Andar para trás

Um homem sobe a rua do Lilau de costas enquanto entoa, a tempos, cinco gritos de cada vez, perfeitamente sincronizados com os passos que dá. Tem máscara e calções. À distância, o palreio parece vir das árvores. Mas não! Deve ser só exercício físico para descomprimir.

O esforço é admirável, mas parece perfeitamente escusado. A casa do Mandarim está de (algumas) portas abertas, interditando os seus visitantes de aceder aos pisos superiores. Sentado ao pé do quiosque do Lilau, imagino-me num qualquer largo em Lisboa a cogitar um daqueles planos para cruzar uma Europa sem fronteiras de caravana ou comboio.

É fácil sentir a vida a andar para trás nos dias que correm. A possibilidade de não podermos fazer o que nunca fizemos, mas que está lá guardado na nossa velha lista de desejos, pode ser só por si uma angústia. Mas talvez sejam só as circunstâncias a toldar o sentimento. Depois disto tudo (o que quer que isso seja) seremos exactamente os mesmos, com os mesmos vícios, aspirações, vontades, curiosas rotinas e qualidades.

Cabe-nos, desde já, arregaçar as mangas e lembrarmo-nos destes dias mais lá para a frente, talvez apenas para não hesitarmos perante essas tais coisas que nunca fizemos, mas temos inexplicavelmente saudades de fazer. Não sei que mundo será o da Primavera de 2021. Mas pelos vistos, às vezes, para ir para a frente, até pode ser mais fácil seguir um caminho se o fizermos a andar para trás. Sem ver para onde vamos. Mesmo que esse caminho seja uma subida bem inclinada.

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