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“Como é que escreve” é uma das clássicas perguntas que fazem a um escritor. Com isso querem saber, por exemplo, se o sujeito escreve de roupão, como Balzac, ou se a inspiração acontece ao modo de uma possessão espírita pela qual um tipo revira os olhos e desata numa fúria criadora até que, acabando por sacudir a presença alheia, descobre ter escrito um conto. Ninguém ou quase ninguém pergunta “porque é que escreve?”, temendo porventura que o carácter aparentemente óbvio da pergunta desmotive o entrevistado.

Na realidade, e ater-me-ei à minha experiência, a escrita começa pela leitura. E a leitura acontece porque uma criança sente uma perplexidade inexplicável perante o mundo e os elementos que o compõem. Os adultos, na maior parte das vezes incapazes de fazerem as perguntas que as crianças fazem, quanto mais as responderem, fingem não ouvir e, em surdina, confortam-se uns aos outros com a ideia de aquela curiosidade desconcertante ser apenas uma fase tardia da idade dos porquês.

As outras crianças não estão nem aí para as crises existenciais alheias e o pequeno, em défice de competências sociais desde sempre, ora é ignorado ora é alvo de chacota por parte dos seus colegas. É insultado nos corredores, fazem-no tropeçar quando se dirige para uma mesa solitária onde possa comer o almoço em paz e é, invariavelmente, o último a ser escolhido para qualquer tipo de actividade de grupo que envolva a criação de equipas. Na escola primária, é mais fácil ser gordo que geek.

De certo modo, ser ignorado é reconfortante. Escusa-se travar diariamente a luta pela aceitação. Os livros são compreensivos, pacientes, inteligíveis, ao contrário dos humanos, e têm a vantagem incomparável de os podermos interromper quando quisermos. Não se zangam, não pedem explicações. Estão ali, disponíveis e generosos, repletos de mundos muito maiores do que o mundo. São seguros. E salvam. Os livros salvam as crianças solitárias e estranhas.

Quando as crianças crescem e desaguam aos berros na puberdade, os códigos sociais, por via da sexualidade e da sua gramática específica, complicam-se ainda mais. O geek, com muita sorte, passa na maior parte das vezes despercebido. Se for bafejado por uma qualquer lotaria cósmica, é capaz de conhecer algumas miúdas e alguns miúdos introvertidos e socialmente incompetentes e com eles constituir um grupinho silencioso através do qual se evita, pelo menos, almoçar sempre sozinho.

A literatura, como a maior parte das obsessões, germina não raramente de uma falha, de uma tangente com a sociedade. De um refúgio numa zona de conforto onde não existem as distrações da convivência. Mais do que uma escolha ditada por qualquer tipo de talento inato – sem com isso colocar em causa a existência do talento, embora seja assunto para outra vindima – a literatura aparece na vida para redimir a própria vida. Para lhe dar um sentido, algo que as pessoas e as suas convenções são incapazes de prover. Depois torna-se um vício e, quando um sujeito dá por si, já muito mais tarde, já se esqueceu de como e porque começou a escrever, já está mais ou menos instalado na vida, constituiu e desfez família, tem dois filhos que vê fim-de-semana sim, fim-de-semana não e dá entrevistas nas quais sublinha a sua precoce predisposição para as letras. O sujeito esqueceu-se de que só entrou naquelas águas porque fugia de um fogo e, mesmo assim e involuntariamente, continua a escrever livros que podem vir a salvar crianças solitárias e estranhas.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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