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Lembro-me de quando ganhámos o Euro. Vi o jogo com uns amigos nos kebabs do largo do Conde Barão. Os paquistaneses tinham instalado uma televisão na esplanada e asseguravam um fluxo ininterrupto de cerveja do balcão para as mesas.

Quando Fernando Santos fez entrar Éder, aqueles de entre nós que percebiam de bola um bocadinho mais de bola do que o adepto instantâneo que surge em todos os europeus e mundial jogaram as mãos à cabeça. O Éder? O Éder era aquele tipo alto e mal jeitoso que tinha uma relação mais complicada com o golo do que um neurótico com a mãe. O Éder estava lá porque tínhamos vergonha de apresentar uma convocatória desprovida de pontas-de-lança. Se calhar era um gajo que animava o balneário. Se calhar era o talismã ou a mascote. Mas não era certamente pelo talento para o jogo que tinha sido convocado.

Quando o Éder marcou, o mundo (pelo menos em Portugal) veio compreensivelmente abaixo. Era como se de repente todo o karma e todas as coisas maravilhosas passíveis de terem acontecido e de nos virem a acontecer tivessem confluído naquele ponto específico de espaço-tempo para nos redimirem de todas as vitórias morais, de todos os quase, da eterna maldição de sermos uma das melhores selecções do mundo sem baliza. Os deuses, por uma vez na vida, tinham engraçado connosco.

Celebrámos com abraços prováveis e improváveis. Lembro-me do empregado de mesa gritar “Portugal” como se tivesse sido possuído pelo espírito de um tenor num ataque de fúria doméstica. Quando soou o apito final, os donos dos kebabs deixaram de receber pela cerveja. Estiveram abertos até às seis da manhã a servir copos à pala. Afinal, não se é campeão europeu todos os dias e eles, portugueses por opção, festejaram como se tivessem no ADN um Afonso Henriques pronto a despertar.

Passados alguns dias, a euforia deu lugar a um contentamento envergonhado. Afinal, a presença na final tinha sido uma surpresa, tendo em conta o desempenho dos recém-empossados campeões europeus nas fases de grupo e nas eliminatórias. Ao contrário daquilo que estávamos habituados há uns dez anos, Portugal jogava mal e aborrecidamente e ganhava. Ou melhor, empatava no tempo regulamentar e decidia a coisa nos penalties ou através de um golo fortuito no tempo complementar. Era uma espécie de Itália sem a vocação ultradefensiva mas com muito mais sorte. No fundo, e não queríamos olhar a coisa por esse ângulo, mas havia uma parte de nós que sabia não que não merecíamos aquela vitória inusitada. Por outra parte, tínhamos o Ronaldo, e quem tem o Ronaldo arrisca-se a ganhar sem ter que justificar nada.

Este mundial, penoso de assistir, veio confirmar o que já sabíamos: a selecção dos anos noventa, a melhor do mundo sem balizas, já foi. Portugal é uma equipa regular, pragmática sem ser cínica, voluntariosa mas atabalhoada e solidária com a ideia de que Ronaldo tem a obrigação de resolver. É uma espécie de funcionário mais ou menos zeloso, mais ou menos competente, à espera da sorte de um deslize alheio para lhe calhar a promoção. Faz-me lembrar uma reportagem da saudosa liga dos últimos na qual um jogador de uma equipa da terceira divisão repetia, sem fim à vista, “somos todos humanos, onze contra onze, vamos danificar a camisola do clube”. Ao contrário desse jogador, já não temos a ideia de que vamos deixar tudo em campo no processo. Portugal já não é um país de românticos.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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