Riqueza decrépita

Já todos estamos fartos da conversa da terra dos contrastes, da polarização e extremos a cada esquina, mas a realidade está-se bem nas tintas para preferências pessoais. Macau tem um dos maiores PIB per capita do mundo, um dos sítios mais ricos do mundo ao mesmo tempo que não consegue arranjar dinheiro para ter uma rede de saneamento decente, ou, como foi noticiado esta semana, capaz de pagar extintores para combater incêndios. É notável.

Quem entra num prédio na Areia Preta, no Porto Interior, em qualquer lado excepto nas bolhas de extrema riqueza, diria estar numa cidade pobre. Equipamentos decrépitos, edifícios com a pintura em péssimo estado que mais parece sofrer de uma doença crónica, escoamento de esgotos directamente para o rio, tratamento de águas residuais uma miragem.

As questões levantadas pelo incêndio de domingo, que felizmente não causou nenhuma morte, revelam debilidades que não se coadunam com a situação financeira da cidade, nem com chavões como “cidade inteligente”. Como é possível que se descure a segurança por uns trocos? Não quero responsabilizar o Governo, que é chamado a resolver tudo quando ninguém quer mexer uma palha, o que acontece sempre, em todas as ocasiões. Existe uma relação doentia entre falta de civismo e uma espécie de infantilização da sociedade civil, acolhida paternalmente pelo Estado.

A 10 ou 15 minutos a pé do edifício que não compra extintores porque são muito caros encontramos o stand da Lamborghini Macau, o Showroom da Bentley e o Stand da Aston Martin. Vou deixar este facto entranhar bem fundo na psique do leitor.

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