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Ontem assinalou-se mais um 10 de Junho, e com este começo de frase na língua em que a estou a escrever quase nem é preciso acrescentar mais nada para que outra pessoa que a esteja a ler e a entenda saiba exactamente o que esta data significa. Isto é tão extraordinário que nem encontro palavras para descrever o que sinto, pois com toda a certeza que iria ser acusado de “não respeitar nada” ou de “ter a mania das gracinhas”, e depois assim “não me levam a sério” (o que para mim dá imenso jeito, que sempre me chateiam menos com bagatelas). Trocando isto por miúdos, não sou patriota nem patriótico, ou nada que rime com “idiota” ou “hipnótico”, mas sinto que tal como todos os que vêm de lá daquela toca-de-rato atirada lá para fundo do continente que levou novos mundos ao mundo (diz-se por aí) chamado Portugal, existe dentro de mim um gene que me torna especial . A mim e a todos os portugueses, naturalmente: somos todos especiais. Os “special ones”, como diz o outro nosso compatriota. Mas o que é, no fim de contas, esse “ser” Português?

O 10 de Junho é o único dia em que nos lembramos que somos portugueses, em vez de nos recordarem a toda a hora dessa maldição, que é ao mesmo tempo uma benção. Porquê? Epá não me perguntem. Sou só um português…

Existe um rol de personagens, reais ou da ficção, com que por vezes associamos os naturais de determinado país, o que pode parecer algo redutor, mas que às vezes tem a sua graça – que me pode garantir que se lhe for apresentado um natural do México, não vai demorar nem dois segundos até pensar no Speedy Gonzalez? Noutros casos somos induzidos a associar factos ou episódios históricos, muitas vezes caindo na tentação de cometer uma pequena crueldade. Assim de repente lembro-me do caso particular dos alemães, que por muito agradáveis que tentem ser (e até vão tentando, coitados) não se safam do rótulo que o tio Adolfo lhes colou durante aquele curto mas a todos os títulos lamentável período durante os meados do século XX. Mas e nós, a quem ninguém chama de “nazi” ou associa a qualquer desenho animado mundialmente famoso pela sua castiça e rústica foleirice? Temos o Zé Povinho, eu sei, “toma!” e tal, mas quantos estrangeiros conhecem o Zé Povinho? Já agora, e com todo o respeito pelo “my main man” Rafa Bordas Pina, este não podia ter pensado num nome menos idiota para dar ao seu personagem? Fica muito a dever à criatividade, para quem é considerado um dos maiores satiristas lusitanos.

Ser português é uma seca: nada acontece, aconteceu ou acontecerá que a isso nos deixe indelevelmente associados. Pois é, os descobrimentos e não sei que mais, tudo bem, mas e o “timing”? Não existia Facebook para se fazer um “like” ao Pedrocas Álvares quando ele escrevesse na sua página que tinha acabado de chegar a um sítio bué giro, com praia a perder de vista e habitado por nativas nuas sem qualquer noção de nenhum tipo de moralidade, e que ia “ficar com aquilo para ele, tipo”. E a malta comentava: “Que invejaaaaaa! LOOOOL!!!”. Não tínhamos “twitter” para seguir o Vasquinho, enquanto ele desbravava o imenso e aborrecido desconhecido inteiramente composto por água do mar, dando assim início ao que conhecemos hoje por “globalização”. Uau, isto é bestial, e até é algo de que os americanos falam a toda a hora, e tal, e foi um português que inventou, dizem vocês? So what? Isto é típico do tuga fala-barato e mandrião: dá início a um projecto que não desenvolve, e quando outros pegam na ideia e a convertem em algo de sumptuoso, quer a sua parte dos louros. Já viram a lata do tuguinha?

É difícil ser só, pequenino, triste e sem amigos. Dez milhões? Se fossemos uma cidade não estaríamos nem entre as vinte mais populosas. E com uma área aproximadamente do tamanho do estado do Indiana, porque carga de água haviam os americanos de se importar connosco, com dúzias de portugáis ali mesmo à mão de semear? Mesmo no contexto da Europa, reparem com somos uma das pouquíssimas nações com mais de um século de existência (cem anos) que nunca ganhou um europeu de futebol nem o Festival da Eurovisão. Na mesma situação encontramos apenas países como a Finlândia, Islândia ou Malta – até a Grécia já ganhou um de cada destes eventos que mencionei, por amor de Deus! Será que é por sermos baixinhos que ninguém se apercebe da nossa insignificante existência? Sabem quantos espanhóis, franceses e italianos ganharam óscares? E até alemães, e checos? Onde está o nosso Ingmar Bergman? E o nosso Van Gogh? Está alguém aí, ou só o eco? Será que existimos de verdade ou atrevemo-nos a fazer essa presunção – no nosso caso é um presuntão.

Perdoem-me esta pequeno desabafo, que no fundo é um pouco parte daquilo que somos, e que até ficamos associados através da nossa própria canção nacional: um longo e triste fado, um lamento sem fim. Mas atenção, alto lá, que há vantagens em toda esta insignificância, pensam o quê? Ninguém nos chateia, por exemplo, o que é bom quando nos dá moleza (sempre), ou na hora da sesta, essa nobre tradição lusitana cada vez mais em desuso. Pensem só nas vantagens que temos no evento de um conflito termo-nuclear. Com toda a certeza que somos um dos últimos (e poucos) países onde despejar umas quantas ogivas em cima não justifica o tempo e os meios a que tal encomenda obrigam. E a propósito, hoje já é dia 11, e por isso estou desculpado. É que o 10 de Junho é o único dia em que nos lembramos que somos portugueses, em vez de nos recordarem a toda a hora dessa maldição, que é ao mesmo tempo uma benção. Porquê? Epá não me perguntem. Sou só um português…

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