Música | Amizade é tema central de “Conversas Ilustradas com Música”

A Fundação Rui Cunha (FRC) apresenta, na quinta-feira, dia 21, às 18h30, mais uma palestra inserida na iniciativa “Conversas Ilustradas com Música”, desta vez sob o tema da Amizade.

A sessão conta com a participação de Shee Va e José Carlos Pereira, que vão abordar temas como o “afecto, carinho, estima e dedicação”. Além disso, a sessão conta com a música dos compositores Benjamin Britten e Dmitri Shostakovich.

“Pese embora tenham estado separados pela língua e pela Cortina de Ferro em tempos de Guerra Fria, sempre se entenderam através da arte e da profunda admiração que nutriam pela música um do outro”, aponta a FRC, em comunicado. Exemplo disso foi o facto de Britten ter dedicado a Shostakovich a sua ópera “O filho pródigo”, tendo este retribuído com a XIV Sinfonia.

Ambos foram verdadeiros alicerces na construção da música do Século XX, o que levou o maestro britânico Jan Latham-Koening a fundar a Britten-Shostakovich Festival Orchestra, que agrega jovens músicos oriundos dos Conservatórios dos dois países de origem dos dois compositores. De frisar que este evento ocorre no âmbito do décimo aniversário da FRC.

13 Abr 2022

Das lamentações

[dropcap]D[/dropcap]e vez em quando mais alguém, que parte para outro lado do tempo, nos reúne. Na amizade, na melancolia, na companhia necessária ao que parte e a quem fica de mãos vazias e alma triste. E depois vamos comer. É importante comer juntos. Divergir para histórias e memórias e gafes recentes e carinhosas de amigos, na circunstância em que trocamos os pés pelas mãos. A perda de alguém que nos é querido ou que é querido a alguém que nos é querido. Uma cadeia em que nos situamos tristes, de um modo ou de outro.

Ali estamos, de frente para os três. Ele que partiu, Ele que talvez esteja e que preside a tudo e em quem, mesmo se não acreditamos, gostaríamos de acreditar e que queremos sentir atento, e que, se ajuda for necessária, mande um sereno par de anjos para mostrar o caminho da eternidade. E ele, o clérigo que, entre ambos, se dispõe a mediar em representação de quem lhe é superior. Que depressa nos faz sentir vermes abaixo. Como estando num anfiteatro enorme. Em cima aquele a quem desejaríamos ser, mesmo que momentaneamente, conduzidos como conforto e elevação, mais abaixo, o imponente representante, um pouco mais abaixo o que vai a caminho do céu e muito mas muito mais abaixo estes seres colocados no palco, quando diz que é para nós que se deve virar a atenção. Estávamos enganados. Pensávamos vir pelo que partiu ou está de partida para o céu. E pelo céu em si. Pelo espírito que tanto nos transcende destes corpos e que esperávamos que nos fosse apontado como quem nos mostrasse uma estrela.

Abespinhado pelo ínfimo atraso de quem veio desfalcada de atravessar noite de vazio e em branco, e pela congregação que nem toda se benzeu nem respondeu, que admoestada e já com a voz a sumir lá fez das tripas coração e amén. Tal e qual como crianças que quanto mais se lhes ralha menos respondem.

Ali estamos, em despedida, em companhia e numa certa nostalgia de crer que o momento inspira. Em algo que acompanhe quem parte, para um lugar utópico, que conduza serena e suavemente quem vai. E no respeito pela espiritualidade que, ansiamos, perpasse nas palavras, sobretudo nas que são espontâneas e livres do espartilho anacrónico das escrituras, e liberte ou suavize a dor de quem fica e fica com um enorme M de morte na alma, um pesado V de vazio a querer ganhar espaço e um enorme N que é a pessoa que não estando estará para sempre. E nos ouvidos as palavras de quem supostamente sabe. Sabe? Mas tropeçava sempre na leitura do nome inteiro, que não memorizou, como se a ler pela primeira vez e a custo e como se não o conhecesse de lado nenhum. E não conhecia. Desejamos para dentro que não se engane a encomendar-lhe a alma.

