Daniel Pires, académico, sobre Camilo Pessanha: “Um homem que atraía muitas invejas”

“Pairo na Luz, suspenso…” – Centenário da morte de Camilo Pessanha (1867-1926) é o nome do congresso, que se realiza hoje e amanhã na Universidade de Coimbra, para celebrar a vida e a obra do poeta. Daniel Pires, académico e editor de Pessanha, irá desvendar detalhes sobre as colecções de arte que o poeta deixou e os seus contributos a nível jurídico

Apresenta hoje “O percurso cívico de Camilo Pessanha”. São muitas as valências desse civismo.

Vou falar da doação que fez de peças de arte chinesa ao Estado português, e também da sua biblioteca. Também vou falar sobre a sua actividade jurídica, pois esteve ligado a vários regulamentos publicados em Macau, tendo sido ele que os fez, na sua grande maioria, e que têm a ver também com a interacção entre portugueses e chineses.

Falemos das colecções doadas ao Estado português. O que encontramos nestes espólios?

Uma das colecções é imensa, com mais de 300 peças de grande valor, e que foi primeiramente exposta em Macau em 1915. Depois, pouco antes de falecer, ofereceu uma segunda parte da colecção, pedindo que viesse para Coimbra, para o Museu Nacional Machado de Castro.

Como descreve a relação de Camilo Pessanha com a arte chinesa?

Ele era um admirador da civilização e cultura chinesas, sem dúvida, e escreveu sobre isso, embora não tenha escrito muito. Aliás, ele não escreveu muito sobre nada, mas há artigos de jornais sobre arte e língua chinesa, o mandarim, e a estética que nela está implícita. Há notícias de que logo no início da sua estada em Macau, Camilo Pessanha começou a aprender e a falar cantonense. Depois fez traduções, e era de facto um sinólogo, uma pessoa que admirava bastante a filosofia e arte milenares, os caracteres chineses, e por aí fora.

Como era a relação destes intelectuais portugueses em Macau com a comunidade chinesa, numa altura em que eram muito poucos os livros que juntassem as duas línguas.

Não havia, de facto, grandes meios para se estudar a civilização chinesa. Macau estava fechadíssimo e poucas coisas lá chegavam, praticamente só tinha relações com Hong Kong. Ir à China era quase impossível. Mas havia o que chamamos de sinólogos, e os dois principais eram Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes. Depois temos o aluno de Camilo Pessanha que, em termos de sinologia, suplantava tudo, o Luís Gonzaga Gomes.

Além da doação de Pessanha, e que foi exposta em 1915, há uma segunda doação…

Ele [Camilo Pessanha] foi convidado por um grande Governador de Macau, que depois veio a ser morto na “Noite Sangrenta”, em 1921…

Carlos da Maia.

Exactamente, eram grandes amigos. Carlos da Maia convidou Pessanha para expor parte da sua colecção no Palácio [do Governador], e expor 100 peças de uma variedade e ecletismo incríveis, desde vestuário passando por objectos japoneses, etnografia, linguística, com os caracteres chineses artisticamente tratados. Antes de falecer, Camilo Pessanha contactou o Governador na altura, Maia Magalhães, oferecendo a sua colecção com a condição de vir para Portugal. Entretanto, a primeira doação tinha sido recusada por vários museus, por se entenderem tratar-se de pechisbeques. Ao fim e ao cabo tratava-se de ignorância, porque a colecção é excelente mesmo.

Camilo Pessanha adquiriu todas essas peças em Macau?

Ele andava pelos tintins [zona de mercado de rua no Porto Interior], mas também foi a Cantão mais do que uma vez e até a Hong Kong. Mas, de facto, a base dele era mesmo Macau. Ele aprendeu chinês também com o objectivo de poder comprar melhor. Pelas contas que fiz para o livro “Camilo Pessanha – Prosador e Tradutor” ele reuniu um acervo de 370 peças.

Relativamente ao trabalho jurídico de Pessanha, que legado deixou em Macau?

Muito forte, quer como bom jurista, quer como, digamos, juiz substituto. Esteve ligado à promulgação de várias leis e regulamentos. Mexeu bastante em leis que vinham do tempo da monarquia e que não tinham sido mudadas. Como juiz, optou sempre pelas penas mais baixas, tendo um tom humanista.

Macau gerou, ao longo da sua história, diversos intelectuais portugueses que se preocuparam com o território e não estiveram apenas de passagem. Pessanha foi dos mais importantes?

Sem dúvida. Há quem diga que era abúlico, mas [Camilo Pessanha] era uma pessoa doente, o que é diferente, e tinha também alguma depressão à mistura. Nessas crises obviamente que não podia ser muito activo. Ele nunca teve muita saúde, mas quando a teve fartou-se de mexer em coisas, sempre com o objectivo de aperfeiçoar, melhorar, alterar. Só que também é preciso dizer que Macau era muito conservadora, a sociedade macaense. Nem toda a gente aceitava pessoas que não iam à missa, por exemplo.

E Camilo Pessanha não ia à missa.

Não. Ele teve uma educação muito católica mesmo. As duas irmãs dele chamavam-se Madalena e isso não é por acaso, não é? Mas nos anos pré-República o catolicismo foi muito forte e houve ali uma pressão fortíssima. E isso repercutiu-se na mentalidade de muitos intelectuais, muitos deles que eram inicialmente católicos e que depois se confrontaram com o compadrio que existia na alta hierarquia católica e a monarquia. Claro que nem todos seriam assim. Falo do apoio que o alto clero dava aos monárquicos, com alguma corrupção, alguns escândalos de cariz sexual também, e que foram denunciados na imprensa. Tudo isso afastou uma série de pessoas que, inicialmente, eram católicas, e terá sido o caso de Camilo Pessanha também.

