Grande Plano MancheteEconomia | Crescimento do PIB chinês deverá abrandar em 2026 e 2027 Andreia Sofia Silva - 25 Set 2026 O “OECD Economic Outlook” descreve cenários de “resiliência” perante a escalada de preços devido à guerra no Irão, prevendo moderação do crescimento do PIB da China na ordem dos 4,5 por cento este ano, e ainda de 4,2 por cento em 2027 O nome do relatório não deixa margem para dúvidas: “Weathering Successive Shocks”, em português “Resistir a Choques Sucessivos” chama a atenção para os tempos difíceis que se vivem na economia global. O relatório em causa é o “OECD Economic Outolook”, produzido pelo secretariado-geral da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico]. O documento foi tornado público na quarta-feira. Há vários sinais de alerta para o leitor, desde logo pela análise do crescimento económico mais moderado, da existência de maiores dependências face à evolução do conflito do Médio Oriente e preços mais elevados nos bens essenciais, sempre dentro de um cenário de muitas incertezas e imprevisibilidades. Falando em “moderação do crescimento mundial” da economia no primeiro semestre deste ano, a OCDE prevê o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês até 4,5 por cento este ano, bem como 4,2 por cento em 2027. “Prevê-se que o crescimento económico nas economias de mercado emergentes do G20 se mantenha globalmente estável, embora o padrão de crescimento varie entre os países. Na China, prevê-se que o crescimento abrande ainda mais, passando de 5 por cento em 2025 para 4,5 por cento em 2026 e 4,2 por cento em 2027”, lê-se. Em termos globais, acredita-se que o crescimento do PIB a nível mundial seja de 2,9 por cento este ano, ficando ligeiramente abaixo da previsão para 2027, que é de 3 por cento. Para os Estados Unidos da América, a OCDE estima um crescimento do PIB na ordem dos 2,2 por cento este ano, e de 2,1 por cento em 2027. Tal crescimento será pautado “por um forte investimento relacionado com a IA [Inteligência Artificial]”, que irá “compensar parcialmente o abrandamento da despesa dos consumidores e do crescimento do rendimento real”. Na Zona Euro o crescimento do PIB será inferior, na ordem de 1 por cento este ano, percentagem que deverá ser semelhante em 2027. A OCDE refere que, em termos globais, a “maior pressão sobre os preços, um crescimento fraco do rendimento real e taxas de juro mais elevadas” vão dominar as economias. Estes factores vão trazer, nos próximos meses, um cenário de “moderação” ao “dinamismo do crescimento a curto prazo em muitas economias”. O estado da inflação Os preços deverão continuar mais elevados, mas não sempre. A OCDE prevê que “a inflação aumente a curto prazo, reflectindo a subida dos preços das matérias-primas, antes de diminuir gradualmente em 2027”. A quebra gradual explica-se pela “moderação dos preços da energia e uma política monetária mais restritiva, e que contribuam para limitar as pressões mais gerais sobre os preços”. Nos países que fazem parte do G20 estima-se que a inflação possa diminuir de 4,1 por cento este ano para 2,5 por cento em 2027. É referido um cenário de “resiliência” perante este crescimento económico mais moderado, apesar “dos efeitos adversos do conflito no Médio Oriente”. A “resiliência” dos países deveu-se “às reservas consideráveis de petróleo, à oferta adicional proveniente de países exteriores às economias do Golfo e a medidas discricionárias de apoio adoptadas pelos governos”, e que “contribuíram para atenuar o impacto sobre a economia mundial”. IA como força motriz A OCDE destaca o papel que os investimentos na área da IA têm tido como força dinamizadora de muitas economias. “A continuação da forte actividade relacionada com a inteligência artificial (IA) também impulsionou o investimento, a produção e o comércio”, lê-se no relatório. Aliás, é ainda referido no documento que “a robustez da actividade relacionada com a IA e a descida dos preços da energia (…) contribuirão para o reforço da actividade até 2027”. É explicado que os efeitos do conflito no Médio Oriente “foram parcialmente compensados pela continuidade do rápido crescimento do investimento e da produção relacionados com a inteligência artificial em muitas economias”. No continente asiático, “a Coreia e Japão, dois importantes fabricantes de semicondutores, registaram um forte aumento das exportações de tecnologia ao longo deste período”, sendo que “o mesmo aconteceu na China”. Por sua vez, “o crescimento de várias outras economias de mercado emergentes do G20, como a Índia, Indonésia e Brasil, foi sustentado por uma procura interna resiliente e por políticas governamentais que atenuaram o impacto do aumento dos preços da energia sobre as famílias e as empresas”. Muitas incertezas Não obstante a capacidade de superação e até um ligeiro crescimento do PIB global em 2027, a OCDE deixa no ar um cenário de muitas incertezas. Isto porque “as perspectivas económicas mundiais continuam fortemente dependentes da possibilidade de se alcançar uma solução duradoura para o conflito no Médio Oriente”. Lê-se que “os preços da energia voltaram recentemente a subir, num contexto de intensificação das perturbações na produção e nas exportações das economias do Golfo”. “As elevadas margens de refinação, devido aos estrangulamentos na produção, estão a exercer uma pressão adicional em alta sobre os preços no consumidor e os custos das empresas. Os preços de algumas matérias-primas agrícolas também aumentaram significativamente nos últimos meses, em parte devido ao impacto de fenómenos meteorológicos extremos na oferta”, é ainda explicado. As incertezas ocorrem também devido às “alterações contínuas nas políticas comerciais, tanto em matéria de tarifas como de restrições às exportações”. Tais cenários trazem também “perturbações na oferta”. A OCDE realça ainda “as novas taxas tarifárias bilaterais dos EUA, em vigor desde Julho, tenham aumentado em cerca de 1 ponto percentual a taxa tarifária efectiva média dos Estados Unidos”. Essencialmente, “a trajectória dos preços do petróleo e do gás depende fundamentalmente da duração das perturbações na oferta, da capacidade de produtores e consumidores para se ajustarem e da evolução geopolítica”. Outro risco apontado no relatório tem a ver com as alterações climáticas, nomeadamente o fenómeno El Niño, “que afecta negativamente a produção agrícola e contribui para aumentar as pressões sobre os preços dos alimentos”. Livro de receitas A OCDE deixa algumas sugestões para travar a escalada de preços, referindo que “os bancos centrais devem assegurar que as expectativas de inflação permanecem bem ancoradas”. “Poderão ser necessários novos ajustes às políticas monetárias caso as pressões sobre os preços apresentem sinais de agravamento ou as perspectivas de crescimento se deteriorem significativamente”, acrescenta-se. Do lado dos governos, a OCDE diz que as medidas para travar a inflação “devem ser bem direccionadas”, apostando-se nos “incentivos à redução do consumo energético e à diversificação das fontes de energia”. Como tal, a organização internacional recomenda “reformas estruturais para aumentar o crescimento do produto potencial e reforçar a resiliência das economias perante novas perturbações do lado da oferta”. A recomendação inclui “medidas destinadas a diversificar ainda mais o fornecimento de energia e melhorar a eficiência energética”, bem como políticas “que reforcem a capacidade dos mercados de produtos e de trabalho para se ajustarem aos choques e garantam que os trabalhadores dispõem das competências necessárias para se adaptarem às mudanças estruturais”.