Vou dizer umas breves palavras – enunciou ao sair das escrituras – que não são para acusar ninguém. Acende-se uma pequena luz de alerta. Interrompemos-lhe mentalmente o fio condutor e paramos brevemente a perguntar-nos de que vamos ser seguramente acusados. Como miúdos da escola. Porque não soubemos ou não quisemos responder amém nos sítios próprios e mesmo depois de advertidos de que o tínhamos que fazer. A revolver na memória as palavras de estilo que nos competiam mas já as vozes sumidas e contrafeitas e tristes. Ficou zangado. Diz-nos que muitas pessoas não são cristãs, simplesmente baptizadas. Aí está. Desenvolve e acusa. Desenvolve e acusa. Cegamos porque não conseguimos ensurdecer. Aquilo é connosco. Não nos conhece mas não gosta de nós. E não quer que tenhamos ilusões de que Cristo também não gosta de nós. Mas não foi ao que viemos. Viemos por sentimentos, por anseio espiritual face à morte de alguém e à nossa futura em construção. Viemos por respeito. Qualquer coisa em que acreditar mesmo que por momentos, mesmo que seja uma metáfora bela que conforta quem está triste.

Que aponte uma luz, uma chama, uma ideia holística, uma harmonia no estar e no partir. Qualquer coisa. Ali, como em qualquer outro lugar de culto. Num templo budista ou à beira de uma falésia. Depois penso confortada que talvez o Cristo dele seja outro que não o nosso. A cada um o seu anseio. Um Cristo, ou outro.

Mas ali estava ele de figura imponente a desinfectar as mãos esguias e longas de minuto a minuto. Eu acho, dizia P. depois, enquanto caminhávamos ao longo do muro liso da cidade dos mortos, que ele, de cada vez que tinha um mau pensamento, desinfectava as mãos.

Algo sobe em mim e sei que num momento qualquer sem eu dar por nada, vai sair em palavras que não cabem ali. Não quero ouvir mais nada não quero ter mais nenhuma palavra daquela voz para lembrar não quereria que a minha amiga tivesse que ouvir mais nada. Saio. Longa pausa de silêncio e três cigarros.

Espreito discretamente e ainda oiço aquela voz maldosa. Recuo para o exterior de segurança. Volto a tempo de ouvir outra voz, uma voz de quem soube amar e cuidar e amou e ama, a dizer as últimas palavras e belas, antes da partida para a última morada. A voz e as palavras – aquelas – as únicas que valem a pena.

12 Out 2020

Os cometas da amizade

[dropcap]A[/dropcap]té ao momento em que escrevo estas linhas não existe, ao que eu saiba, uma bolsa financeira das palavras. Nenhuma delas, numa lógica meramente materialista, estará mais bem cotada do que outra qualquer. E bem, até porque mesmo para isso seria difícil encontrar um critério objectivo que ajudasse a valorizar cada vocábulo. Por exemplo, para mim um belíssimo palavrão dito na ocasião certa vale um milhão de vezes mais do que a palavra “implementar”. Ou de outra forma, pagaria muito mais por ver escrita a palavra “dependência” em vez do que agora passa pelo seu sinónimo – “adição” -, que para mim se resume a uma operação aritmética. Mas enfim, é por esta e por outras que não tenho um gabinete em Wall Street.

O que é verdade é que na nossa língua existe uma expressão idiomática, em regra aplicada em tom depreciativo, e que é “palavras caras”. Significa, como todos sabemos e mesmo assim aqui estou a explicá-la, um conjunto de vocábulos utlizados de forma rebuscada, eruditos ou não, mas que normalmente não ajudam à compreensão da mensagem. A expressão foi muito popular aquando dos discursos do antigo Presidente Jorge Sampaio ou, para quem gosta e se interessa pelo futebol português, sempre que o treinador Manuel Machado resolve dizer seja o que for.

