Ampliação e redução

António de Castro Caeiro -
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“…a graça liliputiana das velas brancas sobre o espelho azul onde elas pareciam borboletas adormecidas, e alguns contrastes entre a profundidade das sombras e a palidez da luz.”
Marcel Proust
“The Colossus”, Goya

É inegável que vamos conhecendo pessoas ao longo da vida. Desde sempre se estabeleceu contacto com um círculo mínimo de pessoas. O contacto está já desde sempre estabelecido. Não se dá o caso de virmos a conhecer alguém que já vimos. O contacto está feito e já pronto. Crescemos dentro desse mar onde há gente. Aparecemos também aos outros desse modo. Para os que já estão temos a vida marcada e é por nós que esperam, a mãe e o pai, os avós e família mais chegada, amigos próximos, vizinhos. Há outros que conhecemos à medida que o tempo passa. Dão-nos o mote, o tom, a melodia, o ritmo, a música própria das nossas vidas. Nós compomos também em conjunto a melodia de nós para eles. O ritmo e o tempo não são inteiramente particulares ou individuais. Extravasam para fora das nossas vidas, mas às vezes é difícil de perceber que os outros desde sempre escutaram a mesma banda sonora que nós e fizeram a mesma experiência que nós, ainda que pudessem não a ter verbalizado.

Mas há formas de conhecermos os outros que são acentuadas e marcaram as nossas vidas de diferentes modos. Talvez fosse outra forma de magia diferente da primeira, onde o local de encontro era a casa onde nascemos, a praia onde mergulhamos pela primeira vez, a casa de férias, a nossa cidade. Os sítios são feitos pelos encontros. Os outros connosco fazem os sítios, anulam-lhes o carácter factual e constituem-nos como horizontes de sentido e de significado.

Há outros que encontramos em sítios mágicos em tempos inaugurais. O primeiro dia de aulas e o colega ou a colega de carteira, com quem vamos ter ou quem encontramos no recreio. Porquê estas e estes e não aquelas ou aqueles? Que espécie de sentido outro diferente dos que dão a matéria à percepção nos permite detectar afinidades electivas? Os encontros pressupõem uma escolha ou são eles que constituem as afinidades e assim a escolha? Os encontros e os desencontros são muito mais do que princípios básicos de atracção, sobretudo na infância, embora haja paixão na infância, mas é diferente daquela que depois mais tarde na vida acontece para nos marcar a carne e o espírito a ferro.

Um encontro com outro na escola ou com os miúdos novos que vieram para o prédio, aqueles que encontramos na praia com os pais de férias ou os que vamos encontrando no liceu, na faculdade, no emprego, no ginásio dá-se não porque duas pessoas têm uma percepção mútua uma da outra, mas porque há um horizonte de sentido e significado que vibra de uma forma tal que os outros podem ser percebidos por nós e nós pelos outros mas de uma forma completamente diferente. E um encontro pode não ser apenas a dois. Pode ser em grupo. Pode haver um conjunto de pessoas com quem temos afinidades, um mesmo encanto e um mesmo fascínio estão a forrar o tempo que é sempre marcado, a escola, o liceu, a faculdade, o ginásio, o emprego. Pode ser só duas semanas e nunca mais vamos ver essa pessoa. Ainda que não desaparece é apenas um conteúdo onírico que assome ao horizonte de quando em vez já com o rosto desfocado. Pode ser anos e décadas. Há pessoas com quem convivemos décadas e que desaparecem. Regressam a um campo de latência e desaparecem. Podem desaparecer sem nos lembrarmos bem de como era com eles. Às vezes têm uma presença nítida do seu perfil característico. É como se estivessem connosco na sala vazia onde se escreve uma carta, mas pode ser no trânsito, quando tudo está parado e passa na rádio uma melodia ou então sem nenhuma razão aparente.

Uma vida humana tem essas vidas todas em si. E o próprio, protagonista de uma vida ou personagem secundária na vida de outros ou até só figurante, é composto destas múltiplas pessoas que são os terminais das nossas mais diversas relações e comportamentos.

É estranho como de nada se convertem em gigantes nas nossas vidas, mas como também antes de desaparecerem são liliputianos. Entre a ampliação hipertrofiada de alguém na nossa vida e a sua redução a uma memória fugidia tem de haver alguma verdade. Ou a verdade é sempre entre os Yahoos e os Liliputianos que somos nós uns para os outros, mas sem um verdadeiro enfoque, sem uma verdadeira sintonização?

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