leonor Diaz de Seabra, “a emigração através de Macau para as Américas desenvolveu-se lentamente, numa fase inicial, visto que os carregadores preferiam os portos de Xiamen, Shantou, Jinxingmen (Cumsingmoon) e Cantão, que ficavam mais perto das fontes de provisão. E, quando se tornou cada vez mais difícil operar o tráfico nesses portos, a emigração chinesa para a Califórnia e a Austrália foi confinada a Hong Kong, e o tráfico para a América Latina concentrou-se em Macau.” Segundo Fernando Figueiredo, “A saída de trabalhadores chineses para a América a partir de Macau tivera início em 1851 e destinava-se sobretudo a Cuba. Nela passavam a estar envolvidos agentes nacionais e estrangeiros (europeus e chineses).”

Em “1852, Hong Kong começa a sua própria emigração, embora já anteriormente canalizasse essa actividade desencadeada de portos da China, onde a Inglaterra tinha interesses, assim como a França”, segundo Beatriz Basto da Silva. O Padre Manuel Teixeira salienta, “O agente da emigração chinesa Mr. White sugeriu ao Governo de Hong Kong e este concordou que se abrisse nessa colónia um depósito para recolha de emigrantes; o mesmo se fez em Macau.”

Os cules, trazidos pelos corretores das terras chinesas, eram também transportados nos vapores das companhias de navegação, recentemente criadas a ligar Hong Kong, Macau, Cantão e seus arredores, para do porto de Macau embarcarem e enquanto isso não acontecia, ficavam albergados em barracões, que em 1851 eram cinco e em 1866 chegavam aos trinta depósitos.

23 Nov 2018

UNESCO classifica lugares clandestinos do cristianismo no Japão

Os sítios cristãos clandestinos da região de Nagasaki, no Japão, onde comunidades missionárias ibéricas tiveram um papel determinante, no século XVI, foram classificados como Património Mundial da UNESCO.

A reunião do Comité do Património Mundial da organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em Manama, no Bahrein, vai no segundo dia de análise de uma lista de 30 candidaturas à classificação, que também inclui o cemitério militar português de Richebourg, em França, onde estão enterrados cerca de 1800 soldados, mortos na Grande Guerra de 1914-1918.

A candidatura japonesa foi aprovada no sábado, a par de edificado vitoriano de Mumbai, na Índia, do sítio arqueológico de Fars, no Irão, e dos mosteiros budistas da Coreia do Sul. A classificação dos sítios cristãos clandestinos da região de Nagasaki tivera já indicação positiva do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS, sigla da designação inglesa), organismo consultivo do processo. O processo de classificação envolve 12 elementos: dez localidades da região de Nagasaki, o castelo de Hara, na península de Shimara, e a catedral de Oura, construída no século XIX.

No conjunto, estes locais envolvem toda a história do cristianismo no Japão, dos mais antigos testemunhos, que vão da chegada dos missionários, no século XVI (1548/1550), passando pela interdição, no início do século XVII, que veio culminar um clima de perseguição já instalado, até à reabilitação, com o levantamento da interdição, em 1873.

Inicialmente, a instalação da Companhia de Jesus, no Japão, foi uma história de sucesso – Nagasaki chegou a ser administrada pela ordem -, mas em 1590, o clima era já de confronto com poderes feudais.

A interdição do cristianismo viria a ser decretada em 1614, as relações com Portugal seriam suspensas e os europeus seriam expulsos.

Durante a primeira metade do século XVII, 75 missionários foram executados e estima-se que mais de um mil cristãos foram mortos.

Entre os locais classificados estão Arima e Amakusa, locais da revolta cristã de 1637.

Na ilha de Kuroshima, outro dos locais classificados, o templo budista ocupa hoje o lugar da antiga igreja Shuntokuji (Dos Santos), fundada por portugueses, exemplo atual de tolerância religiosa, onde uma imagem de Maria está ao lado de um Buda.

O escritor Shusako Endo escreveu sobre a perseguição aos cristãos japoneses no romance “Silêncio”, que o realizador norte-americano Martin Scorsese, levou ao cinema, centrado na história dominante do missionário Cristóvão Ferreira, de Torres Vedras, que foi morto no Japão, no século XVII.

João Mário Grilo dirigiu “Os Olhos da Ásia”, filme que combina reconstrução de época com a actualidade, num tom documental, que visita os locais agora sujeitos a classificação.

O Comité de Património Mundial da UNESCO iniciou na sexta-feira a análise de novas candidaturas a património mundial, entre as quais se encontra a franco-belga “Lugares funerários e memoriais da I Guerra Mundial na Frente Ocidental”, que envolve mais de meio milhão de sepulturas, de mais de uma centena de cemitérios, necrópoles e monumentos.

O cemitério militar português de Richebourg pode, assim, vir a fazer parte da lista de lugares classificados como Património Mundial, no ano em que se assinala o centenário da Batalha de La Lys, a maior derrota militar portuguesa.

