O que funcionar

A menina Marina, já famosa por ser a sábia do bairro, pergunta-me: «Senhor Nuno, o costume? Meia de leite e croissant com queijo, não é ?». E sei que a resposta está contida na pergunta e sei que nem sequer me deveria incomodar. Mas não: digo que sim mas não é o costume. Tenho problemas ontológicos por resolver, menina Marina. Antes esses do que outros e parecidos. Quem sou, quem diz o que sou, quem diz o que fui – enfim, um croissant com queijo enquanto maço os leitores.

Os amigos, quando o são, intimidam-nos. Apanham-nos desprevenidos – nós, que assobiamos descontraídos pelas pequenas alamedas da vidinha – e zinga!, perguntam, incomodam, obrigam a tirar o pano dos espelhos. O resultado nem sempre é agradável (nunca, já posso dizer) mas é sempre necessário.

Os amigos, quando temos essa sorte, limpam-nos os fantasmas sem nunca abandonarem o lugar da assombração. Quando isto sucede – esta mistura de indulgência, indiferença e espanto – podemos ajoelhar e dizer como o padre Brown de Chesterton: o mais incrível dos milagres é que eles acontecem.

Passaram já por isto, queridos leitores (e leitoras, mas acaba aqui a cedência aos tempos, os substantivos plurais são para se utilizarem)? Claro que sim. Aquele amigo ou amiga que já não encontram há algum tempo (leia-se: meia vida) mas que no entanto continua curioso, receptivo, que quer saber mais com uma ternura violenta mas bem-vinda. Aqueles que nos acompanharam na guerra mas só agora na paz têm tempo e vontade de fazer perguntas e ficar maravilhados com as respostas. E aceitam, e partilham as suas profundas dissonâncias, e vamos para casa com a barriga cheia desta coisa invulgar que começa a ser as pessoas falarem umas com as outras.

Escrevo isto sem me queixar, consciente que é um privilégio e um pouco monotemático nestas crónicas. Mas se insisto é porque – lá está – não pode ser um privilégio. Mais uma vez Oscar Wilde tinha razão: um amigo é aquele que te apunhala pela frente. Mas quando não existe frente, quando só existe ecrãs e ilusões de proximidade?

Sei lá. Talvez esteja velho, como sempre desejei. Talvez não compreenda nada e numa ingenuidade que não desejo nem pratico lute ainda pelos pequenos grandes gestos, que nos salvarão uns dos outros no quotidiano. Essa “medida temporária de graça” que surge no monólogo final de Whatever Works, o filme de Woody Allen que mais cito e onde fui buscar o título à crónica.

Olho a minha agenda e vejo que irei ler Beckett com o mano João Paulo Cotrim, que conheço desde os quinze anos e que nos voltámos a reconhecer há algum tempo, com surpresa, confirmação e festa. Mas porque nos olhámos, porque nos falámos e não vimos nada do que fomos, apenas do que agora somos.

É ir para a rua e não ter medo de olhar e falar com quem achamos que melhor nos conhece. O resultado é maravilhoso e garanto – o mundo fica um bocadinho melhor. Pelo menos durante um bocadinho mas provavelmente é esse bocadinho que interessa.

Menina Marina, é um croissant com queijo e fale comigo, fale comigo.

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