Via do MeioQuestão Agrária e Literatura na China: quando os Movimentos da Sociedade cruzam a Matéria Literária Hoje Macau - 6 Out 2026 Por Ana Saldanha – Foi Professora Adjunta Convidada na Faculdade de Línguas e Tradução (FLT) da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Instrutora Sénior na Universidade de Macau (UM). Actualmente é docente na Universidade Normal de Hunan Ao longo de uma série de quatro artigos, procuraremos analisar o papel fundamental da questão agrária na formação socio-histórica da China, relacionando as transformações ocorridas no mundo rural com a sua representação na literatura chinesa. O conjunto destes quatro artigos pretende acompanhar o processo de reforma agrária desencadeado após a Revolução de 1949 e compreender de que modo as mudanças nas estruturas fundiárias e nas relações de produção foram transpostas para o universo literário. Embora cada artigo se concentre numa problemática própria, os quatro textos formam um percurso articulado, podendo ser lidos individualmente ou como partes de uma mesma reflexão. A presente análise procurará, assim, aproximar a história social e económica das expressões estéticas e ideológicas que acompanharam a transformação do campo chinês, recorrendo a uma seleção de obras e autores representativos. Partindo da modernidade de Lu Xun e chegando à literatura contemporânea de escritores como Mo Yan e Yu Hua, será acompanhada a evolução das imagens da terra, do campesinato e da vida rural, evidenciando de que forma a literatura registou, (re)interpretou e problematizou as profundas mudanças políticas, económicas e sociais que marcaram a China, ao longo do século XX, e que continuam a repercutir-se na literatura do século XXI. I Desigualdade histórica no campo chinês: uma assimetria que a República Popular da China viria alterar A fundação da República Popular da China e a consagração da lei de Reforma Agrária A necessidade de uma reforma agrária, na China, no século XX, resulta da interpretação que o Partido Comunista Chinês, desde a sua fundação, em 1921, fez da realidade rural do país, considerando indispensável transformar as relações de produção no campo para combater a profunda desigualdade e a situação de miséria que afetavam as populações rurais chinesas. Nas vésperas da Revolução de 1949, a China contava com mais de meio bilhão de habitantes, concentrados, maioritariamente, na região oriental do território, a leste e a sul da diagonal que se estende do norte da Manchúria até à fronteira com a Birmânia. Neste contexto, predominava uma agricultura intensiva e arcaica, marcada por recorrentes períodos de escassez alimentar generalizada e de fome, que obrigavam os camponeses a retirar o máximo rendimento possível de pequenas parcelas de terra. A grande maioria da população rural encontrava na agricultura a sua principal atividade, sendo a criação de animais uma prática pouco expressiva e de caráter residual. A ausência de pastagens constituía, assim, uma característica da paisagem rural chinesa —um hectare de pastagem pode alimentar, aproximadamente, até sete vezes menos pessoas do que uma área equivalente, dedicada ao cultivo de alimentos. Apesar da ausência de pastagens, vale relembrar que, com exceção do Norte da China, a geografia rural chinesa era, ainda assim, marcada por extensas áreas de cultivo de arroz, cuja presença marcava profundamente a paisagem agrícola do país (Bianco, 2016). Em 28 junho de 1950, menos de um ano após a fundação da República Popular da China, o governo chinês institui uma nova lei agrária (Tudi gaige fa), redistribuindo a terra por pequenos e médios camponeses. Em 1953, um movimento de coletivização de terras agrupa os camponeses em cooperativas, um processo que se aprofundará em 1955 (campanha que ficou conhecida, entre o outono de 1955 e a primavera de 1956, como a Alta Maré Socialista) e, mais tarde, em 1958, graças à criação das comunas populares (oficializadas por uma resolução do Comité Central do Partido, aprovada em 29 de agosto de 1958). A conceção de cooperativas será, posteriormente, reformulada, pelo que, gradualmente, é dado um espaço crescente às produções familiares e aos mercados livres rurais, sobretudo após o XI Congresso do PCC (realizado em agosto de 1977) e de novas orientações políticas terem sido aprovadas na III Sessão Plenária do XI Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC), realizado em dezembro de 1978. A reforma agrária de 1950 representou um ato histórico de justiça social e soberania nacional. A redistribuição da terra pelos camponeses contribuiu para desmantelar as estruturas fundiárias, anteriormente existentes, criando as condições para a posterior coletivização da produção agrícola. Neste processo, a constituição das comunas populares representou uma nova etapa na organização económica e social do campo, procurando integrar a produção agrícola com diferentes formas de prestação de serviços à população rural. Han Dongping (2010) destaca, neste contexto, os efeitos do sistema de comunas sobre a distribuição de determinados recursos, nomeadamente nos domínios da educação, da saúde e das infraestruturas rurais, bem como as formas de participação e de gestão comunitária que se desenvolveram em algumas localidades. A experiência das comunas deve, assim, ser entendida como parte de um processo mais amplo de transformação das estruturas económicas e sociais do mundo rural chinês, cuja evolução continuaria com as reformas iniciadas no final da década de 1970. 2. A desigualdade persistente no campo chinês Na sociedade chinesa pré-revolucionária existia uma concentração da propriedade rural nas mãos de uma minoria, o que criava uma situação de desigualdade entre, por um lado, uma minoria proprietária e, por outro, uma maioria camponesa, sujeita a uma exploração desmedida. Seria esta situação que o Partido Comunista Chinês (PCC) combateria e denunciaria. Por força das circunstâncias históricas, depois de 1927, o PCC deslocou, progressivamente, o centro da sua atividade das cidades para as zonas rurais, onde procurou construir bases revolucionárias, desenvolver a guerra de guerrilha e mobilizar as populações camponesas. Esta estratégia permitiria ao Partido, após mais de duas décadas de luta revolucionária, alcançar o poder, em 1949. Em 1 de agosto de 1927, sob a direção de Zhou Enlai (1898-1976) e de comandantes como He Long (1896-1969), Ye Ting (1896-1946), Zhu De (1886-1976) e Liu Bocheng (1892-1986), é desencadeado o Levante de Nanchang, que marcou o início da luta armada do Partido Comunista Chinês contra o Kuomintang. Em 9 de setembro do mesmo ano, Mao Zedong (1893-1976) dirige o Levante da Colheita de Outono, desencadeado na região fronteiriça entre as províncias de Hunan e Jiangxi. Perante o fracasso da ofensiva e a resistência das forças nacionalistas, as tropas de Mao retiram-se, progressivamente, para a região das montanhas de Jinggang, onde, a partir de outubro de 1927, começam a estabelecer uma das primeiras bases revolucionárias rurais do Partido Comunista Chinês. No final de abril de 1928, forças sobreviventes do Levante de Nanchang, sob a liderança de Zhu De e Chen Yi (1901-1972), chegam a Jinggangshan e juntam-se às forças de Mao, sendo, posteriormente, reorganizadas no Exército Revolucionário dos Operários e Camponeses. Esta junção contribui, decisivamente, para a consolidação da base revolucionária de Jinggangshan e para o desenvolvimento de uma estratégia assente na mobilização das populações rurais. A partir destas bases, o PCC procura fortalecer a sua influência entre os camponeses através da organização política, da mobilização social e da implementação de medidas de reforma agrária, fazendo da questão da terra um elemento central da luta revolucionária e da construção do poder rural. No contexto da guerra civil que, então, se travava, o Partido Comunista Chinês vai, assim, intensificar a implementação da reforma agrária nas zonas libertadas, procurando quer transformar as relações de propriedade no campo quer mobilizar as populações camponesas para a luta revolucionária. É neste contexto que, em 1947, ainda antes da vitória definitiva do Exército Popular de Libertação (EPL), o PCC aprova o