O cantar da cigarra

Horta Seca, Lisboa, 17 Setembro

 

Em uma outra vida, mais por imposição do que gosto, dei-me por dono de vários grilos, de que recordo o contraste dos corpos negros com as várias cores de plástico berrante nas pequenas gaiolas, a que se acrescentava o verde da alface. O cativeiro mantinha e talvez agravasse aquele ralar minimal repetitivo do bicho. A prática era comum na grande cidade, talvez para manter próxima a ruralidade de que se fugia. Na dureza do quotidiano riscava-se um ponto de lirismo. Coisa de pobre, está bem de ver, suscitando noites de verão e, ao mesmo tempo, o reco-reco das engrenagens do fadário. Por acasos do dito, as minhas noites têm sido brancas mais por via da arte de perder o controlo do que pela sanha do trabalho e seu rebanho de linhas mortas. Deu-se um desvio na indisciplinada regra com desafio forma de homenagem à noite e ao lugar que a soube ampliar ao cubo, um coração que não apenas mudou a cidade tal a conhecemos, mas se fez ele próprio cidade, fábrica de cores na paisagem cinza. Assisti ao lavrar das imagens e atirei-lhes texto para fogueira. Tive por companheiro, hesito, um cigarro, um cigarra, enfim, uma cigarra-macho. A rua foi mais horta por estes dias e o canto iluminava o quase silêncio das horas mortas. Desliguei ventoinha e banda sonora de modo a aproveitar, comovido, a ajuda do baixo contínuo. Possuía uma qualidade de lamento atirado ao vazio, de irremediável desconsolo, temperado por brutal energia, quem sabe se não a alegria do dever cumprindo-se, e nisso se esgotando. Cabia aqui, coisa de pobre, a evocação de detalhes do processamento da vida nestas peles, a longa incubação no subsolo e a vida nas árvores ou abandono da carapaça por troca de exosqueleto, mas não me apetece mais tanger esta lira.

Horta Seca, Lisboa, 18 Setembro

Nada de novo, pelo que insisto em busca de ritmo. Não se pode excluir nenhum pormenor do objecto-livro. Exemplo breve: a impressão digital, que torna tudo mais ágil e barato, coloca um acetinado de barata no corpo da letra. Ninguém liga, bem sei, começando pelo autor, que se fica por certo detalhe da capa e outro da lombada. Irrita-me muito, para além da durabilidade. (Que interessa hoje o futuro? Matámo-lo logo a seguir a Deus, se nos relacionamos com as ideias em modo de fuzilamento?) Outro tanto se aplica às exposições, afilhadas mais queridas do padrinho espectáculo. A escolha e arrumação no espaço das peças a mostrar obedece a lógica nem sempre óbvia, nem sempre dita, mas que impõe leituras. Talvez o Simão [Palmeirim] saiba o título da exposição que acolheremos em breve, mas não o partilhou ainda. Depois de almoço conversado onde fomos a tantos lugares, por exemplo, à geometria de Almada, viemos ver como arrumar nas salas o seu trabalho de joalharia. Que caia aqui um raio se não me apercebo neste exacto instante que, além da multiplicação dos espaços, o artista tratou de apanhar, pela cor, a melodia do silêncio! Tratava-se portanto de escolher, não apenas o que entra, mas o modo como. Se nos dispomos ao convívio da inteligência, a criação brota que nem infestante na horta (seca) ou ruído no bairro. Descobrimos orientações oblíquas que farão da mostra uma floresta de subtilezas. Maldito acaso, sempre ele, mas voltou, pois seguiu-se a montagem da mais próxima. Não se perdeu o gozo, mais íntimo, esgotados que foram pouco mais de meia dúzia de anos a pendurar, a pendurar-me. Conheço estas paredes com as minhas mãos, sei onde me são fáceis ou resistem, em que ponto estão feridas ou particularidades, piscadelas de olho ou osso, onde tocou martelo ou acariciou pelo do pincel. Que pensará o prego invisível, chamado pela força, a segurar o que todos admirarão? Estúpido, o prego não pensa. Apesar de ter cabeça.

