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Horta Seca, 22 Janeiro 2018

Nuvem andarilha em fundo azul de paisagem, certos escritores passam por nós riscando-nos com o mistério intemporal de contar, de nos pôr a viajar longe ao que não existe, perto ao miolo de personagens que talvez possamos ser, ter sido, vir a ser. A mecânica de fluidos da convenção literária faz com que escritores como Ursula K. Le Guin (1929-2018) pouco existam na espuma dos dias da autoritária novidade, instantânea e avassaladora. E contudo são correntes do grande oceano. Precisava ter extraído do caos arrumado o exemplar da Fragmentos de «Tão Longe de Sítio Nenhum» (a que tradutor atribuir tão belo título?) para confirmar que sobrevive além de incandescentes adolescências. «A Mão Esquerda das Trevas» ou «Os Despojados» também me pedem o prazer da releitura. Deixo-me ir por este rio tranquilo?

Horta Seca, 23 Janeiro 2018

Venceu muito mais que os cem anos, este Nicanor Parra (1914-2018). Desconfio até que dobrou os números à maneira dos versos, relâmpagos do pensamento. Conhece-se pouco, dolorosamente pouco, de Parra, o que erguia o dedo médio às entrevistas: «cada pergunta é uma impertinência, uma agressão». Há tanto para fazer no que a este continente diz respeito. Faltou-me partilhar um tinto com o velho, mas haverá sempre tempo amanhã para um Último brinde:

«Lo queramos o no/ Sólo tenemos tres alternativas:/ El ayer, el presente y el mañana.// Y ni siquiera tres/ Porque como dice el filósofo/ El ayer es ayer/ Nos pertenece sólo en el recuerdo:/ A la rosa que ya se deshojó/ No se le puede sacar otro pétalo.//
 
Las cartas por jugar/ Son solamente dos:/ El presente y el día de mañana.// Y ni siquiera dos/ Porque es un hecho bien establecido/ Que el presente no existe/ Sino en la medida en que se hace passado/ Y ya pasó…,/ como la juventud.// En resumidas cuentas/ Sólo nos va quedando el mañana:/ Yo levanto mi copa/ Por ese día que no llega nunca/ Pero que es lo único/ De lo que realmente disponemos.»

 

Horta Seca, Lisboa, 29 Janeiro 2018

Não tarda, todas as entradas se sublinharão com o marcador negro da necrologia e a página estender-se-á campo santo. Acontece. Tropeço na notícia que não lhe faz justiça, mas como poderia? Cruzei-me com o Ângelo Teixeira, que trabalhava para os lados do nuclear, por alturas de movimentações congregadoras em torno PSR e conservo a generosidade e a alegria que explicou ser, sem o dizer, a ossatura de uma cidadania activa. Resultou ainda ser a centelha de criatividade em qualquer gesto público, nas manifestações mais festivas como nas agrestes, distribuía mais sorrisos que folhetos, ergueu sempre a frase que desprezava o sound bite, por vezes de forma quase íntima, gritando baixinho, inventou farol com engenharias várias no capacete. Enfim, e suspiro, não deixou nunca de ser o indivíduo no meio da multidão. Viveu época em que a rua foi palco. Vivemos.

Salgadeiras, Lisboa, 30 Janeiro 2018

Em comentário aos massacres de Sabra e Chatila, nos idos de 1982, António [Antunes] publicou, no seu Expresso de sempre, cartoon polémico, como deviam ser todos (algures nesta página). Pegou em fotografia tristemente célebre do gueto de Varsóvia, na qual uma criança levantava os braços e trocava para sempre a inocência pelo medo face às espingardas nazis, e espelhou-a. As vítimas da barbárie de então apontavam agora as armas e o miúdo era palestino de kefiah. O estilo do António tornou a cena ainda mais soturna. Tantas décadas depois, a imagem mantém-se tragicamente actual e o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, dirigido pela Maria do Céu Guerra, editou-a em serigrafia e, a pretexto, chamou-me para conversa. Além do concreto da situação, ainda de chumbo, o assunto interessa por causa das imagens, do que muda quando o argumento se faz ilustrado, em força mas não necessariamente em clareza. Está disseminada a ideia falsa de não que precisamos aprender a ler as imagens, que estas são objectivas, transparentes. Este tema suscitou, no pós 25 de Abril, mais debate do qualquer outro (além deste caso, também no jornal Combate, com João Fonte Santa, e no Diário de Notícias, com André Carrilho), muito pela obscena vitimização que confunde os que sofreram a Shoah com o estado e a política israelita. Quem critica Israel não está a defender o nazismo ou a cometer pecado de anti-semitismo. Ainda assim, na sanha proibitiva que nos assalta, alguns estados prepararam-se para proibir em letra de lei qualquer crítica ao estado de Israel. A prazo, humidade no ferro, isso minará a estrutura das sociedades dita democráticas. O tema será sensível e complexo, mas o papel do cartoonista reside numa simplificação que tantas vezes detecta o essencial. O lugar libertado da opinião, e da opinião desenhada, foi árdua conquista que se encontra hoje ameaçada com vigilâncias de tipo variado, do mais subtil ao directo, e dos mais dispersos quadrantes, da esquerda bem pensante à direita trauliteira e vice-versa. Abdicar da sensibilidade pessoal, até íntima, para discutir o que nos divide, sem a tentação dos argumentos censórios ou violentos, só ajudaria ao entendimento do… essencial. E se determinada perspectiva aguenta a corrosão do riso, para mim, estará mais próxima de uma qualquer verdade – chamemos-lhe assim, por falta de tempo para encontrar melhor. Entendo que alguém se possa sentir insultado com determinada representação, que até pode pisar o risco do estereótipo, mas diz-nos a História que se respira melhor quando, por exemplo, no humor desenhado, a liberdade chega à ofensa. A infância ensina-nos a enfrentar os muitos matizes do ultraje e do vilipêndio. E depois, o chão do medo será sempre movediço.

Vão de Escada, Cossoul, 1 de Fevereiro 2018

O Vasco [Gato], de conluio com outros cidadãos, anda a alimentar a alma da [Guilherme] Cossoul e pede-me para me sentar nos degraus da devoluta casa de Santos. O frio empurra-nos para o bar, o que não me desconforta. Podia lá ser de outro modo? Horas antes varri os livros à mão de semear e cheguei a uma escolha das mais heteróclitas, pondo-me a ler em voz alta banda desenhada e até cartoon. Hei-de repetir. Fugi dos autores da casa, mas nem tanto. Tentei de mim escapar, mas lá mostrei restos de Má Raça. Fui à Itália do António [Mega Ferreira] e às sombras de Zagajewski. Visitei Pessanha, por sermos próximos e ter versão de bolso. Por falar em sonetos, e para minha surpresa, a rede pescou do passado, «Mecânico de Ovnis», uns 20 do Fernando Grade que celebram «Portugal em «p», pequeno país de puritanos»: «Gaivotas que desceis pro sobre a polpa/de um beijo feito de água e neblina/ quando a tarde é um tango ou uma polca/ e os dedos são aranhas nos sobre até à boca.» A noite, que foi de tango, subiu-nos à boca, com mágoas a que voltarei, talvez. Só a dong hai-sopa ácido picante do Dim Sum Macau, a melhor de Lisboa, nos confortou.

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo! Já visitei o seu blog outras vezes, porém nunca
    tinha escrito um comentário. Pus seu blog
    nos meus favoritos para que eu não perca nenhuma atualização.
    Grande abraço!

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