Novas gramáticas para os dias

Às vezes, tantas vezes, o que nos leva a pensar os dias começa da forma mais inócua. Como esta: há pouco tempo precisei de utilizar uma dessas novas plataformas de transporte. O trajecto era relativamente curto mas estava cansado e tinha pressa. O carro chegou e de imediato pedi desculpas ao condutor pela pequena distância que teria de fazer para me levar. Houve um silêncio, que interpretei como alguém que ficou ofendido. Enganei-me: com um sorriso, perguntou-me porque estava a pedir desculpas, que não havia problema porque a lógica agora era outra. «Agora é assim», para citá-lo.

Agora é assim, de facto. E é neste agora que nos temos de balançar, nós os que não queremos voltar atrás mas carregamos muitas certezas do passado para este instante. Delicado equilíbrio este, que suspeito nunca será resolvido. Existem várias filosofias para o fazer, algumas que se entregam de corpo e alma à mudança, outras que apenas vislumbram um futuro e sentido qualquer, outras ainda que preferem viver entrincheiradas no passado. A minha está no meio, ancorada no presente mas com as lições do que o tempo validou. Mas mesmo assim haverá sempre a dificuldade em agarrar a velocidade dos dias que passam e por vezes o sentimento de por eles sermos ultrapassados.

Thomas Hardy dedicou toda a sua obra ficcional a esta tensão entre a tradição e o progresso e sobretudo às vítimas que pode fazer dos dois lados. Sem maniqueísmos mas por vezes com alguma nostalgia, percebeu que a mudança era inexorável mas sem sentido se o que ficou de trás fosse destruído – o que muitas vezes aconteceu, deixando muita gente órfã de si mesma.

A modernidade traz sempre uma nova gramática que por vezes mesmo os seus protagonistas não conseguem ainda assimilar. Outro exemplo recente, se não se importarem: num bar onde estive, havia uma rapariga jovem em frente de um flipper, pinball, o que quiserem. A questão é que ela não sabia o que fazer com aquilo. O namorado, terno e voluntarioso, tentou explicar. Não conseguiu, era apenas uma máquina com luz e barulhos, longe do Eldorado dos meus 14 anos para onde fugia às aulas para jogar e gastar as poucas moedas que tinha.

Mas mais: como estava sozinho aproveitei para escrever umas notas – estas – no meu caderno. O moço reparou e fascinado disparou: «É poeta?». Sem ameaça, ironia ou sentimento de ameaçado, apenas curiosidade genuína e saudável. Respondi que não era mas percebi que a causa da pergunta era esta: está ali um tipo que está sozinho num bar, tem um pequeno caderno onde escreve coisas com uma caneta sem pudor nem medo. Ou seja: estás num bar, tens um caderno e escreves com uma caneta e és o Pessoa. A esferográfica será portanto o pinball dos intelectuais, com a triste diferença que não recebemos moeda.

O que fazer com estas pequenas dissonâncias? Nada, ou pouco. Aprender com elas, talvez. Ensinar, também. Toda a modernidade não se liberta do passado, por mais que o reclame. O que não impede que eu não tema o regresso das calças bocas-de-sino. Ou que os Genesis decidam voltar aos palcos. Oh meu Deus, espera: esta última vai acontecer.

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