As classificações feitas contemplam as construções tradicionais de Thimlich Ohinga, no Quénia, a antiga cidade muralhada de Qalhât, em Omã, e o oásis de Al Ahsa, na Arábia Saudita, o maior do mundo.

O Comité da UNESCO reúne-se até quarta-feira no Bahrein. Entre as candidaturas em análise encontram-se também a Catedral de Naumburgo, na Alemanha, as Colónias de Beneficência da Bélgica e da Holanda, a Medina de Azahara, em Espanha, o conjunto urbano histórico de Nimes, em França, as minas de Rosia Montana, na Roménia, e o sítio megalítico de Göbekli Tepe, na Turquia.

1 Jul 2018

Victor Aguilar, padre e historiador: “Em casa têm fotos do Mao, na carteira têm o Papa”

Victor Aguilar é um costa-riquenho, padre e missionário de uma ordem italiana. Está a escrever uma tese sobre os nestorianos que apresentaram Cristo aos chineses e está atento à situação política actual. O padre revela que aquando da transição, o Bispo de Macau não garantiu que as entidades eclesiásticas estrangeiras tivessem um lugar seguro no território e não afasta a hipótese de no futuro o catolicismo se tornar clandestino.

Como começou a sua aproximação à Igreja?
Foi na Costa Rica, quando era miúdo, através de um missionário da Ordem Comboni que foi à minha cidade falar do Apartheid. Ele tinha estado preso na África do Sul por conduzir com um negro no lugar do pendura. A polícia parou-os e recordou-lhe que na África do Sul um branco não pode conduzir um negro. O padre recusou obedecer e foi preso durante três meses e expulso do país. Pensei que não era possível este tipo de situações e ele disse: “vives num país tranquilo e pequeno, onde se pode deixar a porta de casa aberta, mas não conheces o mundo”. Isto abriu-me a visão e despertou-me um interesse pessoal, nunca tinha tido vontade de ser um padre, apesar de ter estudado num colégio jesuíta.

E como foi a sua primeira abordagem à cultura chinesa?
Cresci com um vizinho chinês, que tinha deixado a China há muitos anos, era médico de medicina tradicional chinesa e casou com uma local. Cresci com as filhas dele, que era minhas colegas de escola. Ele tentou ensinar-lhes chinês e budismo. Despertou-me interesse e ouvia-o muitas vezes, a primeira vez que ouvi falar na China foi através deste homem. Sempre tive curiosidade por essa parte do mundo.

Quando cá chegou o que achou da forma como se vive a religião?
A primeira impressão que tive foi muito simples. Alguns chineses disseram-se “o cristianismo é para os ocidentais, não é para nós”. Ouvi este comentário no Interior da China, em Taiwan e no Japão. Isto ignifica que não conseguimos tocar o espírito oriental com o cristianismo.

Há alguma característica na cultura chinesa que a torna impermeável à espiritualidade estrangeira?
Na “forma mentis” oriental é muito difícil encarar monoteísmo. A segunda questão é porque se há-de ter apenas uma religião. Mas isto também funciona ao contrário. Muitas vezes, os ocidentais pegam nas religiões orientais pelos aspectos externos, o superficial e decorativo. A religião não é só usar roupas, rapar o cabelo ou fazer tatuagens. Para os orientais, a religião é algo muito profundo, está no coração das pessoas. Mas o verdadeiro diálogo é feito na prática. Quando foi o terramoto de Sichuan a primeira ajuda às vítimas foram os monges budistas ajudados por cristãos. Esse é o verdadeiro diálogo inter-religioso.

Como vê a actual postura de Pequim face à religião?
Ontem li um artigo que tinha como título “se quer sair da pobreza substitua Jesus por Xi Jinping”. Conheço comunidades católicas clandestinas onde o cristianismo está vivo, apesar da pobreza. O Governo controla todas as religiões na China através da Associação Patriótica, que influencia todas as decisões da igreja oficial da China. Há seis meses estava em Itália para falar sobre a Igreja Chinesa e falava da distinção entre a igreja oficial e a clandestina. Um padre chinês levantou-se e reagiu com agressividade dizendo: “A divisão é culpa dos estrangeiros, os missionários é que a criaram. Na China só há uma igreja, a que é reconhecida pelo Estado e nós reconhecemos e amamos o Papa”. Cada vez mais vejo padres e freiras chinesas enviadas para a Europa para estudar. Há interesse do Vaticano para estabelecer ligações diplomáticas com Pequim. A Igreja deveria firmar condições claras nestas relação, mas prevejo que muitas das comunidades clandestinas vão sofrer e desaparecer. As pessoas na China sentem-se, por vezes, traídas, depois de terem fé durante décadas. Ainda existem padres e bispos na prisão, conheço um padre em Fukien, que era missionário, a quem partiram a espinha e deixaram-no para morrer. Foi acolhido por cristãos nas suas casas que têm tomado conta dele ao longo de anos. Claro que agora está a morrer.

