Grande Plano MancheteMedicina | Projecto Macau-Lisboa quer formar médicos com foco na IA Hoje Macau - 30 Out 202630 Out 2026 A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa está a colaborar com a Universidade de Macau na criação do primeiro curso de medicina da instituição local. O director da faculdade destaca a preparação para um futuro com inteligência artificial. Alunos de medicina de Macau vão receber formação em português para exercerem em Portugal O director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) afirmou ontem que o curso conjunto com a futura Faculdade de Medicina da Universidade de Macau (UM) pretende formar médicos preparados para uma realidade transformada pela inteligência artificial (IA). Durante o 1.º Simpósio Conjunto entre as faculdades de medicina da UM e da UL, realizado em Macau, João Eurico Fonseca considerou que o principal desafio do novo projecto passa por preparar profissionais para um sistema de saúde cujo futuro ainda é incerto. “Temos um problema em todo o mundo nas escolas médicas. A medicina está a evoluir muito mais depressa do que as faculdades de medicina. Estamos sempre a tentar alcançar essa evolução”, afirmou. Segundo o responsável, a nova escola médica deve ser concebida já a pensar nas necessidades da próxima década, quando os primeiros diplomados iniciarem a actividade profissional. “O desafio é educar médicos para uma medicina que, na verdade, não sabemos exactamente como será quando eles forem médicos”, afirmou. “Se tudo correr bem, em 2028 teremos os primeiros estudantes e, em 2034, os primeiros médicos. O que vamos precisar nessa altura?”, questionou? Fonseca apontou quatro grandes factores que estão a transformar a prática clínica: a IA e a medicina digital, os avanços da medicina de precisão e das terapias avançadas, o envelhecimento populacional e a crescente pressão sobre os sistemas de saúde. O toque humano “Na medicina, a IA é ainda mais relevante do que no quotidiano”, afirmou o também director do Serviço de Reumatologia da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, defendendo que os futuros médicos terão de compreender tanto o potencial como os limites destas tecnologias. O director da Faculdade de Medicina da UL destacou ainda o impacto do aumento da esperança média de vida, que em Macau ronda os 84 anos, uma das mais elevadas do mundo, associado ao crescimento do volume de doenças crónicas e de múltiplas patologias que exigem tratamento. “Isso cria uma enorme pressão sobre os sistemas de saúde. É o que acontece em todo o mundo”, disse, referindo como exemplos o Hospital Conde de São Januário, em Macau, e o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Embora a aposta em tecnologia e inovação seja central no novo currículo, Fonseca sublinhou que as competências humanas continuarão a ser essenciais na formação médica. “Ninguém aceitará uma prescrição, um diagnóstico ou uma cirurgia se não houver envolvimento humano”, afirmou. “Se não sentirem empatia e compaixão, essa relação não funciona.” Outra prioridade será estimular a capacidade de investigação e pensamento crítico dos estudantes. “Queremos que façam melhores perguntas”, afirmou. “Queremos que sejam capazes de avaliar criticamente a evidência científica e compreender o percurso que vai da descoberta ao benefício para o doente.” Sem médicos da casa João Eurico Fonseca acrescentou que o modelo pedagógico prevê contacto precoce com doentes, utilização intensiva de simulação clínica e uma estreita articulação entre ensino, investigação e prestação de cuidados de saúde. “Não existe espaço para o Dr. House”, afirmou, numa referência à popular série televisiva. “Na realidade, não temos médicos que sabem tudo. Temos equipas que trabalham em conjunto e isso tem de ser incutido desde cedo nos jovens médicos.” O responsável destacou ainda o potencial da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau como ambiente privilegiado para a formação médica e para a investigação biomédica. “Estamos na Grande Baía. São 80 milhões de pessoas, inovação produzida todos os dias, patentes em todas as áreas tecnológicas que possamos imaginar”, afirmou. “Esta faculdade fica dentro de um ambiente fantástico.” Segundo Fonseca, a colaboração entre Lisboa e Macau deverá estender-se muito para além do ensino, através da