Você tem máquina lava-louça

Flávia e Yara eram amigas há quase trinta anos, desde os tempos da universidade, e viviam ambas no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Apesar do lugar privilegiado e de viverem de rendimentos consideravam-se pessoas de esquerda. No tempo da ditadura militar estavam do lado dos estudantes, do lado do Chico – que era uma espécie de santo – do lado do Caetano e do Gil. No final do ano de 1968, sentiram profundamente a dor desses jovens músicos, que foram presos por mais de dois meses por alegado desrespeito à bandeira e ao hino nacional, num show no Rio, junto com os Mutantes (banda onde cantava Rita Lee). Mais tarde tiveram de partir para Londres para não serem presos novamente. Foi-lhes dado a escolher: ou o exílio ou a prisão. Ficou também claro de uma vez por todas, para elas, que o país tinha sido sequestrado pelos militares, que tinham assaltado o poder em 1964.

E Flávia e Yara, apesar de patricinhas, filhinhas de papai, choraram junto com os jovens estudantes e com os músicos. As patricinhas apesar de privilegiadas, ou talvez mesmo por isso, entendiam que a liberdade acabava ali. O país deixava as suas cores tropicais e passava ao cinzento militar.

Os anos passaram e o Brasil viu um pé rapado virar presidente do país, nas urnas. Flávia e Yara viviam a euforia de uma liberdade, de uma procura de justiça e igualdade apenas sonhada nos tempos de estudantes. Encontravam-se com frequência num boteco do bairro e falavam com alegria. Conheciam tudo de música brasileira, a boa música brasileira, como é apanágio de um bom carioca, e não poucas vezes se punham a cantar este e aquele samba, esta e aquela música do Chico e do Caetano ou alguma bossa nova, que lhes lembrava a infância. Evidentemente, criticavam abertamente o crescimento do funk nas favelas e da violência da cidade maravilhosa.

Mas a música doía-lhes mais. Flávia dizia: “Imagine que deixávamos de aprender música e que só se ouvia no mundo funk e sertanejo!” Yara concordava que o mundo caminhava para a fealdade. O fim da música era o fim do mundo, fim do universo. Era preciso ir às favelas ensinar música às crianças, pagar-lhes para isso, se preciso fosse. O dinheiro deveria ser usado para promover a beleza, o bem-estar, a igualdade. “Aconteceu o mesmo nos Estates com o jazz”, voltava Flávia. “Você lembra do filme de Tim Burton, “Marte Ataca”?”, perguntava Yara e continuava sem esperar resposta, “Então, você lembra que os marcianos morriam todos com a música de Tom Jones? Um dia, os humanos vão morrer todos com a música feia que hoje se faz.”

Entre estas conversas e a recordação de algumas canções, passavam as tardes de Inverno. Depois pediam a conta e ia cada uma para as suas casas. Conversavam pela internet com amigos, viam alguns sites, ouviam música, assistiam a algum filme e iam dormir. Na tarde seguinte, voltavam ao boteco para conversar sobre música, a decadência do mundo e de como o novo presidente era uma lufada de ar fresco em toda esta podridão.

Mas nem só de revoluções e de teorias para uma mudança do mundo viviam aqueles encontros. Muitas vezes as conversas aconteciam pela berma da vida, pelo quotidiano. O preço das coisas no mercado, o custo das empregadas, as novas dietas. Tanto Yara quanto Flávia tinham empregada interna, a tempo inteiro, em casa. Eram elas que faziam tudo, desde preparar o café da manhã (pequeno almoço), o almoço e o jantar, arrumar a casa, lavar a roupa, estender, passar a ferro, levar o cachorro a passear, etc.. Tratavam as empregadas como se fossem da família. Um familiar que faz tudo o que é preciso fazer para que elas nada façam. E este familiar, embora tivesse direito a um dia por semana dormir na sua casa, na favela, nem sempre assim acontecia, pois poderia dar-se o caso de precisamente nessa noite haver um jantar lá em casa e o familiar ficava a trabalhar sem ir ver a família, os filhos. O salário? Era pouco, mas justo. E depois se o familiar precisasse de medicamentos, podia usar os lá de casa. Não faltava nada ao familiar. Afinal de contas, não podemos esquecer que Flávia e Yara eram de esquerda.

Nessa tarde de Inverno, num Agosto chuvoso e 20°, Flávia queixa-se de que a sua máquina lava-louças quebrou e vai ter de gastar uma nota preta noutra. Yara ficou um pouco quieta, incrédula e pergunta: “Você tem máquina lava-loiça?” Agora foi a vez de Flávia ficar surpresa: “Ué, você não?” Yara pede mais uma dose de pão de queijo e responde: “Eu não! Imagina! Então, o que é que a minha empregada depois fazia o dia todo? Assistia novela?”

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