Como é que estes sacerdotes se mantêm na clandestinidade?
Um velho padre disse-me que estava farto de se esconder. Quando saem da clandestinidade recebem os benefícios do Governo chinês. O bispo recebe um bom carro, dinheiro para a paróquia, propriedades que haviam sido confiscadas durante a revolução cultural. É uma tentação para os padres chineses. Para nós, os missionários, o verdadeiro propósito de estarmos na China são os programas sociais, porque não podemos desenvolver actividades religiosas. Movem-nos os projectos educativos, trabalhar com crianças deficientes, crianças com famílias afectadas pela SIDA em zonas rurais da China. Algumas destas pessoas são cristãs, chegamos mesmo a celebrar homilias. Mas ouço muitas vezes que na igreja clandestina os padres estão cansados e querem desistir. Quando fui à China a primeira vez, em 2005, encontrei-me com algumas pessoas muito especiais, vinham ter comigo, abriam a carteira e mostravam-me a foto do Papa. É um sinal de que eram da igreja clandestina, uma forma de dizerem que são fiéis a Roma. Em casa têm fotografias do Mao, mas na carteira têm o Papa. Acontece-me muito com pessoas idosas.

A igreja clandestina está a morrer?
Depende das zonas. Por exemplo, em Fukien, no sul do país, a igreja clandestina é muito forte e tem gente nova, passa de geração em geração. Mas também trabalhamos noutras províncias em que são principalmente pessoas mais velhas a seguir a fé. Além disso, as novas gerações chinesas têm apenas o dinheiro em mente e há um vazio no coração destas pessoas. Os valores ancestrais chineses, mesmo os confucionistas, estão a perder-se, já nem sequer há respeito pelos pais. Isto é claro. Acho que o Governo chinês percebeu que tem de fazer algo, nem que seja para contrariar a corrupção. A religião pode ajudar, mas eles querem que seja controlada pelo Governo.

Acha que a Igreja em Macau pode ter de recorrer à clandestinidade à medida que a influência de Pequim aumenta?
Aquando da transição de Macau para a China, o Bispo Domingos Lam chamou todas ordens e padres estrangeiros e disse: “Queridos irmãos e irmãs, desde o retorno à China não posso garantir aqui a vossa presença”, arranjem uma forma de se registarem. O Governo chinês mandar-nos a todos embora era uma possibilidade. Claro que isto não aconteceu. Em Hong Kong sei que algo do género foi discutido entre os padres, isto foi mais claro lá. Por outro lado, há por cá alguns padres vindos da China, chegam aos poucos. Acho que há hipóteses de no futuro o Governo chinês querer ter apenas padres do Interior da China nas igrejas de Macau e Hong Kong, é a forma como operam. Em Zhuhai há uma igreja católica oficial, que não é relacionada com as igrejas daqui, não tem nada a ver com o Bispo de Macau. O padre foi enviado pelo Governo chinês do norte da China. Em Shenzhen há três padres do norte da China. Mesmo em Zhuhai as pessoas reclamam porque são forçadas a falar em mandarim, porque este padre não sabe cantonês. Conheço um católico de Zhuhai que vem todos os domingos para ir à missa em Macau, e diz que não vai na sua cidade porque o padre que tem não é um padre.

Além da linguagem, quais as diferenças desses padres enviados pelo Governo chinês?
Agora aumentaram um pouco o nível de qualidade de formação destes padres, mas anteriormente eram muito maus. Faziam o mínimo possível, abriam a Igreja, davam a missa e já estava. Não têm qualquer actividade pastoral, não falam com as pessoas, não visitam doentes no hospital, aquilo que devemos fazer enquanto padres. Sentem que não é o trabalho deles.

Que perspectiva então para o futuro da igreja em Macau?
Não digo ir para a clandestinidade. Em Hong Kong estão mesmo a preparar-se para 2047. Estão a formar padres, há 300 pessoas de Hong Kong a estudar teologia, porque querem ter catequistas no futuro. Em Macau só há meia dúzia de paróquias mais focadas nas missas e sacramentos, não há muitos cristãos. Não estamos neste momento a considerar que esta situação possa acontecer. Mas imaginemos que a igreja oficial da China decide meter um bispo em Zhuhai com autoridade sobre Macau. Será um desafio em termos de status quo, talvez não o façam agora por saberem que haveria reacção. Lembro-me que no início se dizia que durante 50 anos não se tocaria em nada, mesmo na Lei Básica. Em Hong Kong as mudanças motivaram protestos, mas aqui ninguém se apercebeu. Em Macau pode acontecer a Igreja e algumas pessoas decidirem tornar a sua fé clandestina, estamos a falar de hipóteses. Mas estou certo de que o Governo chinês tem um plano, basta ouvir os discursos de Xi Jinping neste último congresso quando falou da sinonização do cristianismo na China. Não falou de aculturação, de tornar a igreja mais chinesa, mas do controlo do Governo em matérias religiosas. Usou estas palavras de forma aberta. Por isso acho que há um plano, ainda para mais numa altura em que centralizou todo o poder em seu redor.

17 Nov 2017