É de facto um mal menor, trivial, assunto evanescente. Mas, e agora se me permitem, abandono por um momento a leviandade para tentar dizer ao que venho. Se de facto não vejo uma hierarquia das palavras percebo nesta expressão outro sentido e provavelmente mais próximo da origem: aquele em que o adjectivo “caras” não se refere a um valor material mas sim àquilo que ao início queria dizer: algo querido, estimado, único. Algo que ainda sobrevive, apesar de tudo, nas formas epistolares de cortesia: “caro senhor, caro senhora”. Já dizê-la em conversação hoje em dia pode denotar arrogância: “Meu caro, não é bem assim” não demonstra a estima pelo interlocutor mas geralmente um prelúdio de massacre.

Fiquemos então pelas palavras queridas. E uma há, que aqui utilizo como artificio de escrita e convite para o leitor se sentar à mesa que é “amigo”. Como “amizade”, é-me de facto uma palavra cara e que utilizo com parcimónia nos meus dias. Nem sempre terá sido assim e ainda bem: a idade é um filtro. Isto para dizer que já não me é fácil chamar “amigo” a um mero conhecido: a palavra ganhou gravitas, sentido e raridade.

Necessita de tempo e constante cultivo para que se substantive em alguém. O que não precisa é de assiduidade. Existem amigos que infelizmente só os notamos quando desaparecem, deixando uma espécie de rasto luminoso. Nessa altura, quando a perda nos abre os olhos e o coração, percebemos o cometa que passou pelas nossas vidas, tantas vezes de forma discreta e quase sempre nunca devidamente apreciada.

Uma conversa breve, uma palavra no tempo certo, uma disponibilidade imediata aquando de uma crise qualquer: isso, parece-me, cabe na amizade. E depois, quando enfim e de repente a noite os leva para sempre, fica-se apenas com uma mão-cheia de palavras por dizer e quase todas soam a obrigado. Eu sei: passou-se comigo há pouco tempo. A única redenção e gratidão possível é fazer que isso nunca mais aconteça e apanhemos estes cometas ainda em pleno voo, a tempo de os abraçar.

16 Set 2020

Quando lá fora

[dropcap]O[/dropcap]s meus amigos são lestos a gabar-me a sorte que tenho em viajar por obrigações profissionais. Tento evitar mostrar-lhes que a coisa não é nem pouco mais ou menos tão divertida como parece. Ou glamorosa. São normalmente noites mal dormidas em hotéis a que se seguem pequenos encontros em livrarias, monólogos com estudantes ou passagens fugazes por feiras de livros. “Ah, mas o pequeno-almoço deve ser óptimo.” Nunca perceberei a fixação da maior parte das pessoas pelos pequenos-almoços de hotel.

Normalmente, é fazer quase as mesmas coisas longe de casa e dos amigos. Sim, a paisagem muda. Infelizmente, não disponho de órgãos sensíveis à beleza da paisagem, seja esta urbana ou rural. As grandes catedrais góticas da europa central não me comovem, o Sena não me emociona; a única coisa que de facto me estimula é a possibilidade – ao contrário dos pequenos-almoços continentais de hotel, todos eles muito semelhantes – de comer coisas diferentes. Até nos países onde a gastronomia não faz inveja a ninguém se descobre um restaurante chinês ou paquistanês digno de deixar memórias.

De vez em quando acontece de facto algo de novo. A última vez que me aconteceu foi na Holanda, numa daquelas cidades de nome dificilmente pronunciáveis. Estava hospedado num hostel simpático e regressava da apresentação de uma antologia de diversos autores europeus em diversas línguas onde eu estava incluído com um conto. Uma coisa moderadamente divertida e muito bem organizada cujo alcance, infelizmente, não ultrapassaria os limites da pequena sala onde teve lugar. A literatura contemporânea e a sua inexorável produção tornaram um céu pintalgado de luz num insuportável e incessante festival de pirotecnia onde se sucedem, incapazes de gerar atenção, todo o tipo de livros. A distracção gera indiferença. No melhor dos cenários, somos apenas tangentes.

Chegado ao quarto depois de meia dúzia de cervejas, tentei dormir. Não durmo bem nos hotéis. Ao contrário das muitas pessoas que deliram com lençóis lavados de frescos, duros e a cheira a goma, gosto da minha cama e da minha roupa de cama, de preferência um dia depois de a ter mudado.

