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Pensam que não vejo o vosso ar de enfado? Os suspiros que se levantam do fundo da vossa altivez? O carregado desdém com que me olham? Esta também é a minha terra, ou pensam que esta bolha está isolada do mundo, a flutuar acima do planeta. Macau é o último calhau na enorme montanha chinesa, o parque temático plantado para o meu divertimento no delta da pérola. Entretenham-me na minha curta estadia, tragam-me iguarias, quimeras e mulheres.

Será demais pedir um pouco de humildade hospitaleira no grande centro de turismo e lazer? Grande! Como o ego incha neste quarteirão minúsculo de território. Reconheçam-me por um instante. Eu sou o fundo das vossas raízes, aquele que vos sustenta e agarra ao solo, o pão na vossa mesa.

Ando pelas ruas vagarosamente, liderando pelotões de turistas conduzidos pela autoridade de uma bandeira erguida. Sou todos vós há duas gerações atrás, a confirmação desconfortável de quem são, revelação e memória, génese e ser. Em cada espasmo cosmopolita vejo uma barriga a querer saltar da vestimenta para saudar o sol com afagos e carícias. A minha pança é a proa que rasga caminho, o Sol no centro do meu sistema planetário de entranhas a irradiar esperança, é prosperidade e sorte ao jeito de Buda. Como se tivesse um amuleto dentro de mim, uma jóia no meu cerne. Também as minhas secreções representam o que tenho para partilhar de mais íntimo. Ostento produção de muco sem me importar, ao contrário de ti, Macau, que escondes a tua natureza em gestos medidos, em polidez sobranceira que não engana ninguém, nem a ti própria. Podes mascarar a barbárie que te funda à vontade, eu sei, conheço-a, encarno-a, consigo ver nitidamente o ponto onde a crueza se disfarça de nobreza. Nos vossos passos lestos e elegantes prevejo a violência de um escarro que se quer impor aos trejeitos da teatral superioridade.

Sou matéria combustível nesta fogueira de vaidades, ofereço-vos excedente orçamental, alicerces para uma vida desafogada, sou a fertilidade na vossa carteira, Bona Dea, Ísis e Vénus. Este simulacro de cidade é alimentado por mim, pela perseguição que faço à ilusão da riqueza, pela esperança que despejo em mesas de fatalismo.

Grito para que me ouçam em bom som, para que o volume assertivo se entranhe na vossa charada identitária. Marcho indolente pelas estreitas ruas de Macau como um soldado do exército Koi Kei. A minha mulher veste-se, aos 49 anos, com rendas cor-de-rosa e uma omnipresente Hello Kitty. Não se deixem enganar pela infantilidade da vestimenta, pois ela é um panzer de carne e nervo, uma fera na protecção do núcleo familiar.

Ainda não tenho o gosto consumista limado pelo ocidente na vossa escala, mas esperem um pouco que eu chego lá porque quero chegar lá. Sou o representante de uma das grandes civilizações ancestrais e do país mais populoso do mundo, sou lenda e futuro avassalador, sou a conquista ponderada ao longo de séculos de paciência. Mas agora quero o meu rolex e o meu Jaguar, mereço-os inteiramente.

Sou descendente de sucessivos impérios, o filho da derradeira revolução cultural, o último mandarim, a pluralidade que engole o mundo. Carrego às costas a determinação de um povo que anseia sair das trevas directamente para o trono, sou a conquista vindoura alicerçada em números, a maré alta que irá engolir o globo. Sou o canteiro onde o ténue lótus está plantado, forneço a água e os nutrientes enlameados que o sustentam. Sou a vossa vida e poderia ser a vossa morte, se para aí estivesse virado. Macau é a pequena e indefesa criança que embalo nos braços e à qual nada nego, que gatinha a meus pés, sempre sedenta a erigir birras exigentes.

Sossega no meu regaço, Macau. Mas não me menosprezes, não te aches superior, não retires mais ilações das minhas vestes e maneiras sociais, não te percas demasiado na quimérica miragem do segundo sistema que te concedemos com misericórdia, por magnificência. Vem a mim e sente o terno abraço que te dou, sou o teu igual, farinha do mesmo saco, reencarnação cultural, o teu reflexo e tu és uma extensão de mim.

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