Comunicação Terminal

No princípio era o Verbo e no fim a salada de palavras sem tempero ou qualquer significado. Quando abrimos a boca para falar, quando anotamos palavras num suporte físico, até quando nos expressamos artisticamente, materializamos um pensamento com o intuito de passar mensagens. É assim que trocamos informação, excepto quando contactamos com alguns serviços públicos locais com o intuito de informar os leitores.

No passado dia 14 de Março, enviei um par de questões à Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água sobre o estado do Terminal Marítimo de Passageiros da Taipa. A ferrugem e o aspecto de cenário de filme de terror motivaram o meu contacto, depois de ver nas redes sociais imagens de degradação numa das infra-estruturas mais dispendiosas e atribuladas da RAEM. Para minha surpresa, recebi uma resposta pronta, que dispensou o habitual e subsequente telefonema a sublinhar que tinha enviado um e-mail, já por si sintomático de uma comunicação débil.

Procurei saber o que seria feito para resolver a situação, quem era responsável por aquele estado decante e quais as consequências do desleixo, falta de manutenção ou defeito de construção, que deixou parte do terminal chegar àquele ponto.

A resposta chegou quatro dias depois, assinada pelo Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-Estruturas na forma de um quebra-cabeças para o qual peço ajuda para descodificar: “Acusamos recepção da consulta enviada da D.S.A.M.A., sobre a situação em questão, após recebido a informação reflectida, solicitámos no último sábado (dia 16 de Março) a presença da entidade adjudicatária, no local de obra, para atender o acompanhamento, indo este Gabinete programar de imediato o procedimento de entrega e recepção da empreitada de construção após conclusão da limpeza a ser realizada no respectivo local.” Depois de ler a frase cinco vezes acho que sangrei um bocado dos ouvidos. Algo rebentou no meu cérebro durante a tentativa de formar significado a partir deste enigmático arranjo de palavras. Ok, receberam as perguntas que coloquei à DSAMA.

Boa! Portanto, este email é uma resposta ao meu email inicial, informação útil se estivesse a sofrer de amnésia. Foi solicitado à adjudicatária a presença no local da obra para atender o acompanhamento. Aqui começam os problemas. O que é que isto significa?! Tenho de contratar um espírita, ler nos astros o que isto quer dizer? Será programado o procedimento de entrega e recepção da empreitada de construção?! Que construção?! O que é isto? Estarei a sonhar? Estão a ver aqueles sonhos em que damos por nós na rua sem calças, ou sapatos e não sabemos o que fazer?

Como é óbvio, tentei esclarecer o que ali estava, vislumbrar um pouco de significado, algo a que me agarrar noticiosamente. Perguntei ao GDI de que construção estavam a falar, e voltei a questionar qual a entidade adjudicatária e se haveria consequências para o estado lastimável comprovado pelas fotos que enviei. A resposta que recebi foi esta: “Relativamente à pergunta apresentada por V. Exa. e a qual temos respondido ultimamente, informa-se que este Gabinete não dispõe da informação relevante que pode ser complementada. Obrigado.”

Apraz-me responder a esta não resposta na mesma moeda: “Após consulta gastrointestinal dos factos de três peças descritos nos anexos A e X e acusando a recepção de coisas imateriais na esfera do etéreo, será prestada a máxima atenção à adjudicação do projecto de vida em estado terminal, sendo que a ferrugem e a decadência visam aprofundar a harmonia entre inox e humanidade”.

Um dos meus prazeres maiores é mergulhar em belas conjugações de palavras, especialmente em prosa poética, esse animal indomável que leva tudo à frente. Não sei se este tipo de resposta dos serviços tem aspirações a tornar-se corpo literário ao estilo de ofício kafkiano, mas pelo meio podiam ao menos procurar arranjos de palavras sublimes.

No fundo, todos ficamos a perder. Eu fico sem resposta a um par de questões simples sobre uma infra-estrutura que demorou quase 12 anos a ser construída e onde aportaram sucessivas derrapagens orçamentais. Perde-se em clareza e vence a opacidade e ninguém é responsável por absolutamente nada. Também os serviços perdem tempo, com o significado a ficar entalado algures nos dentes da roda burocrática. Mas, acima de tudo, perde o cidadão que além dos agravos justificados em relação ao gigantesco e precocemente decrépito terminal, tem aqui mais um exemplo de que por cá a culpa morre quase sempre solteira. É preciso acontecer algo excessivamente bárbaro e descarado, ou mexer com interesses superiores, para alguém ser chamado à pedra.

Por outro lado, as não respostas defendem a falta de escrutínio de um Governo e entidades públicas que se auto-fiscalizam. Como pode a corrupção não florescer neste canteiro? A resposta será um arrazoado ininteligível de palavras.

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