Acordei cerca das nove horas da manhã a pensar no check out. Quando rodei sobre mim próprio, ainda na cama, dei de caras com um latagão desconhecido com pelo menos dois metros de altura. Tinha a recordação nítida de aquele corpo não estar ali quando finalmente me deixei dormir. Ergui ligeiramente o edredão. Ele estava inteiramente vestido e calçado. Não o quis acordar – ia dizer-lhe o quê? “Olá, muito gosto em conhecer-te.” E em que língua?

Levantei-me, vesti-me de fininho e sai do quarto. Na recepção, quando me perguntaram se a estadia fora do meu agrado e se tinha alguma sugestão a fazer, lembrei-me de lhes aconselhar uma sinalização mais eficaz dos quartos ou mesmo fecharem o bar do hostel mais cedo, mas apenas sorri e agradeci.

Já no avião, assaltou-me uma dúvida: e se o tipo estava morto quando acordei? Tomar-lhe o pulso para o medir não foi de facto o meu primeiro impulso. E se tenho a polícia à minha espera no aeroporto da Portela? “Senhor Romão, o nome Dirk Oomen diz-lhe alguma coisa?” Nesse dia e já em casa, não me foi fácil dormir. Devia ter-me apresentado ao senhor.

20 Set 2019

O estrangeiro dos desaparecidos

[dropcap]H[/dropcap]á uma aparente cristalização do outro ausente no sítio onde se encontra. É como se não envelhecesse. Fica na nossa memória como era da última vez que vemos esse alguém. Podemos pensar como se encontram os amigos da escola que também se encontram nesse “estrangeiro” que é a parte incerta ou, se certa, encontra-se oculto num campo de latência, desaparecido. Há várias frequências de encontro, consoante os prazos. Parece imperceptível a transformação do outro como é imperceptível a nossa transformação ao espelho. Há momentos em que percebemos que o outro mudou como percebemos também que nós mudamos: o peso, o cabelo, o aspecto. Há pessoas que não vemos sempre, com maior ou menor frequência. Podemos só ver alguém depois de vinte anos e a pessoa parece que se mantém intacta ou então quase não a reconhecemos.

Não há nunca uma correspondência biunívoca entre a percepção da nossa lucidez e a duração da existência da outra pessoa. Talvez do mesmo modo que só por vezes “caímos em nós” e “nos enxergamos”, isto é, só em momentos de qualidade perceptiva importante temos uma a-percepção de nós próprios, quer dizer, o mais das vezes e habitualmente registamos a nossa presença em nós próprios, mas não temos uma auto-apercepção de quem somos, como mudamos ou se estamos sempre cada vez mais na mesma.

A duração da percepção é infinitamente inferior à duração da existência de cada um de nós próprios e dos outros nas suas vidas. Um momento de percepção projecta-se para o futuro com os dados das impressões que alguém deixa em nós. Há uma continuidade projectada para o futuro dessas primeiras impressões. Há uma caracterização dogmática de alguém feita pela presente impressão. Mas uma impressão é momentânea e por isso admite uma alteração do objecto que cria essa impressão do mesmo modo que admite uma interpretação diferente e uma história camaleónica nas nossas existências.

Há pessoas que só vimos uma vez na vida e outras que vamos vendo. Outras há que vemos em épocas das nossas vidas e depois caem para o campo de latência de onde apareceram, só para desaparecer. Há vidas que têm uma apresentação e uma ausência intermitentes, mais ou menos regular, como os amigos de férias que só víamos quando era verão e literalmente hibernavam como nós também para eles hibernávamos.

Os outros resultam de um filme em que há determinações claramente presentes, mas a maior parte delas existem na sua ausência. As ausências dos outros, quando estão desaparecidos, não são absolutas, como se desaparecessem da existência, mas estão a ser compostas por nós, mesmo quando não pensamos neles.

