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Não é suposto fazer frio em Portugal. Nem calor. O nosso clima mediterrânico é, por definição, ameno. No entanto, a maior parte dos estrangeiros que vivem cá dizem que nunca passaram tanto frio – e calor – nos países de onde vieram como cá. E não falo, obviamente, de equatorianos. Falo de alemães, suecos, italianos, franceses. Gente que, a priori, sabe de frio de uma perspectiva que – felizmente – desconhecemos de todo. O segredo desta nossa inusitada capacidade de fazer tremer de frio um islandês advém, quase exclusivamente, da forma como pensamos e contruímos casas.

Edificamos com base numa crença estranha mas amplamente difundida, a de que em Portugal é primavera todo o ano. As casas não têm aquecimento central ou climatização de raiz, a não ser as que apenas 1% da população pode adquirir. A malta remedeia-se com aquecedores a óleo e ventoinhas, muita roupa dentro de casa no Inverno e doses tão prolongadas de praia quanto o subsídio de férias permitir no Verão. Portugal vê-se e vive-se a si próprio num particular daltonismo meteorológico.

Até os estabelecimentos públicos sofrem deste modo peculiar de negação da realidade. Escolas, tribunais e repartições públicas ou não têm climatização de todo ou, tendo-a parcialmente, não dispõem de dinheiro para mantê-la em condições de funcionamento adequadas. No Inverno, a comunicação social entretém-se a filmar a neve nas Penhas Douradas como se esta fosse uma anomalia da natureza. Já quanto aos alunos que levam sacos-cama para as aulas, o país assiste ao fenómeno mais ou menos resignado. Parece-nos normal que as pessoas, no século XXI, passem frio nos espaços públicos. Parece-nos até impossível que seja de outro modo.

O turismo possível que fazemos pela Europa dos países verdadeiramente frios mostra-nos que as coisas não têm necessariamente que ser deste modo. Que as pessoas não têm que pensar no aquecimento ou arrefecimento das suas casas como um luxo incomportável. Que o estado tem de garantir condições básicas de habitabilidade nos espaços onde serve a população que o sustenta. E que isso é especialmente necessário quando se tratam de crianças e idosos, dois grupos especialmente susceptíveis às maleitas que acompanham frio e calor em excesso.

Não raramente, estamos tão ou mais vestidos dentro de portas do que na rua. Tiritamos de frio só de pensar em sair da cama. A nossa roupa de andar por casa consiste em diversas peças compostas por múltiplas camadas de tecidos polares. Quando ligamos um aquecedor sentimos que tal corresponde a implementar uma dieta involuntária, tal o receio que nutrimos das facturas da EDP. Acabamos por nos ver reduzidos ao dilema que consiste em escolher entre tremer de frio ou de fome.

Tendo Portugal convergido de forma notável na direcção da Europa em quase todos os indicadores relevantes, seria mais do que altura indicada para trocar a mentalidade “de que somos um país de clima ameno” por qualquer uma que reflicta com acrescida acuidade as condições meteorológicas reais. Porque a primeira coisa que os turistas e demais residentes temporários estrangeiros verificam, quando cá chegam, é que temos uma percepção de nós próprios tão desadequada como temos do clima. Pensamo-nos menos do que aquilo que de facto somos. E o clima parece-nos ser sempre muito melhor do que aquilo que de facto é.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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