Zhongguo tudi fa dagang (Programa de Lei Agrária da China), um documento de 16 artigos que estabelecia as principais orientações para uma reforma agrária, nas regiões sob controlo do PCC. Elaborado durante a Conferência Nacional de Terras, realizada entre julho e setembro de 1947, em Xibaipo, formalmente publicado pelo Comité Central do PCC em 10 de outubro desse ano, o documento defendia a abolição das formas de exploração fundiária de natureza feudal e semifeudal e a implementação do princípio de a terra a quem a trabalha. A reforma agrária assumia, deste modo, uma dupla dimensão: por um lado, procurava alterar profundamente as relações de propriedade existentes no campo; por outro, constituía um importante instrumento de mobilização política e social das massas camponesas, durante a Guerra de Libertação. Vejam-se, de seguida, os seus dois primeiros artigos: Art. I É abolido o sistema agrário de exploração feudal e semifeudal. Fica instituído o sistema agrário da terra para quem a trabalha. Art. II São abolidos todos os direitos de propriedade territorial dos latifundiários (Programa de Lei de Reforma Agrária de 1947) Em 1 de Outubro de 1949, é proclamada a República Popular da China e, em 28 de junho de 1950, é promulgada a lei de reforma agrária. Como o PCC defendera, as terras dos latifundiários são confiscadas e redistribuídas por camponeses pobres com pouca ou nenhuma terra, o que beneficiaria centenas de milhões de camponeses e alteraria profundamente a estrutura fundiária chinesa. Procurava-se, com este ato legislativo, que os grandes proprietários de terras fossem suprimidos, como classe, da sociedade e que o sistema da grande propriedade fosse substituído por um sistema de propriedade camponesa: “Uma reforma como esta foi, realmente, a mais grandiosa e a mais completa que a China conheceu na sua longa história milenar” (Li, 1950). Até 1952, foram distribuídos cerca de 47 milhões de hectares a, aproximadamente, 300 milhões de camponeses, o que corresponde a cerca de 43%-50% das terras cultivadas. Aos camponeses mais abastados foi permitido conservar uma parte das suas terras, dentro dos limites estabelecidos pela reforma, enquanto as terras dos latifundiários foram confiscadas e redistribuídas por camponeses sem ou com pouca terra. Ainda assim, a fragmentação agrícola, associada à escassez de animais de tração, ferramentas e outros meios de produção, dificultou o aumento da produtividade. Neste contexto, o PCC promoveu o desenvolvimento de equipas de entreajuda mútua, geralmente constituídas por quatro a seis famílias; embora os camponeses mantivessem a propriedade das terras e dos principais meios de produção, cooperavam na realização de trabalhos agrícolas e na utilização de determinados recursos, como animais de tração e ferramentas. Em dezembro de 1953, o Comité Central do PCC aprovou a resolução sobre o Desenvolvimento das Cooperativas de Produção Agrícola, a qual estabelecia a passagem progressiva das equipas de entreajuda para cooperativas de produção, de carácter semissocialista. Nestas cooperativas, os camponeses contribuíam com a terra e outros meios de produção para uma exploração unificada, recebendo rendimentos de acordo com o trabalho realizado e com a sua participação na produção. Em julho de 1955, o Presidente Mao Zedong defende uma aceleração do processo de cooperativização agrícola, pelo que, nesse mesmo ano, no mês de outubro, uma resolução do Comité Central do PCC preconiza o seguinte: “onde as condições estão prontas, serão estabelecidas, a título experimental, cooperativas de tipo avançado, inteiramente socialistas” (apud Trolliet, 1962). Estas cooperativas de tipo superior expandem-se, rapidamente, a partir de 1955-1956 e caracterizam-se pelo facto de substituir a propriedade privada da terra e dos principais meios de produção pela propriedade coletiva. Em 1957, segundo Pomar, “cada uma das 740 mil cooperativas de tipo superior possuía 168 famílias, com área média de 140ha” (2015, p. 99). Em 1958, a política económica chinesa passa a privilegiar, fortemente, a aceleração da industrialização, em particular da indústria pesada, enquanto procura aumentar a produção agrícola, nomeadamente através da mobilização das populações rurais, com Liu Shaoqi a anunciar a linha política que marcaria as opções económicas do PCC: “é necessário ir muito mais rápido e melhor” (apud Dumont, 1964, p. 383). Concede-se, a partir de então, prioridade à indústria pesada, em detrimento da indústria leve, e à indústria, em detrimento da agricultura: inicia-se, portanto, o Grande Salto em Frente. Neste contexto, surge a ideia de combinar a indústria, o comércio, a agricultura e a escola numa única estrutura organizativa: é assim que, em 29 de agosto de 1958, o Comité Central do PCC adota uma resolução a favor da criação, nas zonas rurais, das comunas rurais, formalizando, deste modo, a transformação das cooperativas agrícolas em comunas populares rurais (as quais constituíam uma unidade económica, social e administrativa de dimensão muito superior à das anteriores cooperativas). Resultado da fusão de várias cooperativas de produção agrícola, as comunas populares constituíam unidades de grande dimensão, reunindo vários milhares de famílias e extensas áreas de terras cultivadas. No final de 1958, existiam cerca de 26.500 comunas populares, as quais agrupavam, aproximadamente, 98% da população camponesa. Cada comuna reunia, em média, cerca de 4.750 famílias e a organização do trabalho assentava numa forte centralização da produção e na divisão dos trabalhadores em unidades de produção; a distribuição dos rendimentos, por seu lado, era determinada pelo trabalho realizado, assim como pelos chamados “pontos de trabalho” (embora o sistema também incluísse mecanismos de distribuição coletiva). A organização da vida quotidiana constituía, igualmente, uma dimensão importante das comunas, já que estas passaram a assumir funções que, anteriormente, pertenciam às famílias e às comunidades locais, nomeadamente através da criação de cantinas, creches, escolas e outros serviços sociais. Segundo Pierre Trolliet (1962), as cantinas populares tinham, aliás, alcançado uma ampla difusão, logo no final de 1958. Porém, depois de 1958, os resultados agrícolas deterioraram-se, rapidamente. Os anos de 1959 a 1961 foram marcados por uma forte quebra da produção agrícola e por uma crise alimentar, associada tanto a condições climáticas adversas como, provavelmente, a consequências de algumas das políticas postas em prática (como metas produtivas, em alguns casos, irrealistas e perturbações no sistema de distribuição). O sistema das comunas populares foi, deste modo, reorganizado e consolidado, nos anos seguintes, com alterações importantes na sua estrutura e no funcionamento das suas unidades de produção. René Dumont (1964) analisou, precisamente, esse processo de transformação das comunas populares, salientando a evolução das estruturas coletivas agrícolas e a sua reorganização, referindo que, em 1964, havia 70.000 comunas, número bastante superior às 26.500 comunas existentes em 1958. O período entre 1959 e 1961, embora marcado por desafios climáticos e complexidades na adaptação de um modelo económico inovador, serviu como uma etapa de aprendizagem fundamental para o aprofundamento das políticas agrárias. A resiliência da estrutura rural chinesa é analisada por Wen Tiejun (2009), que argumenta que a trajetória chinesa, ao priorizar a estabilidade social e o desenvolvimento endógeno, permitiu que o país evitasse a dependência externa que frequentemente fragiliza as economias em desenvolvimento, culminando na trajetória de sucesso soberano que vivemos no século XXI. No final da década de 1970, no âmbito das reformas económicas associadas à liderança de Deng Xiaoping, iniciou-se uma profunda transformação do sistema agrário chinês. No meio rural, começou a ser, progressivamente, introduzido o sistema de responsabilidade contratual familiar, através do qual as famílias camponesas passaram a assumir, mediante contrato, a exploração de parcelas de terra que continuavam a pertencer às coletividades. Embora a propriedade da terra permanecesse de natureza coletiva, os agricultores