A maior parte das pessoas, mesmo as que nos estão tão próximas que vivemos com elas, estão sempre no estrangeiro existencial, desaparecem do horizonte de perceptibilidade, saem da vista para fora, deixamos de as ouvir, de as sentir nas suas fragrâncias, como nos tocam e têm nas suas mãos e nós nos encontramos nas mãos deles. A interrupção do contacto, a sua perda, o desaparecer é o entrar para o campo da latência. O mais das vezes e primariamente o outro encontra-se neste campo de latência, tal como de resto a maior parte das coisas.

E, contudo, elevam-se anonimamente teses sobre o seu ser. À luz projectada por essas teses, temos a esperança de que os outros continuem aí no rio das suas existências, mesmo que a baixar para o mar, ainda que essa persistência no fluxo e na corrente do rio da vida, se alterem, transformem, mudem. Tal como cada um de nós, todos nos tornamos diferentes com o tempo.

Às vezes nem sequer os outros nos aparecem, pode ser uma canção na rádio, a fragrância de um perfume, uma peça de roupa, uma fotografia.

Outras vezes, pressentimos a sua presença como se estivessem de pé atrás de nós ou sentados ao nosso lado, como nos momentos em que não dormimos mas também não estamos acordados e importamos dos nossos sonhos imagens reais dos nossos ou fazemos transitar os nossos fantasmas adoráveis para as fantasias oníricas em que as nossas vidas continuam sem que houvessem sido interrompidas por morte, física ou afectiva.

23 Ago 2019

Entre amigos

[dropcap]T[/dropcap]empos estranhos estes, leitores. Mas por outro lado, terá havido alguns que o não tenham sido? Duvido. Mas é com estes dias que temos de lidar; e estes são os dias em que todos os dias existem “estudos”.

Sabeis do que falo. É difícil escapar a uma publicação que nos grita que um “estudo” decidiu que o pepino não existe; que respirar é perigoso; que usar pijama está por enquanto fora de moda; que ler crónicas de sujeitos com o apelido Guedes pode ser nocivo à saúde. E por aí fora.

A ideia que parece transversal às conclusões destes “estudos” é esta: “estudámos” o óbvio, e concluímos que o óbvio não apresenta grandes interpretações. É, como dizem os “estudos”, óbvio.

Mas pronto: toda a gente tem direito a “estudar” o que quiser, embora não me importasse nada de conhecer quem financia estas actividades. Dava um jeitão ser subsidiado para um “estudo” que concluísse que à noite temos sono, por exemplo.

Daí que sem surpresa tropecei em mais uma investigação rigorosíssima e essencial à humanidade que concluía que a amizade entre homens heterossexuais durava mais e melhor do que as relações românticas ou casamentos dos sujeitos estudados. Deixem-me colocar a coisa em termos modernos: o “bromance” – contracção entre ‘brother’ ou ‘bro’ (mano) e romance – é coisa mais perene do que namoros ou matrimónios. Ainda bem que alguém pagou a alguém este “estudo”, sob pena de vaguearmos nas trevas até ao fim dos tempos.

Mas pelo menos deu-me assunto, o que nem sempre é fácil. Numa altura em que existe uma fúria igualitária que chega mesmo ao modo de sentir, haja um “estudo” – por mais ocioso e parvo que seja – que lembre que há diferenças. E é nelas que devemos rejubilar. Não falo de hierarquias: a amizade masculina não é melhor, mais leal ou seja o que for do que a amizade entre mulheres. É apenas diferente. E sinceramente, se é ou não mais duradoura do que as “relações” é irrelevante.

Há muitos exemplos públicos e notórios deste fenómeno agora “estudado”: Sinatra e Dean Martin, Kingsley Amis e Philip Larkin, Lobo Antunes e Cardoso Pires. E tantos outros que vivem felizmente no quotidiano. Como é o meu caso e poderá ser o seu, leitor.