mobilidade de docentes, investigação conjunta e desenvolvimento de novos programas académicos. “Já existem três projectos de investigação a decorrer”, revelou. É a falar Outra novidade anunciada por João Eurico Fonseca à Lusa passa pelo facto de os alunos da futura Faculdade de Medicina da Universidade de Macau poderem aprender português durante o curso, facilitando o acesso à profissão em Portugal. O director da FMUL indicou que o programa conjunto entre a UM e a UL se encontra na fase final de acreditação externa pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), após uma recente visita da entidade avaliadora. “O curso está previsto abrir em Agosto de 2028, para o ano escolar 2028-2029”, afirmou. A nova faculdade de medicina deverá ter capacidade para acolher até 4.000 estudantes, e segundo Fonseca, toda a estrutura organizativa do programa está já definida e as obras decorrem de acordo com o previsto. O responsável explicou que o diploma conjunto permitirá aos graduados obterem reconhecimento imediato em Portugal através da Universidade de Lisboa. “O diploma vem da Universidade de Lisboa, é imediatamente reconhecido. Claro que, para exercer medicina [em Portugal], é necessário ter um nível mínimo do domínio da língua portuguesa”, explicou. Fonseca considerou que a própria UM oferece condições favoráveis para os estudantes que pretendam seguir esse percurso profissional. “Há estudos de língua portuguesa e vai ser possível a quem o quiser aprender português enquanto está a fazer o curso de medicina”, disse. Segundo o responsável, embora alguns alunos possam já entrar no curso com conhecimentos de português, mandarim e inglês, a universidade dispõe dos recursos necessários para apoiar aqueles que pretendam adquirir competências linguísticas que lhes permitam mais tarde exercer em Portugal ou até noutros países europeus. Necessidades locais O director sublinhou, no entanto, que a prioridade da nova faculdade será responder às necessidades de Macau. O território “precisa de médicos e esta faculdade vai formar médicos para Macau”, afirmou. Os candidatos locais deverão ter prioridade no acesso ao curso, aumentando a probabilidade de os diplomados permanecerem no sistema de saúde local. Fonseca destacou também o papel que será desempenhado pelo Hospital Conde de São Januário e pelo novo Macau Union Hospital na formação dos alunos, estando a ser estabelecidas colaborações com ambas as instituições, que irão apoiar o ensino através de formação clínica e utilização de tecnologias de simulação. “O Hospital Conde São Januário tem de facto uma actividade clínica muito viva, muito intensa, que é óptima para o treino nas fases finais de um médico”, afirmou o também director do Serviço de Reumatologia da Unidade Local de Saúde de Santa Maria. O médico afirmou ter ficado particularmente impressionado com o funcionamento do serviço de urgência do hospital público do território, apesar da forte pressão assistencial. “Os números não são muito diferentes dos números do Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria e foi feito um investimento muito inteligente para estruturar as vias internas dos doentes, os circuitos dos doentes”, explicou. “O serviço médico em Macau é já muito bom e eu acho que esta Faculdade de Medicina vai torná-lo excelente”, afirmou. Mestrado na calha Além da nova licenciatura em Medicina, a UL está a liderar o desenvolvimento de um mestrado internacional destinado a acelerar a transferência dos resultados da investigação biomédica para a prática clínica. Fonseca revelou que o programa está actualmente na fase de instalação e criação, no âmbito da iniciativa europeia Erasmus Mundus. Além da UL, o curso envolverá a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) e a Universidade Humanitas, em Milão. O programa terá a duração de dois anos e pretende aproximar profissionais provenientes da medicina e de outras áreas científicas relacionadas. “Visa criar uma linguagem comum em pessoas que têm licenciaturas ou em medicina ou outras áreas próximas”, afirmou. Segundo Fonseca, o objectivo é formar especialistas capazes de servir de ligação entre a investigação científica e a prática clínica, acelerando a transformação das descobertas feitas nos laboratórios em diagnósticos, tratamentos e benefícios concretos para os doentes.