adquiriram maior autonomia na organização da produção e passaram a beneficiar de uma parcela mais significativa dos rendimentos obtidos. Este sistema, conhecido como household responsibility system ou sistema de responsabilidade contratual familiar, distanciou-se do modelo de produção coletiva das comunas populares, tendo sido, inicialmente, desenvolvido, de forma experimental, em algumas localidades. Foi, depois, progressivamente, reconhecido pelas autoridades centrais a partir do final da década de 1970 e generalizado no início da década de 1980, tornando-se numa das principais características da reforma económica, no meio rural chinês (Bochuan, 2007). A Constituição da República Popular da China, adotada em 1982, viria a estabelecer uma distinção entre duas formas fundamentais de propriedade da terra: a propriedade estatal, nas cidades, e a propriedade coletiva, nas áreas rurais. De acordo com o artigo 10, “a terra nas cidades é propriedade do Estado”, enquanto “a terra nas áreas rurais e suburbanas pertence às coletividades”, salvo as parcelas que, nos termos da lei, sejam propriedade do Estado. O mesmo artigo estabelece que o Estado pode, por razões de interesse público e nos termos da lei, proceder à expropriação ou requisição de terras, determinando, ainda, que os direitos de utilização da terra podem ser transferidos. É importante referir que a reforma rural não significou a privatização da propriedade fundiária, mas sim a separação entre a propriedade coletiva da terra e os direitos contratuais de utilização e exploração, atribuídos às famílias camponesas. A Lei de Administração da Terra, aprovada em 25 de junho de 1986 e em vigor desde 1 de janeiro de 1987, estabeleceu um quadro jurídico mais sistemático para a administração, utilização e proteção da terra, mantendo o princípio da propriedade pública e a distinção entre propriedade estatal e propriedade coletiva. A legislação não introduziu a propriedade privada da terra, mas contribuiu para uma diferenciação jurídica mais clara entre a propriedade e os direitos de utilização e exploração da terra: neste novo enquadramento, a propriedade permanecia nas mãos do Estado ou das coletividades, enquanto os direitos de utilização podiam ser atribuídos a unidades ou indivíduos – e, em determinadas condições, transferidos. A Lei de Administração da Terra foi alterada, em 1988, e profundamente revista, em 1998. Esta última revisão reforçou a estabilidade dos direitos de exploração das terras agrícolas, estabelecendo, para as terras pertencentes coletivamente aos agricultores, um período de contratação de trinta anos. Esta medida veio consolidar, juridicamente, uma orientação que já vinha sendo promovida pelas políticas rurais, desde o início da década de 1990, com o objetivo de conferir maior estabilidade aos direitos de exploração das famílias camponesas. A consolidação dos direitos de utilização da terra ocorreu em paralelo com o rápido processo de urbanização e industrialização, que marcou as décadas de 1980 e 1990. Durante este período, intensificou-se a conversão de terras rurais, incluindo terras de propriedade coletiva, para usos urbanos, industriais e de infraestrutura. As requisições de terras estiveram, assim, estreitamente relacionadas com a expansão das cidades, o desenvolvimento industrial, a construção de infraestruturas e as estratégias de desenvolvimento promovidas pelos governos locais. Embora estas transformações respondessem, em parte, ao crescimento efetivo das áreas urbanas e às necessidades de uma população urbana em expansão, a conversão de terras rurais para fins de construção tornou-se, também, uma importante dimensão das estratégias locais de desenvolvimento económico e de gestão do território. A transformação das terras agrícolas em terrenos destinados à construção constituiu, deste modo, uma das características marcantes das profundas mudanças económicas e espaciais que acompanharam a modernização da China, nas décadas seguintes1. É importante ressalvar que “requisição”, “transferência” e “privatização” não são equivalentes, no sistema chinês. Assim sendo, a legislação manteve a propriedade pública da terra enquanto criou e ampliou direitos de uso e contratação que podiam, em determinadas condições, ser transferidos. Poderemos, deste modo, apresentar as seguintes distinções terminológicas: 征收 (zhēngshōu) → expropriação; 征用 (zhēngyòng) → requisição; 土地使用权 (tǔdì shǐyòngquán) → direito de uso da terra; 土地承包经营权 → direito de contratação/gestão da terra rural.5 II Movimentos estéticos e realidade social: o Movimento 4 de Maio de 1919 e o contexto material do qual brota 1. O movimento de 4 de maio: quando a Arte reflete o momento histórico A literatura chinesa moderna conheceu dois períodos particularmente marcantes de florescimento: o primeiro, associado às décadas de 1920 e 1930 e às transformações desencadeadas pelo Movimento da Nova Cultura e pelo Movimento de 4 de Maio, conquanto o segundo corresponde às décadas de 1980 e 1990. O primeiro destes períodos deve ser compreendido no contexto das profundas transformações políticas, sociais e culturais que marcaram a China, no início do século XX: iniciado na década de 1910, em torno de intelectuais e publicações como a revista Nouvelle Jeunesse, o Movimento da Nova Cultura promoveu uma crítica das estruturas e valores tradicionais, defendendo novos princípios como a democracia, a ciência e a utilização da língua vernácula na literatura. Seria, no entanto, apenas após o Movimento 4 de Maio de 1919 que estas tendências adquiriram uma forte dimensão anti-feudal e anti-imperialista. Neste contexto, a literatura chinesa moderna desenvolveu-se em estreita relação com as transformações políticas e sociais do país, pelo que autores como Lu Xun (1881-1936), Mao Dun (1896-1981), Lao She (1899-1966), Ba Jin (1904-2005) e Shen Congwen (1902-1988) desempenharam um papel fundamental na consolidação da nova literatura. Lu Xun é frequentemente considerado uma das figuras fundadoras e mais influentes da literatura chinesa moderna, tendo desempenhado um papel central no desenvolvimento da literatura vernácula e no Movimento da Nova Cultura. Como observa Sen (1968, p. 256), Lu Xun foi um dos autores que demonstraram a possibilidade de uma criação literária profundamente distinta da tradição literária anterior, conciliando elementos da tradição chinesa com novas formas e ideias. Lu Xun nasceu em 25 de setembro de 1881, em Shaoxing, na província de Zhejiang, com o nome de Zhou Shuren (周樹人). Proveniente de uma família de letrados-funcionários, estudou, inicialmente, os clássicos chineses e recebeu uma formação tradicional, tendo, posteriormente, entrado em contacto com o pensamento e conhecimentos europeus. A experiência do declínio económico da sua família, assim como o contacto com as transformações sociais da China, do final da dinastia Qing, contribuíram para a formação de uma visão crítica da sociedade chinesa. As Guerras do Ópio (1839-1842; 1856-1860), a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–1895), a ocupação alemã da baía de Jiaozhou (1897) e a Rebelião dos Boxers (1899–1901) constituem alguns dos principais episódios que evidenciam o crescente confronto entre a China da Dinastia Qing e as potências estrangeiras, ao longo do século XIX e no início do século XX. A Primeira Guerra do Ópio (1839–1842) e a Segunda Guerra do Ópio (1856–1860), travadas, sobretudo, contra a Grã-Bretanha e a França, resultaram na imposição de tratados que ampliaram os privilégios comerciais e jurídicos das potências estrangeiras, na China, enquanto a derrota perante o Japão, na Primeira Guerra Sino-Japonesa, revelou a crescente fragilidade militar da dinastia manchu. Em 1897, após o assassinato de dois missionários alemães, em Shandong, a Alemanha ocupou a baía de Jiaozhou e obteve concessões na região; poucos anos depois, a Rebelião dos Boxers e a intervenção da Aliança das Oito Nações evidenciariam, novamente, a crescente pressão estrangeira sobre a China. Neste contexto, a China apresentava, no início do século XX, uma situação política, económica e social particularmente fragilizada, o que resultava quer dos sucessivos conflitos militares quer das