O tempo parado

Pobres leitores: tanto a acontecer no mundo, tanto que gritar, que gozar, que lamentar, que viver… – e aqui estais neste canto a observar o que um pobre cronista tem a dizer. Pior: um cronista que vos quer falar sobre o tempo. O tempo, palavra polissémica que apesar de tudo ainda escapa ao redil do “climático” (ultrapassando mesmo o galicismo do climatérico) e pode ser utilizada como essa força tão primordial como relativa. O tempo dos dias, o tempo que nos marca e que nos cria. Enfim, amigos: o cronista está grato e pede indulgência e que o sigam.

Este tempo de que vos quero falar é o que pára. Assim, de repente, sem controlo nem previsão: pára, um freeze frame da vida em que não acreditávamos, uma suspensão de tudo e de todos que pode chegar de várias formas. Sabemos, já o vivemos certamente: aquele filme de que saímos perturbados e mal preparados para a vida lá fora; aquele concerto; aquela perda ou a sua notícia, que tudo paralisa; aquela conquista, aquele gesto, aquele “mover de olhos brando e piedoso” que tanto esperávamos e que faz com que os outros se transformem em imagens aprisionadas, figuras de cera imóveis e estúpidas face ao que estamos a sentir e que é tudo.

Aqui chegados, amigos, penso que nos entendemos. Com maior ou menor esforço todos conseguimos identificar esses precisos instantes que são eternos. Ainda agora, pouco antes de escrever estas linhas, alguém me falava da emoção do primeiro filho, de como todo o mundo parecia estar contido numa espécie de bola de vidro em que mais nada teria existência fora dela. E assim com a extrema alegria, e assim, receio, com a extrema dor. Faz mal? Não.

Talvez o melhor de nós exista nessa paragem surpreendente. Talvez seja essa a nossa fraca percepção da imortalidade que nunca iremos obter. A boa notícia é que, ao contrário do que implorava o personagem de Shakespeare no seu leito de morte, o tempo não só não tem de parar como de facto pára. A questão é identificar e aproveitar esse espanto efémero, mesmo quando dói. Olhá-lo de frente com a candura possível da criança que se entusiasma com o truque barato do ilusionista de serviço. Haverá pouco mais do que isso.

Em 1952 um dos meus cronistas preferidos, o brasileiro Rubem Braga, escreveu um texto em que apenas parece descrever o voo de uma borboleta que por acaso se cruzou com o seu olhar. Chama-se a crónica, sem surpresas, Borboleta. Leiam. Está à disposição online, no Portal da Crônica Brasileira. Vejam como o tempo parou e como o cronista deixa em aberto a viagem da borboleta. Porque amigos, só nessa paragem e nessa pergunta me parece que pode caber o mundo inteiro.

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