Estes casos ocorreram em Portugal.

Sim, mas chegavam a Macau através dos jornais e…

Contaminavam a opinião pública.

Exactamente.

Camilo Pessanha também era mal visto por consumir ópio?

A doença tornava-o propenso à droga, mas não era uma coisa que não o impedia de concretizar o seu trabalho diário. Digamos que seria uma coisa que ele faria em casa [fumar ópio]. Obviamente que as pessoas mais conservadoras olhavam para isso de lado, daí terem surgido uma série de histórias sobre Pessanha da parte de pessoas extremamente conservadoras que não hesitaram em caluniá-lo e até denegri-lo. Muita gente disse que a colecção de arte chinesa dele não valia nada. Silva Mendes, por exemplo, era um inimigo de Camilo Pessanha, misturou ideologia com falta de ética e usou todos os meios possíveis para o denegrir. Chegou a sair um artigo de Silva Mendes dizendo que a poesia de Camilo Pessanha era de muita fraca qualidade. Imagine, onde ele foi tocar. Naquilo onde Camilo Pessanha é intocável é, exactamente, na poesia. Mas era um homem que atraía muitas invejas.

Por ser genial, digamos assim?

Sim. O meio de Macau era muitíssimo fechado. Os portugueses seriam uns mil, isto no princípio do século. Estavam ali encafuados, claustrofóbicos, numa paranóia – no sentido do termo, mesmo – relativamente à China, que estava ali ao lado, e as pessoas sabiam o que tinha acontecido ao Ferreira do Amaral [Governador assassinado em 1849]. Isso foi um trauma muito forte para os habitantes de Macau, e na época de Pessanha esse trauma ainda era visível.

Quando Pessanha vai para Macau tem consciência das suas especificidades sociais e políticas?

Não. Terá tido dificuldades na adaptação ao clima, e são sempre duas culturas díspares, não é? Houve a questão da língua, porque ninguém falava português, o corte radical com a família. Ele tinha problemas familiares, com um irmão que enlouqueceu. Portanto, acho que teve uma capacidade de adaptação bastante grande, porque ele chega e começa a estudar de imediato cantonês.

A relação de Pessanha com a comunidade macaense era também próxima.

Havia, de facto, uma interacção com a comunidade, mas não só. Houve uma interacção de Camilo Pessanha com o primeiro Presidente da República chinês.

Sun Yat-sen.

Exacto. Há várias fotografias dele com o Sun Yat-sen.

Portanto, era bem mais republicano do que monárquico, além de maçom.

Sem dúvida, Camilo Pessanha era mesmo republicano e escreveu vários textos de apoio à República. A implantação da República deu-se a 5 de Outubro [de 1910], mas em Macau não. As autoridades locais eram todas monárquicas e a transição foi difícil.

O novo Governador, Eduardo Marques, só foi proclamado dias depois.

Pois. Eles não cediam. O secretário do Governo era um tipo completamente monárquico, e Camilo Pessanha também desempenhou aí um papel interessante. O mesmo quando a Constituição de 1911 foi aprovada. [Ele questionou]: “E aqui, como é? Não há Constituição?”. O ensino também demorou a mudar, porque os republicanos tentaram reformar o ensino em Macau, que tinham as missões católicas, e isso foi difícil.

Disse que Camilo Pessanha escreveu pouco ao longo da vida. Talvez se não fosse Ana de Castro Osório não teria sido editada “Clepsydra”. Como explica esta dispersão poética?

É verdade. Mas o grande problema prende-se também um pouco com a doença do Camilo Pessanha. Ele esteve quatro anos em Portugal, de 1905 a 1909, quando foi operado a um tumor. A inspiração poética também dependia do seu estado de saúde. Na realidade a “Clepsydra” é composta por 56 poemas apenas, e também fiz uma edição de “Clepsydra” em que reuni a prosa dele, e tudo isso cabe num livro. Houve também muita coisa que ele vivenciou e não escreveu, o que foi pena. Tem a ver com o temperamento dele, era uma pessoa fechada, tímida, na realidade. Ao fim e ao cabo isso reflectiu-se na sua escrita.

A partir do momento em que Pessanha vai para Macau, como ficou a sua relação com Portugal?

Ele foi para Macau por duas razões. Uma delas é que se formou em Direito, e na altura os juristas, para terem uma carreira como juiz ou procurador régio, tinham de servir nas colónias. Foi o que aconteceu ao seu grande amigo, Alberto Osório de Castro, que esteve em Goa e Timor. Depois houve outro detonador, que foi o facto de ele ter pedido Ana de Castro Osório em casamento e ela não ter aceite por já estar comprometida. Depois ela desentendeu-se com o, chamemos, namorado, e há uma carta de Alberto Osório de Castro perguntando a Camilo se ainda gostava da irmã, se havia alguma perspectiva no horizonte, mas ele já estava acomodado a Macau. Tinha de ganhar dinheiro para mandar a um irmão que estava a estudar em Coimbra, e a outro que tinha enlouquecido. Nessa altura, já estava com a mãe do filho, Águia de Prata.

Como olha a forma como Camilo Pessanha é recordado hoje em dia em Portugal?

Digamos que está um pouco esquecido nas escolas básicas e secundárias, mas também lhe digo que não é fácil a poesia de Camilo Pessanha. Quase precisa de um guia. Mas nos meios intelectuais, digamos, não me parece que ele seja esquecido. Antes do 25 de Abril, Camilo Pessanha não era muito conhecido, e ganhou um grande impulso depois. O mesmo aconteceu com Fernando Pessoa. Só por volta da década de 1980 começaram a ser publicadas edições de “Clepsydra” e se impôs Camilo Pessanha. Digamos que, neste momento, Camilo Pessanha não é um poeta esquecido.

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