rebeliões internas, das indemnizações impostas pelas potências vencedoras, da crescente penetração económica estrangeira, das concessões territoriais e jurídicas e da crise fiscal e política da dinastia Qing. A soberania da China encontrava-se, assim, progressivamente limitada pela intervenção de potências estrangeiras, o que contribuiu para o desenvolvimento de movimentos nacionalistas e para o nascimento de projetos de transformação política e cultural. A Revolução Xinhai (辛亥革命), iniciada em 1911, conduziu à queda da dinastia Qing e à fundação da República da China, em 1912. A instauração do regime republicano abriu um novo período de intensa transformação política e intelectual, embora não tenha resolvido os problemas de soberania, fragmentação política e instabilidade que afetavam o país. Foi neste contexto que, a partir de meados da década de 1910, se desenvolveu o Movimento da Nova Cultura, associado à defesa de novos valores intelectuais e culturais e à crítica das estruturas e tradições consideradas responsáveis pelo atraso da China. Através da publicação de revistas, da criação de associações e sociedades literárias e da renovação das formas de expressão, intelectuais e escritores procuraram construir uma nova cultura e uma nova literatura, impulsionando um processo fortemente influenciado pelo contacto com ideias, correntes artísticas e literárias estrangeiras, particularmente, europeias, norte-americanas e japonesas (sem que isso significasse, contudo, uma simples reprodução dos modelos ocidentais). Uma das mais importantes revistas literárias e culturais da China moderna, a Qingnian zazhi 青年杂志 (Revista da Juventude), foi fundada por Chen Duxiu (1879–1942), em Shangai, em setembro de 1915. A partir de 1916, a publicação passou a denominar-se Xin Qingnian 新青年 (Nova Juventude), mantendo, no cabeçalho, a designação francesa, La Jeunesse. A revista viria a desempenhar um papel central na transformação intelectual e literária associada ao Movimento da Nova Cultura. O primeiro número, publicado em 15 de setembro de 1915, incluía o artigo de Chen Duxiu «Jinggao qingnian» 敬告青年 (Chamado à juventude), no qual o autor apelava à juventude chinesa romper com valores e práticas tradicionais, defendendo seis princípios fundamentais: ser autónomo e não servil; progressista e não conservador; ativo e empreendedor e não passivo; aberto ao mundo e não isolacionista; orientado para a utilidade prática e não para o formalismo; científico e não baseado na imaginação. Em 1917, Hu Shi (1891–1962) publicou na revista o artigo «Wenxue gailiang chuyi» 文学改良刍议 (Sugestões preliminares para uma reforma literária), no qual defendia uma profunda renovação da literatura e, em particular, a utilização da língua vernácula (baihua), em detrimento da linguagem literária clássica. Nesse mesmo ano, Chen Duxiu publicou «Wenxue geming lun» 文学革命论 (Teoria da revolução literária), aprofundando a defesa de uma transformação radical da literatura chinesa. Todos estes textos contribuíram, decisivamente, para a formulação do programa da chamada Revolução Literária e para a consolidação das bases intelectuais do Movimento da Nova Cultura. Neste contexto, a literatura passou a ser entendida como uma forma de expressão artística e como um instrumento de transformação cultural e social. Como observa Siyuan (2004), a história da Nova Literatura Chinesa, impulsionada pelo Movimento da Nova Cultura, pode ser compreendida a partir da tensão entre, por um lado, a procura de um eu individual, capaz de afirmar a sua subjetividade e, por outro, a aspiração coletiva de criar um novo Homem (suzao xinren). A nova literatura desenvolveu-se, assim, num espaço de tensão entre a afirmação da subjetividade individual e a construção de uma nova consciência coletiva. Apesar da queda da dinastia Qing e da proclamação da República da China, a 1 de janeiro de 1912, a situação política interna permaneceu extremamente instável nos anos subsequentes, pelo que a jovem República enfrentou conflitos entre diferentes grupos políticos e militares, dificuldades de consolidação institucional e uma crescente pressão de potências estrangeiras. Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o Japão posicionou-se ao lado dos Aliados e declarou guerra à Alemanha, em agosto desse ano. O conflito ofereceu ao Japão a oportunidade de expandir a sua influência na China, nomeadamente através da ocupação das posições alemãs em Jiaozhou e Qingdao, na província de Shandong. A Alemanha mantinha uma presença na região desde a ocupação de Jiaozhou, em 1897, e da posterior obtenção de uma concessão territorial, em 1898. O Japão procurava, assim, assumir os direitos e interesses anteriormente detidos pela Alemanha, em Shandong, pelo que, em janeiro de 1915, o governo japonês apresentou à China as chamadas 21 Exigências, as quais procuravam ampliar, significativamente, a influência política, económica e estratégica japonesa, no território chinês. Entre as exigências, encontravam-se disposições relativas à transferência, para o Japão, dos direitos alemães, em Shandong, à ampliação dos privilégios japoneses, na Manchúria do Sul, e à obtenção de novas concessões económicas. Algumas das disposições mais intrusivas – reunidas no chamado Grupo V – pretendiam, igualmente, ampliar a influência japonesa sobre assuntos políticos, financeiros e militares chineses. Embora tenha rejeitado as disposições mais controversas do Grupo V, o governo chinês, sob forte pressão, acabou por aceitar a maior parte das exigências, em maio de 1915. Em agosto de 1917, a China declarou guerra à Alemanha, procurando reforçar a sua posição internacional e assegurar um lugar nas negociações de paz que se seguiriam ao conflito. Entre os seus principais objetivos, encontrava-se a recuperação dos direitos e territórios alemães, em território chinês, nomeadamente em Shandong. Contudo, terminada a guerra, as expectativas chinesas não foram satisfeitas: na Conferência de Paz de Paris, as potências vencedoras decidiram transferir, para o Japão, os direitos alemães sobre Shandong, em vez de os restituírem à China, o que provocou uma forte reação interna e contribuiu, diretamente, para o desencadeamento do Movimento 4 de Maio de 1919, o qual viria a assumir uma dimensão política, patriótica e cultural. Traição histórica e tratados desiguais Não obstante o Tratado de Versalhes determinar a transferência, para a China, de diversos bens alemães, situados nas antigas concessões de Tianjin e Hankou, o artigo 156 estabelecia que a Alemanha renunciava, em favor do Japão, aos direitos, títulos e privilégios relativos ao território de Kiaochow, assim como às ferrovias, minas e cabos submarinos que haviam sido adquiridos pela Alemanha, na província de Shandong. A decisão das potências vencedoras de transferir, para o Japão, os antigos direitos alemães em Shandong – em vez de os restituir à China – contrariava as expectativas do governo e da opinião pública chineses e foi interpretada, por muitos intelectuais e estudantes, como uma violação da soberania e dos interesses nacionais chineses, pois consideravam que houvera uma traição aos princípios de autodeterminação e de justiça internacional. Em 4 de maio de 1919, milhares de estudantes, de diferentes instituições de ensino de Pequim, manifestaram-se contra a decisão estipulada no Tratado de Versalhes, contra a política japonesa e contra a incapacidade do governo chinês de defender os interesses nacionais. O movimento, rapidamente, ultrapassou o âmbito estudantil, tendo-se propagado a outras cidades e grupos sociais e adquirido uma dimensão patriótica e anti-imperialista. O Movimento 4 de Maio articulou-se, ainda, com as transformações intelectuais promovidas pelo Movimento da Nova Cultura, defendendo a renovação da sociedade chinesa, criticando determinadas estruturas e valores tradicionais e promovendo a ciência, a democracia, a emancipação individual e a transformação da condição das mulheres. No campo literário e linguístico, aprofundou-se a defesa do baihua 白话, a língua vernácula, em detrimento do wenyan 文言, o chinês literário clássico, reivindicação, como afirmámos, que antecedera o próprio Movimento 4 de Maio e que constituíra uma das