Umwelt VI

É do fundo dos tempos que vêm memórias da “rua” como o centro do “milieu” da infância e da primeira juventude. Mas a mesma “rua” sofre metamorfoses. Ruas diferentes desempenham a mesma função nas vidas de diferentes pessoas, tenham essas pessoas sido crianças que tivessem brincado na rua ou não. Martha Muchow no seu estudo sobre o Espaço Vital da Criança na Grande Cidade (Der Lebensraum des Großstadtkindes) analisa “a rua” como objecto multidimensional, estruturado pelo mundo pessoal partilhado pelas diferentes faixas etárias que lá passam o seu tempo de vida. O conceito “Umwelt”, o mundo ambiente, o mundo em redor, o mundo envolvente, o meio em que cada um de nós vive, estrutura o sentido, dá e retira importância, faz ver, acentua e apaga ou não permite ver o que encontramos na rua, tal como é encontrada por um grupo de pessoas de uma dada faixa etária. No limite, cada pessoa é portadora dessa mesma estrutura que dimensiona a importância afectiva de um local para si, que lhe permite ter a percepção, por exemplo, do bem estar e acolhimento ou do mal estar de um lugar que sente como inóspito.

“Ir para a rua” não é “ir para fora de casa”. É ir para onde uma criança se sente em casa. A hora de ir para a rua pode ser da parte da manhã, a qualquer dia da semana, mas é mais durante os dias de escola e da parte da tarde ou sábado à tarde que as crianças se encontram com os seus pares na rua. É raro um miúdo estar só na rua. A rua parece que está fechada para ele, embora, como dizem os pais, ele saiba “entreter-se sozinho”, coisa que acontece, maioritariamente, quando está a brincar no seu quarto e não na rua. A rua “abre” ao funcionamento quando chegam “os outros”. Os outros são aqueles com quem se brinca, pelo menos tem de haver um com quem se estabelece uma comunidade para brincar.

A rua, tal como um adulto a vê, não existe. A rua que serve para atravessar de um passeio a outro, que serve para ir de um lado para outro, que serve para percorrer ou conduzir, onde estão sitos os lugares dos prédios, para onde se vai e de onde se chega ou de onde se vai sair e parte, onde há lojas de comércio ou nenhum comércio, é agradável e tem árvores ou é despida de árvores e “sem graça nenhuma”, — a rua das crianças existe num outro mundo, numa outra dimensão. Para entrarmos nela é necessário uma modificação do olhar.

A rua transforma-se em cada jogo. Um carro, um prédio, uma esquina dobrada, uma loja passam a ser “esconderijos” no jogo das escondidas. Para quem se esconde, são sítios onde fica invisível, indetectável ao radar perscrutante de quem anda à procura, é o único sítio que não irá ser objecto de busca, por outro lado, tem de permitir a observação das operações de quem anda à procura, a fazer as buscas. A rua, pelo contrário, para quem está à procura dos esconderijos de quem se escondeu é a superfície possível de interiores inescrutáveis que tem de ser examinados, onde os outros se foram esconder. Não podem ser todos os prédios da rua, mas aqueles onde o próprio se esconderia, nem todas as lojas, mas aquelas cujos donos permitiriam um miúdo esconder-se, nem todos os carros, mas aqueles que ofereceriam um melhor esconderijo. A rua passa a ficar toda ela envolvida num cenário de guerra, em que quem se esconde sai de si para pensar como o seu perseguidor pensa e quem persegue procura pensar como o seu fugitivo pensa. A rua passa a ser um lugar de atalaia, onde se controlam situações, onde se pode mudar de esconderijos sem se ser apanhado, é o lugar transformado em forma e fundo, superfície e interior, lugar de esconderijo, deixa de haver carros, prédios, lojas, esquinas, outras ruas.

O mesmo se passa no jogo da apanhada. Ninguém atravessa a rua de um passeio ao outro em linha recta no mesmo passo a andar, mas antes as crianças parecem moscas a voar dos mais diversos sítios possíveis para não serem apanhados, muitas expondo-se aos perigos dos carros, da queda provocada pela velocidade do passo de corrida, da aceleração, travagem brusca, rodopio, esquiva rápida, contorção do corpo, tudo isto para evitarem ser apanhados enquanto quem está a apanhar estica os braços, passa por cima dos carros como se fossem obstáculos, fixa-se em vários alvos ou só num, mobiliza-se num para passar a focar-se noutro que lhe ofereça oportunidade. A rua passa a ser o local onde se corre de um lado para o outro sem respeito pelo perigo causado pelos carros que podem passar ou pelos outros transeuntes. Como no jogo das escondidas há um perseguidor e perseguidos, mas estes não se escondem. Estão à vista, à luz do dia, mas em vez de estarem de cócoras sem falar escondidos num esconderijo, são barulhentos, gritam e riem-se à gargalhada, correm a alta velocidade em movimentos não uniformes, esquivam-se à luz do dia. A rua é um palco completamente diferente daquele onde os adultos desempenham o seu papel: a rua onde vivem, de ondem saem para trabalhar e onde regressam a casa ao fim do dia, a rua que atravessam para ir buscar o carro, onde arrumaram o carro, onde vão visitar alguém, que passam a correr com pressa ou devagar sem nada para fazer. Mas é uma rua completamente diferente de quem está a brincar às escondidas ou à apanhada.

E alguém chama pelo nome de uma das crianças. O mundo mágico e fantástico interrompe-se. Voltam para casa. Mas a rua não se desfez do mundo do jogo e da brincadeira para ser a rua dos adultos. A rua foi interrompida e está tal como o campo da bola no intervalo.

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