Horta Seca, Lisboa, 19 Setembro

O Cláudio [Garrudo] soprou-me a notícia ao telefone e não deu ainda para esmiuçar porquês, mas a estética iniciativa «Bairro das Artes», cuja equipa liderou com a Ana [Matos], finda-se ao cumprir a década. Em outras paisagens, uma vez o essencial feito, alguém continuaria, pelo menos, a mera articulação de começos. Temo o óbvio. Participamos atabalhoadamente há cinco anos, daí o testemunho, para dizer o mínimo, da simpatia, da eficiência, da generosidade, ferramentas simples mas raras, com que tudo foi sendo feito. A carência de intendência partilhada, sobretudo na dita sociedade civil, é tal que mais não digo: pela lição, bem-haja!

Este ano, a reentrada na atmosfera faz-se com o hiperactivo Pedro [Proença], fonte torrencial de criação e pensamento. «Cartas, Orelhas, Postais e Outras Coisas Mais» (imagem algures na página) reúne prolongamentos das ilustrações, em torno de figuras da mitologia mais ou menos reinventadas, para ou a partir do novíssimo volume da Rita [Taborda Duarte], «As Orelhas de Karenin», no prelo. Além dos postais-colagem de Sandralexandra enviados do mundo inteiro e arredores à sua amante, de que publicaremos também as intrigantes «Cartas de Amor». Cada conversa com o Pedro, preparatória ou dilatória, dá-me tempo a ganhar contra calendários e agendas, atrasos e desatinos. Todo ele se agiganta agitação, pouco depois reflectida em desenhos que fazem do humano corrida apressada em busca de gozo e sentido.

Horta Seca, Lisboa, 20 Setembro

Duvido que alguma vez atinja o nirvana portátil de tocar livro por mim produzido no qual não encontre defeito. São nadas, que uma vez detectados se tornam permanentes assombrações.

Espreito a prova do ensaio do Andrea [Ragusa], que começa belo logo no título, «Como Exilados de um Céu Distante – Antero de Quintal e Giacomo Leopardi», para encontrar redundâncias e erros, todos gráficos e de simpatia, motivados pelo desembestamento da fabricação. E sofro. Em nada belisca o conjunto, a pedir o absoluto essencial, e que tanto falha, afinal: a leitura. O Andrea deu-se ao raro trabalho de ajardinar a tese, com aparatos e bordejamentos, até dela fazer bomba capaz de travar as alterações climáticas. Ou tão só de mudar o mundo.

Horta Seca, Lisboa, 21 Setembro

Lamento se me repito, ignorando o ritmo. Em outra vida, em lugar chamado «Ler», tive crónica-tese onde procurava confirmar que alguns livros só nos tocam se lidos em coincidência. «Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara», de José Rodrigues Miguéis (ed. Estúdios Cor), cai-me nas mãos por generosidade do mano Bernardo [Trindade] para me iluminar, qual lanterna, os longos dias passados, para atrás e para a frente, por entre doentes. Muito possui para sublinhar, esta tocante noveleta autobiográfica, mas interessa-me sobremaneira as partes da viagem ao que pensa o paciente, nem sempre com paciência.

«[…] O próprio sofrimento, quando nos vemos a braços com ele, é uma questão pessoal que cada um procura resolver por si, a sós consigo, num tête-à-tête que pode parecer trágico a quem o vê de fora, mas é para o doente um jogo empolgante e decisivo.

Esta solidão do homem consigo mesmo, com o seu combate e o seu destino, este ensimesmamento, este (ouso escrevê-lo?) egotismo, é uma das coisas mais pasmosas e, a um tempo, mais consoladoras que a doença nos oferece. Cortam-se as relações com o mundo, e todos os factores da vida que não digam respeito à salvação são desprezados. Como entramos na vida, na solidão e obstinação dum esforço pessoal, assim lutamos para mantê-la ou afrontar o fim.”

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