Eu conto, só como exemplo: há pouco tempo fiz uma longa viagem, cerca de cinco a seis horas de carro. Um terço desse período foi passado em completo silêncio, com a excepção da música que se fez ouvir na rádio. Os outros dois terços foram mais ruidosos: inventaram-se línguas estranhas para canções, partilharam-se escatologias sem pudor, disseram-se grosserias a sorrir, falou-se de cinema e de episódios marcantes da vida, lembraram-se lengalengas infantis e brejeiras. Rimos, rimos muito. O silêncio foi apenas um parêntesis necessário para tudo isto. E “isto” são quatro amigos em viagem. Nem sequer quatro amigos “íntimos”, de frequência constante e confidentes – apenas gente que se gosta e que circunstâncias profissionais junta de quando em vez.

Isto, para mim, que não tenho “estudos”, é a essência de uma amizade masculina (e pronto, no caso heterossexuais apenas porque calhou assim). A assiduidade nunca está em questão, nunca está à prova. O silêncio é suportado naturalmente e até bem-vindo. Partilhar o silêncio com uma amiga é muito mais difícil. E isto não é um julgamento, apenas uma constatação de quem tem grandes amigas mulheres.

Isso e esse regresso a uma adolescência artificial e efémera faz um pouco da amizade masculina.

Os homens adultos, quando se juntam, transformam-se em crianças velhas e livres. A escritora Iris Murdoch, que não era exactamente uma admiradora deste estado, definiu-nos bem: “ [a companhia masculina] é uma espécie de cumplicidade no crime, (…) de deglutir o presente de forma gulosa mesmo que o inferno esteja por todo o lado”. Terá razão. Mas ainda assim prefiro o que escreveu Montaigne após a morte do seu grande amigo La Boétie: “Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria: ‘Porque era ele, porque era eu’ ”.

Olho uma fotografia: mostra Humphrey Bogart a aninhar o seu grande e pequeno amigo Peter Lorre sob um enorme abraço, com o olhar benevolente de Lauren Bacall. E penso que este sim, é o mundo, e que se lixem os “estudos”.

3 Abr 2019

A amizade que se perde

[dropcap]E[/dropcap]ra um daqueles dias que Lisboa costuma oferecer em Janeiro: um sol de Inverno esplêndido, um azul límpido e com um gume doce que contraria qualquer assomo de tristeza. Estava sentado na esplanada do café do costume com um velho amigo, observando em silêncio quem passa. A amizade antiga tem esta coisa maravilhosa: não se inquieta com o silêncio do outro; compreende-o e partilha-o sem questões ou ansiedades. E assim nos mantínhamos, resistindo ao frio que se fazia sentir até a menina Marina – a sábia do bairro – disparar de forma inatacável: «Está frio».

Pois estava, concordámos nós de forma estremunhada, o silêncio quebrado. Mas o meu amigo pareceu aproveitar a boleia das palavras da menina Marina e sem aviso perguntou-me:
– Conheces alguma canção sobre a perda de um amigo?
– Sobre a morte de um amigo?, indaguei surpreendido.
– Não. Sobre o fim da amizade. Sobre a morte de um amigo mas em vida, amigos que deixam de o ser, que se zangam. Conheces?

Aqui tenho de fazer uma pausa para explicar o porquê do enunciado da pergunta. Gosto e conheço muitas canções devido a, entre outras coisas, ter o inócuo defeito de ver a vida também como um musical – cada emoção, cada situação que enfrento é passível de ter banda sonora apropriada. Esta convicção já me levou a ter de suportar olhares reprovadores em lugares públicos quando começo a trautear baixinho, sobretudo em repartições de Finanças. Enfim, mais uma vez divago. Adiante. De forma apressada respondi com duas canções, uma mais conhecida do que outra: o auto-explicativo We Used To Be Friends, dos Dandy Warhol; e o famoso canto de separação de Lennon e McCartney, Two Of Us. Em ambos os casos são expressões dolorosas, a primeira mediana e a outra genial – mas ambas com um fundo negro de dor por sarar.

E foi só depois de exibir mais uma vez o breviário de conhecimentos inúteis que me habita que percebi: o meu amigo estava a sofrer. Tinha perdido uma amizade que julgava – como tantas vezes julgamos – ser para a vida. Uma zanga por motivos que para aqui não interessam deitou fora um património acumulado de anos, que nada nem ninguém podem substituir. Sei do que escrevo, sei como o olhei porque me reconheci: a perda de uma amizade – essa flor de cristal que exige uma terna vigilância – pode ser e muitas vezes é mais sentida do que qualquer amor. Já me aconteceu, infelizmente, e mesmo enquanto escrevo esta crónica tenho de enfrentar demónios que julgava desfeitos.

