Camilo Pessanha, 150 anos | Porquê celebrar?

É muito estranho tudo isto. E contra os meus princípios: sempre disse detestar o aproveitamento póstumo dos poetas, dos escritores, dos artistas. Normalmente, são os políticos que o fazem. Eles citam, eles trauteiam, eles aproveitam, na maior parte os versos de gente que lhes voltaria a cara na rua. Milionários ou os seus servos não cessam de citar Camões, que morreu na miséria. Por exemplo, mas os exemplos seriam muitos, demasiados. Então por que razão me encontro no centro de uma celebração de Camilo Pessanha, se tenho uma opinião tão negativa dos que habitualmente cavalgam na obra alheia, por que razão me atrevo assim, despudoradamente, a montar a mesma sela?

Pensei sobejamente sobre isto, até que entendi pôr de lado a minha repugnância egoísta e vaidosa. Afinal, o nome de Camilo Pessanha e a sua obra merecem ou não ser celebrados, lembrados, revificados? É claro que sim. E não será que a celebração deste poeta ultrapassa o campo da literatura, na medida em que a sua figura se espraia por vários universos? Obviamente. Camilo foi também cidadão português, naquela que era no seu tempo a mais distante colónia e aqui desempenhou diversos papéis, tornando-se num dos membros mais respeitados da sociedade de Macau. Isto apesar dos seus hábitos peculiares e da sua figura que, na altura tal como hoje, na pequena chuchumequice local, muitos haviam de considerar demasiado excêntrica.

Camilo era, de certo modo, um maldito. Alguém de quem se diz mal. Alguém que é criticado pelos seus mores privados. E também pela sua intolerância face à estupidez, à cupidez, à maledicência que, infelizmente, ontem e hoje, grassa nesta e noutras terras.

Ontem um guarda de uma empresa privada contratada para guardar o antigo tribunal, onde estou a montar este evento, insultou-me, ameaçou-me de porrada, porque eu não estava de gravata mas de calças de ganga e a trabalhar. Era chinês e foi estimulado por uma rapariga que eu não conhecia de lado nenhum mas que se achou no direito de me dizer que eu não podia estar ali. Fui paciente. Expliquei. Até que tive também de explicar, menos cortês, quando ela foi arrogante, que ela não me conhecia de lado nenhum para me dirigir a palavra. Aí o guarda avançou. Só que… eu podia estar ali. A trabalhar para a cultura de Macau. Às dez da noite. Faz parte das regras. Azar.

Chegou um outro guarda, creio que filipino. De uma cortesia admirável. A partir daí e do momento em que mostrei o meu cartão, a coisa sossegou. O guarda chinês era daqueles que gosta de chutar para baixo e lamber para cima. Afinal podíamos trabalhar até à meia-noite. Claro.

Foi uma cena lamentável e foi pena. Mas é isto. É preciso fingir, armar-se em bom, é preciso representar para se dar ao respeito nesta e noutras terras. Não basta fazer um trabalho honesto e limpo.

Isso ninguém ou poucos reconhecem. E é também por isto que é necessário celebrar homens como Pessanha cuja dignidade não se mede pelo fato mas pelas obras. E isto é fundamental para nós como para todos os habitantes de Macau. E por isso é importante lembrar e celebrar.

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