Ars moriendi

Um produtor americano, depois de visionar o material da primeira semana de rodagem, levou as mãos à cabeça, impotente, e disse ao realizador: “Nos primeiros cinco minutos dás-nos dezanove mortos. Não vejo o que possa acontecer mais no resto do filme!”

O número de armas que pululam nos filmes extenua o folego de qualquer maratonista etíope. Ninguém dissuade ninguém, atirando-lhe à mona a Suma Teológica do S. Tomás de Aquino, é de balázio para cima, e ficamos convencidos do que me dizia o Gilinho, amigo do meu prédio de infância: “só matam as balas que não querem enferrujar!”

Faço zapping e colecciono os mortos: uma doçaria excelsa, é um verdadeiro “mil-mortes” com uma barra de diabetes por cima.

Nem persuasão, nem perdão: ninguém ouve o Unchain my Heart, do Joe Cocker? Quando muito a morte adia-se pagando, sendo a vida outro modo de designar o juro – sempre a acumular.

O que afinal não difere do modo platónico de encarar o corpo como o túmulo da alma; o cinema devolveu-nos ao ponto de onde nunca saímos. Admira que o Sloterdijk nos esclareça que, para esta tradição, pensador que se preze é uma espécie de morto em férias? É bem-apanhado e próximo do que dizia o Godard quando adiantava que o cinema é o aparato que “filma a morte no trabalho”.

Uma morta em férias: a mulher de Michel Piccolli, no fantástico Dillinger Morreu, do Marco Ferreri, que exasperava os espectadores por ser todo em tempos reais. Era assim:

Glauco, um desenhador industrial, chega a casa e encontra a sua mulher já a dormir e uma refeição fria. Resolve confeccionar qualquer coisa e comer sozinho, vendo a televisão. Depois projecta vários filmes de férias e mima idiotamente alguns momentos. Por acaso, encontra na dispensa um revólver embrulhado numa velha reportagem sobre a morte do gansgster americano Dillinger. Pinta a arma de vermelho com bolinhas brancas. Depois da tinta secar sobe ao quarto, mete uma almofada sobre o rosto da mulher e dispara dois tiros. Sai, guia até ao porto e vê que num iate um marinheiro morto é lançado à água. Nada então até ao iate e pergunta quem morreu, respondem-lhe que o cozinheiro e ele oferece-se para ocupar o lugar.
Volto a fazer zapping. Para o cinema mais comercial, que encharca os canais do meu pacote televisivo, a vida é uma retrete abandonada, um epitáfio inacabado.

Conheço um livro brilhante de epitáfios dum poeta italiano, Giorgio Bassani, Epitafio, talvez na esteira do americano Edgar Lee Masters, mas preferia o livro do transalpino, que infelizmente extraviei. Há pouco tempo também escrevi um epitáfio. Reza assim (o verbo não podia ser mais justo):
“Meu querido, enquanto não me enviares os teus pulmões em encomenda registada eu não abro mão da tua laje no jazigo da família!”.

Deve-se a outro poeta, o checo Miroslav Holub, esta Breve reflexão sobre a morte: «Agitam-se alguns/ como se ainda não tivessem nascido./ Entretanto um dia/ Williams Burroughs, intimado por um estudante a dar/ opinião sobre uma/ eventual vida póstuma, replicou:/ – Mas quem lhe disse que você não está já morto?»
Holub foi um poeta e eminente imunologista checo, a quem a especialidade não resguardou da crua pergunta de Burroughs, feita pela própria morte em 1998.

Sugere o poema que estamos sempre desconectados, num estado de extenso sonambulismo, e pouco nos é dado fazer, para além de nos agitarmos demais ou de colocarmos perguntas desnecessárias, ie., rebarbativas: póstumas. Talvez consigamos aceder momentaneamente à consciência que nos cede o poema, num breve interregno, ao flagrante de uma sintonia, mas estou certo de que Holub, ainda para mais com a sua especialidade, não declinou num assédio de consciência: terá sido mais à má fila, por um efeito adverso, que a morte o visitou.

Há várias formas de partir da vida e de chegar ao último apeadeiro. Vitorino Nemésio no hospital, conta-se, tinha um medo que se pelava.

Para os indianos a morte é apenas o lambril de um palácio cuja planta está por desenhar.

Desconsidero-me um arquitecto a tal altura. E seria preciso a energia de imaginar a experiência da morte multiplicada por éne, labirinto em que me vejo mais escamado do que a barracuda na banca de Neptuno.
Contento-me com uma morte que o poeta moçambicano Heliodoro Baptista definiu bem, deste modo: “Antes da merda obnóxia me exaurir de todo”.

Todavia, reconheço-o, surpreendem-se várias faces para a morte, como esta que achei nos meus diários:
«O livro olhava para mim, da estante. Bebi o café e comi a torrada, repimpado na cama, mas o livro não desarmava. Fitava-me, de esguelha (ou de lombada), na estante. Depois da última golada de café decidi-me, fui buscá-lo. Uma antologia (em espanhol) alentada do poeta polaco Tadeus Rózewicz, nascido em 1921 e uma das vozes mais autênticas da “anti-poesia” universal. Como o chileno Nicanor Parra, ou, das Balcãs, Vasko Popa.

Abro o livro ao calha e sai-me isto:

CORREÇÃO/ A morte não corrigirá/ nem uma linha de um verso/ não é uma correctora/ não é uma benevolente/ redactora// uma má metáfora é imortal//o mau poeta que morreu/ é um mau poeta morto// o aborrecido trás a morte aborrece/ o estúpido vomita cretinices/ desde a própria tumba.
Estupidificado na própria cama, abala-me o susto. Uma má metáfora é imortal. De quantas já fui responsável, de quantos milhares? Imortal? Como os vírus, afinal?

Há uma ecologia para o verbo a que de facto não ligamos. Devíamos ser mais parcos, posto que na verdade não ressuscitaremos para corrigir qualquer coisinha, enquanto o ranço das más metáforas é imortal.
Alguém tem por aí um aparador de relva que me empreste?»

Aparador não tenho, mas tenho à mão este verso do Heliodoro: “Já alguém deu de comer ao vento?”. Refrigeração.

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