CCCM | Antologia de textos sobre Luís de Camões apresentada em Lisboa

“Vasto Império do Coração”, antologia de escritos sobre o maior poeta da língua portuguesa, Luís Vaz de Camões, foi apresentado esta segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. Sara Augusto, professora de literatura e português na Universidade Cidade de Macau, falou de uma obra dada à estampa no ano passado

Tão grande é o vulto literário chamado Luís de Camões e a sua obra maior, Os Lusíadas, que inspirou outros escritores de língua portuguesa a escrever sobre ele, ou a escrever como ele, com as suas angústias e inspirações. Foi a pensar nisso que Sara Augusto, professora na Universidade Cidade de Macau (UCM), recolheu textos e poemas sobre o poeta português na antologia “Vasto Império do Coração”, precisamente um verso de António Manuel Couto Viana que dá nome ao livro.
A obra foi editada no ano passado, mas foi esta segunda-feira novamente apresentada em Lisboa no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM). “Vasto Império do Coração” contém “registos poéticos de visitantes, de escritores portugueses que residiram em Macau algum tempo e de escritores nascidos em Macau, revelando laços que celebram, se identificam e que inscreveram Camões na memória colectiva”, conforme explicou, na altura, Sara Augusto.
Na sessão desta segunda-feira, intitulada “Uma solidão de pombas: visitar Camões na literatura de Macau em língua portuguesa”, a autora da obra começou por falar, precisamente, do verso escrito por António Manuel Couto Viana no poema “A Camões, Dolorosamente”, que consta no livro “Ponto de não regresso”, editado em 1982.
“É um poema magoado, tal como diz a palavra ‘Dolorosamente’ no título e no refrão. Há, portanto, essa mágoa que passa para todo o texto, e claro que aqui não se fala do império físico, mas de um poder maior que perdurou, o do coração, e que se diz nesta língua que é nossa e também de Macau.”
Sara Augusto abordou também na sessão outro exemplo de uma escrita mais contemporânea com referências a Camões, e que consta nesta antologia. É o caso de um poema em prosa poética de Carlos Morais José, director do HM, integrado no livro “Macau, o Livro dos Nomes”, editado em 2022.
O verso é “Sentirás, meu amor, uma solidão de pombas. Dá-me a tua mão e juntos afagaremos a inscrição na pedra, matriz de tudo. Perdi-te entre as plantas. Disseram-me depois que, regressaras, como um homem seco e coxo, a um país envergonhado. Eu volto sempre ali, não sei se por ti, se pela aspereza das áreas chinesas”.
Na visão da professora universitária e autora, verifica-se aqui “a solidão do poeta [Camões], elemento referido em praticamente todos os poemas reunidos nesta antologia”, sendo que a expressão “solidão de pombas” constitui “uma das mais belas metáforas para a vida de Camões naquela cidade”, neste caso Macau. “E também para cada um de nós que vive lá”, destacou Sara Augusto.

Imagens e palavras
Esta antologia é, portanto, feita de palavras, imagens do jardim e da gruta de Camões, bem como do busto do poeta presente em Macau, lugar de tantas visitas e contemplações. “Vasto Império do Coração” é, portanto, “um estudo dos poemas e dos autores”, contendo, por exemplo, referências ao que escreve o professor Seabra Pereira em “Delta Literário de Macau”, que analisa a presença de Luís de Camões em Macau “no seu sentido simbólico”, disse Sara Augusto.
Na sessão, a professora citou um excerto presente na obra de Seabra Pereira, quando este refere que tanto Camões como Fernão Mendes Pinto [autor da Peregrinação] “são referências míticas para a cultura literária de Macau, porque são motivo e fonte de mitos, como narrativa poderosa que se torna ineradicável e incontornável”.
Sara Augusto considerou, neste sentido, que Camões e a sua poesia funcionam “como um intertexto para muitos poetas posteriores”, tendo-se transformado, em Macau, “num lugar literário”, ganhando “contornos míticos enquanto narrativa simbólica”.
Camões em Macau “não é só um espaço físico”, explícito na gruta de Camões, mas é mais do que isso. Há “a consideração do poeta como objecto de visita literária, como experiência, memória, desejo e identidade cultural”, sendo que “estas memórias e símbolos permanecem nos textos literários”.
Sara Augusto trouxe também ao CCCM o exemplo do poeta Bocage, que esteve em Macau entre Outubro de 1789 e Março de 1790, e escreveu o soneto “Camões, Grande Camões, quão semelhante acho o teu fado ao meu?”.
“Bocage identificou-se com Camões na mágoa e no exílio”, refere Sara Augusto.
Na sessão desta segunda-feira, esteve presente o comissário-geral das Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, José Augusto Cardoso Bernardes, que é também professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É responsável, nesta universidade, pela disciplina de Estudos Camonianos, há 30 anos.
Bernardes referiu-se a esta antologia como sendo “um belíssimo livro”, elogiando também a escolha para o título. “Vasto, Império e Coração. Qualquer uma destas três palavras está em sintonia com Camões. A vastidão, o Império, no sentido latino de Ordem, e Coração. O título está bem no poeta António Manuel Couto de Viana, que foi um homem de coração e de causas, está bem para Camões e para a Sara. Não foi por acaso que, nos 200 anos de literatura que ela compendiou, retirou este título, que está em sintonia com ela, seguramente”, concluiu.

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