A perda de uma amizade não é fácil justamente pela raridade que é tê-la e mantê-la. Muitas vezes dói mais do que a separação amorosa. Num texto magnífico, escrito no século XVII , D. Francisco de Portugal explica a diferença entre amizade e amor: «O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si». E deixa esta verdade bela como a neve: « (…) a amizade é uma afeição reverente, ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer do que desejo.». Isto, quando se vai em vida, é insubstituível. Para os amigos que partem deste mundo teremos sempre a saudade e o fraco consolo de termos sido vítimas de uma lei que um dia também nos irá condenar. Mas a amizade que se perde por afastamento intencional não dói pela distância: magoa pela proximidade, pela impossibilidade de chegarmos ao que já esteve em nós e está agora tão perto. E fica sempre um grão de culpa – improvável, rasteira, insidiosa culpa.

O dia pareceu ficar mais frio. Ouvi os lamentos do meu amigo sem saber o que responder pela simples razão de que nenhuma resposta iria servir. Ao despedirmo-nos, abraçámo-nos sem uma palavra embora ao mesmo tempo estivéssemos a dizer “não me deixes, que a vida já é o que é”. Sim, deveria haver mais canções sobre isto.

30 Jan 2019

Ampliação e redução

“…a graça liliputiana das velas brancas sobre o espelho azul onde elas pareciam borboletas adormecidas, e alguns contrastes entre a profundidade das sombras e a palidez da luz.”
Marcel Proust
“The Colossus”, Goya

[dropcap style≠’circle’]É[/dropcap] inegável que vamos conhecendo pessoas ao longo da vida. Desde sempre se estabeleceu contacto com um círculo mínimo de pessoas. O contacto está já desde sempre estabelecido. Não se dá o caso de virmos a conhecer alguém que já vimos. O contacto está feito e já pronto. Crescemos dentro desse mar onde há gente. Aparecemos também aos outros desse modo. Para os que já estão temos a vida marcada e é por nós que esperam, a mãe e o pai, os avós e família mais chegada, amigos próximos, vizinhos. Há outros que conhecemos à medida que o tempo passa. Dão-nos o mote, o tom, a melodia, o ritmo, a música própria das nossas vidas. Nós compomos também em conjunto a melodia de nós para eles. O ritmo e o tempo não são inteiramente particulares ou individuais. Extravasam para fora das nossas vidas, mas às vezes é difícil de perceber que os outros desde sempre escutaram a mesma banda sonora que nós e fizeram a mesma experiência que nós, ainda que pudessem não a ter verbalizado.

Mas há formas de conhecermos os outros que são acentuadas e marcaram as nossas vidas de diferentes modos. Talvez fosse outra forma de magia diferente da primeira, onde o local de encontro era a casa onde nascemos, a praia onde mergulhamos pela primeira vez, a casa de férias, a nossa cidade. Os sítios são feitos pelos encontros. Os outros connosco fazem os sítios, anulam-lhes o carácter factual e constituem-nos como horizontes de sentido e de significado.

Há outros que encontramos em sítios mágicos em tempos inaugurais. O primeiro dia de aulas e o colega ou a colega de carteira, com quem vamos ter ou quem encontramos no recreio. Porquê estas e estes e não aquelas ou aqueles? Que espécie de sentido outro diferente dos que dão a matéria à percepção nos permite detectar afinidades electivas? Os encontros pressupõem uma escolha ou são eles que constituem as afinidades e assim a escolha? Os encontros e os desencontros são muito mais do que princípios básicos de atracção, sobretudo na infância, embora haja paixão na infância, mas é diferente daquela que depois mais tarde na vida acontece para nos marcar a carne e o espírito a ferro.