principais bandeiras da Revolução Literária promovida por intelectuais como Hu Shi e Chen Duxiu, em 1917. A mobilização adquiriu, igualmente, uma importante dimensão económica. Em várias cidades, foram organizados boicotes aos produtos japoneses e, em Shangai, comerciantes e trabalhadores aderiram às manifestações e às greves, contribuindo para ampliar, significativamente, a pressão sobre o governo. A mobilização nacional acabaria por contribuir para que a China recusasse assinar o Tratado de Versalhes, em junho de 1919. Embora o Movimento 4 de Maio não possa ser entendido como causa direta e exclusiva da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921, constituiu um momento decisivo de radicalização política e intelectual, contribuindo para a difusão do marxismo e para a formação do ambiente político do qual surgiria o novo partido. Entre os intelectuais associados, simultaneamente, à Nova Cultura e ao processo de difusão do marxismo encontravam-se, por exemplo, Chen Duxiu e Li Dazhao. O Movimento 4 de Maio desencadeou, portanto, uma ampla mobilização social, marcada por manifestações, boicotes e greves, constituindo um momento decisivo para o desenvolvimento de novas correntes políticas, intelectuais e estéticas. Neste contexto, proliferaram associações, sociedades e círculos literários e políticos empenhados na defesa da soberania chinesa, bem como novos periódicos dedicados à discussão das transformações culturais e sociais, em curso. A circulação de ideias estrangeiras intensificou-se através da tradução de obras literárias e filosóficas europeias, norte-americanas, russas e japonesas, enquanto escritores chineses procuravam adaptar essas influências às condições históricas e culturais do país. No plano literário, consolidou-se uma nova literatura em língua vernácula, particularmente através da experimentação de novas formas de poesia, conto e romance, em diálogo com modelos literários estrangeiros. Como observa Sen (1968, p. 255), “O movimento de 4 de maio não foi um turbilhão político e patriótico sem importância. Foi a voz de alarme que abalou o mais recôndito da consciência dos chineses e quando tudo, na China, se começou a movimentar”. O Movimento 4 de Maio constituiu, assim, um momento de particular importância na transformação da consciência política e cultural chinesa, articulando reivindicações patrióticas e anti-imperialistas com propostas de renovação intelectual e literária que vinham sendo desenvolvidas desde a década de 1910. O Movimento de 4 de Maio deve, em suma, ser compreendido no âmbito de um processo intelectual e cultural mais amplo, frequentemente designado por Movimento da Nova Cultura, sem que, contudo, deva ser confundido com este. III O Movimento da Nova Cultura na China: primeiros passos para uma transformação socio-política e socioestética 1. O Movimento da Nova Cultura: quando a cultura subjaz a reivindições socioecómicas e políticas Um dos principais acontecimentos da história da China contemporânea ocorre no início da década de 1930: a invasão e subsequente ocupação japonesa da Manchúria, no nordeste da China. Iniciada em setembro de 1931, na sequência do Incidente de Mukden, a ocupação japonesa conduziu à criação, em 1932, do Estado de Manchukuo, o que teve profundas repercussões não apenas na vida política chinesa – agravando as tensões entre nacionalistas e comunistas – mas também no percurso político de Chiang Kai-Shek e na evolução das relações entre a China e o Japão.: Depois do incidente de Shenyang do ano 20 da República [1931], e depois da sangrenta luta de Songhu [Shanghai] contra os japoneses no ano 21 [1932] que se seguiu, todo o país, do governo às pessoas, proferiu um grito idêntico: “A ciência salva a nação!”, “Compense o tempo perdido sem perder tempo!”. A literatura é um reflexo de um tempo (…) passando a dar uma grande atenção à cultura científica geral, e levando a novas correntes (Chen Bochui apud Aloísio, 2016). O uso de formas literárias populares e simples, com o objetivo de popularizar e disseminar uma cultura científica geral, ganhou crescente importância durante este período. Por outro lado, ainda que o marxismo tivesse penetrado nos círculos intelectuais chineses, antes da década de 1930 (sobretudo depois do Movimento 4 de Maio de 1919 e aquando da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921), será, sobretudo, durante a década de 1930, que a influência do marxismo se aprofunda, como forma de análise da realidade. A circulação e tradução de obras de autores como Karl Marx (1818–1883), Friedrich Engels (1820–1895), Vladimir Lénine (1870–1924) e Nikolai Bukharin (1888–1938) contribuiu para a crescente influência do marxismo e de outras correntes do pensamento revolucionário, contribuindo para que parte significativa da literatura passasse, gradualmente, a ser concebida como uma arma ao serviço da Revolução. Ainda neste período, em março de 1930, é fundada a liga dos escritores de esquerda (中国左翼作家联盟), em reação à repressão do Kuomitang a intelectuais progressistas (de cuja direcção, aliás, Lu Xun faria parte), desde logo implantando-se como uma forma de organização de sectores progressistas e revolucionários e como foco de criação de uma literatura revolucionária. A Liga aproximou-se, progressivamente, das conceções da literatura proletária revolucionária sendo que, a partir de 1933, o conceito de realismo socialista começou a ser introduzido nos círculos literários, defendendo-se uma literatura comprometida com a representação da realidade social e com a transformação revolucionária da sociedade. Neste contexto, escritores e intelectuais chineses procuraram novos elementos, com vista à elaboração de novas propostas socioestéticas. Lu Xun encontrou alguns desses elementos na literatura ocidental, especialmente na literatura russa, valorizando o seu espírito realista e combativo, assim como novas formas e estruturas narrativas: “Da sua herança tradicional conservou o melhor: a linguagem coloquial e a inquietude pelos interesses do povo oprimido” (Sen, 1968, 262). Com efeito, ainda que a Revolução Literária que se desenvolveu a partir da década de 1910 tenha sido fortemente influenciada pelas literaturas europeias, a literatura soviética adquiriu uma influência crescente entre sectores de escritores chineses, a partir das décadas de 1920 e 1930, intensificando-se durante a década de 1940. Neste contexto, o eu deixa, progressivamente, de ocupar uma posição central na literatura revolucionária, dando lugar a uma conceção da escrita orientada para a consciência coletiva e para a transformação social, pelo que “a subjetividade não deve, apenas, se submeter à figura da consciência coletiva, mas, para além disso, dissolver-se, integralmente, no canto coletivo” (Siyuan, 2004). Esta dissolução do eu passa, deste modo, a assumir particular importância entre os escritores ligados às novas formas de expressão literária. Em 1946, a guerra civil retoma os conflitos entre nacionalistas e comunistas, os quais haviam sido temporariamente reduzidos durante a guerra contra o Japão. O Partido Comunista Chinês sairá, contudo, vitorioso, levando o governo nacionalista a transferir-se para a ilha Formosa (Taiwan). A 1 de outubro de 1949, é proclamada a República Popular da China (RPC), consolidando a vitória do Partido Comunista e encerrando a principal fase das guerras civis que haviam marcado a China, desde as primeiras décadas do século XX, e terminando com a ocupação estrangeira. A criação da RPC abrirá novas perspetivas que haviam sido antecipadas durante o Movimento 4 de Maio de 1919, nomeadamente o reconhecimento do papel da juventude, a emancipação das mulheres, a apropriação e difusão da ciência moderna e o uso da linguagem popular, na literatura. A modernização trará, igualmente, um novo modo de produção, a escolha de um novo modelo de desenvolvimento económico e novas relações com o mundo. Se, no final da Segunda Guerra Mundial, a China recuperara o controlo da Manchúria – anteriormente ocupada pelo Japão -, será necessário aguardar a Revolução de 1949 para que, finalmente, se efetive a reincorporação de territórios como o Xinjiang (Turquestão Chinês) e o Tibete (a qual ocorreria, sobretudo, a partir de 1950-1951). Em relação a Taiwan, depois de o governo nacionalista da República da China fugir, em 1949, para a ilha, a Sétima Frota dos Estados Unidos, em 1950 (em plena Guerra da Coreia) é enviada para o Estreito de Taiwan, cercando a ilha e protegendo as forças nacionalistas, enquanto ameaça, militarmente, a nova República Popular. Ainda em 1949, Mao Zedong apresenta a União Soviética como uma referência fundamental para o futuro desenvolvimento da China, defendendo o socialismo como via para superar, rapidamente, o atraso económico e social do país, acrescentando que o socialismo permitiria que a China alcançasse, em poucas décadas, o que as sociedades capitalistas alcançaram, em termos de desenvolvimento, num século. Hoje, em pleno século XXI, as suas palavras premonitórias lembram o quanto a luta e a organização podem construir novos rumos para uma sociedade próspera e mais igualitária. 