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Por todo o lado pressinto ameaças, palpitações, suores frios, arritmia nascida de uma profusão de perigos escondidos em todas as esquinas da cidade. Macau é uma teia de conspirações à espera de concretização, um compêndio de angustias e tensões intimidatórias que colocam em risco a sacrossanta harmonia, a beatífica concórdia que desafia tudo o que se sabe sobre a natureza humana. Eu sou o medo que o poder tem das janelas abertas, das vozes contrárias, das opiniões diversas na terra das consultas públicas, sou o absoluto pavor de uma visão externa na cidade internacional. Sou o terror que a autoridade tem do escrutínio, da luz que torne visível as negociatas secretas que se desenham na escuridão e na indiferença de todos.

Sou a razão pela qual se fazem desesperadas tentativas de tudo controlar, o terror que agiganta uma banalidade numa catástrofe e que leva os poderosos a acções tolas, desproporcionais, infantis, trapalhonas. Sou o pavor que faz com que um agente do Governo improvise um cartaz com respostas para um bombeiro que fala das coisas mais corriqueiras da sua função. Sou a ideia de improviso naquele fato com pulso que escrevinha em pânico uma resposta evasiva para uma questão insignificante, tornando aquilo que pressentiu como um potencial pequeno problema num exercício patético de insegurança.

As gentes de Macau são governadas por pessoas muito amedrontadas, com medo da própria sombra, com uma perigosa vulnerabilidade cobarde que só conhece a força e a repressão como forma de remendar o déficit de coragem.

Não sou apenas o medo de um jovem deputado eleito directamente, sou o medo de tudo. O medo da má imagem que leva a reacções exageradas e absurdas que estragam, de facto, qualquer réstia de dignidade ou vergonha. A perfídia e a insaciável vontade de tudo controlar são duas das minhas melhores amigas. Sou o controlo frouxo, o autoritarismo com pés de barro, o tremor gelatinoso das varas verdes, o dilatar das pupilas dos sanguinários que não tiveram suficiente colinho da mamã.

Encerro o poder numa sala sem portas nem janelas, e ali ele fica aconchegadinho e seguro, a contemplar a sua pele fina e a ouvir atento um passo que se aproxime, de olhos e orelhas arremelgados para qualquer dissidência ou crítica dos seus próprios cidadãos. Deixo o poder a ver perigos em todo o lado até se tornar ele próprio perigoso, a espalhar pavor e aversão, resguardado da dissidência no seu interino refúgio, a sujar a roupa interior cheio de medo do medo.

Eu sou a verdadeira harmonia e a felicidade suprema abrigada numa redoma de segurança. Pela minha acção a sociedade e os seus pilares de poder transformaram-se em birrentas crianças feitas de cristal, quebradiças e propensas ao desastre, que necessitam da vigilância constante dos pais hiperzelosos do Continente.

Sou o catalisador da constante indecisão entre fuga ou luta. Comigo às rédeas do destino de Macau, o poder exibe as afiadas garras a quem não representa perigo, como um desproporcional predador no topo da cadeia alimentar ou desata a correr com a cauda entalada entre as pernas.

As reacções fobicas são o meu prato do dia, todos os dias, todas as semanas. Sou o abismo irresistível, fraqueza nas pernas, gota de suor a denunciar debilidade, falecimento de todas as faculdades.

Fortaleço a minha influência com a possibilidade de vergonha pública, sou o medo de parecer mal, de perder a face constantemente. Transformo homens em machos beta de orelhas baixas a multiplicarem-se em sucessões infinitas de vénias, a sangrar testosterona enquanto perseguem o desígnio máximo de agradar sofregamente aos seus mestres do norte. Mal sabem que eu, o Medo, sou quem lhe destapa o flanco tornando-os vulneráveis à chacota e ao ridículo.

Sou a raiz da mentira, da violência, do desconforto perante a crítica. Sou o desfalecimento e a debilidade do manso poder que ladra como um lobo, mas que tem o coração amedrontado de um caniche.

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