A anarco-monarquia das estrelas e riscas

“Civilization is a movement and not a condition.” – Arnold J. Toynbee, A Study of History (1934-1961)

Afirmar que os Estados Unidos se converteram numa anarcomonarquia é uma ousadia digna de um estudante de Filosofia que, depois de três cafés e duas discussões no bar da faculdade, decide reinventar a teoria do Estado. Mas, como escreveu Salvador Dalí, esse príncipe das excentricidades que pintava relógios derretidos como quem pinta ovos estrelados dizia que “a única diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco”. A frase, que parece saída de um manual de etiqueta para génios, aplicase com uma exactidão quase cirúrgica ao estado actual da república americana, onde o poder se concentra num presidente que se julga monarca e se dispersa, simultaneamente, por uma multidão de actores privados que governam sem mandato, sem pudor e, sobretudo, sem a menor sombra de responsabilidade.

Para os teóricos da ciência política, esta coexistência de absolutismo presidencial e anarquia corporativa é uma contradição insanável. Para quem observa o mundo com os pés na terra e não com o nariz enfiado em gráficos, relatórios e outras quinquilharias estatísticas é apenas o resultado natural de uma revolução que perdeu o manual de instruções e decidiu improvisar, como quem tenta montar um armário sueco sem parafusos e paciência.

A decomposição da antiga república imperial não cabe em nenhuma classificação escolar; é um fenómeno híbrido, caótico, digno de um Shakespeare redivivo, se este tivesse acesso ao Truth Social, ao mercado financeiro e à televisão por cabo. Imagino o bardo, de pena na mão, a tentar descrever esta tragicomédia moderna, interrompido a cada cinco minutos por notificações de “breaking news”.

O presidente, que alguns comparariam ao Rei Sol se Luís XIV se tivesse nascido em Queens e apreciasse conferências de imprensa como quem gosta de touradas, governa por decreto, impulso e improviso. O efeito é semelhante ao de uma maionese mal batida onde os três poderes, Executivo, Legislativo e Judicial não são pilares, mas ingredientes que se misturam sem receita, ordem e chef. O resultado é uma emulsão instável que ora se solidifica em autoritarismo, ora se dissolve em anarquia, conforme o humor do dia ou o estado da conta no Truth Social.

A mediatização em tempo real ou melhor, em tempo irreal transforma cada gesto presidencial numa performance global. O regime tornouse marca registada da época, mas a história, essa velha senhora teimosa, insiste em contrariar ambições revolucionárias. As aventuras parabelicistas no Médio Oriente, as fantasias de intervenção na Venezuela e as ameaças de “armadas” digitais sofrem todas do mesmo mal que é a arrogância solipsista de quem acredita que o mundo é um palco privado, onde cada acto se representa para uma plateia imaginária que aplaude sempre, mesmo quando não percebe nada.

Convém recordar que a Armada Invencível de Filipe II não era, de facto, invencível. A derrota de 1588 inaugurou o declínio do “siglo de oro” espanhol. Hoje, a nevrose belicista americana precipita o fim do seu próprio século, não por falta de força militar, mas por falta de sentido estratégico. Como escreveu Carl von Clausewitz em “Da Guerra” (1832), “a guerra é a continuação da política por outros meios”. O problema é que, quando não há política, a guerra tornase continuação de nada, como uma peça de teatro sem enredo, actores e público, representada apenas para satisfazer o ego do encenador.

Os elefantes não dançam tiptap. E a América, esse elefante geopolítico, insiste em tentar. O resultado é uma revolução permanente, sem objectivo, doutrina ou destino que devora os seus próprios filhos, como no célebre quadro de Goya. No palco global, a competição tornouse inconclusa e sem regras pois cada actor internacional da China à Rússia, passando por oportunistas regionais tenta ocupar o espaço deixado pelo colosso desorientado. É a subversão das classes dirigentes, conceito de Antonio Gramsci, aplicado à escala planetária de uma crise de hegemonia onde líderes não lideram, aliados não confiam e adversários não sabem com quem negociar.

A pergunta que ecoa nos corredores diplomáticos é simples; quem manda em Washington? Se decisões e declarações se contradizem no espaço de horas, vale a pena ouvilas? Pode discutirse esferas de influência com conselheiros improvisados que traduzem mal o que julgam ter ouvido em capitais estrangeiras? A diplomacia, que outrora se fazia com paciência, chá e protocolos, fazse agora com impulsos, redes sociais e uma espécie de improvisação permanente que faria corar qualquer amador de teatro.

Hoje, não se pode ser próamericano nem antiamericano. Não há “América”, mas fragmentos; filamentos poderosos, misturas de Estado, Big Tech e Big Finance, orbitando sem centro, regência e maestro. São electrões livres, cada um com agenda própria, capacidade de influenciar o mundo, mas sem possibilidade de o orientar. Boa sorte aos historiadores do século XXII que tentarão vestir esta revolução mundial com lógica. Não há lógica possível. Há apenas caos organizado ou desorganização com orçamento, que é ainda mais inquietante.

Ao anarcomonarca reconhecese, contudo, um mérito involuntário pois expôs a hipocrisia da metalinguagem pública ocidental. Esse discurso, baseado em princípios de irrealidade, mandamentos vazios e slogans reciclados, multiplicados por media irreflexivos, foi finalmente desmascarado. Como escreveu Mark Carney em “Value(s)” (2021), “é preciso abandonar a agradável ficção e enfrentar a dura realidade”. A dura realidade é que o irrealismo e o elitismo fomentam nacionalistas, racistas e demagogos. E as democracias liberais, fragilizadas, tornamse alvo fácil, como casas de madeira num vendaval.

Não surpreende que vários líderes autocráticos sejam hoje mais populares do que os seus equivalentes eleitos. A crise de confiança é global. O descarrilamento originado pelo desconforto do protagonista americano ameaça culminar numa conflagração planetária. A terceira guerra mundial se alguma vez existir poderá ser filha da não tão fria guerra civil americana, essa disputa doméstica que se tornou espectáculo internacional.

Reconstruir um mínimo de convivência planetária implica limpar a mesa dos pseudoconceitos que velam os factos. O pudor intelectual semelhante à lenda que atribui à rainha Vitória o hábito de cobrir as pernas dos móveis para evitar pulsões indecorosas tornouse obstáculo à compreensão. Mas a lenda fala sobretudo de nós e da nossa incapacidade de encarar o mundo como ele é; da nossa tendência para preferir a ficção confortável à realidade desconfortável e da nossa recusa em admitir que a América, outrora farol, se tornou labirinto.

E nesse labirinto, o anarcomonarca reina não porque governe, mas porque desgoverna. E o mundo, perplexo, aguarda que o século XXI encontre finalmente o seu Shakespeare como alguém capaz de transformar este caos em literatura, esta desordem em tragédia, e esta perplexidade em compreensão.

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