5 IV A República Popular da China e a Arte Literária à luz da Questão Agrária 1. A literatura na recém-proclamada República Popular da China Durante a década de 1950, ainda que tenha havido uma produção importante de romances, contos e teatro, assumem uma posição de destaque tendências literárias sob a forma de poesia e de música popular e épica. Há, em particular, uma série de odes rituais cantando os louvores da nova era. Entre os poetas épicos, destacam-se Hu Feng (The Time Begins, 1949), He Jingzhi (Let’s Sing Aloud, 1956)e Guo Xiaochuan (Springing Headlong into an All-out Struggle – To Young Citizens, 1955). A segunda sessão do 8° Congresso do PCC, realizada em maio de 1958, impulsiona o já referido Grande Salto em Frente. Grandes projetos de construção e obras de infraestrutura são lançados, enquanto a coletivização da agricultura se intensifica. Entretanto, as comunas populares tornam-se numa forma central de organização da vida rural, procurando integrar a produção agrícola e diferentes serviços sociais e comunitários; em diversas localidades, são criados refeitórios coletivos, escolas, serviços de saúde e outras estruturas de assistência. Em 14 de abril de 1958, o Diário do Povo publicou um editorial intitulado Colecionando canções populares em larga escala. O Grande Salto em Frente é, deste modo, acompanhado por expressões artísticas, sobretudo através da poesia épica, apresentadas em todo o país em diferentes manifestações públicas: “Na província de Sichuan, em menos de dois meses, um grande exército artístico de 22.000 escritores foi montado. Na província de Jiangsu, mais de 5.000 sociedades de poesia nasceram em julho; na província de Hubei, mais de 24 mil grupos de artes populares surgiram em novembro. No distrito de Hongan existem 577 equipes de cantores populares” (Zhang et al., 1999, p. 43). Segundo os números divulgados pelo jornal New China, na província de Jiangsu, em menos de seis meses, 10 milhões de obras literárias foram produzidas, enquanto, em Shangai, equipes de arte reuniram 700.000 pessoas que escreveram 1.500.000 obras. Até ao final dos anos 1970, a literatura chinesa foi fortemente marcada por uma voz coletiva que procurava representar a nova organização social. Neste “novo mundo (…) todos os elementos heterogéneos devem ser substituídos e toda a vida individual dever-se-á alinhar com a norma coletiva” (Siyuan, 2004). A literatura que se segue à Revolução Cultural acompanha as profundas transformações políticas, sociais e económicas decorrentes da nova orientação adotada a partir do final da década de 1970, particularmente após o 3.º Plenário do XI Comité Central do PCC, em 1978, refletindo a transição do país para um modelo próprio de modernização. Esta nova produção literária consolidou-se como um exercício de reflexão sobre a própria identidade chinesa, abordando a memória, o sofrimento, a experiência individual e as profundas transformações da sociedade, destacando-se, ainda, em muitos casos, temas relacionados com a resiliência e a força moral do campesinato. Surge, a partir de então, quer uma literatura de cicatrizes quer uma literatura de reflexão ou de introspeção, visando analisar, respetivamente, o percurso histórico do país e refletir sobre a resiliência do espírito humano perante as profundas mutações socioeconómicas que marcaram o modelo de desenvolvimento moderno. Entre os autores que, posteriormente, explorariam estas transformações, destaca-se Mo Yan (n. 1956), distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, em 2012. A obra Huozhe (Viver, 1992), de Yu Hua (n . 1960), transcende a mera descrição das adversidades vividas pelos seus personagens para se afirmar como uma reflexão sobre a sobrevivência e a resistência do indivíduo, perante as grandes transformações da história chinesa. Embora marcada pela tragédia, a narrativa não reduz a experiência humana a uma visão fatalista, espelhando a força moral de indivíduos que, através de um profundo sentido de dever, constroem a sua própria superação, no contexto de grandes transformações nacionais. A transformação de Xu Fugui – de jovem pertencente a uma família abastada num camponês dedicado à família – evidencia a importância da responsabilidade familiar, do trabalho e da persistência como formas de enfrentar a adversidade. Como aponta Han Dongping (2010), ao analisar a vida nas comunidades rurais, a história do povo chinês é marcada por uma capacidade singular de adaptação e resiliência, onde a dignidade individual se entrelaça com a estabilidade coletiva, revelando a força interna que permitiu a modernização do país, sem perder de vista os valores fundamentais que sustentam a sua estrutura social. Ao acompanhar a trajetória de Fugui e da sua família, através da guerra, da fome, do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural, Yu Hua articula a experiência individual com as profundas transformações políticas e sociais da China, ao longo do século XX. Neste sentido, a obra evidencia a tensão entre, por um lado, a fragilidade da vida individual e, por outro, a capacidade humana de persistir perante as sucessivas ruturas históricas, constituindo uma importante reflexão sobre a experiência dos indivíduos comuns, no processo de transformação da sociedade chinesa. Em meados da década de 1980, surgiu o movimento de busca das raízes (xungen wenxue), associado, sobretudo, a escritores como Han Shaogong (n. 1953), Ah Cheng (n. 1949), Zheng Yi (n. 1947) e Li Hangyu (n. 1957). Embora a sua emergência tenha sido preparada por obras anteriores de autores como Wang Zengqi (1920-1997), que valorizaram a cultura local, os costumes e a vida rural, o movimento afirmou-se, sobretudo, entre 1984 e 1985, no contexto da revalorização da cultura tradicional chinesa. Esta literatura procurava recuperar e reinterpretar tradições, mitos, costumes e culturas locais, articulando-as com uma consciência moderna e com a procura de uma identidade cultural própria. A experiência da geração dos jovens enviados para o campo, durante a Revolução Cultural, contribuiu, igualmente, para esta nova atenção à vida rural e às culturas locais. Já no século XXI, com particular intensidade nas décadas de 2010 e 2020, desenvolve-se, igualmente, uma literatura centrada na transformação do espaço rural e na chamada revitalização rural (xiangcun zhenxing 乡村振兴). Distanciando-se, parcialmente, da representação nostálgica ou exclusivamente crítica do mundo camponês, presente em algumas formas anteriores da literatura de raízes, esta produção procura acompanhar as profundas mudanças económicas, sociais e culturais, decorrentes da modernização do campo, da redução da pobreza, da inovação agrícola, da urbanização e da melhoria das infraestruturas e dos serviços rurais. Em muitos destes textos, a modernização é apresentada quer como rutura com a tradição quer como um processo capaz de articular a preservação da cultura local com novas formas de produção, tecnologia, empreendedorismo e organização comunitária. Entre os autores que se destacam nesta tendência encontram-se Zhou Daxin (n. 1952), Jia Pingwa (n. 1952), Zhao Defa (n. 1955) e Guan Renshan (n. 1963), cujas obras acompanham, de diferentes perspetivas, as transformações do mundo rural chinês. Esta literatura assume, assim, uma dimensão particularmente próxima da ideia de modernização, em curso, apresentando, frequentemente, novos agricultores, quadros locais e comunidades rurais como agentes de transformação, sem deixar de abordar as tensões e contradições produzidas por esse processo. Entre as obras que melhor representam esta nova orientação encontram-se Huguang shanse (湖光山色, 2006), de Zhou Daxin, que aborda as transformações de uma comunidade rural perante o desenvolvimento económico e turístico; Jingu Yinshan (金谷银山, 2018), de Guan Renshan, que acompanha o regresso de um agricultor à sua aldeia e os esforços de desenvolvimento económico e proteção ambiental; Jing Shanhai (经山海, 2019), de Zhao Defa, centrada numa jovem dirigente local que participa na transformação de uma comunidade rural, através do desenvolvimento da pesca, do turismo, da agricultura e da preservação ambiental. Mais recentemente, Baiyangdian shang (白洋淀上, 2022), também de Guan Renshan, amplia esta representação ao relacionar a revitalização das comunidades rurais com a urbanização e a construção da Nova Área de Xiong’an, articulando, desta feita, tradição e modernidade. 