We are so so lost

Quase todos os indicadores pelos quais se mede o bem-estar e desenvolvimento humanos nos dizem que nunca tivemos tanto dinheiro, tanta tecnologia e tanta saúde. Nunca vivemos tanto tempo de vida como agora. E cada geração futura parece condenada, salvo a possibilidade sempre presente de um cataclismo, a ter ainda mais de tudo quanto a anterior teve. Condenados a quebrar recordes de longevidade. E, no entanto, algo não está bem. Há uma espécie de aura, imprecisa, inominável, que nos tapa a luz do sol como as nuvens unipessoais que acompanham os deprimidos e os azarados na banda desenhada.

No filme “The matrix” a personagem Agent Smith, ensaiando o clássico “monólogo do vilão”, revela a Morpheus que a primeira versão da Matriz – a realidade virtual em que os humanos, transformados em meras baterias no mundo físico, vivem – era absolutamente perfeita. Não havia sofrimento, dor, tristeza, doença ou guerra. Os seres humanos viviam em perfeita harmonia com tudo como as crianças acariciando dóceis leões nas brochuras dos jeovás sobre o paraíso. Não obstante, continua, o projecto acabou por retumbar num gigantesco fracasso. Os humanos não aceitaram aquele mundo perfeito e perderam-se colheitas inteiras. Tiveram de reprogramar o sistema para que este se tornasse um decalque fidedigno do mundo à altura. Os humanos, sugere Smith, só aceitam a realidade se esta comportar dor e sofrimento. A perfeição é vivida como um sonho de que o cérebro tenta escapar como de uma prisão.

A minha visão do futuro comporta uma ausência de sentido que não consigo ultrapassar. E, quando olho à minha volta e ouço as pessoas que vão traçando órbitas neste sistema a que chamamos presente, vejo nelas o mesmo semblante de pesar que acompanha este luto crónico e indefinido. Por um lado, sabemos que temos de fazer alguma coisa, porque há tanto que está tão profundamente errado. A realidade entra-nos vista adentro todas as manhãs quando ligamos o smartphone e perscrutamos as notícias matinais. A realidade e o seu cortejo fúnebre de pobreza remediável e de condições de vida sub-humanas a que se poderia decretar um fim houvesse vontade política para isso, a realidade das guerras fora e dentro de portas, do fanatismo de todo o tipo que impede duas pessoas adultas de se sentarem e falarem sem pontuarem a conversa com murros – na melhor das hipóteses – na mesa. A realidade a que assistimos diz-se interactiva mas somos incapazes de encontrar uma forma de moldá-la e limitamo-mos a assistir ao seu decorrer na qualidade de espectadores interessados. Lutamos contra sombras que não precisam sequer de se esquivarem aos nossos golpes. Vencem-nos pelo cansaço. Vencem-nos pela impotência que nos fazem sentir.

O mundo polarizado da Guerra Fria – o único de que tenho idade para me lembrar – tinha a vantagem de definir claramente duas opções de vida pela qual parecia valer a pena lutar: o comunismo e o capitalismo. Os inimigos tinham cara, tinham corpo. Cada uma delas, certas ou erradas, justas ou equivocadas, comportava em si própria aquilo que nenhuma posição contemporânea parece comportar: a capacidade de fazer com que uma luta tenha um sentido que nos transcende e do qual o futuro de nós, enquanto criaturas gregárias e capazes de empatia, depende. Éramos maiores porque as nossas lutas eram maiores. Éramos maiores porque éramos capazes de ver mais longe. Agora somos somente da altura que temos. Formigas irrequietas trabalhando sem propósito.

Como diz o meu amigo Paulo José Miranda no dia de aniversário das pessoas de quem gosta: “espero que o mundo concorde contigo”. Espero que sim, porque parecemos estar tão tão perdidos.

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