Um encontro com outro na escola ou com os miúdos novos que vieram para o prédio, aqueles que encontramos na praia com os pais de férias ou os que vamos encontrando no liceu, na faculdade, no emprego, no ginásio dá-se não porque duas pessoas têm uma percepção mútua uma da outra, mas porque há um horizonte de sentido e significado que vibra de uma forma tal que os outros podem ser percebidos por nós e nós pelos outros mas de uma forma completamente diferente. E um encontro pode não ser apenas a dois. Pode ser em grupo. Pode haver um conjunto de pessoas com quem temos afinidades, um mesmo encanto e um mesmo fascínio estão a forrar o tempo que é sempre marcado, a escola, o liceu, a faculdade, o ginásio, o emprego. Pode ser só duas semanas e nunca mais vamos ver essa pessoa. Ainda que não desaparece é apenas um conteúdo onírico que assome ao horizonte de quando em vez já com o rosto desfocado. Pode ser anos e décadas. Há pessoas com quem convivemos décadas e que desaparecem. Regressam a um campo de latência e desaparecem. Podem desaparecer sem nos lembrarmos bem de como era com eles. Às vezes têm uma presença nítida do seu perfil característico. É como se estivessem connosco na sala vazia onde se escreve uma carta, mas pode ser no trânsito, quando tudo está parado e passa na rádio uma melodia ou então sem nenhuma razão aparente.

Uma vida humana tem essas vidas todas em si. E o próprio, protagonista de uma vida ou personagem secundária na vida de outros ou até só figurante, é composto destas múltiplas pessoas que são os terminais das nossas mais diversas relações e comportamentos.

É estranho como de nada se convertem em gigantes nas nossas vidas, mas como também antes de desaparecerem são liliputianos. Entre a ampliação hipertrofiada de alguém na nossa vida e a sua redução a uma memória fugidia tem de haver alguma verdade. Ou a verdade é sempre entre os Yahoos e os Liliputianos que somos nós uns para os outros, mas sem um verdadeiro enfoque, sem uma verdadeira sintonização?

10 Nov 2017

Andar na vida

[dropcap style=’circle’]H[/dropcap]oje andamos pelas redes sociais, pelos avatares do ecrã, mais do que pelos cafés ou pelas ruas. Tal pode ser entendido como um alívio: de facto, nem sempre o contacto humano é salutar, desejável ou sequer suportável. Desse ponto de vista Macau é exemplar pela forma rápida como nos fartamos uns dos outros. Mais do que Coimbra, Macau é realmente uma lição.

Ora, como todas as lições, nem sempre é bem entendida pelo “estudantes”. Ele há melhores e piores alunos e há mesmo aqueles que desistem dos estudos e vão pairar por outras paragens. Por exemplo, alguns não admitem a fluidez excessiva do real que aqui se organiza. Não admitem, nem entendem, como aquilo que ontem era amarelo hoje pode ser quase azul, e como em pleno tufão se aclimata uma bonança. É difícil para quem não está disposto a perder as penas e ser gente.

O que é isso de ser gente? Talvez aquilo que Álvaro de Campos definiu como o desejo de ser todos e toda a parte e, por isso, criar uma arte da sobrevivência a toda a sela. É o credo do exilado, daquele marcado de lonjura e estesia.

A isso se chama andar na vida. Ou por ela. Evitar a brida, recusar os freios e, na imensidão das coisas e dos mundos, ir andando, a nosso trote ou a galope, mas em carta ainda por navegar.

Andar na vida: passar sempre com o compromisso de passar e nunca deixar nada para trás que não se carregue como um remorso. Como as saudades de um regresso impossível, de uma odisseia sem Penélope final — todo o exilado enferma do síndroma do tapete inacabado…

E queremos ou não andar? Sabem bem os estimados leitores, lá bem no seu íntimo de crente, que só há realmente uma vida e que esta não deve ser perdida em entretantos e outros quebrantos de aflições. Não valemos nada, a não ser o nosso caminho.

Como diria o Padre Teixeira: “Anda, queres vir daí?”. Sim: a vida deve ser, sobretudo, passada a andar.

8 Set 2015