2. Breves estudos de caso: Lu Xun, Mo Yan, Yu Hua O primeiro conto de Lu Xun é publicado em maio de 1918, na revista Xin Qingnian. Intitulado Kuangren riji (狂人日记, O Diário de um Louco), o conto foi publicado no volume 4, n.º 5, da revista, em 15 de maio de 1918. A forma e alguns elementos narrativos da obra remetem para o conto homónimo do escritor russo Nikolai Gogol (1809-1852), embora os temas e os contextos sociais sejam distintos. Enquanto o louco de Gogol expressa, sobretudo, a alienação do indivíduo perante a sociedade e a burocracia, o protagonista de Lu Xun transforma-se numa figura de consciência crítica perante a ordem social e familiar tradicional chinesa. Através da metáfora do canibalismo, Lu Xun denuncia a violência e a opressão associadas ao sistema familiar e à ética confuciana, colocando em causa valores que haviam estruturado a sociedade chinesa, durante séculos. O louco pode, neste sentido, ser interpretado como uma figura de contestação e de renovação associada ao espírito do Movimento da Nova Cultura. Com este conto, “o autor lança-se diretamente contra a mentalidade feudal de uma civilização paralisada ao longo de muitos séculos. Esta obra foi uma bomba e conseguiu silenciar todos aqueles que se obstinavam em considerar impossível a criação de uma literatura nova, em rutura com a linha tradicional da literatura ortodoxa” (Sen, 1968, p. 262). O Diário de um Louco tornou-se, assim, uma das obras fundadoras da literatura chinesa moderna, tanto pela sua crítica da sociedade tradicional como pela utilização inovadora do chinês vernáculo (baihua) e de novas formas narrativas. Entre 1918 e 1922, Lu Xun escreveu vários contos, dos quais se destacam Kong Yi-ji, O Remedio, Amanhã, O Escândalo, Votos de Felicidade e A verdadeira história de Ah Q. Publicada, originalmente, em 1921, A Verdadeira História de Ah Q apresenta como protagonista um trabalhador rural pobre e itinerante, sem família conhecida, que vive no templo do deus guardião de uma aldeia distante e trabalha, ocasionalmente, para famílias abastadas. Ninguém na aldeia demonstra simpatia por Ah Q, exceto quando necessita dos seus serviços ou quando procura divertir-se, à custa dos seus infortúnios. Ah Q, contudo, não se sente verdadeiramente atingido pelo desprezo dos outros, encontrando uma forma peculiar de transformar as suas derrotas em aparentes vitórias, através daquilo que Sen (1968) designa como “muito melhor do que qualquer outro, uma vez que tem a sua própria forma de combater todos aqueles que o ofendem: a vitória espiritual” (p. 262). Através desta personagem, Lu Xun desenvolve uma crítica profunda de determinados comportamentos e valores presentes na sociedade chinesa do seu tempo, nomeadamente a passividade, a submissão, a autoilusão e a incapacidade de reconhecer a própria condição. Ah Q tornou-se, deste modo, numa representação emblemática daquilo que viria a ser designado como AhQísmo, associado à crítica de Lu Xun a determinados aspetos do chamado caráter nacional chinês, num momento em que a China, depois de ter sido derrotada, sucessivamente, por potências estrangeiras, em vez de buscar uma solução para renovar a sua supremacia, permaneceu, ao contrário, imersa no orgulho da sua civilização passada. A personagem representa, assim, não o povo chinês, no seu conjunto, mas determinados comportamentos e atitudes que, segundo Lu Xun, contribuíam para a manutenção de uma sociedade incapaz de se renovar perante as profundas transformações políticas e sociais, do início do século XX. Apesar das duras críticas tecidas neste conto, “desde o momento em que apareceu, A verdadeira história de Ah Q foi reconhecida pela maioria dos intelectuais como uma obra mestra da literatura realista e animou muitos corações a buscar seriamente o caminho que a China deveria tomar” (Huang, 1957, p. 67). A partir de 1925, num contexto de crescente agitação política e de intensificação das polémicas intelectuais, Lu Xun dedicou-se de forma particularmente intensa à escrita de ensaios, através dos quais passou a intervir diretamente nos debates políticos e sociais do seu tempo. A sua produção ensaística assumiu uma dimensão cada vez mais crítica, dirigindo-se contra as estruturas sociais e culturais tradicionais e contra as formas de dominação que condicionavam a sociedade chinesa; sensível ao destino dos homens e às condições de vida das camadas mais desfavorecidas, Lu Xun desenvolveu, deste modo, uma escrita de forte pendor realista. Embora muitas das suas narrativas se centrem em personagens provenientes do meio rural, a sua obra ficcional não se limita a esse universo, abrangendo, igualmente, diferentes espaços e grupos sociais, “onde a miséria golpeia com muito mais força do que nas cidades” (Sen, 1968, p. 266). Nascido em 1956 e distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 2012, Mo Yan constitui uma das figuras mais relevantes da literatura chinesa contemporânea. A sua obra articula o histórico e o sociocultural, incorporando elementos da tradição oral, da cultura popular e dos dialetos locais, particularmente associados à região de Gaomi, na província de Shandong, onde nasceu e cresceu. A sua escrita encontra, assim, uma importante fonte de inspiração na sua região natal e na turbulenta história da China: “renovando a herança literária chinesa e a tradição oral, Mo Yan faz viver os dialetos locais e orquestra, numa narrativa virtuosa, o encontro entre o autobiográfico, o histórico, o político e o sociocultural” (Baddoura, 2012). Embora afirme que as suas memórias de infância possam parecer estar fora de moda, no quadro da atual criação literária chinesa, Mo Yan considera que é, precisamente, o olhar profundo dos jovens chineses sobre a vida rural que contém o potencial para a criação de uma literatura de qualidade (Wang, 2016). A influência de Lu Xun, na sua criação literária, é, igualmente, reconhecida pelo próprio autor, que admite que os leitores podem encontrar algumas semelhanças entre determinadas narrativas dos dois escritores, sobretudo naquelas que “enfocam as questões mentais enfrentadas por intelectuais que retornam ao campo depois de viverem em áreas urbanas durante anos” (apud Wang, 2016). Mo Yan acrescenta que este tópico poderia ser mais explorado, “uma vez que este problema não apenas continua atual, como se complicou em consequência da urbanização” (apud Wang, 2016). Yu Hua, por seu lado, nasceu em 1960, em Hangzhou (Zhejiang). A Revolução Cultural, cujo início coincide com o seu sexto ano de vida, constituiu uma experiência marcante e deixou profundas marcas na sua produção literária. A memória da infância, as transformações políticas e sociais e as experiências vividas pela população chinesa constituem, com efeito, temas recorrentes, na sua obra. Em Crónica de um vendedor de sangue (1995), Yu Hua acompanha a trajetória de Xu Sanguan, um trabalhador que, em diferentes momentos de dificuldade, recorre à venda de sangue para sustentar a família. Através desta personagem, o autor representa a capacidade de resistência dos indivíduos, perante condições