Saint-John Perse

Foi precisamente em Pau que tive conhecimento da sua poesia vai para muitos anos. John Perse frequentou o liceu da cidade, porque veio com os seus pais ainda pequeno de Guadalupe, onde nascera em 1887. Hoje há um liceu que tem o seu nome, e diz quem sabe, um distinto lugar de ensino. Chegou com doze anos e aí se manteve até ir para Bordéus para a Universidade de Direito, regressando a Pau para o serviço militar mas, como todos os habitantes das ex-colónias, o seu sentimento de expatriado fê-lo aventureiro, audaz na esgrima e no velejar, por que sem dúvida a vida nessas terras distantes teria para uma criança um brilho e liberdade que marcam sempre uma mente em formação. E vamos ao que dele interessa para além de muitos outros méritos que lhe foram reconhecidos, como a de uma brilhante carreira diplomática, à sua poesia, onde chega a receber um Prémio Nobel em 1960.

Muito cedo toma contacto com o meio literário, conhece Francis Jammes, Paul Claudel e André Gide, e é exactamente Gide que lhe faculta a publicação dos primeiros poemas. O seu primeiro livro saiu em 1911 com o título de «Éloges». É conhecida a dificuldade de acesso ao seu vocabulário, estamos nos avanços da Modernidade e ele imprime aspectos arcaicos à linguagem poética, o que faz que André Breton o apelide de um “surrealista à distância”. Este primeiro livro tem ainda aspectos simbolistas, em «Anabase», no entanto, ele está pronto para um reconhecimento que em tom declamatório fará a bela rapsódia do seu estilo fundamental. É uma obra de coerência e grande riqueza estilística em que uma análise semântica mais apurada fundamentará como uma unidade brilhante, dado que as imagens são muito fortes e nem sempre fáceis de manejar com recurso a linguagem descritiva. Nesta linguagem rara, os elementos tomam assento como se convidados pela exaltação das suas presenças em nós estando muito perto de um tributo às fontes inaugurais.

Referi «Anabase» dado que foi a primeira edição em língua portuguesa em 1961 pela Guimarães Editora, e bem poucas mais se lhe seguiram, é certo, pois que há poesia que não é de transporte fácil e contorno mediático, o que não nos importa absolutamente nada uma vez que a qualidade dela relevará certamente muito mais que toda a forma de popularidade que será sempre de desconfiar em termos gerais.

De mencionar que entre 1916 e 1921 enquanto diplomata no Ministério dos Negócios Estrangeiros se encontra na China onde muito provavelmente escrevera « Anabase» que seria mais tarde publicado pela Gallimard. Nesta sua actividade política, foi castigado pelo Governo de Vichy que lhe retira a nacionalidade tendo que se exilar nos Estados Unidos. Publica então« Exílio», «Chuvas» e «Poema a uma estrangeira». Em 1954 o mesmo «Anabase» foi musicado por Alan Hovhannes um compositor americano. Aqui vamos encontrar o poema em prosa quando a prosa consegue falar assim todos os poemas e continuar prosando como o mais difícil e memorável acto de escrita poética. É impressionantemente solitária, e a solidão tem uma voz desértica de finas areias, é como se a novidade trouxe-se outras lembranças mais velhas assim de incomparável “l´éternité qui baîlle sur les sables”.

O poder de recriar através da língua será composto por uma nova linguagem cujo mérito pertence inteiro a uma rara capacidade, e é na poesia que ela pode atingir a reserva e a distância na forma inventada que a incita a outra coisa que nunca fora experienciada. A estranheza deve-lhe ser subjacente, pois que na marcha atingirá um nível de beleza que de tão inusitado nos ajuda a experienciá-la como manifestação maior. Mas, e depois de muito esforço, quem pode ou deve julgar o domínio de uma língua que arrasta na sua composição a natureza do seu próprio mistério? Todos aqueles para quem a linguagem é um dom subtil e preciso que não tolera o escavar da sua própria métrica. O tratamento da linguagem forma-se com o rigor de um pensamento bem estruturado, que não pensando se escreve com a confiança das várias partes que se juntam ao processo. Perse, não quis misturar a carreira e a poesia, pondo-lhe mesmo fim durante uma época da sua carreira diplomática, o que é entendível, pois nestas coisas não devemos acumular nem facilitar. Esta sua lucidez só pode ser coroada com algo de muito bom que é este bem de sabê-la pensada assim.

Saint-John Perse e também Saint-Leger Leger, eram afinal pseudónimos de Alex Leger, o tal menino nascido a 31 de Maio de 1887, e não fosse esta actividade a de um neófito, e os nomes naturais manter-se-iam como um incidente de percurso da estrada da vida, e muito bem, pois que aqui se é outro na continuidade de cada um. O poeta é filho de si mesmo e tem o nome que entender quando outro tipo de natureza nele se manifesta. Não se tratará de pura originalidade, mas de uma assinatura que deu as páginas mais relevantes da poesia francesa do século vinte.

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