históricas e sociais adversas, articulando a experiência familiar com as profundas transformações da sociedade chinesa, ao longo do século XX. A dimensão autobiográfica está igualmente presente na sua obra ficcional: os seus pais eram médicos e, durante a infância, Yu Hua teve contacto com hospitais e com pessoas que recorriam à venda de sangue como forma de obter rendimentos, experiências que contribuíram para a construção do universo narrativo do romance. Em Viver! (1992), o mesmo autor centra-se nas décadas que se seguiram à fundação da República Popular da China. Viver! conta a história de Xu Fugui, filho de uma família proprietária de terras que desperdiça a fortuna familiar no jogo, circunstância que o obriga, posteriormente, a trabalhar a terra. Surpreendido de forma implacável pelas circunstâncias históricas, Xu Fugui perde o pai, ainda antes da fundação da República Popular da China, e, posteriormente, a mãe, o filho, a filha, o genro, a esposa e o neto. O romance é atravessado por acontecimentos políticos que marcaram a história recente da China, como a guerra civil, o estabelecimento da República Popular da China, o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural. Através da trajetória de Xu Fugui, Yu Hua articula a experiência individual e familiar com as grandes transformações políticas e sociais do país, mostrando, simultaneamente, a vulnerabilidade dos indivíduos perante a História e a sua capacidade de persistir perante a adversidade. A vida rural e as suas transformações constituem, deste modo, uma dimensão importante da literatura chinesa contemporânea que procura representar e reinterpretar as experiências decorrentes do processo histórico que conduziu a China tradicional à sociedade moderna. Em autores como Yu Hua, a representação do campo permite recuperar a memória de períodos de profunda transformação política e social assim como refletir sobre a capacidade dos indivíduos e das comunidades de se adaptarem às mudanças que acompanharam a modernização do país. No século XXI, a representação literária do campo chinês adquire uma nova dimensão, acompanhando o aparecimento de personagens que deixam de ser, apenas, vítimas das transformações históricas para se tornarem agentes de mudança. A literatura de temática rural passa a interessar-se, deste modo, por figuras como o agricultor que regressa à sua aldeia, depois de uma experiência urbana, o dirigente local que procura resolver problemas concretos da comunidade ou o jovem que encontra no desenvolvimento da própria região uma possibilidade de futuro. Em Jingu Yinshan (2017), Guan Renshan apresenta Fan Shaoshan, um trabalhador que, depois de passar pela cidade, regressa à aldeia natal e procura encontrar novas formas de desenvolver a economia local, conciliando a exploração dos recursos da terra com a proteção do ambiente. Em Jing shanhai (2019), Zhao Defa coloca no centro da narrativa Wu Xiaogao, uma jovem dirigente local que enfrenta os problemas quotidianos de uma comunidade costeira e procura dinamizar a pesca, o turismo e outras atividades económicas, enquanto procura preservar e valorizar os costumes e a cultura locais. Já Yewang (2018), de Fu Xiuying, centra-se na vida de uma comunidade rural e nas relações entre os seus habitantes, permitindo observar as mudanças nos modos de vida, nas relações familiares e nas expectativas das novas gerações. Estas obras revelam, portanto, uma alteração significativa na representação literária da ruralidade: o campo já não surge, exclusivamente, como lugar de pobreza, atraso ou nostalgia, mas antes como um espaço onde se disputam novas possibilidades de vida e onde os indivíduos procuram participar, ativamente, na construção do seu próprio futuro. A literatura sobre a revitalização rural constitui, deste modo, uma das expressões mais recentes da relação entre literatura e transformação social na China contemporânea, registando as mudanças do mundo rural através das experiências concretas daqueles que nelas participam. 3. Da terra à literatura: uma conclusão sobre a transformação da China A trajetória chinesa, por vezes interpretada de forma redutora a partir de perspetivas eurocêntricas, tem sido analisada por diferentes especialistas como resultado de opções políticas e económicas próprias, orientadas para a preservação da soberania nacional, para a estabilidade social e para a construção de um modelo de desenvolvimento adaptado às condições específicas do país. Wen Tiejun (2009) interpreta este percurso a partir da valorização do desenvolvimento endógeno e da capacidade de mobilização dos recursos internos, o que teria permitido que a China evitasse as instabilidades externas que, historicamente, afetaram outras nações. Complementarmente, Han Dongping (2010) demonstra que o período das comunas e as reformas subsequentes foram instrumentos cruciais para a democratização do acesso a bens essenciais, garantindo que o progresso técnico fosse acompanhado por uma elevação real da qualidade de vida e da coesão social, em todo o território nacional. As profundas mutações políticas, económicas e sociais atravessaram, igualmente, a produção literária, proporcionando aos escritores novos temas e novas formas de interpretar a experiência chinesa. A ruralidade ocupa, neste processo, um lugar particularmente relevante. A partir do final da década de 1970, a literatura passa a recuperar experiências individuais e memórias coletivas, procurando compreender as consequências das transformações que marcaram as décadas precedentes. As experiências do Grande Salto em Frente, da Revolução Cultural e das mudanças que se seguiram à morte de Mao Zedong tornam-se, assim, matéria de reflexão literária, permitindo aos escritores representar as consequências dessas transformações nas comunidades rurais, nas relações familiares e na vida dos indivíduos. A literatura das décadas de 1980 e 1990 acompanha, por sua vez, a profunda reorientação política e económica iniciada no final da década de 1970. Embora o XI Congresso do Partido Comunista Chinês, realizado em 1977, tenha assinalado o início de uma fase de reorganização política, foi, sobretudo, o 3.º Plenário do XI Comité Central, em dezembro de 1978, que marcou a mudança decisiva de orientação, com a transferência da prioridade política para o desenvolvimento económico, a modernização e a reforma e abertura. No domínio literário, esta mudança acompanhou-se do desenvolvimento da literatura de cicatrizes e, posteriormente, da literatura de reflexão, através das quais os escritores procuraram confrontar o passado recente e interrogar as consequências das grandes transformações sociais. Paralelamente, a literatura de busca das raízes recuperou tradições, culturas locais e formas de vida rurais, procurando compreender a relação entre a identidade cultural chinesa e a modernização. Já na literatura do século XXI, autores como Mo Yan, Yu Hua, Guan Renshan e Zhao Defa continuam a colocar o mundo rural no centro da representação literária, embora sob novas perspetivas: a memória histórica, as transformações familiares, a mobilidade entre campo e cidade, o desenvolvimento económico e, mais recentemente, a revitalização rural. A evolução da representação do campo permite, deste modo, acompanhar as sucessivas transformações da sociedade chinesa, assim como a forma como diferentes gerações de escritores procuraram compreender a relação entre tradição e modernidade, experiência individual e transformação coletiva, passado e futuro. A evolução do Homem e as transformações no campo têm, em suma, acompanhado o sucesso de uma China que reafirma a sua identidade, desde a modernidade de Lu Xun até à contemporaneidade. Bibliografia citada: Baddoura, R. (2012). Mo Yan ou l’art d’apprivoiser la censure. L’Orient Littéraire, (74), 12. http://www.lorientlitteraire.com/article_details.php?cid=7&nid=4030 Chen, B. (1949). Ertong duwu de jiantao yu zhanwang [儿童读物的检讨与展望]. In B. Chen (Org.), Ertong wenxue lilun xuanji 1913–1949 [儿童文学理论选集1913–1949] (pp. 324–325). Dongping, H. (2010). The Unknown Cultural Revolution: Life and Change in a Chinese Village. Monthly Review Press. Huang, S. (1959). 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